Capítulo 30
O melhor capítulo de todos os tempos.
"Não se preocupe, amor
Porque tudo isso não é uma coincidência
Nós somos completamente diferentes, amor
Porque nós dois encontramos o destino." — DNA, BTS.

2020.
"Acho que se eu contasse para o Charlie de 2018 que eu iria acabar gostando de ti, ele não acreditaria."
A frase dita por Charlie antes de dormir me tirou o sono. Ele estava grudado em mim, sem camisa, e de repente tudo o que aconteceu parecia tremendamente errado.
Sua respiração estava pesada em meu peito, em um sono profundo. As imagens do que acabara de acontecer passavam por minha mente, mas logo se dissipavam para dar lugar à frase de Charlie sobre gostar de mim.
Concluí que eu era um grande idiota. Como eu esperava que não iríamos envolver sentimentos no meio daquela confusão? Com meu pai à solta, pessoas me jogando ódio, um processo em andamento, uma pandemia global e uma quarentena junto com o guri que eu queria pegar há tanto tempo, eram coisas demais para lidar e eu não me preocupei com as consequências.
E agora Charlie gostava de mim.
Meu peito se apertou, em contraste com o sono tranquilo do guri. Comecei a me soltar de seu abraço devagar, me mexendo o mais lentamente possível para não acordá-lo; felizmente ele estava dormindo feito uma pedra.
Consegui colocar uma perna para fora da cama, depois a outra. Me virei para ver Charlie e cobri seu corpo, ele continuava em sono profundo. Andei a passos rápidos e silenciosos para fora do quarto e encostei a porta, por fim ficando sozinho no corredor.
A primeira coisa que fiz foi ir ao banheiro lavar o rosto, eu estava transtornado. Não sabia o que fazer, nem SE havia algo para fazer. Ok, Charlie gostava de mim, o que isso mudava?
Tudo e nada ao mesmo tempo. Eu continuaria sendo o mesmo, porque...
Eu não gostava dele de volta.
Claro que eu gostava dele, muito, mas não do jeito que ele falou. Eu não sabia explicar.
Eu gostava dele, sim. Mas não, não gostava. Mas também gostava. Ah, puta que pariu!
Se eu fosse uma pessoa naturalmente agressiva, teria dado um soco na pia do banheiro de tanta raiva. O que fiz foi jogar mais água no rosto para me acalmar e me enxuguei com a pequena toalha pendurada.
Decidi fazer a última coisa que eu gostaria, e eu esperava nunca mais fazer aquilo de novo; se Charlie descobrisse, iria querer falar do assunto comigo e seria um papo insuportável. Por isso, tomei cuidado ao ligar seu notebook na mesa e abri uma guia anônima para não deixar salvo nas pesquisas. Parecia até que eu ia assistir pornô, mas antes fosse. Digitei com tanto receio no campo de busca que eu tinha medo de que a palavra tomasse forma física e invadisse a sala.
Arromanticidade.
Assim que a aba carregou, quis fechar na mesma hora. Eu tinha medo de ler alguma coisa dali e me identificar demais ao ponto de não poder mais ignorar isso: porque era o que eu estava fazendo até então, ignorando.
Mas deixei de bancar o covarde e abri o primeiro link.
"Arromanticidade é a orientação romântica na qual as pessoas sentem pouca ou nenhuma atração romântica."
Uau, Wikipedia. Muito obrigado.
Cliquei em outro link. O site seguinte era bem mais completo e comecei a reconhecer termos usados nos vídeos de Charlie sobre assexualidade: área cinza, espectro, atração estrita, parcial e condicional. Eu já entendia o básico daquilo, não era nenhum bicho de sete cabeças, mas pela primeira vez eu estava olhando como uma forma de... Me entender.
Um trecho do artigo prendeu meu interesse e o li varias vezes para entender.
"A área cinza é composta por identidades arromânticas onde a pessoa pode vir a sentir atração romântica em algum nível, mas nunca como pessoas alorromânticas. Essa atração pode ser experienciada dependendo de algumas circunstâncias, por um pequeno período de tempo, em rajadas, constantemente mas em baixa intensidade, ou ter um pico em algum momento e depois ficar longos períodos sem sentir."
Encostei minhas costas na cadeira e comecei a refletir sobre aquilo. Área cinza, pessoas que poderiam sentir atração romântica de alguma forma, parcial ou condicional.
Eu já havia sentido atração romântica?
Pensei sério sobre isso pela primeira vez na minha vida. Sem piadas e comentários ridículos, eu queria buscar qualquer registro passado em que eu me senti atraído por alguém daquela forma.
Amanda? Não. Guilherme? Não. Fabi? Não. Daniel? Não. Eu pensava em vários nomes, mas logo os descartava porque nunca havia gostado de alguém.
E Charlie?
Procurei ser o mais sincero possível. Pensei em nossos momentos juntos e que eu era a fim dele desde quando o conheci. Mas vontade de ter um romance com ele, me apaixonar, já?
Respirei fundo e esfreguei meus olhos quando concluí que a resposta também era não.
Por que não havia ninguém? Um nome para eu dar como prova de que eu podia, sim, ser capaz de sentir atração romântica por alguém?
Tirei os olhos da tela e olhei para cima, mesmo tendo muito mais conteúdo abaixo. Estava incomodado, sabia que aquilo aconteceria se eu decidisse pesquisar sobre o assunto e por isso eu o evitava tanto, mas uma hora eu precisava encará-lo; principalmente porque havia envolvido mais alguém nisso.
Eu não devia ter ficado com Charlie sabendo que ele poderia gostar de mim, mas o desejo foi maior — a porra da atração sexual era gritante para mim. E eu nem poderia me afastar mais dele, porque o que eu faria? Estávamos de quarentena.
Voltei a olhar para o notebook, pensando se eu deveria voltar a ler. Talvez houvesse alguma solução para isso, eu queria ver o depoimento de alguma pessoa. Contudo, também tinha medo de ser um relato tão similar ao meu e eu ter que encarar isso ainda mais.
Procurei outro link. Foi interessante achar definições diferentes, mas que faziam sentido. Aos poucos, minhas engrenagens mentais começaram a funcionar mais rápido.
"A arromanticidade define pessoas que possuem uma experiência romântica diferente das expectativas normais da sociedade, normalmente por sentirem pouca ou nenhuma atração romântica, mas também por sentirem aversão ao romance ou desinteresse quanto a relacionamentos românticos."
Lendo dessa forma, fazia mais sentido para mim. Continuei lendo até encontrar um artigo interessante chamado "Como saber se sou arromântico?". Eu acreditava nessas coisas tanto quanto acreditava quando o Google dizia que eu teria câncer, mas resolvi ler a matéria mesmo assim.
"Algumas pessoas arromânticas não querem encontrar um parceiro romântico, não se sentem entusiasmadas com a ideia de encontrar um, inventam desculpas para justificar o porquê de não estarem procurando um, e/ou sentem que isso é algo que estão sendo forçadas a fazer."
Ok, ok, parou por aí. Informação demais.
Fechei as abas e desliguei o notebook, só me dei conta de que meu coração batia rápido quando a tela ficou preta e prestei atenção no meu próprio corpo.
Por um momento, tudo ficou diferente. Olhei ao redor, mas sem focar em ponto algum, pois a batalha ocorria internamente. Parte de mim estava feliz por descobrir que o que eu vivia era comum para muitas pessoas, mas a outra parte estava dizendo que eu era maluco e não deveria me importar com isso. E daí que eu nunca havia me apaixonado? Não era para eu me incomodar.
Mas então por que me incomodava?
"Porque tu quer se encaixar num padrão ao invés do viadinho aceitar que tem uma comunidade que te representa", foi o que meu inconsciente falou e eu quis dar um soco bem dado nele, mas eu não podia bater em mim mesmo.
Ninguém me representava em nada não, eu hein. Eu não precisava disso.
Fechei o notebook irritado e cruzei os braços. Eu parecia até uma criança birrenta que não ganhou o que queria, a troco de literalmente nada.
Eu precisava de um cigarro, isso sim. Um de verdade. E álcool. Fazia tempo que eu não bebia pra valer, com Charlie eu sempre me controlava, mas ele estava dormindo naquele momento e eu precisava desligar um pouco minha mente para não surtar.
Procurei a garrafa de conhaque da Paloma e servi uma dose, ela ainda estava na metade. Virei o shot de vez e fechei os olhos, concentrado na reação do álcool mentolado descendo na garganta. Me apoiei na pia de granito da cozinha e enchi de novo o pequeno copo, e assim que tomei novamente guardei a garrafa, rumo à despensa de cima, onde ficavam apenas as compras que eu e Charlie fazíamos.
Encontrei a garrafa de tequila que o guri escolheu na última ida ao mercado, era uma bebida que eu considerava muito mais forte para ser tomada pura, mas era exatamente disso que eu precisava. Usei o mesmo copo e enchi até o topo, e quando senti a bebida incolor em minha boca fiz uma careta. Procurei um pacote de salgadinho e abri um de sabor pimenta mexicana para foder logo com meu estômago.
Coloquei um punhado na boca e peguei a garrafa de tequila colorida na mão. Fui até meu quarto e procurei por meu celular, que estava sem aplicativos instalados no momento. Havia uma mensagem antiga de Ricardo, meu advogado, falando sobre não ter data prevista para uma nova audiência, que foi ignorada. Instalei minha rede social outra vez e tomei outro gole direto no gargalo quando terminei de mastigar.
Eu não tinha mais contato com meus colegas de turma, sequer interagia nas aulas EAD. Recebia mensagens de Paloma algumas vezes, mas eu sempre dizia que estava tudo bem e a deixava falando sobre sua rotina cansativa. Meu último contato com minha mãe havia sido há uma semana, quando ela me pediu notícias e eu apenas avisei que estava tudo bem. Minha irmã não se lembrara de mim até então e eu também não iria atrás dela, e no final eu tinha um total de zero pessoas com quem conversar, por escolha própria mesmo.
Era bizarro pensar em como eu era tão diferente no início da faculdade. Sempre estava rodeado de gente, todo mundo me conhecia, mas foi só Max virar o jogo contra mim e sair por aí dizendo que o filho gay dele estava pecando e incriminando o próprio pai, que eu deixei de ser relevante para alguém.
Por isso, desinstalei o aplicativo antes mesmo de logar em minha conta outra vez. Aquilo fora só um surto momentâneo, eu não queria me expor e nem falar com alguém.
Dei outro gole na garrafa e abri a galeria, encontrei o vídeo que comecei a gravar com Charlie sobre o diário de quarentena que terminou com um beijo e Charlie... Bom, meio que me fodeu com os dedos. Assisti ao vídeo com um sorriso triste até o momento em que ele pediu para desligar a câmera.
As coisas não podiam ser mais fáceis?
Comecei a revirar minha galeria de fotos, surpreso em como havia tanta coisa. Aparentemente minha conta tinha um backup em nuvem, e como nunca troquei meu email, tudo ficava guardado. Meu susto foi grande quando vi uma foto do pós-operatório da minha mastectomia, há quatro anos. Era uma foto minha no espelho, sem camisa e ainda com os pontos. Eu me lembrava muito bem daquele dia: estava liberado de mexer meus braços e a primeira coisa que eu fiz foi tirar uma foto. As primeiras semanas foram difíceis, pois meu pai não gostava de cuidar de mim e minha mãe estava em Porto Alegre, e eu já morava em Esplendor, só não estava estudando ainda. Camila foi quem mais me ajudou na época, ela era uma boa companhia enquanto eu não fazia amigos na cidade, estava com medo de sair por aí depois de uma cirurgia que mostraria aos outros que eu era trans.
Sempre ficava me escondendo. Charlie foi bem mais corajoso do que eu na hora de se assumir.
Os sentimentos eram estranhos; longe daquele guri, eu sentia necessidade de reproduzir um padrão que sempre me serviu; mas quando ele estava perto, eu só ligava o botão de "foda-se" e era eu mesmo. Isso me deixava um pouco assustado, pois eu realmente podia ser autêntico com Charlie.
Ele era tão bom para mim, enquanto eu havia sido um merda.
Virei a cabeça para trás e abri a boca para despejar a tequila durante três segundos, e então bebi em um gole. Resmunguei pelo gosto amargo e apertei os olhos, minha cabeça girou. O efeito que eu queria estava começando a surgir.
Me levantei já um pouco tonto e fui devagar até a cozinha. Aquele copo de shot estava muito pequeno, eu precisava de um maior. Me lembrei do copo redondo e fundo de whisky que Paloma guardava no armário, e quando o encontrei pensei que se ela tinha o copo, poderia ter a garrafa também.
Comecei a tatear a despensa de baixo com dificuldade por estar ficando bêbado. Meus dedos tocaram em uma garrafa metálica e me sentei no chão para esticar meus braços. Quando trouxe para a luz, não era whisky e sim outra cachaça, não a reconhecia pelo nome; na verdade eu não conseguia ler o rótulo mesmo. Misturar conhaque com tequila não era uma boa ideia, afinal.
Abri a tampa, sentado no chão mesmo, e servi a bebida nova no copo maior. Tomei de uma vez e balancei a cabeça, agoniado com o sabor estranho e agridoce.
— Que porra é essa... — Fechei a tampa e guardei a garrafa de qualquer jeito na despensa. Eu tinha certeza de que Paloma guardava whisky ali, só precisava procurar.
— Jason? — Merda, Charlie acordou. Ele não podia me ver, eu estava sentado no chão da cozinha escondido por entre as prateleiras da despensa, o corpo esticado tateando por uma bebida nova.
Ouvi passos que pareciam vir do além, mas era Charlie se aproximando da cozinha. Devia estar vindo pelo barulho.
— Jason?
— Tô procurando whisky. — Era a resposta mais óbvia. — Paloma tem.
— Tu ficou bêbado?! Jason! — Ele correu até mim e senti suas mãos em meus ombros. — Por que tá fazendo isso?
— Bah, porque eu achei um copo de whisky, então tem whisky aqui, ué. — Dei de ombros sem olhar para ele, e então estiquei meu braço de novo para o interior da despensa.
— Não estou falando disso, idiota! Quero saber por que tu tá bebendo! Tu ficou mal com o que rolou?
— Que mal o quê, Charlie! E eu lá tenho motivo pra tá mal. — Resmunguei. — Achei! O whisky da Paloma!
Peguei a garrafa feliz e abri a tampa, mas Charlie deu um grito e tomou a garrafa de mim de repente.
— Ô GAROTO! ISSO É CLORO!
— Ah... — Pisquei varias vezes para tentar melhorar minha visão, mas não consegui e comecei a rir. — Tu é tão inteligente, Charlie Stewart!
— Meu Deus do céu, Jason, levanta comigo. — Ouvi o barulho da garrafa sendo colocada no chão e senti as mãos do guri em meus braços.
— Tu é tão legal comigo! — Sorri e beijei seu pescoço quando ele me abraçou pela cintura para andar comigo.
Eu não sabia por que estava rindo, mas tudo aquilo parecia bem engraçado. Ele me arrastou até a cama do seu quarto e me senti mais quente pela coberta.
— Quando você acordar, a gente vai conversar.
— É! — falei animado e terminei de me enrolar na coberta. — Tu tem que me contar o que que tu tinha na cabeça de falar que gosta de mim.
— Oi? — ele falou surpreso. Tentei abrir mais os olhos e vi um esboço do Charlie sentado do meu lado, na cama. — Então é por isso que tu tá assim?
— Ei! Por que eu tô deitado? — Me dei conta de onde estava. — Eu não quero dormir!
— Vai dormir, sim! E eu vou dormir no outro quarto.
— Não! — Tirei meu braço de baixo da coberta e o peguei pelo pulso. — Dorme comigo, nenis!
— Ai, meu Deus, eu vou apagar a luz então.
— Nenis, nenis, nenis... — cantarolei feliz porque Charlie ia dormir comigo. Ele se levantou e apagou a luz, então se deitou do meu lado.
— Pronto, tá melhor assim? — Ele se deitou do meu lado e se ajeitou para ficar abraçado comigo.
— Qual o nome daquele guri?
— Quê?
— Aquele guri lá, do Jimin.
— Tu é muito aleatório. — Ouvi sua risada, o que me deixou mais feliz. — O Jungkook?
— Jung... Kook. Viu? Não tô bêbado, sei falar Jungkook.
— Tá bom, meu amor, parabéns. — Ele tocou meu rosto e fez um carinho. Fiquei mais feliz e abracei seu corpo.
— Pena que a gente não pode namorar, Charlie Stewart. — Minha voz começou a sumir, senti um sono repentino.
— É uma pena?
— É, porque tu é panromântico e eu não. — Mexi meu nariz e apoiei minha cabeça na dele, dando um bocejo fraco em seguida.
— E tu é o quê?
— Arromântico, né, eu hein. — Me remexi na cama, mais para lá do que para cá no mundo real. — É cada pergunta besta. Nenis, nenis, nenis, nenis...
— Boa noite, Jason.
— Nenis, eu sei falar Jungkook...
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