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No quartel da polícia localizado nos fundos da delegacia, a sala de simulação era o local preferido de Cris. Jogos de realidade virtual eram comuns e divertidos, é claro, mas aquela sala servia para treinamentos da vida real; um recurso para melhorar as habilidades exigidas da profissão como se fosse um jogo, praticar diversas situações até decorar as estratégias e aumentar a taxa de sucesso quando fossem chamados para uma missão.
O chão da sala era revestido por uma camada acolchoada azul, bem como a maioria dos equipamentos. Havia desde rampas e portas até paredes de escalada e barras paralelas complementando a pista de obstáculos, tudo cercado por barreiras que lembravam um labirinto de meio metro de altura.
Do alto de um mezanino, Daniel assistia ao treinamento de Cris, que usava um capacete cobrindo metade do rosto e tinha uma arma de plástico guardada em um coldre preso à cintura. Assim como aconteceu na apreensão de Matias, o desligamento do code era suficiente para tratar os casos de resistência, porém, em casos raros de perseguição a um uncoded, o porte de arma era liberado apenas para os policiais da unidade especial ECNR com forte recomendação de evitar o uso ou, em situações de extrema urgência, um tiro letal.
Através dos óculos escuros integrados ao capacete, Cris enxergava muito além dos detalhes simples dos equipamentos na sala. Uma película virtual cobria os obstáculos com o disfarce de latas de lixo, bancos de aço e até uma praça, enquanto as barreiras se camuflavam de lojas e casas maiores do que as estruturas reais.
O nome e a idade de cada adulto e criança fictício que caminhava pelo cenário apareciam etiquetados no peito e alto das costas de seus donos.
Cris estava imóvel e alerta próximo a uma sorveteria de mentira. Mesmo ciente de que aquelas pessoas não eram de carne e osso, ele tinha motivos para não desembestar à procura pelo alvo — o sistema emitia alertas se o policial causasse pânico desnecessário à população de pessoas virtuais e poderia exigir uma reeducação do profissional em caso de reincidências.
Atentando-se às etiquetas de nomes virtuais e controlando a ansiedade, ele já observava por um tempo as pessoas que aproveitavam o fim de semana inexistente. Reparou em um homem atravessando a rua na direção da praça — talvez tivesse desviado o caminho ao ver um policial ali — e a falta de um nome marcado nas costas da blusa social branca dele foi a prova de que era o alvo que procurava.
Com discrição, Cris saiu de seu posto e seguiu o homem. Uma das resoluções ideais daquele treinamento seria encontrar o uncoded antes que este percebesse a presença do policial. Como não aparentava ser este o caso, agarrou-se à segunda melhor opção, em que esperaria o momento propício para abordar o homem com calma, sem atrair a atenção das outras pessoas. Todavia, esta também foi por água abaixo quando o alvo percebeu a movimentação de Cris e apertou o passo até iniciar uma corrida.
O policial resmungou antes de perseguir o alvo. Ainda tinha a esperança de que ele corresse para um lugar menos movimentado e a taxa de pânico do público não aumentasse muito caso fosse necessário atirar.
Esforçou-se para respeitar as condições da simulação, desviando de cada pessoa para não perder pontos — podia esbarrar somente no alvo sem gerar penalidades durante uma perseguição.
O problema era que aquele indivíduo, naquela dificuldade selecionada, era rápido e não se cansava. Portanto, depois de quase dois minutos de voltas naquele salão, com o fôlego começando a falhar em Cris e um receio crescente de não completar a missão sem um disparo da arma, ele forçou a velocidade das pernas já exaustas e se atirou no alvo tal qual um leão faminto sobre uma presa prestes a escapar em meio às pessoas assustadas que saíam de seu caminho às pressas. Atravessou o homem que só existia na visão do capacete e caiu preparando braços e pernas para amenizarem o impacto, mesmo sobre um chão macio.
Não conseguiria o resultado que almejava, mas teria outras oportunidades para aprimorar as habilidades. Estudaria de novo as sessões gravadas dos outros membros da equipe para identificar métodos que poderia copiar para a próxima sessão.
Enquanto a simulação era encerrada no piso inferior, uma pessoa surgiu pela porta do mezanino. O cabelo preso em um rabo-de-cavalo descia até o meio das costas como uma cascata de areia sobre o uniforme azul. A jovem, tímida de início, alegrou-se ao avistar Daniel, mas reatou com a timidez ao se postar diante dele.
— Oi. — Ela exibiu um sorriso refletido também nos olhos castanho-claros e segurou o cotovelo. — Faz tempo né? Como você tá?
Daniel abriu os braços, expressando alegria em um sorriso simples e oferecendo um abraço que foi aceito com entusiasmo pela jovem.
— Caramba! Você cresceu demais! — disse ele, rindo, como se não houvesse ainda uma cabeça de diferença para ela alcançá-lo.
De olhos fechados, Sara se aconchegou nos braços do policial que considerava como um irmão.
— Legal o seu bigode — comentou ela ao se afastarem.
— Essa é a Sara? — Cris correra até o mezanino com o capacete e a arma em mãos e falou entre arfadas enquanto se aproximava. — Eu sou o Cris...! Prazer em te conhecer...! Qual o seu nome...? Quero dizer, eu sei o seu nome! — Contraiu as pálpebras por um segundo e sacudiu a cabeça com dois movimentos rápidos para espantar o vexame, mas... — Ouvi falar de você depois do incidente em Elephant Stone... — Abandonou a frase depois de perceber que estava lambuzando a situação. — Desculpa. Acho que não deve gostar de falar disso. — Recorreu a um sorriso constrangido para encerrar a performance.
— Tudo bem. — A jovem estranhou o comportamento dele, mas procurou agir com naturalidade. — Não tem por que se desculpar. — Voltou-se para Daniel, que apenas a observava como se não acreditasse que ela estivesse ali; e, para falar a verdade, nem ela mesma acreditava após tantos anos vivendo em outro continente.
— Ahn... Já usou um desses antes? — Cris estendeu o capacete para Sara, atraindo a atenção dela de volta na esperança de salvar a primeira impressão.
— Só com jogos.
— Recrutas precisam praticar por alguns meses antes de receberem qualquer missão. Quer mostrar o que sabe?
— Acho melhor apresentar a equipe a ela antes de... — começou Daniel.
— Quero! — Sara se dirigiu até Cris de braço estendido para receber os equipamentos. Vestiu o cinto com o coldre, mas manteve o capacete em mãos. — Falavam muito disso na academia; a simulação dos uncoded.
Os sorrisos dos dois policiais se apagaram.
— Essa é um pouco "forte" para uma primeira vez — informou Cris.
— Ele tem razão. — Daniel concordou e depositou uma mão no ombro de Sara, que se virou para ele. — Atirar em uma pessoa, mesmo em uma simulação, não é fácil de digerir... Se quer tanto testar uma missão, vamos começar com... — A fala desacelerou quando a atenção foi roubada por outro foco. Daniel se desconectou do mundo ao redor enquanto tentava encontrar uma razão para, sem mais nem menos, a pena na casa de Matias ter surgido sobre a cabeça de Sara; um pensamento aleatório extrapolando o sentido da visão?
— Com a simulação que eu escolhi! — Sara encaixou a declaração no silêncio do amigo e, antes de outra recusa, desceu os degraus aos saltos.
Cris encarou um Daniel estático por um instante antes de erguer e abaixar os ombros e se dirigir até um armário no canto do mezanino, de onde trouxe dois capacetes extras que ambos usariam para acessar e ver a missão em grupo.
No centro da sala, Sara acenou para os companheiros no alto e colocou o capacete.
— É a última missão do histórico! — Cris ergueu a voz para ser ouvido lá de baixo. — A ideia é convencer o uncoded a se entregar. Se não der certo, é só atravessar o holograma dele pra vencer. Atirar é sempre a última opção, mas queremos ver a sua pontaria! Não desanime se não conseguir.
A jovem gesticulou com a mão para confirmar que entendeu enquanto Daniel retornou à realidade e franziu as sobrancelhas incomodado com a conjugação de "queremos", cujo som da palavra atravessou o bloqueio de devaneios com a sugestão da participação pró-ativa dele naquela avaliação.
A simulação anterior, o cenário utilizado por Cris, reconstruiu-se.
— Ah! A identificação dos civis fica nas costas e na frente das camisetas, tipo um crachá! — acrescentou Cris.
Focada na missão, a jovem não respondeu com outro sinal. Do alto do mezanino, os homens colaram no peitoril transparente e observaram a recruta mover a cabeça de um lado ao outro com uma lentidão calculada e atenta.
Mudando as configurações dos capacetes, Cris e Daniel passaram a ver um brilho laranja e tênue delineando uma das pessoas virtuais: o uncoded agora era um homem mais velho comparado ao da última vez e estava sentado em um banco na praça.
Como o alvo estava do outro lado da rua e cercado de crianças e adultos, os dois expectadores esperavam que Sara o encontrasse após vasculhar o perímetro, o que poderia demorar um pouco a acontecer, pois era comum os policiais começarem por um raio próximo antes de expandirem a busca. Mas não foi esse o caso.
Viram Sara entortar a parte superior do corpo para o lado, como se tentasse averiguar o nome de uma moça que atravessava a rua na direção da lateral dela, e ambos prenderam a respiração quando a arma foi levantada pelas duas mãos da jovem de forma cautelosa até chegar à altura dos ombros.
— Acho que ela não tá vendo direito... — disse Cris, a lentidão das palavras acompanhando os pensamentos que tentavam elaborar uma razão.
As pessoas fictícias que presenciaram a ação gritaram e correram para fora do caminho da arma, mas antes que se fizessem dois segundos de caos, as imagens congelaram por um instante, pois o alvo foi abatido com um tiro virtual na nuca.
Sara removeu o capacete com uma das mãos e ergueu a cabeça até ver a dupla no mezanino.
— Não vi toda essa dificuldade, não! — anunciou ela em volume alto para ser ouvida àquela distância. Levantou a arma em direção ao teto e ostentou um sorriso comemorativo.
— Ela é... — Os olhos de Cris brilharam — Foi fenomenal! Como ela conseguiu encontrar o uncoded tão rápido no meio de tanta gente? Nem saiu do lugar direito.
O elogio intensificou um desconforto que incomodava Daniel mesmo depois de constatar que não havia uma pena no topo do capacete de Sara. Não era um sentimento inédito, lembrava de algo similar há anos atrás, quando Elliot teve um surto durante uma convenção e Daniel se deixou convencer de que a garota poderia lidar com a situação — aquilo fora perigoso e pouco tempo depois ele se questionou como pudera ser influenciado daquele jeito. Sara encarava perigos sem hesitação, os mesmos que causavam calafrios nele. Foi assim antes, e parecia inabalável agora. Mas não devia ser desse jeito; não com essa facilidade de uma recruta atirar em uma pessoa, mesmo que virtual, e ainda mais em uma área letal. Não era algo ensinado nas academias de polícia; esse tipo de treinamento era previsto para começar ali, com materiais de suporte psicológico.
Sara, definitivamente, não era mais a garotinha que ele conheceu e incentivou a se tornar uma policial quando ela lhe revelou a ambição de ajudar as pessoas.
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