Capítulo 2
— Definitivamente, você não precisa me dar uma carona — disse Elliot, talvez pela terceira ou quinta vez. Quem estava contando?
Eles agora se dirigiam ao elevador, que, aliás, era panorâmico. Pela parede de vidro, via-se toda a cidade de Verdelume: as árvores espremidas entre construções antigas e prédios modernos, os arranha-céus do centro — onde eles estavam — e, infelizmente, cada vez menos áreas verdes.
Um grande desaforo, segundo a mentalidade de Elliot. Afinal, todo mundo sabia que mais áreas verdes só podiam ser benéficas: criavam microclimas mais amenos, forneciam mais oxigênio, aumentavam a umidade e quebravam aquela frieza impessoal de metal, vidro e concreto. Modernidade não devia ser sinônimo de não vida. O verde também podia ser moderno!
Logo, logo, Verdelume ia virar só Lume.
Mas espera. Ele não devia estar pensando nisso. Ele devia estar focado em outra coisa.
Mais precisamente, no reflexo no vidro do elevador. O reflexo que mostrava o feiticeiro de íris vermelhas observando-o em silêncio, com um meio sorriso nos lábios — um sorriso que fez o coração de Elliot acelerar e, ao mesmo tempo, lembrou-lhe exatamente do motivo pelo qual ele precisava sair dali o quanto antes.
— Digo, eu posso chamar um Hexdrive... ou pegar um ônibus. Ou ir a pé! Pode não parecer, por eu não ser bombadão e tal... — ele gesticulou na direção do feiticeiro, que ergueu uma sobrancelha com elegância irritante. — Mas eu gosto de exercício!
Grande mentira. Mas o feiticeiro não precisava saber.
— E você conseguiria andar com a bunda dolorida? — soltou Malrik.
O efeito foi imediato.
Elliot corou violentamente e mordeu o lábio inferior, contendo um "ah!" reprovativo, ofendido e absolutamente surpreso.
— Ainda existem as opções do Hexdrive e do ônibus... — enfatizou, agora baixinho, desviando o olhar.
— Bem... para chamar um Hexdrive, você teria que ter um celular, não é mesmo? E como pretende pagar o ônibus?
Elliot engoliu em seco.
Cada pergunta parecia um ataque direto. Um soco muito bem dado nas suas ideias — já não muito sólidas — de tentar diminuir o contato com o feiticeiro. Seus planos não deveriam ser destruídos assim. Não com tanta eficiência.
Mas aquela fala acabou despertando outro ponto de desespero.
Onde estava o celular dele?
No meio de toda aquela confusão — envolvendo se embebedar, passar a noite com um cara claramente perigoso e acordar todo dolorido —, Elliot tinha perdido um dos seus bens mais preciosos. Seu celular.
Por Pã... como ele poderia comprar outro? E como iria se comunicar com os amigos? E a avó dele? Ela devia estar preocupadíssima! Não seria surpresa nenhuma se já tivesse acionado a polícia, os bombeiros, a guarda druídica e talvez até algum exorcista de confiança.
Em meio àquele novo turbilhão de desespero, o sonoro "pim" do elevador ecoou. Em seguida, uma voz feminina, robótica e muito cordial anunciou:
— Subsolo.
As portas se abriram para um lugar consideravelmente mais escuro que o interior do elevador. Por um segundo, Elliot hesitou em sair. Mas Malrik passou por ele com total despreocupação, as mãos nos bolsos e até assobiando.
Bem, Elliot já tinha ido até ali. E todas as suas tentativas de escapar tinham terminado em frustração. Além disso, se o feiticeiro realmente tivesse más intenções, já teria feito alguma coisa.
E Elliot não estava se referindo ao sexo quase selvagem na cama — do qual ele pouco se lembrava, convinha frisar, mas podia presumir, pelo que seu corpo sentia, que tinha acontecido sim.
Com um suspiro resignado, Elliot entrou no subsolo e percebeu que se tratava de um amplo estacionamento. Malrik seguia em direção a um carro escuro. Um Porsche.
Ele só podia mesmo ter um Porsche, pensou Elliot, crítico, aproximando-se do carro chique.
Malrik abriu a porta do passageiro.
— Eu poderia ter aberto a porta sozinho, sabe? — disse Elliot.
— Sim, imagino que sim. Mas me permita ser educado.
— Ou isso seria uma oportunidade de me fazer entrar, usar um encantamento de restrição e me prender no carro...
Malrik teve a audácia de soltar uma risada.
— Elliot, para isso existem travas nos carros, sabe? Não preciso usar magia.
— M-mas poderia, se quisesse!
— Poderia — admitiu o outro. — Mas não quero. Nem preciso. Só quero te levar em segurança para casa. Pode confiar, Elliot.
Elliot rolou os olhos. Confiar? Será que podia?
Talvez estivesse sendo crítico demais. Quer dizer, apesar de o feiticeiro à sua frente ser claramente perigoso — tomando como base as tatuagens de pacto —, ele não tinha dado nenhum sinal concreto de que fosse atacá-lo ou fazer algo terrível. Pelo contrário. Tinha lhe dado comida, oferecido remédio para a ressaca e agora uma carona.
Então...
— Certo. Ok... Desculpe — disse Elliot, entrando rapidamente no carro.
Quando entrou, Elliot sentiu algo pressionando sua bunda.
Dessa vez, não conseguiu conter o "ah!" — uma mistura vergonhosa de gemido com um gritinho de surpresa. E, é claro, o som escapou justamente no momento em que Malrik entrava no carro.
O feiticeiro o fitou com interesse. Não. Talvez interesse não fosse a palavra certa.
Havia algo a mais naquele olhar. Algo que fez o corpo de Elliot esquentar de uma vez. E definitivamente não era por causa do calor da manhã, ainda mais porque Malrik tinha acabado de ligar o carro e o ar-condicionado já soprava com força.
Elliot ajeitou os óculos nervosamente e tateou rápido o que estava pressionando suas nádegas. Então soltou outro "ah". Dessa vez, alegre.
— Meu celular! — disse, triunfante, erguendo o aparelho.
Era antigo, com a capinha verde — obviamente — e a tela trincada em um canto. Mas estava inteiro. Vivo. Sobrevivente. Um verdadeiro guerreiro tecnológico.
— Deve ter caído aí quando te trouxe do bar... — comentou Malrik, já colocando o carro em movimento.
Elliot assentiu, ligando o aparelho. Ainda tinha 15% de bateria. Ufa.
Quinze por cento. O suficiente para avisar que estava vivo, verificar se a avó tinha declarado luto oficial e talvez pedir perdão aos amigos por qualquer coisa constrangedora que tivesse feito na noite anterior. O que, considerando os flashes que voltavam aos poucos, podia ser muita coisa.
Logo, o celular começou a vibrar sem parar. Elliot soltou um novo "ah!", agora contrariado.
Pelo canto dos olhos, notou Malrik apertar os dedos no volante. Uma reação mínima. Quase imperceptível. Quase. Mas Elliot percebeu. E, infelizmente, entendeu.
Tantos "ah" ditos daquele jeito talvez não fossem exatamente bons para a concentração de alguém que estava dirigindo.
— Mensagens... — disse Elliot, informando o óbvio, numa tentativa desesperada de aliviar a tensão dentro do carro.
— Imaginei — respondeu Malrik.
"Elliot!!! RESPONDE O MALDITO CELULAR!!! 😡😡😡"
A mensagem era de Marcus.
Logo abaixo, havia uma sequência quase agressiva de emojis chorando.
"😭😭😭😭😭😭😭😭😭"
Elliot fez uma careta.
Antes que pudesse sequer pensar em responder, outra notificação apareceu.
"Juro pela Deusa Lua, Elliot, se você não responder em 5 minutos, eu vou te matar."
A mensagem era de Abigail.
"E se você já estiver morto, eu te ressuscito e mato de novo."
Abigail não tinha poder paranormal. Era apenas uma humana "normal". Normal entre aspas, porque Elliot tinha plena convicção de que ela conseguiria cumprir exatamente o que prometia na mensagem, nem que precisasse aprender necromancia por pura força de ódio.
Seus amigos.
Aqueles que, erroneamente, tinham arrastado Elliot para o bar na noite anterior.
"Sério, Ell, vc tá bem???" Marcus mandou outra mensagem. "Eu tô QUASE chamando minha alcateia pra farejar teu cheiro e te encontrar. Na real, a Aby já tá mandando eu fazer isso."
Elliot engoliu em seco.
"Mas assim... vc não parecia exatamente precisar de ajuda ontem, né? Considerando que praticamente COMEU o cara pela boca no meio do bar. 👀"
Elliot corou violentamente.
— Pelo amor de Pã... — murmurou, sentindo o rosto esquentar.
Então veio outra mensagem de Abigail.
"Vc pelo menos usou camisinha???"
O rubor de Elliot piorou. Muito.
Quase respondeu um "sim" automático, mas uma nova mensagem surgiu na tela. Dessa vez, de outra amiga.
Francine.
Elliot franziu a testa antes mesmo de ler. Francine raramente mandava mensagens longas. Na verdade, Francine raramente mandava mensagens. Às vezes, Elliot suspeitava que a amiga tinha abdicado completamente da comunicação verbal e escolhido se expressar apenas por olhares — muitos deles irritados.
"Elliot... eu não sei se vc fez isso de propósito ou não. Talvez tenha feito. Sinceramente, vindo de vc, eu não duvido de mais nada. Mas, de todos os caras daquele bar, vc tinha que pegar logo o Malrik?"
O estômago de Elliot afundou.
"Eu sei que vc tava com raiva dos druidas e tudo mais, mas isso... Se o objetivo era chamar atenção, parabéns. 100% de sucesso."
Malrik. Sim. Ele sabia que aquele nome era familiar.
E não só porque provavelmente tinha gritado muito esse nome na noite anterior — detalhe que sua mente, por pura autopreservação, preferia não investigar naquele momento.
Desde que ouvira Choi chamá-lo assim, uma sensação incômoda vinha arranhando o fundo da sua cabeça. Aquele alerta irritante de que o nome significava alguma coisa. Algo importante. Algo possivelmente terrível.
Então Marcus mandou outra mensagem.
"CARA."
Logo depois:
"AGORA que eu percebi quem era o cara que vc pegou."
E mais uma:
"CARALHO, ELLIOT."
Elliot parou de respirar.
"Vc vive dizendo que nada interessante acontece na sua vida, né? Grande mentira. TU PEGOU LOGO O LÍDER DO CLÃ NOX ARCANA???"
Foi aí que Elliot soltou um "AH!" Não um gemido, dessa vez. Não. Foi um grito mesmo.
Malrik freou de repente.
Os dois foram lançados para frente. Felizmente, Elliot tinha se lembrado de colocar o cinto. Um raro momento de lucidez. Raríssimo, aliás, considerando o que aparentemente tinha feito na noite anterior.
Alguns carros buzinaram atrás deles. Malrik, no entanto, pareceu decidir ignorá-los com a serenidade de quem tinha coisas mais interessantes para lidar.
— Você é Malrik! — disse Elliot, meio debilmente.
O feiticeiro o encarou de lado.
— Creio que já trocamos apresentações, druida.
— Não, tipo... o Malrik. Chefe dos Nox Arcana.
— Ah. Você se refere a isso... — disse Malrik, dando de ombros.
Como se ser o líder do maior clã de máfia mágica da cidade — talvez da região inteira — fosse um detalhe trivial. Um hobby. Algo entre colecionar vinhos caros e assinar contratos demoníacos nas horas vagas.
— Sim, eu me refiro a isso! — Elliot quase cuspiu a palavra, só para dar à situação a gravidade que ela merecia. — Ai, meu santo Pã... Agora, sim, eu me ferrei. Não, não, "me ferrei" é pouco. Eu me enterrei vivo, plantei flores em cima e ainda coloquei uma plaquinha escrito "aqui jaz a carreira druídica de Elliot, morto por péssimas decisões e um homem bonito demais". Porque, como se não bastasse o desastre completo, absoluto e provavelmente irreversível que eu causei no Conclave Druídico, agora eu também transei com o cara que a líder dos druidas odeia com a força de mil sóis! Não, pior: com o chefe dos Nox Arcana! O chefe! Da máfia mágica! Eu vou ser expulso. Claro que vou. Se antes era só uma possibilidade, agora é uma certeza com selo, assinatura e reconhecimento em cartório arcano. E o que eu vou fazer? Mudar de cidade? Virar eremita? Trabalhar escondido na casa de chá da minha avó usando nome falso? Porque eu não fiz isso de propósito! Eu não acordei ontem e pensei: "sabe o que seria ótimo para a minha reputação já destruída? Beijar, agarrar e aparentemente escalar como uma árvore o inimigo público número um dos druidas". Não! Foi a bebida. A maldita bebida. E a culpa também é sua!
De repente, ele apontou para Malrik, que estava com o rosto apoiado em uma das mãos, o cotovelo descansando no volante, ouvindo-o com um interesse quase divertido. Pelo menos, o feiticeiro pareceu genuinamente surpreso ao ser arrastado para dentro daquele fluxo de desespero verbal.
— Eu?
— Sim, você! Porque você tinha que ser... — Elliot gesticulou na direção dele, desesperado demais para encontrar palavras mais dignas. — Sexy, bonitão e essas coisas!
— Essas coisas — repetiu Malrik.
— Pois é! Isso também é culpa sua!
— Deixa eu recapitular. Eu tenho culpa por ser sexy, bonitão e essas coisas?
— Falando assim parece simples! — resmungou Elliot. — Óbvio que, quando o álcool me deixou desinibido, meu cérebro resolveu atacar justamente o cara mais atraente do bar! Óbvio!
— Óbvio — disse Malrik.
Um sorriso se formou nos lábios dele. Elliot não gostou nem um pouco. O feiticeiro estava minimizando a situação. Ou pior: se divertindo com ela.
— Mas eu já disse antes, Elliot... — continuou Malrik, a voz baixa, macia, perigosa. — Foi você que me seduziu. Não o contrário. Apesar do que está tentando insinuar.
— Mas você poderia ter dito não! — vociferou Elliot, as bochechas coradas de embaraço e um pouco de raiva.
Mas bem mais de embaraço.
— Poderia — Malrik assentiu.
Então, subitamente, o feiticeiro se aproximou. Seus dedos envolveram o queixo de Elliot com firmeza suficiente para calá-lo, mas não o bastante para machucar.
Olhos vermelhos fitavam os dele com uma profundidade indecente.
— Mas eu optei por dizer sim... — murmurou Malrik, a voz baixa e áspera. — Optei por me deixar seduzir.
O corpo de Elliot tremeu contra a própria vontade. Não era frio por causa do ar-condicionado. E também não era medo. Definitivamente, era outra coisa.
— A responsabilidade disso é toda sua — continuou Malrik.
E Elliot iria contradizê-lo. Iria mesmo. Tinha certeza. Uma resposta brilhante, indignada e moralmente superior já estava quase se formando em sua língua.
Quase.
Mas então os lábios do feiticeiro roçaram os seus, entreabertos e trêmulos. Elliot sentiu o hálito quente de Malrik se misturar ao dele, tão perto que qualquer pensamento lógico simplesmente evaporou.
Um baixo "ah..." escapou dos lábios do druida. Não irritado. Não furioso. Desejoso. E aquilo foi todo o convite de que Malrik precisava para beijá-lo.
O beijo começou leve. Quase nada, a princípio.
Um simples roçar de lábios. Um toque breve, morno, provocante — como se Malrik estivesse testando até onde Elliot permitiria que ele fosse. Como se soubesse que o druida tinha mil motivos para recuar, empurrá-lo para longe, abrir a porta do carro e fugir dali antes que sua vida ficasse ainda mais desastrosa.
Esse seria o movimento sensato. Afastar-se. Impor limites.
Lembrar que já tinha se afundado o suficiente naquele problema. Que havia limiares que não deveriam ser ultrapassados. Que beijar novamente o chefe dos Nox Arcana, dentro de um Porsche parado no meio do trânsito, definitivamente entrava na lista de péssimas decisões.
Mas os limites foram ultrapassados. Com louvor. Porque, quando Malrik inclinou um pouco mais a cabeça e aprofundou o beijo, Elliot não o afastou. Muito pelo contrário. Seus dedos se fecharam no tecido da camisa do feiticeiro e o puxaram para mais perto, como se o corpo tivesse decidido agir antes que o cérebro conseguisse apresentar qualquer objeção coerente.
E então o beijo deixou de ser um toque. Virou fome.
Malrik tomou sua boca com uma intensidade lenta e calculada, misturando saliva, dentes e um calor que fez Elliot esquecer, por alguns segundos perigosos, todos os motivos pelos quais deveria estar em pânico. A língua do feiticeiro deslizou contra a sua, firme e provocante, arrancando dele um som baixo, involuntário, que se perdeu entre os lábios dos dois.
Aquilo pareceu agradar Malrik.
A mão que ainda segurava seu queixo deslizou para sua nuca, os dedos se enroscando nos fios ruivos com uma possessividade cuidadosa. Não o prendia de verdade. Não precisava. Elliot já estava inclinado em sua direção, correspondendo ao beijo com a mesma urgência, a respiração falhando, o peito subindo e descendo depressa demais.
O gosto de Malrik era quente, viciante, perigoso. Elliot odiou o quanto gostou disso.
Odiou ainda mais quando percebeu que estava praticamente se erguendo no banco para alcançá-lo melhor, buscando a boca dele de novo sempre que Malrik se afastava por uma fração de segundo. Como se o beijo fosse uma pergunta, uma provocação, uma ameaça doce demais para ser ignorada.
Os dentes de Malrik prenderam de leve seu lábio inferior.
Elliot estremeceu inteiro.
Suas mãos tatearam às cegas — não pelo celular, que, coitado, já tinha caído do banco e se lançado novamente na escuridão de algum compartimento misterioso do carro —, mas pela lateral do assento. Seus dedos encontraram o botão do cinto e o apertaram quase sem pensar.
O click do fecho se soltando soou alto demais.
Para Elliot, pareceu menos um som mecânico e mais o vibrar de um sinete anunciando o início de um combate. Ou algo parecido. Porque, no segundo seguinte, ele se lançou no colo de Malrik. E o feiticeiro o recebeu de bom grado.
Recebeu com as mãos firmes em sua cintura, com os lábios ainda úmidos do beijo e aquele olhar vermelho queimando de um jeito que fazia Elliot se sentir observado por dentro. Como se Malrik soubesse exatamente qual parte dele estava em pânico — e qual parte, muito maior do que deveria, estava desesperadamente interessada.
E então vieram mais flashes.
Elliot, já nu, suado, sentado sobre o colo de Malrik. O quarto envolto em sombras, a luz da cidade entrando pelas cortinas pesadas em linhas prateadas. O feiticeiro o observava de baixo, ofegante, os cabelos negros completamente desarrumados, os olhos vermelhos escuros, famintos, presos nele como se o resto do mundo tivesse deixado de existir.
— Você quer mesmo isso, druida? — perguntou Malrik, a voz rouca, baixa, quase cuidadosa. — Podemos ficar só nisso, sabe? Amassos e...
Elliot se inclinou para frente antes que ele terminasse. Deixou o próprio peito roçar contra o peitoral quente do feiticeiro, sentindo a pele dele, a respiração dele, a magia vibrando sob as tatuagens como algo vivo. Beijou o queixo de Malrik. Depois a linha da mandíbula. Depois a ponta do nariz, deliberadamente evitando os lábios.
Só para provocá-lo.
— O quê? Está com medo? — murmurou Elliot, com uma insolência que só poderia ter vindo da bebida. Ou talvez de alguma parte dele que, sóbria, nunca teria coragem de admitir que existia. — Pensei que vocês, feiticeiros, fossem destemidos e tal. Propaganda enganosa? Fake news?
Malrik soltou um riso baixo.
Não. Riso não.
Aquilo parecia mais um rosnado.
— Quer que eu prove a você?
Elliot sentiu a pergunta percorrer sua pele inteira. Mesmo assim, sorriu, apoiando as mãos nos ombros largos dele.
— Fui ensinado a buscar as fontes antes de acreditar em fake news... Então, Malrik... — Elliot se moveu sobre o colo ainda vestido do feiticeiro, devagar o bastante para arrancar dele um gemido abafado. — Você vai ser minha fonte de confiança?
Os dedos de Malrik apertaram sua cintura.
— Posso ser isso, druida... — respondeu ele, puxando Elliot para mais perto. — E espero que você não se arrependa.
— Eu quase sempre me arrependo das coisas — Elliot sussurrou contra a boca dele. — Mas geralmente só depois.
Malrik sorriu.
E então o beijou.
A mão do feiticeiro deslizou para sua nuca, prendendo-o ali enquanto a outra segurava sua bunda com firmeza. Elliot gemeu contra a boca dele, movendo-se de novo, mais afoito, mais impaciente, como se cada toque puxasse outro fio de desejo de dentro dele. Como se o corpo tivesse decidido se lembrar antes da mente.
E, talvez, fosse exatamente isso que estivesse acontecendo.
Elliot abriu os olhos subitamente, voltando ao presente como se tivesse sido arremessado para fora da lembrança.
Mais uma prova. Mais uma evidência irrefutável de que a bebida o tinha deixado desinibido, inconsequente e perigosamente safado. Mas então percebeu um pequeno detalhe. Não havia bebida agora. Não havia música alta, luzes vermelhas, bar lotado ou álcool distorcendo seu julgamento. Havia apenas ele, de manhã, bastante sóbrio, praticamente cavalgando no colo do chefe dos Nox Arcana dentro de um carro parado no meio da rua.
— Oh, grande Pã... — murmurou.
Elliot deu um salto para trás, quase batendo a cabeça no teto do carro, assustando-se ainda mais quando uma buzina soou atrás deles.
Certo. Pequeno detalhe adicional. Eles ainda estavam no carro. No trânsito. Em plena luz do dia.
— Então, er... — Elliot tentou tomar o controle da situação.
Tentou ignorar a ereção que tinha. Tentou ignorar o olhar de Malrik sobre ele. Tarefas muito difíceis. Quase heroicas. Dignas de uma estátua em praça pública: Elliot, o druida que tentou pensar com o cérebro por cinco segundos.
— Você ia... não, você está me dando uma carona para casa e tal — continuou, tropeçando nas palavras. — Talvez eu devesse te dizer o endereço.
— Hum... — Malrik murmurou, os olhos ainda presos nele. — Estou quase decidido a dar meia-volta e voltar para o meu apartamento, druida.
Elliot sentiu uma pontinha de vontade. Pequenininha. Minúscula. Quase microscópica. De sucumbir àquela proposta. Mas ainda restava um pouco de bom senso. Bem pouco mesmo. Um fiapo. Uma folha seca resistindo no galho durante uma tempestade.
— N-não. Eu tenho que voltar. Quer dizer, não para o seu apartamento. Para a minha casa. Minha avó deve estar preocupada e, mesmo sendo domingo, eu tenho que abrir a casa de chá, então...
Ele lançou um olhar suplicante para o feiticeiro.
Um olhar que dizia: por favor, não continue com isso, porque eu sou fraco, você é bonito demais e aparentemente meu corpo assinou um contrato de traição contra a minha dignidade.
Qualquer nova insinuação de Malrik, qualquer meio sorriso, qualquer "druida" dito naquele tom, e Elliot sabia — sabia mesmo — que provavelmente aceitaria.
Malrik soltou um longo suspiro e deixou a cabeça pender contra o ombro dele. O gesto fez Elliot suspirar também, contra a própria vontade.
— Certo — disse o feiticeiro depois de um instante. — Vou te levar para casa.
— Bom — respondeu Elliot, tentando não deixar a decepção transparecer na voz.
— Bom — repetiu Malrik.
— Bom — Elliot disse de novo, um pouco mais alegre, como se repetir a palavra fosse capaz de restaurar alguma ordem no universo.
Malrik soltou uma risada baixa e ergueu a cabeça, voltando a encará-lo.
— Acho que esse é o momento ideal para você voltar para o seu assento, Elliot... antes que eu me arrependa e faça coisas que definitivamente você não quer que eu faça agora. Bem... sua mente talvez não queira. Mas seu corpo, obviamente, quer.
Elliot engoliu em seco. Tentou não olhar para baixo. Falhou.
Lá estava a evidência cruel das palavras de Malrik: as ereções de ambos, presas sob as calças, pressionando-se de leve. Elliot podia sentir. Céus, como podia sentir.
Ele pigarreou, o rosto queimando.
— Certo. Meu assento. Sim. Lugar seguro. Cinto de segurança. Regras de trânsito. Muito importantes. Amo regras de trânsito.
Sair do colo de Malrik, no entanto, revelou-se uma missão menos elegante do que o esperado. Elliot se mexeu de um lado para o outro, tentando encontrar um ângulo minimamente digno, mas acabou pressionando a buzina sem querer.
O som ecoou alto.
— Desculpa! — disparou ele, em pânico.
Na tentativa de recuar, bateu no freio de mão. Depois no painel. Depois quase no próprio joelho. Alguns gemidos baixos escaparam de sua boca, mais de constrangimento e esforço do que qualquer outra coisa — embora, considerando a situação, isso não ajudasse em absolutamente nada.
Malrik apenas o observava com aquele sorriso insuportável. Por fim, Elliot conseguiu retornar ao banco do passageiro. Com a dignidade preservada. Quase. Talvez uns 12% dela. O suficiente para fins burocráticos.
Assim que se acomodou, começou a procurar freneticamente o celular. Precisava de alguma coisa em que se concentrar. Qualquer coisa Qualquer coisa que não envolvesse o beijo.
Ou o colo de Malrik. Ou os flashes da noite passada. Principalmente os flashes da noite passada.
~**~
O Porsche estacionou em uma rua de paralelepípedos, num bairro simples do subúrbio de Verdelume. Rústico, até. Havia várias construções antigas, coloniais, da época da fundação da cidade, com fachadas gastas pelo tempo, janelas de madeira e trepadeiras insistindo em crescer pelas paredes.
Um contraste evidente com o lugar onde Malrik morava, comparou Elliot em pensamento.
Assim que o carro parou, Elliot saiu.
Não esperou que Malrik repetisse o gesto de abrir a porta para ele. Não ali. Não na frente da casa de chá da sua avó.
Mas isso não impediu o feiticeiro de sair também.
— Então... — começou Elliot, sem saber o que dizer depois.
Um "tchau"? Parecia pouco.
Um "até logo"? Perigoso demais.
Um "adeus"? Dramático. Definitivo. Meio novela das oito.
Pedir para esquecer tudo? Impossível. Principalmente porque Elliot, infelizmente, não estava esquecendo. Muito pelo contrário. Sua mente parecia empenhada em recuperar cada detalhe comprometedor da noite anterior nos piores momentos possíveis.
Era impressionante como a quantidade absurda de palavras que normalmente saía em correnteza pela sua boca quando estava nervoso simplesmente tinha secado de repente.
Uma seca repentina. Um deserto verbal. Logo agora.
— Então... — Malrik o imitou, com um meio sorriso. — E o seu celular?
Elliot franziu o cenho e tirou o aparelho do bolso, exibindo-o para o feiticeiro.
— Eu encontrei. Tudo certo. Nenhuma rachadura nova, o que já tinha aí é histórico de guerra, não se assuste...
Malrik se aproximou e tocou a tela do celular do druida. O aparelho emitiu um ping! audível.
— O que você fez? — Elliot questionou, desconfiado, destravando a tela para verificar.
Havia um novo contato salvo. Malrik. Só isso. Um nome grande demais para caber em um celular tão trincado e humilde.
— Só gravei meu número aí — disse o feiticeiro.
— Isso... er... não seria perigoso? Eu ter o número do "poderoso chefão" de Verdelume no meu celular? — Elliot ergueu o aparelho, como se segurasse um artefato amaldiçoado. — Eu poderia vender para os seus inimigos, sabe? Tipo, minha chefe poderia muito bem querer o seu número e vazar em campanhas de telemarketing ou até em golpes. Ou pior: ela poderia bombardear você com memes sem graça. E ela tem muitos. Muitos mesmo. Alguns envolvem gatos usando chapéu de cogumelo. Outros são sobre idosos fazendo piadas com necromantes. Enfim, é uma ameaça real.
Malrik se aproximou e depositou um beijo leve na bochecha de Elliot. O druida parou de falar na hora. Talvez esse fosse um poder especial de Malrik. Silenciamento por beijo. Covarde. Eficiente.
— Sei que você não vai divulgar meu número por aí, druida — sussurrou o feiticeiro perto da orelha dele.
Elliot tremeu.
— Como sabe? Você mal me conhece!
— É verdade — respondeu Malrik, afastando-se apenas o suficiente para observá-lo. — Mas tenho a sensação de que posso confiar em você.
Elliot o encarou, vermelho até a alma. Provavelmente mais vermelho que os próprios cabelos. E irritado, obviamente. Irritadíssimo. Totalmente não afetado por aquele beijo ridiculamente simples e desnecessariamente poderoso.
— Ser confiante assim, sendo você o que é, não é recomendável, sabia? — Elliot começou a dar bronca, embora tenha percebido, no meio da frase, o quão ridículo era repreender o poderoso feiticeiro Malrik como se ele fosse um cliente folgado da casa de chá. — Mas... eu não vou divulgar seu número para ninguém. Só que pode acontecer de eu mandar memes ridículos. Muitos memes. A memória do seu celular vai ficar repleta de inutilidade digital. Depois não diga que eu não avisei.
Malrik riu e se dirigiu de volta ao carro.
— Isso significa que você não vai me bloquear. Para mim, já é um grande ganho.
Ele já estava entrando no Porsche quando Elliot, contra todo bom senso ainda existente no universo, perguntou:
— Você quer mesmo que eu mantenha contato com você?
Malrik parou. Então o olhou. Com intensidade demais.
Uma intensidade que fez o corpo de Elliot reagir de imediato, aquecendo por dentro, mesmo diante do friozinho do fim de tarde que já anunciava os primeiros sinais de uma noite gelada.
— Eu quero, Elliot — disse Malrik. — E, quem sabe, podemos nos encontrar outras vezes.
— Não em bares — soltou o druida rapidamente.
Malrik ergueu uma sobrancelha.
Depois riu de novo.
— Certo. Nada de bares. Então vou pensar no nosso próximo encontro com cuidado.
Disse isso, entrou no carro e partiu, deixando um Elliot meio abobado para trás.
Encontro? Próximo? Elliot, era para você não estimular isso. Era para terminar. Encerrar. Cortar qualquer coisa que estivesse começando ali antes que criasse raízes, galhos, flores venenosas e talvez frutos emocionalmente catastróficos.
Ainda dava tempo de bloqueá-lo. Dava, sim. Era só apertar alguns botões. Bloquear contato. Apagar número. Fingir que nada aconteceu. Seguir a vida. Fazer chá. Regar o tomate-cereja. Ser uma pessoa responsável, sensata e sem envolvimentos com líderes de máfia mágica.
Mas, em vez disso, Elliot olhou para o número salvo na tela do celular.
E sorriu.
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