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— Como conseguiu achar o uncoded tão rápido?

Cris abordou o assunto quando os três estavam no refeitório da delegacia. Ao contrário da sala de simulação, o local era compacto com três mesas e uma área pequena para receber as pratos da cozinha em uma única fila — mesmo uma cidade grande não costumava ter mais do que dez policiais em cada turno, e o espaço também era compartilhado com os dois cozinheiros responsáveis.

— Eu só... olhei? — Sara respondeu e abocanhou um pedaço de frango garfado do prato.

— O Daniel falou que você também fez parte da pesquisa sobre o harmínion.

— Ah... Sim. — Ela engoliu com esforço, tentando agir com normalidade perante a mudança repentina para aquele assunto inesperado.

— Como foi? Não tinha medo?

— Não. Por que eu teria? — Pelo que indicava o cenho franzido e o tom de desafio da jovem, Cris precisaria ser cauteloso com a resposta.

— Porque tinha um... harmínion...?

— E o que é que tem? — A reação dela fez Cris transformar a afirmação em incerteza; ela apenas não ergueu uma sobrancelha por ser incapaz de realizar essa expressão, mas o olhar fixo no policial sentado à frente era intimidador o suficiente para afastar qualquer um que tivesse assistido a performance dela na sala de simulação.

Daniel cogitou se deveria intervir ou não. Sentia-se impelido a interromper a conversa e evitar o desconforto de Sara, por outro lado, tinha interesse em saber o quanto o projeto ainda a assombrava depois de tanto tempo e tantas possíveis mudanças de perspectiva que acontecem durante o crescimento.

— É que... era um harmínion. — Cris esboçou um sorriso nervoso. — Que nem nas lendas pra botar medo nas criancinhas.

— Você é criancinha? Tem medo dessas lendas?

— Não. — Ele lambeu os lábios, já ciente de que perderia outra batalha contra as primeiras impressões. Quando passou do limite antes, na sala de simulação, acreditou que o motivo foi por ter cutucado o mesmo trauma de Daniel quanto ao ataque do harmínion em Elephant Stone, porém este parecia ser um caso diferente e ainda indecifrado. — Mas ele matou duas pessoas, não foi? — A curiosidade de Cris vencia o bom senso na maioria das vezes.

Sara abaixou a cabeça e encarou a comida. Os polegares de ambas as mãos se esfregaram nos outros dedos. Levantou a cabeça, mas antes que jogasse outro argumento — rude, talvez —, foi surpreendida por uma pergunta de Daniel:

— E o Dr. Crow? Como ele está? Parece que ele sumiu do mundo.

De imediato, a jovem abandonou a implicância e trocou a feição incomodada por uma desapontada.

— Ele só fala comigo por mensagens... quando fala. — Voltou-se para Daniel que estava sentado ao lado de Cris. — Acho que ele nunca se recuperou da morte do Low.

Daniel nem teve tempo de descer o olhar em demonstração de pesar quando duas pessoas, vestidas com o uniforme da polícia, aproximaram-se roubando a atenção dos três.

— Parece que a novata já se adaptou — disse a mulher que acabara de chegar. Era difícil definir a intenção pela voz; o que parecia sugerir uma brincadeira apresentava, ao mesmo tempo, um tom sério e pedante. Acima do rosto austero dela, o cabelo curto era organizado em dreads intercalados com uma tintura azul vibrante e o preto natural.

— Quer dizer que agora eu não sou mais o novato? — comentou Cris, tentando levantar o astral na mesa apenas para ser ignorado.

— Chefe de polícia Megan? — questionou Sara.

— Sim.

— E o Derrick eu já conhecia.

O homem ao lado de Megan assentiu uma vez com a cabeça. Rigidez era a palavra que o definia. Derrick transformava em regra qualquer movimento e o único detalhe desorganizado na vida dele era o cabelo espetado. Ainda usava os óculos escuros que sempre o acompanhavam nos ambientes externos quando não estava de capacete.

— Parece que já teve a primeira missão holográfica de acordo com a notificação que recebi — disse Megan, cujos olhos cobravam uma confirmação.

— Sim, chefe — respondeu Sara com polidez.

— Esquece o "chefe", garota. Eu só espero um bom trabalho vindo de você. Se for coração mole como o seu amigo aqui, daremos um jeito. — Deu dois tapinhas no ombro de Daniel, que esboçou um sorrisinho encabulado.

— Que nada, Megan! Ela detonou na primeira missão! Cê tinha que ver! — Cris esbanjou entusiasmo.

— Vou dar uma olhada no vídeo mais tarde. Concentre-se nos ensinamentos desses dois, Sara; este é o seu momento de focar no treinamento antes de entrar na ativa. Se precisar de alguma coisa, pode falar com qualquer um aqui além de mim.

— E o Matias, Megan? — indagou Cris.

— Recolhemos o depoimento, encaminhamos para a reabilitação e solicitamos a ordem de restrição.

Com a ordem de restrição, o code emitiria um alerta para a polícia e o cônjuge do acusado caso o transgressor desrespeitasse o limite imposto de distanciamento mínimo da vítima.

— E o marido dele? — Daniel sempre priorizava as notícias sobre a vítima; era algo que Megan reparara já nas primeiras semanas de serviço dele. — A cozinha ficou uma bagunça.

— Um assistente social já está acompanhando ele, fique tranquilo. Mais alguma coisa?

Megan analisou as faces dos policiais, demorando-se em Sara por último. Como ninguém se manifestou...

— Então vou indo. Quero finalizar o relatório do depoimento antes de almoçar. — Virou a cabeça na direção de Derrick. — Se quiser já ficar aqui e almoçar...

Porque ele também permaneceu em silêncio e com a postura resoluta de quem aguarda ordens, a chefe de polícia se deu por satisfeita e ambos deixaram o refeitório ao som de passos sincronizados.

— E aí? O que achou da Megan? — perguntou Cris, encarando Sara.

— Eu acho que não consigo formar uma opinião tão rápido assim... aliás, acho que nem dá pra fazer isso com menos de um dia de convivência.

— É um alívio saber disso. — Ele moveu o braço para limpar um suor imaginário da testa. — Temos a tarde livre, então o que acha de refazer a missão do jeito certo?

— Ué? Não queriam ver a minha mira? Me ensinaram a forma errada só por que queriam saciar a curiosidade e fazer uma aposta? — Ela se inclinou para frente, colocando um braço sobre o outro na mesa, empurrando a bandeja e encurralando Cris a cada palavra.

— É... acho que eu disse que a melhor resolução é abordar o uncoded e convencê-lo a se entregar. — Ele hesitou na resposta enquanto tentava se lembrar se realmente compartilhara a informação.

— Você não especificou que essa era a melhor resolução. Mas como se convence um jogo de computador? Quais os argumentos que ele aceita? Acho que o meu método foi o mais efetivo pra esse caso porque não tem como algo irreal ressentir pelo que eu fiz e a minha solução foi rápida.

— Esse é o significado da simulação. Cê tem que acreditar que a situação é real pra aprender a reagir dependendo das consequências. Não é uma questão de resolver o mais rápido possível.

Sara mirou Cris com olhos carregados de uma ousadia que premeditava a provocação.

— Melhor recomeçar seguindo a ordem correta das simulações; nada de pular etapas. — Ainda que entretido pelo embate, Daniel resolveu acabar com a discórdia.

— Ok. — Sara assentiu para ele antes de retornar à tarefa de alvejar Cris. — Fica tranquilo, só tô pegando no seu pé. Posso tentar a solução diplomática outra hora. — Cutucou o resto do frango com o garfo, o semblante desmotivado. — Na vida real é mais assustador. Não tem como voltar ou tentar de novo, e às vezes não dá tempo pra pensar antes de agir.

A melancolia da jovem, camuflada por uma reflexão despretensiosa, embrulhou o estômago de Daniel. Entendia que Sara discursara para si, mas se comparasse... Conhecia pelos menos duas situações em que ela executara ações e decisões melhores que as dele. Foi desconfortável ouvi-la descrevendo-as como assustadoras quando agira com tamanha coragem que poderia confundir com frieza enquanto ele parecia feito de expectativas que nunca se cumpriam. Não podia continuar permitindo-se fraquejar quando os ideais eram postos à prova.

Entrar para a polícia foi o caminho que escolheu para compensar os erros, mas, depois de tantos anos, deixou de ser o suficiente. Estava esperando para se mover somente quando a ajuda fosse necessária ao invés de colaborar ativamente na causa em que acreditava. Não duvidava que, pelo menos nesse ponto, Sara também estava aguardando o tsunami no mesmo barco que ele.

Enquanto refletia, as pupilas se guiaram de modo aleatório para o espaço na mesa entre as bandejas dos três policiais. A visão da pena de vidro voltou a assombrá-lo naquele ponto. Antes que questionasse os outros se também a viam, ele piscou e a pena sumiu mais rápido daquela vez do que das outras.

Naquela época, ainda tinha a ingenuidade de pensar que era apenas coisa da cabeça.

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