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Como em qualquer outra cidade, era comum ver pessoas frequentando restaurantes e centros comerciais tarde da noite, enquanto locais cujo objetivo estava distante de comerciar ou entreter, como hospitais, isolavam-se em bairros tranquilos.
Léo estava dentro do táxi estacionado na faixa oposta ao hospital, o mais longe que a determinação o levou até que todas as ideias e vozes inspiradoras cessassem. Visitara aquela cidade durante anos, mas poucas vezes saíra da área das cabanas ou do centro, portanto, nunca percebeu a simplicidade daquele prédio cuja fachada, apesar de larga, poderia ser de uma casa qualquer. Era o menor hospital que já vira — embora não costumasse prestar atenção nos hospitais de cada cidade que havia conhecido; apenas recentemente adquirira esse hábito.
A luz incandescente do interior do hospital jorrava na calçada pelo espaço aberto entre as portas duplas. Os bancos que podiam ser vistos de fora indicavam que não havia ninguém ou pouquíssimos pacientes aguardando atendimento.
Ele saiu do veículo e atravessou a rua vazia e escura, hipnotizado por aquela luz que ofuscou anseios e esterilizou pensamentos. Lá estava a cura que buscava, que lhe devolveria a vida como era antes do pesadelo.
A um passo de adentrar o território iluminado na calçada, viu uma enfermeira atravessar a recepção no fundo da sala. Conteve o passo. O batimento cardíaco acelerado atropelou a ilusão de Léo. Se entrasse naquele lugar, deveria abandonar todas as garantias. Graças a uma anomalia biológica que o afetava, a cura não seria alcançada pelo estimulante do code, mas a tentativa desse método era requisitada antes de determinarem que o paciente era elegível a um tratamento manual. Contudo, nunca encontrou nenhuma menção a um sangramento intenso como efeito colateral da anomalia nas páginas informativas oficiais do governo, e, na verdade, isso não seria um impedimento para Léo, não fosse por um segredo de família sussurrado no ouvido há muitos anos.
Parecia besteira temer uma historinha de criança, mas a base do medo estava na mudança. Se houvesse algum fundamento naquela lenda familiar, os rumos de Léo mudariam para sempre — nem queria imaginar para onde seria lançado caso perdesse os direitos como cidadão.
Travado pela indecisão, abriu mão da escolha em nome da sorte ao criar uma condição sem sentido: se o táxi ainda estivesse onde o deixara, voltaria para a cabana, caso contrário, entraria no hospital. Era um jogo desonesto para uma cidade daquele tamanho e em um horário em que poucas pessoas pensavam em voltar para casa. Mas, de qualquer forma, a aposta com o destino foi burlada quando ele se deparou com o olhar da enfermeira que parara no meio do caminhar ao notar a presença dele.
— Precisa de aju...?
O pânico forçou as pernas de Léo a darem uma meia-volta ligeira e atravessarem a rua de novo. Como o táxi ainda estava lá, aceitou que a decisão seria a desistência e retornou para o interior do veículo.
Vigiou o hospital através do vidro escurecido que o protegia enquanto esperava a sensação de segurança restituir a razão. Daquele ponto, a enfermeira estava fora do campo de vista, mas as janelas do lugar pareciam uma extensão dos olhos dela observando-o em seu esconderijo e julgando-no com um veredicto incompreensível. Não conseguiu definir se sentiam pena, repugnância ou raiva, mas certamente sabiam que ele retornaria mais cedo ou mais tarde se pretendia continuar naquele mundo.
Que fosse tarde, então, quando não houvesse mais tempo disponível para socorrê-lo do desespero.
— Desculpa, Andi — sussurrou ele, com a voz quebrada.
Comandou o táxi a voltar para a cabana e mergulhou o rosto nas mãos, envergonhado pela covardia.
Os olhos avelã miraram o teto do veículo com um afinco enrijecido como gelo. O primeiro indício de consciência foi um suspiro brusco que acarretou uma respiração acelerada em busca de fôlego. Permanecia deitada no banco do carro, cuja alta velocidade era conduzida pelo computador do painel e o cenário de fora passava como borrões na janela.
Após se acalmar, Isadora se sentou, o olhar ainda vidrado e alheio ao que estava à frente. Aqueles pensamentos... lembranças... não se recordava da existência delas... não poderia dizer se eram reais. Não! Eram reais, sim. Apesar de nunca ter visto a máquina de seu sonho — ou lembrado —, já ouvira falar de algo como aquilo.
Com uma expressão severa e abstraída de toda a animação de horas atrás, ela ativou o holograma do painel. Redefiniu a rota e, poucos quilômetros depois, o automóvel fez o retorno na estrada. Insistira em conseguir aquela solução intrigante que aumentava a capacidade cognitiva, porém não imaginou que se defrontaria com uma revelação enterrada na inconsciência. Não julgaria, não tomaria decisões antes de investigar a fundo o que ocorreu no passado, mas sentia um azedume na língua, que podia tanto ser resquício da "poção" quanto o desagrado e a desconfiança causando dissabores.
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