Capítulo 31

Correção: ESSE é o melhor capítulo que eu já escrevi de todos os tempos.

"— Você é estranho.
— Não sou não.
— É isso o que eu gosto em você, eu gosto que seja estranho.
— Eu não sou ideal?
— Você é ideal! Você é estranho mas é único. E eu sou normal, certo? Comparado a você?
—... Eu gosto do normal."

— 2 Kids Room, Han Jisung & Lee Know.

2020.

Acordei com a dor de cabeça pesada que eu já sabia ser um sinal de ressaca. Eu não podia misturar bebidas quentes daquele jeito, sempre ficava bêbado muito rápido, mas eu sempre teimava.

Um filete de luz iluminava o quarto fracamente por conta da cortina mal feita, e quando me virei para o lado com os olhos semicerrados quase me assustei com Charlie olhando para mim.

— Cacete, que susto. — Resmunguei e fechei os olhos, a dor na testa estava latejante. — Tu ficou me vendo dormir?

— Não exatamente, tu falou a noite inteira, acordei varias vezes. — Ele falou sem expressar nada, só continuava me olhando.

— Hum... E o que eu falava?

— Nenis, nenis, nenis... — Ele fez uma voz diferente para me imitar, mas não estava rindo. — Charlie, você é tão inteligente. Charlie, quem é Jungkook? Charlie, eu sou arromântico.

— O quê? — Abri mais os olhos, mesmo isso me causando mais dor. — Isso é sério?

— Tu falou isso bêbado também. É complicado pensar que tu precisa estar fora de si para ser sincero comigo. — Ele se encolheu com a coberta e meu peito se apertou. Charlie chateado por minha causa era doloroso de ver.

— Me desculpa. — sussurrei com vergonha e o guri balançou a cabeça.

— Só se tu prometer que vamos conversar sobre isso depois do café.

— Não, não, não, não quero sair da cama! Tô de ressaca. — Puxei a coberta para a cabeça e Charlie deu seu primeiro riso do dia, aquilo aqueceu meu coração.

Ele se aproximou de mim e tentou tirar a coberta do meu rosto.

— Vem logo fazer café comigo, ô Jungkook!

— Não me chama desse coreano viado!

— Olha o preconceito! Não fala assim! — Ele puxou a coberta e me encarou, eu estava de olhos fechados mas rindo.

— Não é preconceito se eu sou meio viado também.

— Meio viado é sua forma de dizer que é bi?

— Exatamente.

— Então bi é gostar de dois gêneros pra ti? Metade gay e metade hétero?

Abri um pouco os olhos e Charlie estava com uma sobrancelha erguida para mim, com o corpo um pouco acima do meu, a coberta nos separava.

— Bah, mas tu já quer falar de coisa complexa assim sem nem tomar café da manhã, me deixa acordar primeiro! Não ganhei nem um beijo. – Resmunguei e tentei me virar de lado, mas Charlie me segurou.

— Levaaaaanta, Jason! Hoje vou te dar uma aula sobre sua comunidade, vamos começar cedo!

— Não gosto que tu seja inteligente.

— Não foi o que tu me disse ontem. — Ele se levantou e tirou a coberta do meu corpo. — Vem, vou dar um jeito nessa ressaca!

Charlie não estava brincando quando disse que iria me dar uma aula, ele estava falando na forma literal.

Depois do café, de água com limão e um Engov de gosto horrível, eu me sentia uns 80% melhor. Então, ele vasculhou suas coisas atrás de um caderno e veio para a sala com o objeto e uma caneta hidrográfica.

— Olá, professor! — Me joguei no sofá e o vi abrir o caderno, em seguida se sentou do outro lado do móvel, de frente para mim. — Qual o conteúdo da aula? — Dobrei uma das pernas e me sentei em cima dela, deixando a outra para fora do sofá.

— Vou anotar alguns termos e tu vai me dar a resposta rápida que vier na sua cabeça, e sem se perguntar se está certo ou errado. Mas é para ser rápido na resposta, ok? Fale a primeira coisa que vier na mente.

— Sim, senhor. — concordei e Charlie escreveu a primeira palavra em forma grande, no topo da folha. Virou o caderno e me mostrou a palavra "gay". — Gosta do mesmo gênero.

— Ok. — Ele escreveu outra e virou novamente. "Lésbica".

— Mulher que gosta só de mulher.

Charlie repetiu o processo. Eu estava indo bem até então, as respostas eram ridículas de fáceis.

"Bissexual."

— Gosta de homem e mulher. — Charlie ergueu uma sobrancelha, mas não comentou nada a respeito.

"Pansexual".

— Gosta de todos os gêneros.

"Gênero".

— Essa é subjetiva. — Fiz uma careta.

— Só diga o que pensa. — incentivou.

— Tá... Acho que... É como a gente se identifica.

Charlie balançou a cabeça e escreveu outra coisa.

"Não-binário."

— Não sei.

— Não sabe?

— Ahn, mais ou menos.

— Tem que responder.

— Tá... Pessoa que não é homem nem mulher. — falei inseguro. Aquele já era um terreno mais difícil.

— Está quase tudo errado, se quer saber. — Revirei os olhos e Charlie deu uma risadinha. — Mas vamos continuar, depois te explico.

"Assexual."

— Pessoa que não sente atração sexual, ou sente pouco e em momentos específicos. — Charlie ergueu as sobrancelhas, surpreso com minha resposta completa.

— Uau. — Ele deu um sorriso e escreveu novamente. Me senti orgulhoso.

"Arromântico."

— Bah, é a mesma coisa de assexual, só que falando da atração romântica.

Charlie parou por um momento e pensou sobre a próxima falava.

— Vou começar a complicar. — Ele virou o caderno e mostrou o termo "atração romântica". Mexi meu corpo no sofá, visivelmente incomodado com o rumo do jogo.

— É tipo... Uma atração em que tu tem vontade de viver um romance, ter um relacionamento sério, fazer gestos de amor, essas coisas... É subjetivo também. — Comecei a mexer nos meus dedos. Charlie pendeu a cabeça de lado.

— Isso foi o que tu pesquisou e tá me dizendo, agora quero saber como tu vê isso. — Ele me encarou sério e me mexi de novo no sofá.

— Eu não sei, Charlie. Nunca tive atração romântica pra saber. — Virei o rosto e encarei a televisão ao nosso lado, um pouco nervoso. Era muito estranho falar desses assuntos e me abrir para alguém, nunca havia feito isso antes.

Charlie deixou o caderno de lado e se aproximou de mim, mas não o suficiente para me tocar, ele apenas chegou mais perto.

— Posso continuar com as perguntas sobre isso?

— Pode. — falei sem olhar para ele.

— Tu tem aversão a romance ou coisa assim?

— Pra sentir aversão, eu preciso me importar com isso primeiro. — Dei de ombros.

— Então tu só tem desinteresse?

— Nem isso, só não penso. Nunca pensei. Agora que tô pensando por sua causa.

— Tu não parava pra pensar em como eram os relacionamentos durante a tua vida? Vendo as pessoas namorando, se casando, isso nunca te fez refletir?

— Não. — neguei. — Nunca achei importante.

— Mas tu se importou ontem, quando eu disse que gosto de ti. — Charlie tocou no assunto e respirei fundo, ainda sem olhar para ele. — Como se sentiu quando eu te disse isso?

— Um lixo, se quer saber. — minha risada saiu pesada e triste, Charlie esticou a mão para tocar em meu cabelo. Um nó queria se formar em minha garganta.

— Por que tu se sentiu assim?

— Cê' sabe a resposta, Charlie. — voltei a encará-lo, ele me observava atento e com os lábios entreabertos. Chegava a ser ridículo de tão bonito. — Tu sabe a resposta disso.

— Mas eu quero te ouvir falar.

Respirei fundo, meus ombros subiram e desceram. Eu precisava parar de tentar usar uma máscara e ser totalmente honesto com o guri.

— Fiquei mal porque não sinto o mesmo. — Minha voz vacilou por um segundo, mas me recompus a tempo. — E não é porque eu não quero... Já te disse que não vejo a gente como casal. Nunca me vi assim antes e não vou me ver agora, não tenho explicação, só me sinto assim. Não sou egoísta, eu juro...

— Eu sei, Jay. — Charlie usou aquele apelido carinhoso que raramente falava. — Pode continuar.

— Tá. — Desviei o olhar mais uma vez e esfreguei minha mão na bermuda de algodão, incomodado. — Eu... Nunca me importei com essas coisas até tu falar disso comigo e a gente começar... Isso. — Fiz uma careta porque não sabia como definir o que rolava entre nós dois. — Então não me incomodava essa coisa de... Não sentir. Mas agora me incomoda, porque tu tá aqui e... Gosta de mim.

Eu sabia que estava corado porque meu rosto se esquentou. Eu odiava tanto, mas tanto demonstrar minhas emoções assim, mas eu precisava fazer isso ao menos uma vez. Sem piadas e comentários de duplo sentido, apenas sinceridade.

— Me fala como tá se sentindo. — Charlie se aproximou mais, ainda sem tocar seu corpo no meu. Cruzei os braços como uma defesa mental e respirei fundo outra vez, então abaixei a cabeça e fiquei envergonhado.

— Eu tô com medo de ser um babaca contigo igual eu fui com todo mundo que já gostou de mim. Eu juro, guri, que eu queria corresponder e...

— Não, nada disso. — Charlie esticou as duas mãos e pegou em meu rosto, em cada lado da bochecha, e me fez olhar para ele. — Tu não tem obrigação nenhuma de me corresponder, tá? Eu já sabia como que tu era, e se eu me declarei pra ti foi só porque eu queria, eu, Charlie. Nunca vou querer nada em troca, eu só queria me expressar porque sou péssimo em esconder as coisas e tu sabe disso.

— Desculpa. — Apoiei minha testa na dele e respirei fundo outra vez. — Desculpa.

— Mas desculpa pelo o quê, Jason?

— Por isso, por ser assim, tu quis gostar logo de um cara fodido que nem eu. — Minha risada saiu um desastre, pois eu queria chorar.

— Para com isso, tu não é um fodido! Tu é meu nenis!

— Eu te odeio com esse teu apelido. — Sorri e ele beijou meu rosto de um jeito carinhoso. Descruzei os braços e o abracei pela cintura. — Eu vou ser egoísta se falar que tenho medo de tu querer te afastar de mim?

— Para de se chamar de egoísta só porque não sente atração romântica. — Charlie se afastou e passou as mãos em meu cabelo, seus olhos possuíam admiração. Chega brilhavam, era lindo de ver.

— É que me sinto ridículo, não quero ter um relacionamento mas quero você por perto... Isso não é babaquice?

— Não, porque a gente tem um vínculo afetivo, de qualquer forma. Um vínculo bom. — Seus dedos desceram para meu rosto e ele tocou minhas bochechas, fazendo linhas imaginárias. — E... Tu só não quer ter um relacionamento romântico, Jason. Tu ainda pode ter o outro tipo.

— Outro tipo? — Estreitei os olhos e Charlie abriu um sorriso.

— É. Queerplatônico.

— Não sei o que é isso. — falei meio embolado, surpreso com a palavra diferente. Uma sensação de ansiedade pareceu brotar, como se eu estivesse prestes a entrar num brinquedo novo de um parque de diversões.

— Vai adorar saber, então. — Charlie sorriu ainda mais e inclinou o rosto para me beijar. Seus dedos foram para trás de minha nuca e senti meu coração acelerar. O beijo era o mesmo, começava doce e terminava desesperado.

Mas tudo estava diferente.

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