Capítulo 11

— Tem certeza que os cavalos não vão nos aguentar?
Posso ter dormido por dois dias, mas parece que estou acordada há uma semana. Cathal sugere que atravessemos o rio à nossa frente e descansemos nas margens pela noite que parece estar próxima de chegar, seguindo caminho pela manhã. O "Castelo de Ruínas" mencionado como destino final não está em lugar nenhum no mapa das Terras Distantes, mas há uma marcação indicando um amontoado de ruínas entre os rios, atrás da Floresta de Espinhos. Parece um lugar tão bom quanto qualquer outro para começar — e torcer para que de fato seja o "destino final" e eu possa fazer o que quer que seja que os Deuses esperam de mim - espero que tenham deixado um bilhete com instruções.
Cavalgamos por horas a fio, seguindo a oeste. Não sei quanto tempo se passou desde que deixamos a floresta-sem-nome, mas a paisagem pareceu a mesma pelos últimos quilômetros. Monótona, grama por toda a extensão de nossas vistas, pequenos morros ocasionais, árvores esporadicamente espalhadas aqui e ali. Não parece muito diferente das paisagens das áreas não construídas entre os reinos.
Durante todo o trajento, senti meu corpo protestar a cada movimento. Não tenho certeza se é meu organismo se recuperando dos últimos eventos ou se há alguma outra coisa acontecendo de errado na minha vida. A última coisa que preciso agora é ficar doente, por isso me forço a ignorar o formigamento que sinto por todo o meu corpo desde que acordei neste lugar.
Viajamos em silêncio, parando ocasionalmente para comer frutas que foram colhidas antes da nossa partida e conferir se estávamos seguindo para a direção correta. Optamos por atravessar o rio ao invés de dar a volta e atravessar a Floresta de Espinhos para economizar tempo, e esperava que os Deuses não estivessem tentando me matar no percurso e o rio fosse possível de cruzar.
Aqui, parada de frente para o rio, não consigo evitar um sorriso. É claro que não seria tão simples. A água, apesar de cristalina o suficiente para ser possível ver o fundo arenoso, é viscosa. Não se parece em nada com a água que Tobiah me ofereceu quando acordei no acampamento — embora ele tenha experimentado um gole desta que está a nossa frente e garantido que é potável, apenas densa como mel. Cathal está certo de que os cavalos não vão ser capazes de sustentar o peso adicional, e que a travessia vai ser lenta e pesarosa para os animais somente com o peso do próprio corpo. Tobiah concorda com ele, e não tenho escolha a não ser acatar ambas as suas recomendações.
Resta, então, a sugestão óbvia de Laurunda: vamos a pé, guiando os cavalos pela rédea. É provável que leve um tempo considerável para atravessarmos o que parecem ser cerca de cinquenta metros em linha reta entre as margens, e posso ver o sol começar a se recolher por detrás das montanhas ao longe. Não estou disposta a ficar presa no meio do rio quando a noite cair.
Desmonto do cavalo e prendo minha sacola firmemente à sela, juntamente com meus sapatos. Me dirijo a Laurunda e peço ajuda com os botões nas minhas costas, que não consigo alcançar.
— Kya? — ouço Tobiah chamar.
— Estamos todos prontos para partir? Preciso apenas de um minuto. — pergunto, enquanto dou um nó no cabelo para facilitar o trabalho de Laurunda.
— O que você está fazendo? — ele pergunta, e algo em seu tom de voz me faz olhar em sua direção, e me deparo com seu olhar estarrecido, a boca aberta. Olho-o confusa, sem entender exatamente o que ele está me perguntando. Laurunda termina com os botões e começa a tirar o seu próprio sapato e preparar o seu cavalo.
Retiro meus braços das mangas do vestido e sinto a brisa tocar minha pele, e Cathal vira de costas, caminhando com seu cavalo para outra direção, e então eu entendo. Isso não pode ser sério. Infinitas respostas cruzam minha mente, e eu as dispenso. Não tenho tempo para isso, realmente não tenho.
— Cathal, você vai liderar o caminho pelo rio? — pergunto, e ele acena com a cabeça positivamente. — O que está esperando, então?
— Não acho que seja apropriado vê-la nesses trajes, Majestade. — ele responde, evitando olhar em minha direção.
— O que não é apropriado é drogar e sequestrar uma mulher e trazê-la para o meio da floresta e sequer se dar ao trabalho de pensar que um vestido não é exatamente a ideia mais inteligente de vestimenta, mas eu não estou reclamando. — digo, minha voz se transformanto em um grito esganiçado ao longo da frase. Olho para Tobiah, que está de braços cruzados olhando para baixo, as bochechas coradas. Posso estar enganada, mas tenho certeza que posso ver um sorriso tímido brotar do canto da sua boca. Faz-se silêncio por um momento.
— As mocinhas vem ou não? — Laurunda quebra o silêncio, a calça puxada até a altura de suas coxas, revelando pernas bronzeadas e musculosas, o que eu não esperaria vindo de alguém que... Percebo que não sei sua função no Reino do Sul. Deduzi que seria alguém do círculo de confiança do Príncipe Hadaward, trabalhando com os representantes ou algo do tipo, mas considerando a total falta de interesse do homem em qualquer um que não seja si mesmo, pode ser o exato oposto. Não duvido da sua capacidade de ter enviado alguém completamente sem função. Laurunda não falou muito desde que acordei. Cathal também não. Na verdade a única pessoa que parece sempre ter algo a dizer é Tobiah.
Espero ter tempo para conhecer as pessoas que estão aqui comigo depois de cruzarmos o rio. Serão horas até que o dia amanheça, e preciso saber quem me cerca. As palavras da Profecia sobre lealdade e confiança martelam em minha cabeça e não tenho nenhuma intenção que o "destino final" seja a minha morte.
Vejo Laurunda atravessar lentamente as águas viscosas do rio, coberta até metade de sua coxa. Com esforço, se move para frente em um ritmo em que parece não estar saindo do lugar. Cathal a segue, ambos de locomovendo com dificuldade, mas sem apresentar nenhum outro problema. Talvez os Deuses não estejam tentando me matar e o rio seja, de fato, possível de atravessar. Tomando as rédeas do cavalo, arrumo o pouco de roupa que me sobrou após me livrar do vestido e começo a caminhar. Sinto um magnetismo vindo do rio, como uma energia circundando meu corpo e me atraindo para as águas.
A resistência da água viscosa desacelera cada movimento que faço, e após poucos passos sinto o cansaço me atingir pelo esforço físico. O cavalo parece estar tendo a mesma dificuldade. Mas não sinto mais meu corpo formigar, percebo. Ao contrário, o rio que me cobre até quase a cintura parece remover todo o incômodo que vinha sentindo desde que acordei nesse lugar. Mais que isso. Não recordo me sentir tão bem assim em... sequer sei quanto tempo. Talvez nunca?
Dou mais alguns passos e sinto meu corpo lentamente imergir. É confortável aqui. A água não é quente, mas é agradável contra minha pele, e deixo-me levar. Me sinto transportada de volta para casa. O sentimento é familiar, como quando deitava em frente à lareira e comia uma fatia de torta de canela com Layla nas manhãs frias de inverno. Como os almoços, jantares e todas as comemorações de aniversário clandestinamente comemoradas no palácio. Com o Rei. Lembro-se de meu pai e uma pontada de dor cruza o meu peito. Não quero me sentir assim. Não quero ter que engolir a dor mais uma vez. Não é justo que eu tenha meu direito ao sofrimento removido e tenha que manter tudo funcionando com perfeição. Não.
Abro meus dedos e deixo ir a correia do cavalo, e afundo minha mão, permitindo que a água me envolva por completo. Sinto como se estivesse sendo abraçada até a altura do pescoço por mãos fluidas que me envolvem e aquecem minha alma. Meus joelhos tocam o fundo áspero do rio e a água alcança o meu queixo, e tudo que quero é nunca ter sair daqui. Tenho a impressão de ouvir alguém sussurar meu nome, mas não me importo.
Aqui, nas águas viscosas desse rio, parece que encontrei o meu lugar. Não no trono lutando pelo meu povo. Aqui. A água me envolve e me chama, como um encantamento clamando pelo meu nome e me convidando para conhecer seus segredos mais profundos. E eu vou. Relaxo meu corpo por completo e afundo os centímetros restantes que faltavam para me cobrir. O sentimento de pertencimento me inunda. Mas a sensação dura pouco.
Sinto um firme aperto o redor da minha cintura puxando-me para fora de meu lugar seguro, e abro a boca para protestar, mas não encontro minha voz. Ouço sussurros contra meu ouvido, mas não registro as palavras que me são ditas. A respiração quente contra o meu pesçoco faz cócegas e me faz tremer. Sorrio. Todo o peso de meu corpo está apoiado no braço que me sustenta, e a pressão contra minhas costelas fazem-nas doer. Aprecio a dor dando lugar ao torpor que toma conta de mim e, conflituosamente, sinto como se um pedaço de mim estivesse sendo arrancado do meu ser ao ser retirada das águas. Sou arrastada metros para frente, meu pé acerta uma pedra solta no fundo do rio. Dói.
Vejo a margem logo à minha frente. Desfocada. Rastros de terra substituindo a água que me pertence. Vejo pessoas à minha frente, mas não as reconheço. Ou reconheço? O homem e a mulher me olhando com preocupação me parecem familiares, assim como a voz que sussura ao meu ouvido, mas não consigo encontrar seus nomes em minha memória.
Ao sair da água, ouço o som dos cavalos — cavalos? Eu só tenho um cavalo... — passarem por mim, e sinto o braço que me sustentava me deixar lentamente tocar o chão macio coberto de grama. Algo é novamente sussurado em meu ouvido, e dessa vez ouço as palavras que me são ditas. Mas elas não fazem nenhum sentido e logo as ignoro.
Sinto-me exausta. Como se toda minha energia tivesse sido deixada para trás no rio. Sinto algo gelado tocar meus lábios mas não engulo. Quando meu corpo começa a se encaixar aos pequenos relevos do chão, sou puxada para cima e alguém me carrega. Não consigo registrar muito do que está acontecendo ao meu redor; torpor toma conta de meu corpo. Tremo com o contato da brisa fria contra meu corpo molhado e os braços que me seguram se apertam ao meu redor.
O que está acontecendo?, quero perguntar, mas não tenho forças. Quero voltar para a água. Era confortável lá. Seguro. Quero voltar.
Uma onda de eletricidade percorre meu corpo subitamente, a intensidade maior do que antes, como que para compensar a trégua que tive enquanto estava no rio. Tremo e me encolho em reflexo. Tento olhar ao redor mas nada do que vejo é processado pelos meus olhos; tudo está embaçado.
— Por favor, Kya... — ouço o sussurro suplicante contra meu ouvido e não tenho certeza do que me está sendo pedido.
Sinto-me exausta com a ideia de entender o que está acontecendo. De sempre ter a resposta.
Por essa vez, me permito a ignorância e apenas me entrego aos braços que me carregam enquanto as pequenas ondas de choque percorrem minha pele mais uma vez.
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