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Isadora deixou o prédio escuro da Amazônia com um sorriso largo estampando a face. A cada passo salteado de felicidade, as botas de cano baixo espalharam o cascalho da estrada. Essa empolgação que procurava há anos neutralizaria a paciência de esperar até chegar em casa para testar o brinquedo novo.

Entrou no único carro no estacionamento, sentou em um dos bancos enquanto transferia a mochila das costas para o colo, selecionou a rota de casa como destino e depositou o celular no painel no centro do veículo — tudo com os movimentos ansiosos de alguém prendendo as traves de proteção de um brinquedo no parque de diversões. Deslizou as mãos pelo cabelo comprido, como se fosse amarrá-lo, e o posicionou na frente do corpo, passando pelo lado do pescoço. Cantarolou enquanto mexia em uma partição dentro da mochila e, ao encontrar a ampola, repuxou os cantos da boca para formar o sorriso fechado mais genuíno que já exibira na vida.

Depositou a bolsa no banco ao lado e ergueu a ampola na altura da face. Os olhos brilharam admirando o movimento do líquido no frasco. Após alguns segundos de expectativa, ela tirou a tampa e bebeu o conteúdo vermelho; o sabor azedo não causou a mínima distorção no semblante exaltado.

Enquanto o automóvel percorria veloz pela estrada daquela área isolada e protegida pelas árvores, ela inclinou o banco para deitar de forma confortável. Relaxou os músculos do rosto e acalmou a mente para abraçar o sono. Da nova posição, podia enxergar o céu azul-claro pela janela.

A vida era como uma daquelas nuvens lentas e monótonas, e as pessoas, ou pelo menos a maioria delas, contentava-se em assistir àquela passagem de tempo previsível e pedante. Não fazia parte dos interesses dela continuar presa naquela mesma trajetória. Ela queria a adrenalina de ver um furacão, igual aos dos documentários de antigamente, e a emoção de descobrir o que se manteve em pé em meio aos escombros.

A poçãozinha que pedira em troca de seus serviços não preenchia sequer uma gota de seus sonhos, mas, em um mundo controlado e maçante, qualquer coisa que a tirasse do tédio era válida; um sopro de ar fresco dentro de um forno de chatice sufocante.

Era bizarro pensar que, fosse outra ocasião, ele teria alugado aquela cabana para festejar com amigos e família, mas, na atual circunstância, estava ali sozinho usando a churrasqueira para queimar roupas ensanguentadas.

As chamas reluziram na pele escura do rosto, destacando a infelicidade de olhos vazios e perdidos. O suor que escorria entre os fios da barba curta não era resultado apenas do calor do fogo ou do clima; tinham como fonte o desespero camuflado entre o medo e o nervosismo.

Aquele era o lugar perfeito para quem buscava o sossego do campo, um lugar que Léo visitava desde criança com a família e, até aquele dia, só tivera lembranças felizes, apesar das brigas infantis com os primos que sempre acabavam em pizza. Mas, naquela tarde, memória nenhuma, ou ambiente acolhedor ou a tranquilidade do isolamento, poderia sobrepor a aflição.

Sem mais combustível, o fogo morreu com o cair do sol, mas ainda restavam as estrelas e a lua para iluminar a silhueta da trilha de pedras decorativas até a cabana. E Léo seguiu por ela, pensando, pela primeira vez, que aquele cenário da cabana fechada lembrava um filme de terror ao invés de um de fantasia, como imaginava na infância — talvez porque o caos vermelho que o aguardava lá dentro tivesse corrompido a memória e empesteado o terreno dos pensamentos.

Passou pela mesa de piquenique coberta pelo pergolado e precisou respirar fundo para empurrar garganta abaixo o gosto de bile antes de entrar pela porta da cozinha.

Acendeu a luz e a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o brilho do celular sobre o balcão de pedra rústica que separava a sala de estar. Perdera uma ligação que não retornaria ou recebera uma nova mensagem que se juntaria às outras centenas sem resposta.

A velha vida de semanas atrás parecia tão distante e inalcançável... mas ele teria que passar por aquilo de alguma forma se tinha a menor esperança em recuperá-la — recusava-se a pensar que essa nova realidade o acompanharia até o fim. Se o tataravô conseguira, ele também daria um jeito.

Pegou alguns produtos de limpeza, um balde com água e se dirigiu até o corredor largo que separava os cômodos privativos. Agradeceu a si mesmo, aliviado, por não ter encostado horas atrás no banco ou na mesinha de palha que enfeitavam o corredor — com certeza seria complicado limpar vestígios de sangue daquele material. Pelo menos teve a sorte de o piso ser um porcelanato que somente imitava a madeira, então talvez não enfrentasse dificuldades para remover as manchas que pingaram das roupas quando ele correra para o banheiro — não queria nem lembrar do estado do chuveiro.

Estancou na entrada do corredor, segurando os produtos de limpeza enquanto lamentava a própria vida. Talvez tivesse se precipitado com as roupas, talvez não precisasse chegar ao ponto de queimá-las. A cabeça estava fria agora, mas o momento de tensão e medo foram suficientes para que tomasse uma medida drástica; somente tivera uma esperança de que todos os problemas virariam cinzas junto aos tecidos.

Ainda tomado pela hesitação que precede uma tarefa repulsiva, largou as coisas no chão e avançou no celular — precisava desesperadamente de um incentivo e fingir que não estava sozinho ajudaria.

Verificou a última notificação recebida: era um áudio de Andi. A voz da amiga de infância seria bem-vinda para preencher o silêncio, mesmo que fosse amarga, como Léo já esperava.

Pressionou a opção para ouvir a mensagem e retornou ao sofrimento da limpeza.

— Oi, Léo. — A amiga usou um timbre tranquilo, mas era notável a tentativa de ocultar uma vibração abalada, como se temesse espantá-lo caso entonasse a gravidade do assunto. — A Lara disse que você sumiu, então... eu só queria saber como você está. Deve ser difícil digerir tudo isso.

"Digerir" era o verbo da ironia macabra que moldou um sorriso azedo no rosto de Léo. Esmurrava-o no sentido abstrato e literal.

— Nem imagino como você deve estar se sentindo — o áudio prosseguiu —, então não vou insistir pra voltar pra casa, mas tá todo mundo preocupado. Você também não ficaria se fosse um de nós no seu lugar? Ninguém quer perder um amigo. Nós nunca vamos te abandonar, Léo, então, por favor, não abandona a gente.

Andi não parecia ser ela mesma. O esforço para soar delicada devia ser tremendo, as frases artificias e ensaiadas provavelmente foram escritas por outro dos amigos, ou talvez decididas em conjunto.

Lembrando que o áudio era apenas a trilha sonora escolhida para uma tarefa principal, Léo despejou uma quantidade absurda do produto químico no chão e começou a esfregar. Antes pagar pelo prejuízo no porcelanato do que deixar aquelas manchas que, na concepção dele, acusavam-no de algum ato ilícito.

— Ah! Fala sério! Que que cê tem na cabeça pra fazer isso? Quer morrer? Já cansou da gente, Léo? Eu achei que você estava...bem... Achei que confiava em nós... Por que você sumiu? Tá com medo? Aconteceu alguma coisa... além do lance no hospital? Sabe que pode contar comigo.

O cheiro do desinfetante mesclado com o som de uma amiga desesperada somados à confusão emocional e ao pavor não criaram uma boa composição em Léo. O estômago revirou com a mistura.

Poderia parar o áudio e diminuir o mal-estar, mas havia uma gota de conforto no egoísmo de saber que alguém se importava, e isso era tudo o que ele tinha — e corria o risco de perder em breve.

Lágrimas emergiram em abundância ao pensar, pela milésima vez, que jamais teria de volta a vida como a conhecia. De um dia para o outro, o futuro que planejou foi obliterado e tudo se tornou incerto, inclusive a sobrevivência.

Mesmo que por motivos diferentes e à distância, tanto de tempo quanto de espaço, Andi compartilhou soluços com Léo por alguns segundos até recuperar o ar para continuar:

— Não precisa me responder, nem ninguém. Por favor, só peço que vá no hospital mais próximo o mais rápido possível. Se estiver assustado, eles vão arranjar alguém pra te ajudar lá, ou se quiser, pode me chamar que eu vou correndo pra te acompanhar. — Houve uma pequena pausa onde um soluço menor foi ouvido e a voz amansou antes de finalizar: — Não fique sofrendo sozinho, deixa eu te ajudar. Não importa qual o problema, a gente enfrenta junto, Léo.

Como ele desejava se agarrar àquela oferta... como queria reviver o último dia antes de descobrir sobre a doença... ou qualquer dia antes. Voltar ao tempo em que solicitar a ajuda dos amigos era automático, sem a angústia de imaginar o que pensariam se descobrissem que ele...

Torceu o pano com uma força sobrecarregada de revolta. Sangue e lágrimas macularam a água límpida do balde.

Era só uma lenda. Uma brincadeira de família. Estava causando uma comoção desnecessária em cima de uma historinha estúpida. E se fosse verdade, que outra escolha tinha? Virar um uncoded e morrer?

Recebera dois alertas para visitar um hospital. Quantos "convites" ainda podia ignorar até que viessem buscá-lo? Se só havia uma saída, deveria se adiantar e descobrir logo as consequências ao invés de atrasar o inevitável e prolongar a preocupação daqueles que amava — mesmo que a resposta que procuravam lhes fosse abominável.

Desistiu de esfregar o chão e se levantou, abandonando os itens de limpeza. Precisava ir agora, enquanto a fagulha da determinação crescia com a voz chorosa de Andi ecoando pela mente. Permitiria que os funcionários no hospital fizessem testes e tirassem as próprias conclusões, que selassem o destino de vez. Talvez tudo não passasse de um mal-entendido e a condição que o acometia fosse comum, curável e não tivesse relação alguma com lendas proferidas por idosos que se divertiam assustando as novas gerações. Agarrar-se a essa última esperança era o que o encorajaria a enfrentar a cura.

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