Capítulo 3

Prometi novo capítulo já hoje, então aqui está :D

* * *

— A primeira coisa que você precisa saber é que a Lisa... é... areia demais para o seu caminhãozinho — Josua começa, enquanto ajeita a gola da minha camisa e dá uns puxões na aba do terno. — E não estou nem brincando. Acredite em mim. Ela é demais para você, bonitão.

— Certo — concluo, deslizando nos calcanhares e dando mais uma olhada em mim mesmo no espelho. 

Confesso que estou bonitão mesmo. A barba de três dias, o terno azul-marinho bem ajustado, os sapatos italianos. Como um verdadeiro homem de negócios safado. Mulheres gostam desse tipo de coisa. Devem pensar que isso nos transforma automaticamente numa espécie de Mr. Grey. E sei me virar, acredite, mas BDSM não é exatamente a minha área. O que há de errado com essa gente? A vida já não nos espanca e humilha diariamente o suficiente?

É incrível o quanto eu brigava com Lucy para não ter que vestir exatamente esse tipo de roupa e, agora que não pode me ver, estou me vestindo do jeito que ela gostaria. Ajeito as mangas do meu terno e aprumo a postura. Queria que me visse agora. Nada mal, Herr Löwe.

— Acho que não preciso dar dicas de como conquistar uma mulher, né? — Josua pergunta, enquanto o observo pelo espelho roer uma unha e fiscalizar meu figurino. — Afinal, você não teve problemas para conseguir a Lucy.

— Está brincando? — Giro de volta para ele e dou um tapa em sua cabeça. — Eu não tenho um primeiro encontro há mais de doze anos.

— Você sabe as regras — Josua diz, erguendo as palmas das mãos para o alto. — Jamais seja você mesmo e mantenha o caneco de cerveja dela cheio.

— Certo.

Balanço a cabeça e afunilo os olhos. Josua ri. Provavelmente, de todas as pessoas, ele não deveria ser a pessoa a quem peço conselhos. Surgiu naturalmente a partir do momento em que ele me colocou em contato com a garota. De qualquer forma, posso ligar para o Michael ou procurar no Google depois. Depois? Que horas são? Coloco a mão no bolso traseiro da minha calça e pego meu celular. Só tenho mais dez minutos antes de sair.

— Mas, acima de tudo... — Josua cruza os braços e parece repentinamente sério, o que é raridade, então presto bastante atenção. — Não fale uma palavra sobre o bendito divórcio e sobre a sua ex e você ficará bem. Garanto.

— Sério? — pergunto desconfiado e guardo o celular de volta no lugar de onde veio.

— Ela pode ser areia demais para o seu caminhãozinho, mas a Lisa está com muita vontade de ser transportada, se é que me entende — diz, piscando e balançando os quadris sugestivamente. — Aproveite, cowboy.

O que diabos estou fazendo?

* * *

— Uma Radler, por favor. — Lisa pede a típica mistura de cerveja e refrigerante e me encara, esperando que eu faça o meu pedido. Não tenho nenhuma intenção de ficar bêbado hoje, então digo:

— O mesmo, por favor.

O garçom digita algo num aparelho eletrônico e sai. Lisa estica as mãos por cima da mesa e sorri, aprumando a postura como uma gatinha se espreguiça.

Ela é realmente muito bonita. De uma forma até um tanto mais óbvia do que a Lucy. Seu vestido vermelho não me deixa tanto a imaginar e gosto disso. Gosto de óbvio. Ela é bem magra, mas seu corpo tem curvas perfeitas exatamente nos lugares onde devem existir curvas. O rosto é angular e as maçãs do rosto, altas e levemente rosadas. Os olhos como olhos de gato, grandes e verdes, salpicados de dourado. O cabelo comprido é castanho e extremamente liso. E seu sorriso atrairia qualquer homem vivo há quilômetros.

Já estou vendido.

Lucy não era exatamente uma modelo. Quando a conheci na faculdade, nunca me imaginei saindo com ela. Era apenas... comum. Só quando nos reencontramos anos mais tarde e ela fazia uma palestra sobre tipos de mostarda da indústria alimentícia na Califórnia que comecei a me despertar para o fato de que era uma mulher até que relativamente atraente. Mas acho que tinha menos a ver com sua aparência e mais com a confiança com que se projetava, o domínio do seu conhecimento, o fluir de suas palavras. Aquilo era sexy. A audiência estava cativa. Quem saberia dizer que mostarda poderia ser tão interessante?

O garçom coloca dois porta-copos diante de nós assim como dois grandes canecos de cerveja misturada à limonada e uma pilha de pequenos guardanapos amarelos. Imediatamente ergo o copo e digo:

Prost.

Lisa retribui o gesto e bate de leve com seu caneco no meu.

Prost — sussurra, o olhar fixo em mim, com uma tonalidade quente como se acabara de proferir uma obscenidade. Engulo em seco e levo o caneco aos lábios e ela faz o mesmo.

— Então, Peter... — começa assim que deposita o caneco sobre a mesa. Lisa fala meu nome com a pronúncia americana e, de alguma forma, acho isso muito sexy, mas provavelmente só porque partiu desses lábios angulares beijáveis. — Diga-me, como um homem como você ainda está solteiro?

Ainda estou no meu gole, então acabo engasgando um pouco com a pergunta.

Divorciado, na verdade — corrijo, limpando minha boca com um guardanapo amarelo.

— Oh. — Olha para mim, parecendo surpresa e deslizando o polegar sobre a alça do caneco. 

É tudo que diz e continua me olhando, como se esperasse mais alguma coisa, mais informações, só posso presumir. Então, deposito meu copo na mesa e estalo as articulações dos dedos, refletindo sobre o quanto devo realmente compartilhar.

— É. Divorciado — repito, abanando o ar, como quem diz "ah, isso não é nada". — Mas, não por minha culpa! 

— Não costuma ser culpa dos dois? — ela sugere casualmente e acho que está brincando, mas algo dentro de mim explode nesse instante.

— Não! — Bato com a palma da mão na mesa e vejo como ela assusta. Pendendo o rosto diagonalmente, tento sorrir, mas acabo por travar a mandíbula, dente contra dente, e sinto a veia da minha testa saltando. O que está acontecendo comigo? — Não. — Tento falar um pouco mais calmo e destaco minha negativa com o sacudir do indicador e a cabeça, simultaneamente. 

Agora acho que estou parcialmente sorrindo ou ao menos meus lábios estão esticados, pressionados um contra um outro, mas sinto que é um sorriso um pouco ácido e cheio de desprezo. 

— Às vezes a outra pessoa toma a decisão e não há nada que você possa fazer. Nada — concluo, dando de ombros.

— Certo — ela responde, de olhos arregalados, acenando com a cabeça rapidamente, mas não creio que ela esteja concordando comigo sinceramente, ou completamente, então preciso dar mais informações a ela para que ela possa ter uma opinião a respeito disso de forma consciente, entende? 

É minha obrigação moral como homem, como ser humano, não deixá-la em seu estado de ignorância.

— Não, você não entendeu. Nós estávamos no supermercado. Fomos juntos, porque Deus-me-livre deixar o imbecil do Peter ir sozinho porque ele vai comprar o pó-de-alho errado de novo e o leite de vaca ao invés do de amêndoas. Mas também não quer ir sozinha porque a princesa ainda não tirou carta de motorista e tampouco gosta de carregar caixas de leite quando tem a opção. Então, tudo bem, aceito ir de mula porque ela é minha esposa, é minha função, certo? Certo. — Concordo comigo mesmo e mal registro a expressão assustada congelada no rosto da minha companheira. — Certo. Nem sei sobre o que discutimos. Estávamos entrando no saguão do mercado e acho que ela estava reclamando que esqueci de abastecer novamente e o tanque já estava na reserva e ela detesta isso porque é um risco desnecessário e, blá-blá-blá, Deus-me-livre de viver um pouquinho espontaneamente, um pouquinho desregrado, ser um pouquinho feliz, entende? Aí ela vira de repente e fala: "Vou pegar um carrinho de supermercado lá fora, tchau." E foi isso.

— Isso? — ela, pergunta, cruzando os braços.

— Ela não voltou. — Balanço a cabeça repetidas vezes rapidamente, mordendo o lábio inferior e sentindo um bis para a dor que senti na época. — Fiquei esperando por uns dez minutos antes de tentar contatá-la no celular. Sem resposta. Fui procurá-la. Nada. Fiquei louco. Achei... alguém, alguém a sequestrou. Ela foi estuprada e morta. Alguma coisa aconteceu, só pode. E me desesperei. Pirei. Liguei para a polícia. Liguei para todos. Abasteci e andei de carro o resto do dia tentando encontrá-la.

— O que houve? — Lisa parece agora realmente interessada, os olhos ainda mais arregalados e o corpo inclinado para a frente, antebraços apoiados na mesa.

— Ela só foi me ligar de volta à noite. "Não dá mais", foram as primeiras palavras dela. Eu tinha quase chorado de alívio ao ver o nome da maldita no identificador de chamadas e ela liga para falar "não dá mais". Não dá mais?! Como assim, não dá mais? Não dá mais o que?

Lisa volta a reclinar na cadeira, boceja e olha para o próprio relógio de pulso. E é impressão ou identifico uma revirada de olhos disfarçada?

— Eu a amava, Lisa! Eu a amava de verdade! — Sinto a necessidade de defender minha posição. — Eu sabia que tínhamos problemas, mas todo casal tem, não é? Eu ainda estava disposto a lutar, ela... — Pressiono o indicador contra a toalha da mesa a ponto de curvá-lo ligeiramente de forma côncava. — Ela tomou a decisão. Eu estava disposto a lutar. Então, não tente colocar a culpa em mim. — Aperto o indicador na mesa a cada palavra. — A culpa não é minha. — Concluo, arfando e sentindo calor em excesso.

Ao fim do meu discurso, dou um longo gole na Radler e, de repente, me ocorre a suspeita de que provavelmente nada do que falei seria considerado exatamente assunto para um primeiro encontro. Mas, como evitar? O assunto simplesmente surgiu! Não tinha escapatória!

Minha suspeita se confirma quando, repentinamente, Lisa abre um sorriso reto, pisca algumas vezes e diz:

— Eu acho que eu deveria ir.

E eu me sinto o maior dos babacas.

— Não, não... — falo, tentando soar um pouco mais são e agradável. — Fique — imploro, esticando minha mão por cima da mesa. Sinto a tristeza na minha voz e no meu olhar, mas não sei como consertar isso.

Lisa mantém o sorriso reto no rosto.

— Olha, Peter... — diz meu nome dessa vez com a pronúncia normal alemã. — Você parece ser um cara legal e sinto muito pelo seu divórcio. Mas você obviamente ainda tem sentimentos não-resolvidos e eu não estou procurando esse tipo de complicação na minha vida.

Ela conclui franzindo o nariz e com um olhar de pena que termina de quebrar minhas pernas. Levo as mãos à cabeça e esfrego meu cabelo para trás algumas vezes.

— Entendo.

Balanço a cabeça e entendo mesmo. Odeio o fato de que eu realmente entendo. 

Eu também não iria querer, no lugar dela. 

Ei, eu não pedi por isso. Lucy fez isso comigo. É tudo culpa dela. É culpa dela que a Lisa vai continuar procurando um caminhão para transportá-la e eu vou dormir sozinho, o mais miserável dos homens, enquanto Lucy está radiante, nunca melhor na vida. Maldita. Um brinde à Lucy! Ergo meu copo ao alto, enquanto Lisa deixa dinheiro na mesa, suficiente para seu drinque e mais um pouco de gorjeta, se ergue e sai rebolando suas curvas perfeitas no vestido vermelho. Lucy jamais se vestiria assim. Imagina, eu não permitiria. É uma sem-vergonhice sem tamanho.

— Garçom, mais uma, por favor. — Ele acena, indicando que entendeu. Aí completo: — Mas, uma de verdade dessa vez, por favor! Nada dessa babaquice de menina. — Ele acena mais uma vez.

Hm.

Encaro a cadeira vazia à minha frente e tamborilo na mesa enquanto espero minha bebida.

Algo me diz que não teremos um segundo encontro.

E isso é decepcionante, mas nada que um baita porre não resolva.

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