Capítulo 2


Primeiro sinto os leves puxões e empurrões alternados contra o meu ombro esquerdo e só então tenho a percepção de uma voz distante que chama por meu nome. Lucy está tentando me acordar. Ela me acha patético, naturalmente. Chegando bêbado em casa de novo?! Já consigo em minha mente ouvir o replay de suas reclamações e enxergar a aparência de seu rosto, a boca curvada numa expressão de nojo e decepção. Você é uma vergonha para você mesmo e para mim. E eu me encolheria de vergonha. Nunca fui do tipo que fica agressivo sob a influência de entorpecentes. Eu sempre queria, dependendo do meu humor, beijá-la ou afastá-la. Nada além disso. Uma vergonha por quê? Eu responderia nos dias em que me sentia mais carinhoso, já tombando por cima dela, tentando acariciar uma mecha volumosa de seus cabelos cor-de-ébano brilhantes. Você é tão linda, diria, buscando com meus lábios sua pele, num esforço intenso para que meu sussurro soe sedutor e não assustador e patético. E ela lutaria para se desvencilhar do meu toque, me empurraria com força enquanto tento abraçá-la, seduzi-la, mostrar o quanto a desejo e a amo. Algumas vezes a sequência resultaria no meu regurgitar da última refeição, confesso, algo um tanto desagradável, no carpete da sala ou adormecer no exato instante e no lugar que estava. Mas agora Lucy me chama novamente com seus lábios pálidos e exigentes, com seus olhos castanhos tanto atraentes quanto desafiadores quanto assustados.

Giro meu corpo para ficar de barriga para cima, esperando sentir seu hálito no meu rosto e a volumosidade felpuda dos travesseiros, mas, ao invés disso, sinto uma quina dura e dolorida entre as omoplatas e distingo uma voz aguda e nasal que em nada se assemelha com a de Lucy. Então abro os olhos e lentamente focalizo o rosto em formato de coração e os longos cabelos loiros de Renata, esposa de Michael, e, em seguida, seu olhar exasperado.

— Peter... você precisa ir para casa — ela repete e sinto novamente o impulso de chorar, porque minha mente confusa e provavelmente, ainda, ligeiramente embriagada aparentemente tem preferência por uma esposa que me acha doente e decepcionante a uma conhecida amigável que sente nada além de pena. 

Tento dar um pigarro e piscar repetidas vezes para acelerar o despertar total e sou acometido, nesse processo, de uma dor lancinante na cabeça e nos olhos. Enquanto isso, vou tomando consciência do fato de que adormeci na escadaria da entrada da casa de Michael, próximo aos meus dois companheiros. O dono da casa já está acordado e se encontra apoiado contra o batente da porta, com uma xícara de café fumegante tamanho-família nas mãos. Josua ainda ronca, tombado sobre o pedaço de gramado mais adiante.

— Não, Peter, você não precisa ir ainda. Você devia tomar um café antes de ir... e talvez um banho — ele diz para mim e vejo Renata encará-lo com olhos contraídos e fuzilantes.

É, não estou mais muito popular entre as mulheres hoje em dia. Bah, mulheres... Quem precisa delas? Por falar nisso, é sério que deixei cinquenta euros de gorjeta para a garçonete ruivinha ontem à noite?

Mas, que diabos...?

Minha cabeça está me matando, constato, enquanto esfrego os olhos com ambas as mãos. Em seguida esfrego meu cabelo, porque é reconfortante e, ao mesmo tempo, me ajuda a acordar. Renata se ergue e entra na casa, ainda trocando farpas com o olhar com Michael. Ele caminha até mim e oferece um braço para tentar me ajudar a levantar. Com uma certa dificuldade, conseguimos ambos nos equilibrar nos nossos pés e caminhamos juntos, abraçados e mancando, até a sala de estar.

Em algum momento provavelmente deveríamos ir acordar Josua, mas ele parece estar dormindo tão pacificamente lá fora que decidimos silenciosamente com a troca de um olhar que podemos fazer isso depois. Além de tudo, o gramado certamente é mais confortável que a escadaria.

A casa de Michael lembra a minha. Bem, a que era minha. Está localizada numa rua a qual apenas moradores têm acesso de carro. Uma fachada branca e convidativa, um pequeno jardim, uma garagem fechada. Espaçosa, confortável. A cozinha é no estilo americano. A zona de trabalho num balcão central, adjacente à sala, respeitando o triângulo da praticidade: utensílios, pia e fogão, todos acessíveis dentro de um passo. Ele arrasta para mim um banco alto e, depois de sentar-me, apoio os cotovelos nesse balcão. Michael aperta um botão na máquina de café expresso e, enquanto a luz pisca indicando que está trabalhando, ele cruza os braços e apoia o corpo contra a pia, pensativo.

— Não podemos continuar fazendo isso, Peter. — Ele balança a cabeça em negação. — Você precisa dar um jeito na sua vida.

Passo uma mão no cabelo e a repouso na nuca, massageando de leve a tensão acumulada ali, lutando para ficar desperto, para lidar com as emoções e a sensação de mil facas atravessadas no meu crânio. Meu impulso natural é mandar Michael tomar em algum canto escuro e lembrá-lo de que ele tem ainda uma esposa e eu perdi a minha. Mas, sem que eu precise dizer nada, ele prossegue:

— Eu tenho uma esposa, Peter. Eu tenho uma vida. Não somos mais moleques. Não posso continuar apostando tudo para tentar ajudá-lo, você entende isso?

Ele coloca uma xícara num suporte na máquina e aperta o botão que acabara de parar de piscar. A máquina reage com um borbulhar fumegante e logo cospe o líquido escuro e perfumado. Eu entendo o Michael, juro que entendo. Não sei nem o por quê de eles ainda estarem ao meu lado, quando não tenho nada mais para oferecer. Só sou agora metade de mim. Uma versão mutilada. Um fantasma.

Sorrio fracamente e volto a apoiar os cotovelos na mesa, com os ombros curvados. Balanço a cabeça de uma forma que comunica que ele tem razão e dou de ombros.

— Eu entendo, cara. Não esquenta. Vou ficar bem.

Ele suspira e coloca com cuidado a xícara cheia diante de mim. O cheiro do café já me ajuda a me sentir menos zonzo e agradeço aos céus por isso. Sinto como Michael me observa e o encaro de volta. Seus lábios estão contraídos e a testa enrugada. Claramente não acredita nas minhas palavras. De repente, ergue um indicador e o deposita no meio do lábio, como se tivesse acabado de ter um pensamento, mas hesitasse em compartilhá-lo. Após alguns segundos, sua postura corporal, os ombros caídos e a cabeça pendida me indicam que se deu por vencido num debate consigo mesmo.

— Você sabe do que você precisa? — começa, cautelosamente. 

Consigo pensar em um milhão de coisas que preciso, mas antes de poder pronunciar qualquer uma delas, a voz rouca e ainda meio arrastada de Josua surge da entrada da casa atrás de mim:

— De mulher! — ele grita e já cai na risada, apoiado, quase despencando, contra o batente da porta. 

Eu me volto e o encaro por um segundo, resíduos de grama e sujeira salpicados por sua camisa, e depois olho para o teto, incerto se rio junto ou xingo em voz alta. De todas as milhares de coisas que eu preciso, mulher é definitivamente a última delas. Sério. Mulher é sinônimo de complicação. Claro, não é nada desagradável ter uma na cama, mas levá-la até lá, disposta e voluntariosa, isso é outra história... Nos últimos meses, Lucy e eu bem que podíamos ser irmãos. Ela vivia insatisfeita comigo—claro que não sexualmente e, se sim, certamente não por minha culpa. É insuportável ter ao lado uma mulher frustrada, cheia de demandas e condenações. Isso não é sexy. Às vezes tudo que eu queria era que nós nos divertíssemos, que ela finalmente relaxasse um pouco, que desfrutasse, mas era quase que automático: no momento em que eu começava com as carícias, os afagos e as fungadas em seu pescoço delicioso, a ruga em sua testa surgia e sua boca se contraía para evitar de me gritar tudo que eu era e fazia de errado. Então dormíamos. Uma alegria só.

— Obrigado, mas estou bem sozinho — respondo, voltando para minha xícara de café.

— Não, não, escute! — Michael balança o indicador no ar. — Sei que você sabe se virar sozinho, mas não estou falando só de sexo.

Faço uma careta conforme dou o primeiro gole do meu café. Perfeito. Quente a ponto de quase queimar a língua, forte e sem açúcar, exatamente como gosto. A ressaca agradece também. Josua se achega ao balcão e passa um braço sobre meu ombro.

— Só uma gostosa pra esquecer de outra, amigo — ele fala bem próximo ao meu rosto, com um grande sorriso. 

Eu o empurro para longe e sorrio sarcasticamente.

— Primeiro, cuidado, seu bafo é capaz de matar alguém. Segundo, quem você está chamando de gostosa, rapaz? Respeito com a minha esposa! — falo, apenas parcialmente de gozação, enquanto ele tropeça para trás.

Ex-esposa. — Michael interrompe, lívido, batendo no balcão da cozinha. Sua testa brilha com suor e seu rosto está completamente vermelho. — Ex, Peter! EX! Você tem que enfiar isso na sua cabeça. Lucy está feliz sem você! Ela superou e você também devia.

Josua e eu paralisamos diante da explosão e o encaramos. Imediatamente sei que ele tem razão. Por que minha mente tem tanta dificuldade de aceitar isso? Simplesmente porque um dia fomos felizes? Porque um dia fomos idiotas o bastante para achar que seria para sempre? Acabou, infeliz. Acabou. E é melhor assim para todo mundo.

— Ela está feliz? — pergunto, sentindo com isso as facas avançarem mais alguns centímetros em meu crânio e todo o senso de humor me escapar.

— "Radiante" foi a palavra exata utilizada pela Renata. "Nunca esteve melhor", foi o que ela disse.

Maldita, xingo mentalmente, enquanto bebo as últimas gotas do meu café. Seja feliz, seja radiante, seja o que quiser. Mas não esteja melhor do que nunca, porque isso é um verdadeiro insulto. Você já foi feliz comigo, baby.

É a vez de Josua bater no balcão com ambos os punhos. Mas, pelo jeito, bate com um pouco mais de força do que planejava, porque reage dando uma voltinha e murmurando palavrões.

— Mulher, Peter. Mulher! — diz, entre gemidos, quando a dor abranda. 

Eu e Michael nos entreolhamos e sei imediatamente que eles já conversaram sobre isso antes e a abordagem já estava semi-planejada. Isso significa que eles não vão deixar para lá enquanto eu não concordar.

Uma mulher. Eu sei que a ideia é óbvia para qualquer um. Afinal, ainda sou jovem, fui de certa forma forçado a recuar para a vida de um solteirão e, admito, ainda tenho os meus charmes, mesmo que a Lucy tenha parado de enxergá-los há muito tempo. Michael insiste que não é apenas para sexo. Conhecendo o Josua, ele deve pensar que mesmo que seja, mal não pode fazer. Mas, eu sei melhor. Qualquer homem que já se apaixonou sabe que mal pode fazer e provavelmente irá fazer. Uma mulher. Que diabos? Por que não? Quando já se está no buraco, uns centímetros mais abaixo não fazem diferença, não é mesmo?

E, quem sabe, apenas quem sabe, não encontro numa delas minha salvação?



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