Capítulo 24

Já se recuperaram do cap bônus do Charlie? Pq eu não k

"Eu posso continuar aqui se você me der um motivo." — Falling to pieces, Marshmello

2020.

Liguei o cigarro e puxei seu vapor, despreocupado de fazer isso dentro de casa por saber que, sendo eletrônico, a fumaça que saía dele era apenas vapor de água com um pouco de nicotina.

A princípio, eu iria me sentar na mesa de jantar, mas quando arrastei a cadeira Charlie virou o rosto para mim e sua fala interrompeu minha ação.

— Senta aqui.

Seu tom de voz saiu normal, mas mesmo assim me fez lembrar que há pouco mais de cinto minutos ele já havia mandado em mim como se pudesse me dominar ou algo do tipo. A contragosto, fui até o sofá e me sentei ao seu lado, sem olhar para ele, e puxei o vapor mais uma vez.

— Fala. — Fechei os olhos e senti meu maxilar doer.

— Tu tá irritado?

— Não.

— Então por que parece que tu tá?

— Tu que mudou de repente, eu só fui no banheiro. Já se arrependeu, foi? — Sorri com cinismo e levei o cigarro metálico à boca de novo.

— Não. — Sua resposta me surpreendeu. Notei que ele se mexeu no sofá e se sentou de frente para mim, mas continuei parado. — Tu pode olhar pra mim enquanto fala comigo?

— Pode falar, tô te ouvindo.

— Mas quero te ver.

— Tu já tá me vendo.

— Olha pra mim, Jason. — Sua voz ficou mais firme e minha respiração falhou. Filho de uma puta desgraçado que sabia o efeito que causava em mim, eu não devia ter deixado ele saber disso desde o início.

Relutante, me mexi no sofá até ficar de frente para ele, sentado em uma das minhas próprias pernas enquanto a outra continuou para fora. Puxei o cigarro mais uma vez e soltei o vapor na sua cara de desaforo, Charlie fez uma careta pela fumaça morna e sacudiu a cabeça, comecei a rir.

— Melhor agora, dono? — falei com deboche e Charlie estreitou os olhos para mim.

— Nada de piadas agora.

— Por que não? É a melhor forma de levar isso. — Rodopiei o cigarro entre os dedos. — Eu não conhecia esse lado teu, tô curioso pra ouvir a história por trás. Pode começar.

Charlie se mexeu no sofá, ficou inquieto de repente. Enquanto isso, eu aproveitava para reparar em como o miserável estava bonito depois de tê-lo beijado, com a boca ainda levemente inchada e os cabelos desarrumados, e ainda vê-lo literalmente mandando em mim durante uma cena daquelas, que com certeza não sairia da minha cabeça por um bom tempo. Foi totalmente inesperado, mas eu seria mentiroso se dissesse que não gostei.

— Quando eu descobri que era demi, tentei fingir que isso não era importante e que eu poderia viver minha vida pegando várias pessoas sem precisar sentir atração. — Ele começou a explicar e passei a prestar atenção. — Sempre fui ativo e sempre usei packer nessas horas, tu sabe que a gente pode ficar "duro" sem realmente estar.

— E como sei. — sorri e traguei o cigarro, dessa vez levando o vapor para outra direção.

— Nunca me importei em sentir prazer, se a pessoa sentisse já estava tudo bem. Era assim que eu ficava.

— Tu pegou muita gente em Porto Alegre?

— Eu fiquei meio carente...

— Mas tu nem te satisfazia, como isso adiantava?

— Me ajudava a ser mais confiante, pelo menos. — Charlie deu de ombros. — Antes, era Samantha quem sempre me dizia o que fazer, depois dela cansei disso e comecei a ser... O que tu viu hoje.

— Começou a ser mandão. Eu notei, Sr. Grey.

— Piada aqui não, Jason! — Ele resmungou alto e deu um tapa em minha coxa descoberta pela bermuda, olhei arregalado para ele, mas com a expressão cômica.

— Ei! Já tá me batendo?! Na próxima tu vai me algemar na cama?!

Charlie não conseguiu segurar o riso com meu comentário e se soltou em uma gargalhada. Fiquei aliviado por ver que consegui deixar o clima mais leve, mesmo com comentários tão ridículos.

— Para com isso, Jason! Eu não sou assim! Quer dizer, não nesse nível. Bah, tu tá me deixando nervoso de novo! — Ele cobriu o rosto com as mãos, ainda rindo.

— Foi mal por ser tão idiota, guri, eu só queria que tudo ficasse bem entre a gente. — Desliguei o cigarro e levantei meu braço no sofá. Charlie mostrou o rosto de novo e me viu inclinar a cabeça em direção ao espaço do meu lado.

Por fim, respirou fundo e se aproximou de mim, meu braço ficou atrás de seu corpo e minha mão mexeu em seu cabelo. Seu rosto ficou deitado no vão entre meu pescoço e notei sua respiração rápida.

— E se isso não der certo? — Ele perguntou baixinho. Estava vulnerável de novo.

Não respondi de primeira, fiquei pensando nas possibilidades. Na melhor das hipóteses, eu e Charlie continuaríamos sendo... Não sei se amigos seria a melhor palavra, mas ainda estaríamos bem depois da quarentena. Na pior das hipóteses, eu seria um babaca que iria magoá-lo e ele passaria a me odiar depois.

Eu tinha consciência de que a chance da segunda opção acontecer era alta.

— Se eu te fizer mal... — falei com um incômodo, sabia que isso era possível. — Tu tem o direito de não falar mais comigo e me xingar pelo resto da vida.

— E se der errado enquanto a gente ainda estiver de quarentena? — A mente de Charlie deveria estar com mil perguntas, perturbando sua paz. Eu queria ter a resposta para todas elas.

— Não vai demorar tanto assim.

— E se demorar? — Ele perguntou de novo. Virei minha cabeça e beijei sua testa, tentando acalmá-lo.

— Aí a gente dá um jeito de resolver, mas não pensa que a quarentena vai demorar... Uma hora isso tem que acabar.

Eu estava concentrado tentando decifrar a senha na tela do caixa 24 horas.

Charlie e eu fomos ao mercado de novo e quando encontrei o cartão de poupança que meu pai havia feito para mim, decidi descobrir a senha. Eu queria começar a ajudar nas compras e não era justo que Charlie bancasse quase tudo só porque ele continuava recebendo salário.

— Já tentou seu aniversário? — Ele falou baixo perto de mim, a máscara deixou sua voz abafada.

— Já, e o dele também, nenhum foi. Se eu errar de novo, vai bloquear.

— Tem alguma pessoa importante que ele usaria o aniversário?

— Posso arriscar o da minha irmã, mas tô com medo.

— Tu tem outra ideia?

— Não.

— Então tenta essa mesmo.

Respirei fundo e digitei os números 1608. Alguns segundos se passaram e a tela de transferência apareceu.

— Foi!!! Caralho! — Me controlei para não gritar e assustar as pessoas que passavam por lá. Charlie bateu palmas silenciosas e soltou uma exclamação baixa ao ver o valor na tela.

— Seu pai juntou 56 mil reais pra você?!?!

— Pouco comparado ao que ele ganha. — Balancei a cabeça, feliz ao extremo. — Tá pedindo uma conta pra fazer a transferência... Me dá teu cartão!

— O meu? — O guri tateou os bolsos do casaco e entregou seu cartão de débito para mim. — Cuidado, recebo meu salário aí.

— Eu só consigo movimentar cinco mil por vez, vou passar pra tua conta.

— O quê? Cinco mil? Tá maluco, Jason!

— Fica quietinho, vai, a gente vai usar junto essa grana e tu pode até fingir que é meu sugar daddy.

O comentário deveria ser uma leve piada, mas em vista dos últimos acontecimentos há três dias eu não sei por que merda eu ainda estava surpreso ao sentir a mão de Charlie passando em minha cintura e seu rosto bem próximo do meu. Ainda bem que estávamos de máscara, senão ele me veria vermelho.

— Tu gostou mesmo de me ver mandando em você, deve ter passado esses três dias só pensando nisso e querendo de novo, não é?

Segurei o caixa eletrônico e respirei fundo, tentando prestar atenção na tela que indicava que a transferência foi concluída e se eu queria a impressão do comprovante. Quando ergui o indicador para clicar na tecla verde e confirmar, notei como eu estava tremendo um pouco pela tensão de ouvir Charlie falando aquilo.

— Te odeio. — murmurei para ele e entreguei seu cartão, sem olhar em seus olhos.

— Let'go, baby! — Ele deu um pulinho e me arrastou pela mão até o interior do supermercado, nem parecia o mesmo que me falou aquilo ao pé do ouvido de forma tão pervertida.

Charlie não valia um centavo.

Pegamos um carrinho e aproveitamos o dinheiro na conta para comprar, pela primeira vez na quarentena, qualquer coisa sem precisar olhar o preço. Nos sentimos dois milionários momentaneamente e Charlie até escolheu uma garrafa de whisky e outra de tequila, o vagabundo realmente gostava de beber como eu. Também compramos pizza congelada, massa de bolo, chocolates, salgadinhos e mais um monte de coisas, mas também passamos nas seções saudáveis para não ficar de consciência pesada.

Na hora de ir até o caixa, Charlie colocava os produtos na sacola enquanto eu os tirava do carrinho. Notei que o guri no caixa reparava em Charlie o tempo inteiro e eu podia rir sem ser notado pela máscara, pois era claro como ele era alheio aos olhares que recebia, totalmente inocente.

Mas meu sorriso se desmanchou na primeira fala do caixa para ele.

— Vai querer o CPF na nota, senhorita?

O maldito erro de pronome. Charlie não era passável para outras pessoas, mesmo para mim ele sendo claramente um garoto, eu não sabia como alguém podia errar. Sua voz não era tão fina assim, as fitas em seu peito o deixavam relativamente reto no peitoral e ele usava roupas folgadas, mas ainda não era o padrão masculino que os outros esperavam.

Eu queria rebater, mas Charlie falou antes de mim.

— Não, obrigado, e eu sou um guri.

— Ah! Desculpa, desculpa. — O caixa ficou vermelho e só falou de novo no final da compra, na hora de perguntar a forma de pagamento.

Com dificuldade, conseguimos colocar todas as sacolas nos nossos braços e andamos rápido até em casa para tirar logo aquele peso todo. Charlie ficou calado durante o trajeto, parecia concentrado nos próprios pensamentos e não quis incomodá-lo.

Quando chegamos, levamos as sacolas direto para a área de serviço e foi um processo demorado limpar cada um dos itens antes de guardá-los. Até as sacolas plásticas eram limpas e penduradas no varal do lado de fora, para usarmos depois. Em seguida, cada um tomou banho e usou roupas novas e limpas, era nossa rotina de saída para evitar ser contaminado.

Eu estava organizando as coisas no armário quando Charlie chegou na cozinha, de cabelo molhado assim como eu do pós-banho. Passou por mim e foi para a área de serviço pendurar a toalha, mas fiquei em sua frente antes que ele saísse da cozinha de novo.

— Ei, tu tá quieto desde o mercado. Foi por causa daquele cara?

Charlie suspirou e virou a cabeça para o lado.

— Só tô meio cansado de sempre ter que corrigir as pessoas, ficar aqui contigo é mais fácil, eu já tava me acostumando a não ter que consertar ninguém, aí quando saio isso acontece...

Ele coçou a cabeça, desconfortável. Levei minha mão até sua nuca e massageei o lugar, sentindo-a molhada pelo cabelo escorrendo água. Charlie fechou os olhos e fez um barulhinho tão baixo e fofo que parecia até que estava ronronando.

— Tu É um guri, muito bonito, ainda. As pessoas que colocam expectativas demais no que é ser um homem, mas tu não é obrigado a corresponder isso. Continua sendo um homem.

— Valeu. — Ele olhou para mim e sorriu seu mostrar os dentes, era um sorriso fraco e que não se sustentou. Então, ele ergueu mais o rosto para ficar com a boca perto da minha e me beijou.

Eu sentia que ia explodir toda vez que ele fizesse isso, mesmo sendo só a segunda vez que Charlie tomava a iniciativa de me beijar. Contudo, não foi um beijo quente e desesperado como da outra vez; foi leve, um roçar dos seus lábios nos meus que durou alguns segundos e acabou.

Meu coração batia rápido, eu queria mais. Não podia acabar ali. Me dei conta de como Charlie me dava tesão pra caralho fazendo absolutamente nada demais.

Sem dar tempo a ele de se afastar, o puxei para perto de mim de novo e foi minha vez de beijá-lo, mais intenso. Se dependesse de mim, eu faria isso o tempo inteiro, porque sua boca era gostosa demais e sua mudança de comportamento repentina me deixava eufórico para saber do que ele era capaz de fazer, até onde o seu limite acabava e sua vergonha aparecia, até que ponto ele iria comigo enquanto estávamos longe de tudo, sem olhares de julgamento ao nosso redor.

Charlie pressionou seu quadril no meu e eu gemi em sua boca ao sentir que o desgraçado estava de packer. Foi uma sensação completamente nova e ele percebeu isso, pois me empurrou para a parede da cozinha e, enquanto me beijava, começou a movimentar seu quadril em direção ao meu.

— Charlie, Charlie! — Interrompi o beijo e ele piscou vários vezes, como se também tivesse saído de um transe. — Meu Deus, a gente tá igual dois pervertidos! Cacete! Tu realmente tá de boa com isso? Tu tava triste há menos de um minuto atrás!

Minha frase deveria ter saído assustada, mas eu estava rindo. A situação chegava a ser engraçada, éramos dois retraídos um com o outro há poucos dias e agora quase íamos transar na cozinha da Paloma. Minha amiga iria surtar se soubesse.

— Eu... Nossa, acho que perco o foco quando tu me beija. — Ele enrugou a testa ao franzir as sobrancelhas, o que achei uma graça. Charlie estava mesmo confuso e pensando sobre a situação.

— Vou fazer a janta hoje, pode ir vazando! — falei ainda rindo e dei um selinho no guri, que piscou assustado novamente. — E depois tu me explica essa história de tá usando packer, parece até que quer me foder. — Fui até o armário e peguei o pacote aberto de arroz.

Charlie passou por mim aos risos e deu um tapa alto e forte em minha bunda, quase derramei o pacote na pia de tanto rir susto. Esse guri ainda ia me matar do coração.

Coloquei um copo de arroz no escorredor próprio para lavá-lo, quando o celular em meu bolso vibrou. Havia uma mensagem desconhecida e quase o derrubei no chão pelo susto ao ver a porra daquela foto na tela do meu aparelho.

Eu e Charlie no caixa eletrônico do supermercado, no momento em que ele estava com a cintura ao redor de mim. A foto não tinha a qualidade muito boa, pois foi tirada de longe e estava com zoom.

"É esse o guri que vai depor a favor de ti? Tu é uma vergonha, mesmo."

Ler aquela mensagem fez meus dedos tremerem e guardei o celular na mesma hora, com medo. Tantas perguntas se passaram em minha cabeça, mas eu não queria expor nenhuma delas. Precisava raciocinar, ligar para meu advogado, pensar em quem havia me mandado aquilo e como tinha meu número, mas principalmente, precisava parar de sair de casa.

Alguém estava me vigiando.

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