Capítulo 10

O Ministro segue a passos apressados pelo corredor. Me apresso para acompanhá-lo da melhor maneira que posso, mas não imaginava que um homem da sua idade conseguisse andar tão rápido. Desde que a Rainha foi levada pelos Deuses em sua missão, tudo que faço é andar para cima e para baixo seguindo o Ministro que parece exageramente preocupado com a sua segurança. Como se alguém fosse fazer alguma coisa com ele. Não é meu trabalho questionar, mas acho um exagero sem tamanho.
A forma de agir dos Deuses ainda é um mistério para mim, e agradeço por não ter que entender o que "ser levada pelos Deuses" significa. Imagino alguma coisa como na Cerimônia Final, onde o corpo é arrebatado pelas chamas divinas, mas não sabia que era possível fazer isso com uma pessoa viva. O Ministro não deu muitos detalhes sobre a partida da Rainha, somente disse que estava enviando os Representantes dos outros Três Reinos para encontrá-la e que ela havia sido levada pelos Deuses bem na sua frente.
Estou tão cansado. Mal posso esperar para o meu turno acabar; tudo que quero é ir para o meu quarto e dormir seis horas seguidas. Deuses, que vida medíocre; minha maior alegria é dormir.
O Ministro abruptamente para e por pouco não trombo nele. Ele bate duas vezes na porta e só então percebo onde estamos. Uma voz melodiosa responde e o Ministro abre a porta, entrando no quarto. Mantenho minha posição no corredor e tudo que eu quero é poder estar dentro daqueles aposentos também. Correção: minha maior alegria é estar em qualquer lugar perto da Princesa Layla.
— Como está se sentindo esta noite, Layla? - ouço o Ministro perguntar pela porta ainda entreaberta.
— Estou preocupada — ela responde em um tom de voz não muito mais alta que um sussurro — Como posso não estar? Minha irmã está em algum lugar lá fora, em perigo, sequer sei se está viva ou não — ela diz, chorosa, e parte meu coração. Ela funga por um momento, e me impressiona que até uma coisa tão banal é graciosa quando vem dela — Quem está na porta? Willahelm? Mande-o entrar, pobre rapaz. O senhor tem feito com que ele ande para cima e para baixo seguindo-lhe, Ministro. Deixe-o descansar por um momento. Entre, Willahelm, por favor, entre.
Sinto meu corpo todo se aquecer com a preocupação da Princesa comigo. Quantos homens tem a sorte de ter sua atenção? Em silêncio, cruzo a soleira da porta e contiuo de pé esperando a próxima instrução. Não posso ser desrepeitoso.
— Vamos, sente-se. Se o Ministro não vai lhe liberar dessa tarefa sem sentido que é ficar aqui, pelo menos beba um copo de água e acomode-se na cadeira — ela diz, com o mais lindo dos sorrisos, apontando para o canto do quarto com uma mesa e uma jarra e um par de cadeiras.
Aceno com a cabeça e me dirijo ao canto da sala que a Princesa indica e fico ali, de pé mesmo. Ela sorri na minha direção e eu sorrio de volta. Nossos olhares se cruzam e se mantém por alguns segundos até que o momento é quebrado quando o Ministro fala.
— Entendo que as preocupações são muitas nesse momento, querida — ele diz, e segura as pequenas mãos da Princesa entre seus dedos enrugados. Agora estou com inveja do velho. Realmente...
— Mas o Reino depende de você agora — ele diz — Era hora de sua irmã partir para seu destino, você sabe disso, foi por isso que os Deuses a levaram.
A Princesa acena positivamente com a cabeça e o quarto se torna silencioso por um longo minuto.
— Você acha... — Layla começa a falar e pausa por um instante antes de continuar — Você acha que os Deuses terem levado minha irmã tão abruptamente foi a punição por ela ter insistido na autópsia de nosso Pai?
Layla encara o Ministro com seus enormes olhos verdes, e é possível ver o desespero em seu rosto quando o homem acena que sim com a cabeça.
— Eu tentei! Eu tentei falar com ela como você me disse, eu tentei impedi-la, mas ela não me escutou — a Princesa diz em meio a lágrimas.
Pobre menina.
— Eu sei que tentou, querida, eu sei. Mas você conhece sua irmã. Agora ela apenas está pagando pelos erros que cometeu e por toda a afronta contra os Deuses. Talvez isso seja uma boa coisa para o Reino — o Ministro diz e Layla parece pronta para dizer alguma coisa quando ele a interrompe.
— Não, querida, me escute. Eu sei que ama sua irmã, assim como eu também a amo. Mas Kya sempre foi muito voluntariosa, sabemos disso. Seria apenas questão de tempo até que ela mergulhasse esse Reino em uma guerra infundada com o Sul.
Ele fica em silêncio após terminar de falar e Layla concorda com a cabeça.
— Príncipe Hadaward ainda está aqui, você sabe — ele diz e ela acena com a cabeça — Talvez você devesse passar um pouco mais de tempo com ele nos próximos dias. Há alianças importante que podem ser formadas.
Meu sangue ferve com a ideia de Layla chegar perto daquele almofadinha. Ela merecia coisa melhor do que aquele homem mimado que jamais saberia valorizá-la. Acho que ela concorda, porque olha indignada para o velho.
— Ministro, como pode sugerir tal coisa! Sabe o desprezo que minha irmã tem pelo Príncipe, eu jamais a trairia desta forma! E mesmo que não fosse o caso, eu estou noiva — ela se cala imediatamente depois de dizer isso, lágrimas escorrem por seu rosto de porcelana.
Desta vez o Ministro não tenta consolá-la. Ele solta sua mão e levanta da beira da cama, e começa a andar em círculos pelo quarto. Ele vai até a mesa no canto e se serve de um copo de água.
— Me parte o coração ver o tamanho de sua lealdade para com sua irmã e saber que ela não pensou duas vezes antes de te trair — ele diz, ainda de costas para a Princesa.
— Kya jamais me trairia... — Layla responde, mas ela não parece tão firme no que está dizendo. Estranho, a relação das duas sempre foi a coisa mais sólida deste Reino.
De onde estou, tenho a impressão de ver o Ministro sorrir. Alguma coisa está errada. O velho se vira de volta para a Princesa e senta na beirada da cama mais uma vez.
— Querida eu preciso que você seja forte, sim? — ele diz e Layla parece confusa.
— A autópsia do Rei trouxe resultados — ele continua, e a Princesa leva as duas mãos à boca, espantada — O Rei foi envenenado.
Envenenado? Como envenenado? Isso significa alguém ter passado pela segurança do Castelo e isso não é possível!
— Sua irmã sabia disso, eu mesmo dei a notícia assim que soube, e ela me proibiu de contar a você—ele emenda, sem dar a chance de ninguém processar a informação.
Isso é impossível. A Rainha pode ter todos os defeitos do mundo, mas ela adora a irmã, jamais esconderia dela algo tão importante. Vejo Layla balançar a cabeça em negação. Ela também não parece acreditar que isso seja possível. Ou não quer acreditar.
— Isso não é possível... - a Princesa sussurra.
— Eu imagino que seja muita coisa para processar, Layla, mas você precisa ser forte. Você é a Rainha do Norte agora.
— Não, esse posto é dela, sempre será. Eu estou aqui apenas enquanto ela não volta.
— Se ela voltar...
— Ela vai voltar — ela responde com firmeza — Ela tem que voltar... — sussurra. Apoiando o rosto em suas mãos.
— Layla, você não percebe? Kya sabia que o Rei foi assassinado e não só escondeu essa informação de você, como não fez nada a respeito! — ele quase grita.
A Rainha começaria uma guerra por motivos muito mais banais que isso, me custa acreditar que ela simplesmente deixaria o assassinato do Rei de lado. Mas com toda essa história da Profecia, e o risco de perder o trono por uma demanda dos Deuses... Não consigo parar de encarar a Princesa e ela parece estar tentando dar sentido ao que o Ministro está dizendo.
— Querida... Eu sei o quanto você ama a sua irmã, mas você a conhece melhor do que ninguém e sabe que ela faria qualquer coisa pelo bem do Reino. E Kya realmente acredita que ela é o melhor que pode haver para o Reino. Diga-me que ela não faria qualquer coisa para manter isso? Até mesmo esconder de você a causa da morte de seu pai — ele faz uma pausa, e quando Layla não esboça nenhuma reação, ele continua — Até mesmo te separar de seu noivo.
Isso faz com que a Princesa olhe para ele, boquiaberta.
— Cathal? O que você está dizendo? Kya não sabe quem meu noivo é, você me fez prometer que não a contaria antes da hora certa. Ainda não sei ao certo o que tanto temia, Ministro, mas segui o seu conselho e disse-lhe apenas que era um soldado qualquer do Reino de Dentro. Foi a única vez que menti para minha irmã, e agora você me diz que ela está tentando me separar dele?
— Layla, querida, que outro motivo haveria para Cathal se embrenhar nessa jornada incerta e perigosa com sua irmã, ao invés de ficar aqui e se casar com você? Kya é esperta, sempre foi. Ela deve ter descoberto de alguma forma. Ele é um dos próximos na linha de sucessão do Reino de Dentro, o casamento de vocês traria alianças políticas que sua irmã não está interessada. Ela quer poder, sempre quis. Quer todos os Reinos para si, você sabe disso Layla. Pense, Layla, pense.
A Princesa balança a cabeça negativamente, e murmura "não" algumas vezes. Posso ver seu delicado rosto tomado pela confusão, as bochecas avermelhadas e o rosto coberto por lágrimas.
— Por favor, me deixe sozinha —ela sussura, e eu me preparo para deixar o quarto. Gostaria de poder ficar e consolá-la. Cuidar dela. Deitá-la em meus braços e fazer todos os problemas desaparecerem, mas o que posso eu, um mero guarda, fazer por ela? Pelo menos Cathal possui título e a honra que a Princesa merece. E ela merece ser feliz. Pelo menos não é aquele projeto de mediocridade do Sul que ocupará esse posto na vida dela.
— Layla... — o Ministro implora.
— Me deixe sozinha Ministro. Minha irmã foi levada para longe pelos Deuses, meu Pai foi assassinado e você está me dizendo que Kya não só sabia disso como está tentando impedir meu casamento para que ela possa controlar os quatro Reinos. É muita informação para processar, eu preciso ficar sozinha — a Princesa responde, seca.
Me encaminho até a entrada do quatro e abro a porta, esperando que o Ministro saia na minha frente. Antes de cruzar a soleira, ele para e se dirige à Princesa uma última vez.
— Querida, entendo tudo que está passando agora, mas o Reino precisa de atenção constante, especialmente agora com toda essa instabilidade. Permita-me assumir as funções oficiais por você, ao menos por enquanto, ao menos para que você se recupere — ele pergunta.
Layla acena positivamente com a cabeça. Seu olhar está perdido no nada, posso sentir à distância a sua dor, lágrimas secas em seu rosto.
O Ministro agradece e, com um sorriso triunfante, vai embora.
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