Capítulo 3
O tilintar do sino de entrada soou como o badalar de um daqueles sinos gigantes, capazes de fazer a cabeça ressoar com a própria vibração. Elliot até achou que talvez estivesse exagerando um pouco na descrição, mas entrar na casa de chá de sua avó logo depois de sua aventura noturna — e ainda por cima encontrá-la vazia, ou melhor, sem clientes — deixava tudo muito mais apreensivo.
O som do sino se propagou pelo ambiente sem o habitual tilintar das xícaras, sem o apito das chaleiras, sem conversas.
Pelo menos o cheiro forte de ervas dominava o lugar. Ele podia sentir o aroma refrescante de hortelã, além do cheiro de alecrim, erva-doce, camomila, sálvia, malva, boldo... Conseguia discernir cada um deles com uma habilidade moldada ao longo dos anos em que vivera ali, trabalhando na casa de chá. E o fato de ser druida, bem, isso também facilitava a divisão entre os diferentes aromas.
O interior da casa de chá era estreito e, ao mesmo tempo, confortável. Havia a bancada, com vasos de flores e ervas, além de um expositor repleto de bolos, biscoitos e cupcakes frescos. As mesas se distribuíam pelo salão estreito em formato de L, cada uma coberta por toalhas com padrões diversos de cores e desenhos. Sobre todas havia um vaso de planta — não necessariamente flores. Eram espécies variadas, normalmente trocadas ao longo da semana. Em uma das mesas, havia até mesmo uma planta carnívora. Olha só.
Um miado fez Elliot se sobressaltar. Ele olhou para baixo e encontrou o grande gato preto. Grande não pelo tamanho em si, mas por ser obeso mesmo — fruto dos constantes roubos de guloseimas da cozinha ou das porções oferecidas às escondidas pelos clientes, algo que a avó de Elliot costumava enfurecer-se ao descobrir, pois submetia o gato a dietas constantes e mirabolantes.
— Olá, Orso... — falou Elliot, abaixando-se para acariciar o felino, que respondeu com um ronronar. — Onde está todo mundo? Eu estou com sorte? Será que a vovó saiu para fazer compras?
— E como eu iria fazer compras com o meu neto sequestrado? — perguntou alguém do outro lado do balcão.
Era uma senhora de cabelos curtos e esbranquiçados, usando um rico colar feito de sementes coloridas e um avental com as palavras "Revolução das plantas". Nele, havia o desenho de um cacto com braços musculosos, roupa militar e óculos escuros. Fora presente de Marcus. Era para ser uma piada, mas a vovó tinha adorado.
Ela rodeou a bancada com rapidez — muita rapidez para uma mulher que beirava os oitenta anos. E a primeira coisa que fez foi dar um tapa no ombro de Elliot.
— Vovó! — choramingou ele.
Mas logo foi puxado para um abraço forte. Elliot se viu colidindo contra o corpo roliço da avó, envolvido por um cheiro cítrico e suave. Era erva-cidreira, além do aroma doce e delicado das flores de camomila. Elliot recordou que, quando usadas em chá, elas tinham efeitos relaxantes: auxiliavam no sono, reduziam a ansiedade e melhoravam a digestão.
E isso meio que o fez sentir culpa de imediato, imaginando por que a avó estaria tomando aquilo.
— Me desculpe... — sussurrou, correspondendo ao abraço.
O abraço foi logo substituído por um súbito afastamento da avó, que lhe deu mais um tapa — agora no outro ombro de Elliot. Aparentemente, carinho e agressão corretiva eram duas faces da mesma moeda familiar.
— E por que se desculpar? Você foi sequestrado! A vítima não deve se desculpar. Eu já liguei para os membros do Conclave Druídico...
Elliot arregalou os olhos. Os óculos até escorregaram pelo nariz.
— Não, vovó! Não precisava ter falado com eles! Por favor, me diz que você não ligou. Que só pensou a respeito e tal, mas não ligou de fato... Foi mais um "eu queria", não um "eu fiz"!
Era só o que faltava.
E se os outros membros do Conclave agora soubessem o que Elliot fizera depois da reunião de apresentação? Que ele tinha afogado as mágoas no bar a ponto de quase não se lembrar de nada. Mas o mais importante: sua chefe adoraria — para não dizer o contrário — saber que Elliot passara a noite com Malrik.
Seria ótimo — para não dizer o contrário — para a reputação já impecável de Elliot, contém aqui ironia, dentro dos druidas da cidade. Impecável como uma xícara trincada, um bolo queimado ou uma planta carnívora com tendências homicidas.
— E por que eu não ligaria? Você não respondia às minhas mensagens, nem às minhas ligações, nem às dos seus amigos... E você é um Silvarum! Eles não iriam se preocupar? Você é meu neto... Filho de Rose e Taranis! Eles têm obrigação de se preocupar.
Usar o nome Silvarum, o grande nome da família mais proeminente entre os druidas — lendário até, já que havia uma estranha lenda de que os primeiros membros da família tinham nascido de uma árvore! Sim, tal como sementes que, em vez de darem origem a outra árvore, geraram humanos, o que parecia uma história fantástica de conto de fadas... ou meio macabra, dependendo do humor de quem imaginasse o parto vegetal — pouco salvava Elliot dentro do Conclave.
Na verdade, tinha quase o efeito oposto.
"Como você não consegue usar seu poder druídico de forma normal? Você não é um Silvarum?"
Quantas vezes ele ouvira aquilo? Muitas. O suficiente para considerar mudar de sobrenome, de cidade ou talvez de plano existencial.
— Não têm obrigação, não... — falou Elliot. — E só foi uma noite qualquer. Bebi demais e... bem... passei a noite com alguém...
Os olhos da avó, também verdes como os de Elliot, se estreitaram. E então brilharam.
Oh, não.
— Com alguém! Ho, ho, ho! — O semblante da anciã mudou totalmente. — Quem? Eu conheço? É do Conclave? Pode ser da alcateia do seu amigo Marcus? Nada contra, lobisomens são bem sexy... Com todos aqueles músculos, o fato de serem meio propensos ao nudismo, e todo aquele tocar e cheirar...
Elliot fez uma careta.
— Vovó, por favor... Eu realmente não quero ouvir muito a respeito da sua opinião sobre lobisomens.
— Você sabe que eu quase fiquei com um lobisomem, não sabe? Antes de conhecer o seu avô, que os espíritos da floresta o tenham. Eu realmente me diverti muito com o Rex...
— O nome do lobisomem era Rex? Ele era o quê? Um cachorro? — interrompeu Elliot, ganhando mais um tapinha da avó.
— Era apelido! Mas a questão não é essa. E esse alguém?
— V-você não conhece — respondeu Elliot, tentando não gaguejar e falhando com a elegância de uma cabra em piso encerado. — Mas a questão de fato não é essa. Você poderia ligar para o Conclave e dizer que está tudo bem e tal...
— Eu poderia ligar, mas você também poderia. Poderia dizer a eles que está bem e que foi um alarme falso. É normal um druida comemorar depois de sua apresentação ao Conclave, ao ascender na hierarquia! — disse ela, toda animada. — Foi por isso que você fez toda essa loucura, não é mesmo? Você já é um Druí Bán?
Elliot era péssimo em muitas coisas. E isso não se estendia apenas à própria prática druídica. Havia também o fato de ser péssimo em mentir e esconder as coisas por muito tempo. Aquele era o momento de dizer sim, de dizer que a noite anterior fora fruto de uma comemoração. Mas, de fato, não fora.
— Ah... Elliot... Você não conseguiu? — A voz pesarosa da avó só fez a situação se tornar ainda mais dolorosa e humilhante.
Ele quase podia sentir que a senhora queria colocar um "de novo" no fim daquela pergunta.
Não era a primeira vez que falhava na apresentação: o grande evento em que deveria expor seu poder diante do Conclave e, assim, ganhar um título entre os druidas. Um título que significava mais responsabilidades na comunidade e voz ativa no conselho.
— Eu ainda sou um Glas Drui — sussurrou.
Glas significava verde, jovem, fresco. Drui significava "sábio da árvore", "aquele que conhece o carvalho" ou "mestre da sabedoria natural". Glas Drui era o título dado aos druidas iniciantes. Ele, com seus vinte e cinco anos, estava no mesmo nível de uma criança que terminava sua primeira rodada de estudos druídicos.
Havia seis níveis, e Elliot recordava que seus pais, bem como sua avó, eram todos Druí Ór — druidas dourados —, nível cinco na hierarquia, apenas abaixo do Ard-Druí, o grande druida, líder máximo do Conclave.
Para passar de nível, obviamente, era preciso se apresentar ao Conclave, ser avaliado, mensurado. Mas a magia instável de Elliot sempre o fazia receber péssimas notas. E, quando ficava nervoso, aí é que as coisas não davam certo mesmo.
— Eles pediram para eu germinar uma semente... Uma semente só, vovó — disse ele, sentindo as lágrimas preencherem seus olhos. — Uma semente de feijão, acredita?
— Eu não acredito que eles submeteram um Silvarum a tamanha humilhação! Isso é uma tarefa que crianças druidas fazem...
— Pois é... — Elliot deu de ombros. — Eu não consegui fazer germinar, vó. Nem isso eu consigo.
A expressão de dor se formou no rosto da anciã.
— Mas aqui em casa você consegue, querido... Foi a pressão e... E quem liga para esses títulos, não é? Eu mesma, com esse título, não consigo atrair tantos clientes! Eu não sou rica nem nada! São só títulos! — falou ela, forçando animação.
E o fato de ela não parecer obviamente decepcionada doía ainda mais em Elliot. Pois ele estava, sim, decepcionado consigo mesmo.
Houve um silêncio, quebrado apenas pelo miado de Orso, que talvez estivesse tentando amenizar a situação. Ou só pedindo comida.
— Eu vou para o meu quarto... — disse Elliot, por fim.
— Oh, vá. Eu não abri a casa de chá hoje. Talvez mais tarde... Vou fazer o almoço.
Elliot não ouviu a última parte. Já estava subindo as escadas estreitas no fim do salão, rumo ao andar superior, onde morava.
Sentia-se sufocado.
~**~
Ele entrou no quarto e nem se deu ao trabalho de acender a luz. A claridade do dia ainda atravessava a janela de forma fraca, filtrada pelas cortinas finas, iluminando o pequeno reino vegetal que Elliot chamava de quarto.
Ao lado da cama, sobre uma pilha perigosamente instável de livros de botânica, ervas medicinais e magia natural, ficava seu pé de tomate-cereja. A planta estava viçosa, muito mais funcional na vida do que ele naquele momento. O que, convenhamos, não era exatamente difícil.
O quarto era pequeno e consistia basicamente em uma cama, uma escrivaninha e estantes que, ironicamente, não guardavam livros. Guardavam vasos. Muitos vasos. Samambaias, suculentas, ervas aromáticas, mudas sem identificação, uma hera que parecia estar planejando dominar a parede e uma pequena dríade de cerâmica que Marcus jurava ser "decoração mística", mas que Elliot achava assustadora às três da manhã.
Os livros, maravilha da organização moderna, estavam empilhados pelos cantos do quarto. Alguns montes eram tão altos que Elliot precisava desviar deles com cuidado; outros exigiam pequenos saltos, como se ele estivesse atravessando uma trilha de obstáculos acadêmicos. Havia vestígios de terra aqui e ali, algumas folhas secas no chão e um cheiro constante de húmus, chá e desespero universitário.
— Olá, Ketchup... — murmurou para o tomate-cereja, antes de se jogar na cama. — Espero que o seu dia ontem tenha sido melhor que o meu.
Ele disse isso com o rosto enfiado no travesseiro, em uma posição que talvez fosse desconfortável para qualquer pessoa normal, mas que parecia perfeitamente adequada para alguém tentando se fundir ao colchão e deixar de existir.
Foi assim que sentiu o celular vibrar. Uma mensagem.
Não era dos amigos. Não era da avó. Não era do Conclave Druídico convocando sua execução pública por incompetência botânica.
Era do número recém-adicionado ao aparelho.
Malrik.
Elliot ficou imóvel. Olhou para ketchup. O tomate-cereja, como sempre, não ofereceu nenhum conselho útil.
Ele desbloqueou a tela.
Malrik:
Espero que esteja bem, pequeno druida.
Ainda está de ressaca? O fortificante preparado pelo Senhor Choi elimina qualquer efeito do álcool.
Infelizmente, não elimina outros males.
Ainda está dolorido?
Principalmente na bunda?
Elliot corou com cada palavra. Cada. Palavra.
Por que o feiticeiro tinha que perguntar sobre a bunda dele? Quer dizer, tecnicamente, Elliot entendia que Malrik talvez se sentisse responsável por... por... bem, por acontecimentos anatômicos de grande impacto. Mas isso não significava que eles precisassem discutir o assunto por mensagem como duas pessoas adultas, funcionais e sexualmente comunicativas.
Elliot não era nenhuma dessas três coisas naquele momento.
Ele digitou, apagou, digitou de novo, apagou outra vez e, depois de uma crise diplomática interna, respondeu:
Elliot:
Eu estou bem. 😠
Pensou por um segundo e acrescentou:
Elliot:
E, para referências futuras, não questione sobre a minha bunda, ok?
Para reforçar sua autoridade, mandou uma figurinha de um gatinho irritado.
Talvez não fosse a melhor escolha. O gato da figurinha parecia menos "ameaça séria" e mais "funcionário de repartição pública negando protocolo". Mas Elliot não tinha muitas figurinhas intimidadoras. Seu acervo era composto basicamente por gatos, plantas, memes de botânica e um gif específico de uma samambaia girando ao som de música eletrônica.
A resposta de Malrik veio rápido demais.
Malrik:
Anotado.
Elliot suspirou, aliviado.
Até que outra mensagem chegou.
Malrik:
A bunda do pequeno druida é assunto proibido.
Por enquanto.
E então o feiticeiro teve a audácia. A ousadia. O desplante demoníaco de mandar um emoji piscando.
Malrik:
😉
Elliot encarou a tela como se ela tivesse acabado de invocar um espírito antigo.
Era para eles estarem conversando mesmo? Não fazia parte do plano ignorar que tinha conhecido Malrik? Fingir que aquilo havia sido só uma noite? Um acidente? Um delírio alcoólico com abdômen definido e contratos demoníacos?
Então por que, em nome de todos os carvalhos sagrados, ele tinha respondido?
Mas foi aí que percebeu uma coisa.
O aperto no peito havia diminuído um pouco. A vontade de chorar — ou de se enterrar nos lençóis e iniciar uma nova vida como fóssil emocional — também. E, para seu completo horror, havia um sorriso em seus lábios.
Pequeno. Idiota. Traidor.
— É... — murmurou, encarando o pé de tomate-cereja como se a planta tivesse pontuado algo que só ele conseguia ouvir. — Você tem razão, Ketchup... Nem tudo ontem foi totalmente ruim.
Ketchup continuou em silêncio, com a dignidade vegetal de quem não se envolve nos problemas românticos do cuidador.
Elliot olhou de novo para o celular. Pensou em escrever algo inteligente, espirituoso, maduro.
Em vez disso, mandou um meme de uma loira gritando com um gato sentado à mesa, diante de um prato de salada.
Era, de certa forma, a representação mais honesta de seu estado emocional.
Palavras da autora
Atendendo a pedidos resolvi continuar a história. Espero que gostem.
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