Capítulo 44

Eu só queria comentar que eu achei a notícia sobre o concurso que eu participei, mas que só vou compartilhar o link com vcs quando eu chegar nessa parte aqui no livro kkkkkk inclusive eu to HORROROSO NAS FOTOS deus me livre hoje tô mto mais bonito

Aguardem


Agir no automático fez os dias passarem voando. O sábado havia chegado e eu nem me lembrava do que fiz a semana toda.

Eu não trabalhava aos fins de semana, então eu tinha dois dias inteiros para fazer absolutamente nada. Em condições normais, eu acharia isso bom. Contudo, eu estava desesperado. Odiava ficar sozinho e com os meus pensamentos.

Sammy ainda trabalhava como freelancer em fotografia, enquanto eu decidi vender meu equipamento para comprar um notebook novo e trabalhar melhor com as traduções, que estavam dando um bom retorno.

A cada minuto que eu passei sem trabalhar ou estudar naquela semana, eu pesquisei sobre como ganhar dinheiro escrevendo. Fiz isso como uma forma de fugir da tensão da minha mente, então me cadastrei em vários sites do ramo e enviei infinitas propostas apenas com o objetivo de me fixar a alguma coisa diferente que não fossem as minhas crises de ansiedade. Eu queria sair das traduções inglês-português e tentar fazer alguns conteúdos próprios.

Por algum milagre, alguém aceitou uma proposta naquela manhã de sábado. Era um universitário que precisava de um artigo de duas mil palavras para enviar até segunda, e a julgar pela forma que ele me mandou mensagem pareceu ter esquecido de fazer e o texto contava como avaliação. Ele era estudante de Biologia e o tema do artigo era impactos ambientais.

Prometi a ele que entregaria o texto ao fim do dia, e então passei toda a manhã e a tarde dentro do quarto, pesquisando e digitando no notebook em meu colo.

Em alguns momentos, levantei para ir ao banheiro e também parei para comer um hambúrguer que os garotos pediram. Nossa alimentação no apartamento ia de mal a pior. Marcos perguntou várias vezes como eu estava e até ofereceu ajuda para finalizar o artigo mais rápido, mas eu dava conta sozinho. Aquele comportamento havia virado rotina: um dos garotos sempre queria oferecer alguma coisa para mim, como se eu precisasse de ajuda ou algum apoio o tempo todo. Eu sabia que suas intenções eram boas, mas estava sendo muito estranho receber essa atenção.

Por fim, eram quase cinco horas da tarde quando enviei o arquivo e recebi meu primeiro pagamento online. Só me dei conta do que havia feito quando vi o meu saldo na tela.

Assim que desliguei o notebook, meus olhos arderam e lacrimejaram. A missão de "não pensar o dia inteiro" estava quase concluída e eu me senti orgulhoso por isso.

Um dos garotos colocou um som alto na casa, e foi a única coisa que eu consegui ouvir ao sair do meu quarto, mas não queria reclamar com eles. Tomei um banho demorado e esfreguei as pálpebras lentamente debaixo do chuveiro para aliviar a dor, o que acabou funcionando.

Se eu transformasse isso em uma rotina, em breve precisaria de óculos.

Quando saí do banheiro de banho tomado, ouvi Marcos me chamar da cozinha, precisou gritar mais do que o normal para sua voz aparecer por cima da música alta. Deixei a toalha estendida na cadeira do meu quarto e andei até lá, quando fui surpreendido por todos os garotos da casa, além de Sam, João e um terceiro cara que estava abraçado a ele e imaginei ser o Fred. Todos gritaram ao me ver e quase pulei um susto.

— Tu demorou uma vida naquele banheiro, eu tava quase desistindo de fazer essa festa!

— Como vocês fizeram isso?!?! — esfreguei o rosto, acreditando ser uma miragem quando vi Sam correr até mim e me beijar.

— Você não saía do quarto, pensamos em comemorar que temos dois finalistas do concurso aqui, e deixei a música alta pra tu não ouvir os outros chegando! – Marcos deu de ombros e cruzou os braços, orgulhoso por ter montado aquele plano. Havia uma faixa feita de forma bem artesanal escrito "Parabéns, Charlie e Ramón!" e várias caixas de pizza estavam empilhadas na bancada da cozinha, além de copos vermelhos e garrafas de refrigerante e cerveja. — Tentamos deixar a festa bem estilo americana pra tu se sentir em casa!

— Pena que o Ramón já sabia da surpresa, bicho sem graça esse! — Pedro, o atendente de supermercado que raramente aparecia em casa, estava presente e cutucou o braço do estudante de Literatura, que enrubesceu.

— Tu ficou tão triste quando falei que eu não poderia te ver hoje, quase contei a verdade naquela hora. — Sammy tocou na ponta do meu nariz e riu, ainda abraçada a mim. — Você é tão bobinho!

— Fiquei triste mesmo, que bom que sabe. — Minha testa enrugou quando franzi as sobrancelhas e tentei fazer um bico, mas acabei sorrindo. Meus amigos estavam reunidos na minha nova casa comemorando uma vitória que eu conquistei, não dava para fazer cara feia.

Vi quando João se aproximou com o rapaz desconhecido, e Sam se afastou de mim apenas para que ele pudesse me cumprimentar.

— Charlie, esse é o Fred! Fred, Charlie! — João falou com uma empolgação maior do que o normal, e ele já era naturalmente empolgado. Quando analisei melhor os traços do homem de quase dois metros de altura, o reconheci na hora.

— Você é o cara do jogo!

— João achou que seria legal me apresentar pra vocês, já que estamos namorando. — Ele olhou para o meu amigo e sorriu, achei que João Vitor fosse derreter no mesmo instante.

— Eu ainda não me acostumei com isso, Fred! Vai me deixar sem graça! — Ele cobriu os olhos com a mão. — Vamos parar de falar disso, quero comer!

João pegou na mão do novo namorado e foram até a bancada para abrir a primeira caixa de pizza. O ruivo ajeitou as mangas compridas da blusa tye-die e retirou um pedaço, mas o levou em direção a Fred, que o comeu da mão de João.

— Eles são estranhamente melosos de um jeito fofo, eu não sei como. — Sammy falou ao meu lado e dei uma risada. Também fomos até as pizzas e cada um pegou um pedaço, Marcos quem nos serviu refrigerante e Pedro abriu uma cerveja para ele e Ramón. O latino já era alto, mas ficava absurdamente maior ao lado do colega, que tinha quase o mesmo tamanho do que eu, apesar dos cabelos pretos espetados para cima o darem mais alguns centímetros de altura.

A música continuou tocando, mas de forma controlada para não atrapalhar os vizinhos. De repente, batidas frenéticas na porta nos chamaram a atenção e Marcos correu para atender.

— Eu já até sei quem é, garota atrasada da porra!

Então havia mais alguém convidado para a festa.

Quando os cabelos roxos inconfundíveis de Jennifer se esgueiraram para dentro da sala, gritei o seu nome com alegria. Ela estava vestida como se fosse a uma boate, com uma saia de lantejoulas e um cropped escrito "I love drink". Em uma das mãos, ela segurava uma garrafa de vodka, e na outra uma sacola de mercado com o que pareciam ser frutas.

— Desculpem a demora, pessoal! Parei no meio do caminho pra comprar isso aqui! — Ela ergueu a vodka como se fosse um troféu. — Charlie, eu espero que tu saiba beber, porque vou fazer os melhores drinks da sua vida!

— Ficou maluca?! O Charlie não bebe! — Marcos a repreendeu. Ele pegou a sacola e a vodka de suas mãos e deixou os itens em cima da bancada. Sammy encarava os dois enquanto pegava mais um pedaço de pizza; ela deveria ser a que mais estava comendo.

Marcos parecia nervoso demais para uma situação daquelas, e até Jennifer ficou confusa. Ele a pegou pelos ombros e pediu para conversarem em particular, consegui ouvi-lo dizer que não seria bom que eu bebesse.

Foi quando entendi tudo. Jennifer era a única que não sabia do meu surto. Todos os outros naquela sala ainda me tratavam de forma mais comedida, menos ela.

— Ei! Aonde vocês vão?! — Gritei para os dois, antes de Marcos tentar falar mais alguma coisa. Eu não queria que mais uma pessoa soubesse do que aconteceu para me tratar estranho também. — Tá tudo bem, Jennifer, pode fazer os drinks!

— Tu nem bebe, Charlie! Não inventa! — Marcos ralhou, porém não me importei. Eu não precisava de alguém para dizer o que eu deveria ou não fazer.

Peguei no pulso de Jennifer e a levei até a bancada da cozinha. Sammy já a conhecia de vista, mas como nunca se falaram, apresentei as duas. Minha namorada era um pouco ciumenta, então eu já havia avisado várias vezes durante a semana que Jennifer era lésbica para deixá-la despreocupada.

— E então, Sammy, tu é igual ao Charlie ou já sabe beber? — Jennifer perguntou para a garota enquanto retirava alguns morangos da sacola e procurava uma faca.

— Eu não curto muito também, e acho que o Charlie não deveria, né... — Ela disse com os olhos semicerrados para mim antes de morder mais um pedaço de pizza. Sam conseguiu pegar uma banqueta para ficar sentada na bancada de granito da cozinha.

— Eu só bebi uma vez, mas acho que aguento. — Dei de ombros e me apoiei na bancada. Os movimentos de Jennifer eram frenéticos e eu não consegui acompanhar o que ela fazia com as frutas, a vodka e o pote de açúcar.

— Você tem certeza de que vai conseguir beber? Depois de... Você sabe. — Sammy ergueu uma sobrancelha para mim. Comecei a me incomodar mais com aquilo.

— É, eu sei, Sammy. — Ergui minha sobrancelha também. Ela apenas murmurou um "ai ai" e tomou um gole do seu refrigerante.

Jennifer ergueu um copo bem ornamentado, decorado com um morango cortado ao meio e a borda repleta de açúcar.

— Vai, experimenta! Me avisa se estiver forte. — A garota falou ansiosa e levei o copo à boca.

O primeiro gosto que senti foi o do açúcar. Em seguida, o morango. Tive vontade de fazer uma careta pela acidez, mas ela foi cortada logo em seguida por uma pitada de sal. Por fim, a ardência do álcool pareceu rasgar minha garganta.

Só um gole foi o bastante para minha cabeça girar quando deixei o copo na bancada de novo. Jennifer me fitava curiosa.

— E aí? — Sammy perguntou com ironia. — Forte demais pra ti?

Ela estava me provocando, e eu ia entrar naquele jogo.

— Acho que... — Senti meu hálito forte pelo álcool, mas me controlei para não demonstrar. Tomei mais um gole e minha boca parecia queimar, empurrei o copo em direção à Jennifer.  — Pode colocar mais.

— Charlie vai ficar bêbado hoje! — A garota metida a bartender gritou e pegou o copo de vidro para enchê-lo de novo.

Olhei para Sammy, que continuava a me encarar de sobrancelhas erguidas.

— No que tá pensando? — Me aproximei dela, sentada e com o copo de refri nas mãos. Ela olhou para os meus lábios entreabertos e, depois, para meus olhos.

— Tu sabe que não aguenta. O que quer provar com isso? — Ela falou em tom mais baixo, apenas para que eu ouvisse.

Aquela semana foi exaustiva e meus amigos só sabiam medir as palavras e perguntar o tempo todo como eu estava. Eu queria provar que eles não precisavam fazer isso, que eu era o mesmo de sempre; ou melhor, que eu podia ir além disso.

— Eu não sou um cara tão quebrado assim. 

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top