Capítulo 43

Meus olhos estavam tão pesados que eu tinha medo de que eles tomassem controle sobre si mesmos e se fechassem enquanto eu ainda trabalhava.

Os acontecimentos em menos de vinte e quatro horas arrasaram o meu psicológico - como se ele já não estivesse ruim o bastante. Marcos, João e Sammy me trataram diferente durante a manhã, pareciam medir as palavras, e João em especial ficava me analisando tentando descobrir o que realmente havia acontecido comigo.

Nem eu sabia, para ser sincero. Só estava exausto.

Jennifer imaginou que a tensão estampada em meu rosto era fruto do concurso, e também era. Eu ainda não acreditava que era possível estar na final, muito menos que apresentaria meu texto para tanta gente.

Só de pensar nisso, senti um calafrio no corpo.

Além de tudo isso, eu tinha que me "re-acostumar" a ser tratado tantas vezes no feminino. Todos os clientes que atendi me chamaram de "moça, garota, querida, senhorita". Era maçante. Laiene fez um crachá para mim, mas era fácil ver o nome Charlie e deduzir que fosse uma garota, era um nome neutro demais.

- Charlie? - Jennifer chamou minha atenção, eu estava fingindo ler uma planilha com as metas de vendas no computador ao lado do caixa. - Pode me ajudar a pendurar esses óculos?

- Ah, claro. - Um pouco de distração seria bom, já que o movimento estava fraco.

Contornei o balcão e fui até um suporte feito com plástico transparente, Jennifer já havia pendurado alguns óculos e peguei os outros da caixa do estoque e comecei a colocá-los. Tive medo de derrubar algum, então meus movimentos eram mais lentos que os da garota.

- Vem cá, é verdade que tu e o Jason não são mais amigos?

- Quem disse isso? - A fofoca rolava solta, misericórdia.

- Tu quis andar logo com o guri mais famosin, qualquer coisa vira palco! - Jennifer deu uma risadinha. - Já circulou que tu foi num rolê da casa dele e que não tá mais falando com ele, que ele tá todo triste, essas coisas... O que que rolou?

- Nada de importante. - falei um pouco mais seco do que eu pretendia. Contudo, isso não afetou o humor da garota.

- Eu acho que o Jason é secretamente gay. Tu já pensou nisso? Seria bem louco!

- Eu acho que eu não tenho nada a ver com a vida dele. - Quase derrubei um óculos do suporte, mas consegui pegá-lo a tempo.

- Bah, tchê, já entendi, tu não quer falar disso. E aí, o que tá achando de trabalhar no caixa?

- Tirando a parte de todo mundo achar que eu sou uma garota... - Soltei sem querer. O desconforto era tão grande que não tive filtro ao falar, e eu não tinha esse nível de amizade com Jennifer para desabafar daquele jeito. Respirei fundo e abaixei a cabeça, frustrado. - Desculpa, não estou bom pra conversar. Desculpa mesmo. Tirando essa parte, eu estou gostando daqui.

- Ei, relaxa! - Ela olhou com carinho para mim e logo em seguida voltou aos óculos. - Mas isso é chato mesmo... O que pessoas trans geralmente fazem pra melhorar isso?

- Tomam hormônios, mudam de nome, sei lá. - Dei de ombros. Estava tão desanimado que não tinha vontade nem de falar sobre transgeneridade. Contudo, Jennifer se animou.

- Ei, qual é o nome do personagem da tua história mesmo?

A sua pergunta me obrigou a raciocinar por cinco segundos. Demorei outros cinco para me lembrar de que história ela estava falando, até me lembrar da minha redação do concurso.

- É Christian, por quê?

- Eu já volto. - Ela revelou um sorriso de alguém que acabara de ter uma grande ideia, e então passou pela porta de funcionários, sumindo da área.

Fiquei apreensivo pensando que, se algum cliente chegasse, eu teria que atendê-lo sozinho. Algumas pessoas passavam pela vitrine e eu torcia silenciosamente para que ninguém decidisse entrar. Era mais fácil atender quando o cliente já sabia o que levar e só planejava pagar a compra.

Felizmente, no mesmo momento em que uma mulher entrou, Jennifer apareceu. Ela segurava um crachá nas mãos e estava sorridente, com uma expressão de engenhosidade exagerada.

- O que acha? Vamos só fazer o teste, quero ver uma coisa.

O crachá era idêntico ao meu, mas ao invés de Charlie, estava escrito Christian. Fiquei boquiaberto, não sabia o que pensar daquilo.

- Você quer que eu mude meu nome? - A frase saiu estranha quando pronunciei, mas na minha cabeça fez sentido.

- É só pra gente ver a reação dos clientes, e se der certo tu pode usar quando sentir disforia. - Jennifer falou a última palavra claramente orgulhosa depois de eu tê-la ensinado o significado. Ela era bem receptiva aos termos e às vezes eu até me esquecia de que a garota de cabelos roxos era amiga de Alice.

- Tá, eu vou tentar. - falei com pouca convicção e troquei de crachá a tempo da cliente se aproximar do caixa.

A mulher parecia ter meia idade e possuía os cabelos entre uma mistura de branco e loiro. Ela me cumprimentou com pressa e retirou uma sacola amassada de dentro da sua bolsa.

- Então, meu bem, eu comprei esse conjuntinho de dormir pra minha neta mas ficou muito pequeno! Eu consigo trocar? Já até peguei o tamanho que ela quer.

- Posso dar uma olhada nas peças? - Jennifer havia me ensinado no dia anterior a como proceder numa troca, então eu poderia fazer aquilo sozinho. Ela voltou a arrumar os óculos no suporte e peguei o biquíni da senhora.

As etiquetas dentro da peça estavam intactas, então era possível trocar. A cliente me deu o cupom fiscal da compra e comecei a pesquisar o código da peça no monitor.

- Desculpa, mas teu nome é Christian?

Demorei para entender que ela estava falando de mim, só me dei conta quando suas sobrancelhas franziram e ela olhava curiosa para o meu crachá.

- Ahn... Sim. - respondi meio sem graça e terminei a devolução, para em seguida passar a peça nova.

- Tipo nome de guri? - Seu olhar sobre mim era cada vez mais curioso.

- É, bom, é que eu sou um guri.

- Nossa! - Sua expressão de surpresa foi tão grande que eu quase me assustei junto. - Me desculpa! Tu é tão fofinho!

A cliente deu uma risada fina e engraçada e eu não consegui me conter, acabei rindo junto. Meu rosto esquentou, não fazia ideia do porquê.

- Tudo bem, senhora, não se preocupe! - falei com um tom de voz um pouco mais animado. Peguei uma sacola nova para que ela colocasse as peças trocadas, visto que a antiga estava amassada. - Aqui, espero que sua neta goste!

- Obrigada, querido! E bom trabalho pra ti!

Ela acenou e saiu às pressas da loja, notei que Jennifer olhou de soslaio para ela enquanto se retirava.

Durante o dia inteiro, aquela cena me fez esquecer momentaneamente todo o sufoco que passei desde a hora que acordei. Minha colega percebeu meu estado de bom humor e se aproximou do caixa após colocar um par de óculos de Sol no rosto. A etiqueta pendurada no meio cobriu o seu nariz e ela se apoiou no balcão, sorriu de lado para mim e sua voz saiu mais grave, como se estivesse me repreendendo, mas de brincadeira.

- Só esqueceu de falar "Obrigado por escolher a Comffy", senhor Christian.

Foi uma sensação totalmente nova ser chamado por outro nome.

- Será que... - Pensei em perguntar em voz alta, mas parecia absurdo demais.

Só que também era comum.

Jennifer continuou a me observar.

- Você acha que... - Tentei de novo, tentando manter a calma enquanto me concentrava na etiqueta no meio do seu rosto. Ela ergueu uma sobrancelha.

- Acho que só tu pode decidir esse tipo de coisa, Charlie.

Jennifer voltou a arrumar os óculos no suporte e fiquei atrás do caixa, pensativo. Olhei para o crachá em minha blusa e pensei como seria mudar o meu nome.

Às vezes, eu queria conhecer outro garoto trans igual a mim, talvez alguém que se descobriu há mais tempo e que poderia me ajudar a entender tudo isso. Assim eu poderia perguntar como era ter outro nome, como se adaptar e poder até testar ser chamado de outra forma para ver se eu iria me acostumar no dia a dia. Mesmo tentando conversar com outros na internet, não era a mesma coisa. Eu estava cansado de me sentir o único com todos esses questionamentos.

Quando eu iria conhecer alguém como eu?


Tadinho kkkkk

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