Capítulo 25

"Nós não dizemos muito
E isso diz muito."

O som de chamada de vídeo ecoou pela sala, então Charlie abriu um enorme sorriso na câmera ao ser atendido.

— João!!! — ele falou emocionado o nome do amigo, que gritou um "oi" escandaloso. Eu estava na mesa de jantar respondendo um questionário online pelo notebook de Charlie enquanto ele fazia uma videochamada com o amigo recém saído do hospital.

— Me conta como tu tá se sentindo! Foi muito ruim ficar lá?

— Que que tu acha, guri? Foi péssimo! — João soltou uma exclamação exagerada na ligação. — Mas falando sério, Lee, eu acho que minha família só aguentou bem isso tudo porque a gente tem plano de saúde. O SUS já tá quase todo ocupado, daqui a pouco os hospitais particulares também vão parar.

— Eu ainda acho isso de SUS meio confuso, é tipo um hospital gratuito, né?

— Por aí, ele se sustenta com dinheiro público, mas esses infelizes desviam o dinheiro e aí o daqui de Esplendor tá um caco! Vi uma notícia de gente que tá sendo atendida no meio do corredor!

Fiquei notando escondido como Charlie reagia às informações do amigo. O ex-morador da Carolina do Norte continuava impressionado com o sistema de saúde pública brasileiro, mesmo já morando há alguns anos aqui.

Os dois conversaram por mais uns minutos, mas João avisou que iria desligar para cuidar do pai, que ainda não estava totalmente com energia depois de passar tantos dias internado. Eles encerraram a ligação e Charlie parecia pensativo, olhando para o celular desligado.

— Charlie? — Chamei sua atenção e ele ergueu a cabeça para me ver. — Tu tá há quanto tempo no Brasil?

— Hum... — Ele franziu as sobrancelhas e fez a conta mental. — Três anos.

— Mentira! Só isso?

— Tu achava que fosse mais?

— É que tu já fala igual eu tão bem que parece que sempre viveu aqui!

— Pois é, acho que sempre gostei de te copiar. — Ele sorriu timidamente e voltou a olhar para o celular, desbloqueou sua tela. — Eu gosto de morar aqui. Tenho até CPF e RG.

— Se depois de três anos aqui não tivesse, seria estranho também. — Fechei a aba do questionário por ter concluído sem me preocupar muito com o gabarito. — E CNH?

— O que é isso?

— Carteira de motorista.

— Ah, sim, não tenho. Tu tem, né?

— Tu acha que ando de moto como?

— Humf, grosso. — Charlie bufou irritado e ficou deslizando o dedo pelo celular. — E por que tu não tá usando ela? A gente sempre sai a pé.

— Se eu andar com ela, uma hora vou ter que abastecer e vai ser mais um lugar pra pôr a gente em risco. — Desliguei o notebook e me lembrei da foto recebida no dia anterior. Eu queria contar para Charlie, mas do jeito que o guri era neurótico iria ficar mais surtado do que eu. Talvez se eu passasse um bom tempo sem sair de casa, a pessoa desistisse de ir atrás de mim.

Era a teoria mais falsa, porém mais fácil de se acreditar também, só para dormir com a consciência tranquila. Mesmo assim, aquilo ainda me intrigava demais.

Me levantei e deixei o notebook fechado em cima da mesa, Charlie fez o mesmo, mas percebi que o celular em sua mão estava com a câmera frontal aberta.

— Aqui! A gente acabou não terminando de gravar isso. — Ele estendeu o celular para nós dois e apertou o botão do play. Estreitei meus olhos e o guri passou o braço pelos meus ombros para me deixar mais perto. — Esse é nosso primeiro diário de quarentena, agora é oficial! Vamos gravar até o final e Jason não vai me beijar no meio do caminho, não é, Jason?

Revirei os olhos, o que foi registrado pela câmera. Charlie comprou mesmo a minha ideia, no fundo eu estava surpreso.

— Sim, senhor. — murmurei irritado.

Até parecia que eu tentava beijá-lo em qualquer oportunidade, eu — ainda — não estava nesse nível. Fala sério, eu tinha um pouco de decência guardada dentro de mim.

— Tem que registrar a data, né?

— Bah, né, meu, é um diário. — Cruzei os braços e dei de ombros.

— Tá, então meu nome é Charlie Stewart e esse é o Jason... Matias, né?

— Prefiro Albuquerque.

— Jason Matias! — Ele ignorou meu comentário completamente. — São três e meia da tarde do dia 23 de Abril e estamos há pouco mais de um mês de quarentena! Quando foi que ela começou aqui mesmo?

— Dia 13 ou 15 de Março, não lembro.

— É, por aí! Agora vou mostrar como estão as coisas por aqui.

Durante os minutos seguintes, Charlie passou com a câmera pela casa falando sobre nosso dia a dia. Explicou como era sair de casa protegido, como lavamos as coisas que compramos e o que ele fazia no tempo livre. Eu não era mais importante para a filmagem, então me sentei no sofá e abri um jogo de tiro no meu celular.

— E esse aqui é o motivo dos meus surtos, eu sou tão pan que isso tá dentro da palavra panic. — Senti Charlie próximo de mim de novo e me surpreendi quando vi que ele estava apontando para mim. A câmera foi invertida para a traseira e ele me filmava. — Diz oi de novo!

— Eu sou o motivo dos seus surtos por quê? — Perguntei com um sorriso, meu jogo ficou pausado para prestar atenção em algo muito melhor: Charlie Stewart.

— Porque às vezes eu quero te bater, em outras eu quero quebrar essa casca que tu tem e descobrir mais sobre ti para ver se no fundo tu é só um neném, e às vezes quero te jogar na parede e tirar sua roupa, mas essa ultima parte é só às vezes mesmo.

— Se tu diz... — Deitei minha cabeça no estofado do sofá e fiquei olhando para ele, que tocou duas vezes na tela e migrou a gravação para a câmera frontal novamente.

— Agora vou contar um segredo: aquele guri ali sentado, o Jason, queria me pegar há muito tempo.

— Charlie! — Gritei e peguei uma almofada no sofá para jogar no meliante, mas ele saiu correndo com o celular na altura do rosto em direção à cozinha, eu ainda podia ouvi-lo falar no vídeo.

— Ele já me deixava nervoso quando a gente estudava junto, sabe, mas eu não era pervertido igual ele não, a gente era próximo mas ele tinha uns pensamentos impuros que eu só fui descobrir depois...

— Mas que mentira!!! — Joguei a almofada e por pouco não acertei ele, pois a bancada da cozinha que dividia os cômodos o protegeu.

— Aí agora que a gente é obrigado a passar a quarentena junto, ele quer ficar comigo o tempo todo. Será que ele tá carente ou com tesão demais por mim? — Ele sumiu de vista e me levantei às pressas, indo atrás dele.

— Tu é um desgramado, isso sim!

— Acho que ele merece uma chance, não merece? O que tu acha, Jason?

Charlie já estava me gravando de novo, achando graça daquela situação. Ele sorria com diversão para mim, se aproveitando de que eu parei perto dele e fiquei o encarando. Coloquei minhas mãos na cintura e semicerrei os olhos.

— É sério isso?

— Olha lá o que tu vai responder, tchê, eu tô gravando... — Ele abaixou um pouco a altura da câmera e se aproximou de mim. Seu sorriso diminuiu e seu olhar se tornou mais firme sobre o meu. A câmera continuava gravando, de um ângulo torto.

Charlie ficou perto o bastante de mim para me desconsertar e me deixar ansioso. Aquela mudança de humor foi rápida demais, o clima já estava outro e outra prova disso foi seu sotaque acentuado quando ele voltou a falar, dessa vez mais baixo.

— Seja um bom garoto comigo e responda minha pergunta. Acha que merece uma chance? — Ele pendeu a cabeça para o lado e deu aquele sorriso atrevido tão estranhamente familiar que quis xingá-lo por ser daquele jeito.

Ele tinha o mesmo sorriso que o meu, quando o provocava na época da faculdade.

Charlie jogava sujo demais comigo.

Dei um passo para frente, mas ele deu outro para trás. Outro golpe baixo.

Respirei fundo.

— Tá, Charlie, eu acho que mereço, sim. — Tentei soar indiferente, mas meu rosto me entregou quando esbocei uma reação rápida de desapontamento ao ver ele se afastando ainda mais. Contudo, percebi que ele só havia levantado o celular para falar na câmera de novo.

— Eu vou encerrar por aqui dessa vez, porque ainda é cedo pra gravar outros tipos de coisa.

Arregalei os olhos, desconfiado do que ele queria dizer com aquilo e incrédulo com a possibilidade de ser o que eu realmente pensava.

Mas não tive tempo para raciocinar ou perguntar a ele o que queria dizer, porque mais uma vez seus lábios tomaram os meus e a distância que nos separava acabou tão rápido que só me deu tempo de suspirar entre o beijo e envolver seu corpo com meus braços, mais uma vez impressionado em como tudo aquilo estava tão confuso: nossas conversas, olhares, os toques e provocações, além dos beijos inesperados e cada vez mais constantes, que já possuíam um sabor familiar de tanto que eu gostava de beijá-lo e de como havia me acostumado com isso tão rápido.

Nada estava fazendo mais sentido — mas ao mesmo tempo, tudo parecia se encaixar perfeitamente bem. Era assustador, mas eu não podia evitar, não mais.

Tô atualizando muito rápido? 👀

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