Capítulo 17
O gosto da vitória não podia ser mais amargo. Ou... talvez apenas meio ferroso.
Ah. Agora Stiles entendeu. O que sentia era sangue — devia ter se cortado por dentro da boca enquanto gritava, ou quando colidiu com o muro de plantas, ou, quem sabe, ao lançar aquelas labaredas de fogo. Também não podia negar que havia se queimado um pouco. Estava com bolhas na mão esquerda, o que era uma ótima nota mental para o futuro: conjurar fogo não o tornava imune a ele.
Uma desvantagem clara em relação à família Whittemore, que além de manipular o fogo, também não se queimava ao usá-lo. Injustiça mágica.
Mancando, Stiles caminhava pelos corredores da escola em direção à saída. Scott seguia ao seu lado, observando-o com atenção até, por fim, intervir.
— Ei! Eu não preciso... — começou Stiles, já na defensiva.
— Ah, cala a boca, Stilinski. — retrucou Scott, impaciente. — Estou aqui pra te ajudar, não estou? Então deixa eu ajudar.
Colocou o braço direito de Stiles sobre os ombros e o apoiou, facilitando seu passo trôpego.
— Stiles... você está bem? — perguntou Allison, preocupada, caminhando junto. Stiles havia acabado de sair do escritório da diretora. Estava triunfante. Tinha conseguido seu diploma. Tinha dado um verdadeiro espetáculo... Mas também não podia negar:
— Só dói quando eu respiro — brincou ele, soltando uma risada fraca.
— O que você fez... foi fantástico, devo dizer — comentou Allison, os olhos brilhando. — Eu nunca esperaria por aquilo! Digo, sem querer ofender, mas suas invenções normalmente acabam... explodindo.
— Eu sempre digo isso pra ele — acrescentou Scott.
— Já pensaram que talvez eu quisesse que elas explodissem? Hein? Que talvez essas explosões fossem parte do design? — rebateu Stiles, tentando manter a dignidade.
Allison e Scott trocaram um olhar cúmplice, e Stiles corou levemente, frustrado com a falta de fé.
— Mas devo admitir que foi incrível sentir aquele poder... Claro, preciso fazer ajustes. Eu nem tinha planejado usar a "Super Luva Arcano Superior"! Hmm... não, ainda não soa certo. — Ele começou a tagarelar, animado, apesar da dor. — Talvez "Manopla Modular Stilinski"? Ou "Luva de Interface Elemental"?
Enquanto falava, sua mente já fazia cálculos. Precisava descobrir como amortecer o poder dos cristais — especialmente considerando que, claramente, tinham sido amplificados pelo cristal desconhecido. Sem ele, nada do que fizera naquele dia teria sido possível.
Cristais de Arcanomecânica, por padrão, não eram tão poderosos. Tinham limite, exigiam substituição e jamais chegavam ao ponto de rivalizar com um usuário natural de Arkanis. Mas hoje... ele fizera isso. Copiara o poder dos Argent. E dos Whittemore. Bem na frente deles.
Quem era o inerte agora?
— Você nem consegue mexer o braço esquerdo direito! Devia parar de inventar nome e jogar essa coisa fora! — resmungou Scott.
Pois é. Stiles realmente devia considerar os danos. Seu braço esquerdo, ainda enfaixado no aparato, estava praticamente em frangalhos.
Scott parou diante da escadaria.
Eles teriam que descer?
Stiles olhou os degraus como se fossem uma cadeia montanhosa intransponível. Sentiu um súbito desejo de chorar só de imaginar o esforço necessário para descer.
— Esperem.
Não soou como um pedido — foi, sem dúvida, uma ordem. Allison, Scott e Stiles viraram-se para trás e viram um rapaz alto se aproximando. Os cabelos eram raspados, o olhar sério e a pele escura contrastava com o terno de tons terrosos que usava. Havia algo em sua presença que impunha silêncio, talvez porque ele fosse, por natureza, um jovem de poucos amigos. Não por falta de opção — mas por escolha deliberada.
Aquele era Vermon Dunhaven, um dos filhos de Alan Dunhaven.
Stiles ergueu uma sobrancelha com genuína surpresa. Vermon raramente se aproximava de alguém, muito menos dele — e agora estava ali, falando. Com eles.
Os olhos escuros do rapaz fixaram-se em Stiles com um olhar tão analítico quanto crítico.
— Se tem algo a dizer, é melhor falar logo. Não sou exatamente um mestre em decifrar olhares — disse Stiles, já se preparando para algum comentário mordaz. Sabia que os nobres deviam estar incomodados com sua apresentação. Apesar dos aplausos e assobios, ele suspeitava que tinham mais a ver com a peruca flutuante da diretora do que com seu desempenho heroico.
— Vou te curar — disse Vermon, de forma simples.
Allison e Stiles trocaram olhares incrédulos.
— Sério? — Stiles perguntou, franzindo o cenho.
Vermon revirou os olhos — um gesto que parecia habitual.
Vestia um terno marrom com detalhes em verde-musgo, cores típicas da Casa Dunhaven, que pareciam acentuar ainda mais sua aura sombria e reservada.
— É o que eu faço, Stilinski. É o meu Arkanis. A função da minha família. — Sua voz era calma, mas carregada de uma impaciência polida.
— E você sabe o meu nome? — retrucou Stiles, obviamente focando na parte menos importante da fala.
— É claro que sei. Estudamos juntos desde os dez anos — resmungou Vermon, como quem lembrava de algo óbvio.
— Mas você nunca falou comigo! Eu me lembro de tentar puxar conversa, e você simplesmente me ignorava...
— Eu até gostaria de ignorar — murmurou Vermon. — Mas você fala demais. De qualquer forma, vim aqui pra te curar.
Quando estendeu a mão, Allison deu um passo à frente, interceptando o movimento com firmeza.
— Por quê? — ela perguntou, protetora. — Por que agora?
— E por que não? — respondeu Vermon, erguendo uma sobrancelha. — Ele precisa das minhas habilidades.
— Já ouvi histórias de Dunhaven que, em vez de curar, causavam doenças... — Allison estreitou os olhos, desconfiada.
Vermon revirou os olhos mais uma vez. Era quase uma arte, a julgar pela fluidez do gesto.
— Fofocas de Argent, imagino... Você não devia acreditar em tudo o que seu avô diz — retrucou, fazendo Allison corar, apenas por um segundo.
Então, com a mesma firmeza e simplicidade de antes, declarou:
— Quero curar Stilinski porque posso. E porque quero.
Não foi eloquente.
Mas foi sincero.
— Por que você quer? Vai ter que nos dar mais do que isso, Dunhaven — disse Scott, lançando um olhar desconfiado ao outro nobre.
Vermon soltou um suspiro profundo, claramente reconsiderando a decisão de ter iniciado aquela conversa. Olhou ao redor, como se verificasse se estavam sendo observados, o que, claro, chamou ainda mais a atenção de Stiles.
— O que você fez... essa Arcanomecânica — disse ele, por fim — não seria útil apenas para inertes ou pessoas sem Arkanis. Nobres também poderiam usá-la.
— Nobres como você? — repetiu Allison, sem esconder a confusão.
— Nobres sem magia ofensiva — respondeu Stiles, como se a peça tivesse finalmente se encaixado em sua mente.
De fato, os Dunhaven — assim como os Marwood — eram casas nobres que não se destacavam pelas glórias em campo de batalha. Enquanto os Marwood se gabavam de seus sonhos proféticos, os Dunhaven serviam silenciosamente nas áreas médicas, muitas vezes relegados às sombras do heroísmo.
— As pessoas parecem esquecer que os Dunhaven também vão para as batalhas. — continuou Vermon, a voz ainda serena, mas carregada de frustração. — Não lutamos na linha de frente, mas nos postos médicos. Minha família coordena os centros hospitalares de Caeloria. Salvamos vidas todos os dias. Mas, claro... isso não vira canção ou pintura nas paredes do Arcanum.
Stiles assentiu. Estava, de fato, impressionado — não apenas com o conteúdo, mas com a quantidade de palavras que saíram da boca de Vermon. Eram mais do que ele ouvira em todos os anos em que conviveram.
— Você quer usar Arcanomecânica? Pra quê, exatamente? — perguntou Stiles, curioso.
— Gosto de curar, sim... mas também quero lutar — disse Vermon, encarando-o com intensidade. — Quero ter outras opções na vida que não envolvam passar os dias em uma clínica. Eu sei que é importante, mas...
— Entendi — murmurou Allison. — Você não quer ser forçado a uma única função só porque nasceu com Arkanis pra isso.
Vermon assentiu.
— Bem, isso não te faz um inimigo. Só um interesseiro — disse Stiles, casualmente, fazendo Allison conter uma risada e Scott resmungar algo sobre o Stilinski precisar medir melhor as palavras.
— Sim. — Vermon não negou. Nem pareceu ofendido. — Quero que você fique bem porque tenho meus próprios interesses. Se conseguir criar uma versão mais segura dessa invenção... eu estou disposto a testar. Posso até pagar por isso.
— Certo, certo, Dunhaven! Eu nem abri um negócio ainda! — rebateu Stiles. — Mas... bem, não vejo problema em você se tornar um... er... cobaia? Afinal, você pode se curar se algo der errado...
— Stiles! — exclamou Allison, horrorizada. — Você não pode propor uma coisa dessas!
— Mas... se ele se cura, e... — Stiles tentou se justificar. — Não é como se eu quisesse explodi-lo ou algo do tipo! Talvez "cobaia" tenha sido um termo muito forte. Que tal... voluntário?
— Ainda é uma cobaia — ela frisou, cruzando os braços.
Foi então que Vermon deu um meio sorriso.
O que, para ele, era praticamente uma gargalhada.
— Posso te curar agora? — perguntou com naturalidade. Stiles apenas assentiu.
Allison saiu do caminho e Vermon se aproximou. Abaixou-se levemente para tocar com suas mãos morenas o braço esquerdo de Stiles. Ele soltou um leve gemido — mais de alívio que dor — quando o calor começou a se espalhar pela área afetada. Era reconfortante, como um banho quente num dia gelado, com direito a óleos perfumados e até um patinho de borracha imaginário.
— Por favor, não emita esse tipo de gemido de novo... — resmungou Scott, claramente traumatizado.
Stiles corou.
— E-eu não fiz de propósito! Escapou! — respondeu, indignado. Não era culpa dele se o poder de cura era, bem... delicioso.
E, naquele momento, Vermon riu. De verdade. Uma risada contida, seca... mas inegavelmente genuína.
Aquele Dunhaven estava, pela primeira vez, se divertindo.
Após alguns minutos desfrutando daquela sensação deliciosamente reconfortante — e se esforçando para não soltar mais nenhum gemido, em respeito aos ouvidos castos de Scott —, Vermon terminou a cura.
O braço de Stiles agora estava apenas dormente, como se tivesse permanecido tempo demais na mesma posição. Os cortes no rosto haviam se fechado quase completamente, e até o machucado na perna dera lugar a uma sensação de formigamento agradável.
— Quanto à roupa, não posso fazer nada — informou Vermon, ligeiramente ofegante e com uma fina camada de suor na testa.
Curar, ao que parecia, não era uma tarefa tão simples quanto Stiles imaginava. Aquela família, definitivamente, merecia mais respeito do que recebia.
— Bem, agradeço, Vermon — disse Stiles, afastando-se de Scott e observando o próprio corpo com olhos maravilhados. — Mas ainda vou precisar visitar o alfaiate...
E então se calou.
Tinha se esquecido completamente. Ainda precisava encontrar sua tia, Agnieszka Stilinski, para provar o terno do seu baile de aniversário.
Sua tia iria surtar.
Ele estava chamuscado, sem um dos sapatos, com folhas no cabelo e — ah, claro — com um belo rasgo nas calças. Perfeito.
— Eu entrarei em contato — disse Vermon, com simplicidade.
Stiles assentiu e começou a descer as escadas. Antes de cruzar a porta da frente da escola, no entanto, voltou-se por um momento.
Vermon ainda estava no topo da escadaria, imóvel e solene como uma estátua cerimonial.
— Você também escreveu uma carta para mim, não é? Por causa do baile? — perguntou Stiles, com curiosidade genuína.
Vermon deu outro de seus raros meio sorrisos.
— Eu pensei que você fosse inteligente, Stiles. É claro que escrevi. Todos os filhos e filhas da nobreza de Beacon Hills escreveram. Mas não espere romance da minha parte. Tenho gostos mais... refinados. Prefiro que meu futuro esposo — ou esposa — seja alguém previsível. E que não fique se ferindo à toa. Não quero ter que fazer horas extras.
— Ouch! Eu teria ficado contente só com um "sim", Vermon! — ralhou Stiles, já acenando enquanto se afastava.
Vermon apenas revirou os olhos.
Talvez Stiles tivesse ganhado uma nova amizade.
Ou um aliado.
Ou, quem sabe... um cobaia-voluntário.
***
Stiles se despediu de Allison e seguiu com Scott até o alfaiate preferido de sua tia. A caminhada os levou por uma ruela estreita, até que pararam diante de uma casa de três andares, espremida entre outras duas. A placa pendurada acima da porta dizia, em letras prateadas elegantes:
Fio de Prata.
Segundo tia Agnieszka, ali trabalhava a melhor alfaiate de Beacon Hills — talvez de todo o reino. Ainda que não fosse tão estimada por certos nobres, e Stiles já suspeitava do motivo.
A porta se abriu com um chocalhar de sinos delicados, revelando uma figura imponente e absolutamente inesquecível.
— Oh, pelos deuses mais sagrados! O que aconteceu com você, minha raposinha? — exclamou, com a mão espalmada no peito.
A pessoa era alta — muito alta — com músculos dignos de um guerreiro de arena, mas usava um vestido vermelho carmim com bordados dourados, tão chamativo quanto elegante. A cabeça raspada brilhava sob a luz natural, e um cavanhaque perfeitamente aparado adornava o rosto anguloso. A voz, melodiosa e firme, carregava um charme teatral impossível de ignorar.
Aquela era Madame Flor — alfaiate lendária e melhor amiga de tia Agnieszka. Seu nome era sussurrado nos corredores da moda nobre, com admiração ou escândalo, dependendo do círculo. Tratava-se por ela e apenas ela — e quem tivesse dúvidas, que ousasse dizer algo em frente aos seus alfinetes.
— Olá, Madame Flor! Como vai? — disse Stiles, desmontando com alguma dificuldade. — Teria, por acaso, um par de calças extras antes de entrarmos? Se minha tia me vir assim...
— Mieczysław Stilinski! — veio o grito, já esperado.
Tia Agnieszka surgiu de trás do vulto glamoroso de Madame Flor, carregando nos olhos a indignação própria de quem ama demais e sabe demonstrar isso com uma repreensão.
— O que aconteceu com você?! Era só pra buscar o diploma! Por que está parecendo que atravessou uma guerra?
— Ih, querido, parece que não poderei ajudá-lo a escapar dessa — riu Madame Flor, com olhos cintilando de diversão. — Entrem, entrem! Temos muito trabalho a fazer!
Ela abriu espaço com um gesto gracioso e imperioso.
— E Scotty, meu bebê, entre também! Depois de deixar os cavalos no estábulo, sim? Quem sabe você finalmente me deixa fazer aquele terno que tanto sonho em costurar pra você...
— Eu não tenho dinheiro pra isso, senhora Flor — respondeu Scott, já guiando os cavalos, com uma resignação quase afetuosa.
— Oh, querido... — suspirou Flor, com doçura. — Eu faço um desconto só pra você.
O interior do ateliê — ou oficina de criação de arte divina, como Madame Flor gostava de enfatizar — era uma fusão mágica de tecidos esvoaçantes, manequins vestindo trajes exuberantes, vasos de flores em profusão (naturalmente, não era à toa que Flor se chamava Flor), além de espelhos dispostos com uma estética quase ritualística. No canto, uma vitrola movida a Arkanis — modificada por Stiles como presente de aniversário — tocava, com o devido dramatismo, uma ária de ópera. Madame Flor adorava ópera. E flamenco. Dois estilos que, segundo ela, representavam perfeitamente suas duas almas: a trágica e a incendiária.
— A velha Brightlight fez alguma coisa com você, não fez? Aquela mulher, sinceramente... já passou da validade. — Tia Agni estalou os dedos, com os punhos cerrados como se estivesse pronta para aplicar uns bons sopapos. — E aquela filha insuportável dela... Jane! Sempre foi uma chata! Uns anos mais nova que eu, vivia nos seguindo e nos delatando pra mãe. Nunca teve amigos. Não por falta de oportunidade... por escolha coletiva mesmo.
— Sim, duas mulheres deveras irritantes — comentou Madame Flor, ajudando Stiles a tirar o casaco e fazendo uma careta dramática ao ver a marca chamuscada no tecido. — Não sei como o senhor Brightlight sobreviveu tanto tempo naquele casamento.
— Bem, é aí que entra minha teoria — disse tia Agni, afiada. — Aquele casamento foi pura conveniência. Dizem que ele era um bastardo de um nobre qualquer. Ela queria um marido com Arkanis no sangue, ou pelo menos nos genes. O senhor Brightlight não tinha, mas os filhos poderiam ter... E a história nos mostra que não seria a primeira vez que um bastardo com Arkanis ganharia título de nobreza.
— Pena que Jane não herdou poder algum. Talvez o dom dela seja ser ranzinza e azeda. — Madame Flor riu, girando uma fita métrica entre os dedos.
— E o pobre do Brightlight não viveu tempo suficiente pra tentar de novo, não é?
— Eu, no lugar dele, também não duraria muito com aquela mulher. Céus...
— Nem sei como faziam... sexo — sussurrou tia Agni, horrorizada e fascinada ao mesmo tempo
— Talvez com um saco na cabeça — sugeriu Madame, e as duas caíram na gargalhada, escandalosamente.
Stiles, por sua vez, deixou o som das fofocas flutuar no ambiente como música de fundo. Não havia como competir com aquela dupla.
— Quer um chá, Stiles? — perguntou uma voz suave e familiar.
Um rapaz de cabelos castanhos bem penteados e olhos claros se aproximou com um sorriso gentil. Era Isaac Lahey, o protegido, pupilo e, de certa forma, filho adotivo de Madame Flor. Vestia um terno discreto — discreto para os padrões do ateliê, ao menos — e carregava uma bandeja com xícaras de porcelana com delicadas pinturas florais, de onde se erguia vapor perfumado.
— Sim, por favor. E... tem bolinhos de chocolate? Madame sempre tem bolinhos... — disse Stiles com esperança, enquanto sua barriga traía sua compostura com um rugido.
— Tínhamos. Mas os clientes comeram todos — disse Isaac, com um suspiro. — Mas estou fazendo mais, não se preocupe.
— Clientes? — perguntou Stiles, curioso. Não era raro Madame Flor ter clientes, mas muitos preferiam não serem vistos entrando no ateliê, o que forçava Isaac a fazer entregas diárias e atender a domicílio às escondidas. Ah, a hipocrisia nobre: falavam mal de Madame Flor, mas continuavam desejando suas criações com fervor.
— Sim. Sua tia encontrou alguns nobres meio... desgarrados pela cidade. E, acredite, nenhuma outra loja quis atendê-los. Alegavam que não "combinavam com o público habitual". — Isaac revirou os olhos, enquanto servia o chá. — Obviamente, sua tia não aceitou isso. Trouxe todos para cá, e Madame os acolheu com entusiasmo.
— E quem, exatamente, Beacon Hills acha indigno de receber ouro? — perguntou Stiles, agora genuinamente intrigado. Aquilo tudo parecia bem contraditório.
— Ah... eles seriam... — começou Isaac, até que o som de passos interrompeu a conversa.
Alguém desceu as escadas do segundo andar. Alguém sem camisa, descalço e usando calças caras... e visivelmente apertadas. O peitoral era definido, musculoso — quase uma obra de escultura viva, esculpida com esmero divino.
— Isso não cabe. Está muito apertado. — reclamou o rapaz, irritado, franzindo o cenho enquanto descia o último degrau.
Stiles cuspiu o chá.
Literalmente.
Porque, de fato, as calças estavam apertadas. Tão apertadas que deixavam bastante claro o que havia entre as pernas do rapaz. Claríssimo, aliás.
E Stiles sabia muito bem o que havia ali.
Porque já tinha visto aquele rapaz completamente nu.
— Derek?! — exclamou, incrédulo, com o chá ainda escorrendo pela boca. Uma visão nada glamorosa, especialmente considerando que o impacto da revelação merecia um pouco mais de compostura.
Mas compostura era justamente o que ele não tinha.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top