CAPÍTULO VINTE E SETE
DANTE
Singapura era o mais difícil de todos os desafios para os pilotos da Fórmula 1 por muitos motivos.
Em primeiro lugar, era uma corrida noturna. Isso significava que todas as sessões — os treinos e a classificação que antecediam a prova principal — aconteciam à noite. Então toda a rotina de sono e alimentação da equipe precisava ser ajustada.
Somado ao calor e à umidade intensos do país e ao fato de que eu agora dividia um quarto com Savannah sem fazer sexo por causa das minhas regras pré-corrida, tudo isso me deixava irritadiço e excitado. Dois dias antes da corrida, depois de um treino noturno, eu estava conversando com Jack na sala de estar da suíte que dividia com Savannah.
— Quer tomar uma bebida ou comer alguma coisa lá no bar, mate? Jack me olhou com esperança.
Bocejei e lancei um olhar para minha falsa noiva, que estava sentada no sofá lendo um livro. Estávamos numa mesa a alguns metros de distância. Não. Estou um pouco cansado.
Jack soltou uma gargalhada. Você virou um verdadeiro caseiro, não é?
Vou fingir que não ouvi isso. Levantei-me, e Jack fez o mesmo. Então o acompanhei até a porta.
— Até amanhã — disse ele, piscando. — Certifique-se de dormir pelo menos um pouco, certo? Quero você descansado para a corrida.
Vai se ferrar. Fechei a porta e caminhei até o minibar. Senti os olhos de Savannah sobre mim e sustentei seu olhar. Como sempre, a tensão sexual entre nós crepitava. Peguei uma Pellegrino. Tentava ignorar o quão sexy ela parecia usando aqueles shortinhos azuis de algodão e uma camiseta branca simples com o desenho do que parecia ser um sushi de desenho animado na frente. Ela usava meias listradas até os joelhos e o cabelo estava preso em um rabo de cavalo. Todo aquele visual de universitária estava me deixando louco.
Ela piscou para mim e eu ri. Desculpe, Savannah mia, mas não posso fazer amor com você.
Na verdade, eu estava bem concentrada no meu livro, mas agora que você mencionou, não me importaria com uns momentos sexy.
Ela conseguia ser adoravelmente boba, e eu tinha passado a amar isso nela. Normalmente as mulheres — diabos, os homens também — ficavam sérios e deslumbrados perto de mim. Savannah me tratava como um igual. Às vezes até demais, na minha opinião. Mas, secretamente, eu adorava isso.
Pare com isso, gatinha. Lembra do que eu te falei no começo da temporada?
Ah, sobre você não fazer sexo nos dias antes de uma corrida? Eu achei que estava dizendo isso só para me provocar. Você estava falando sério?
Estava.
Mas nós fizemos sexo na noite anterior ao GP da Itália.
E veja como aquilo terminou, murmurei.
— Tá bom, entendi. Você é supersticioso e quer esperar até depois da corrida. Tudo bem. Ela voltou a atenção para o livro.
Sentei-me ao lado dela no sofá. Vamos fazer outra coisa. Algo que não envolva sexo.
Ela ergueu os olhos, com um sorriso divertido. — Certo. Tipo o quê? Não é como se pudéssemos sair. É uma da manhã e você tem classificação amanhã. Mas ainda são cinco da tarde no horário europeu. Estou completamente perdida.
O que vamos fazer? Eu não estava acostumado a passar tempo com mulheres fora de clubes ou da cama. Normalmente elas não queriam apenas ficar por perto.
Já sei! Savvy se levantou e foi até a televisão, ajoelhando-se diante do moderno centro de entretenimento e abrindo uma gaveta. Meus olhos foram imediatamente para sua bunda. Sua bunda doce e curvilínea. Eu a observava enquanto ela tirava controles remotos e controles de videogame.
Um PlayStation — disse ela animada. Pare de olhar para a minha bunda. Podemos jogar alguma coisa. Olha! Tem Formula World Racing! E eles têm volantes e pedais de verdade.
Eu não jogo videogame.
Ela se virou e me lançou um olhar indignado de brincadeira. Como assim? Você nunca correu em um videogame? Achei que todos os pilotos jogassem para treinar. Ela citou o nome de alguns pilotos que já tinham dito esse tipo de coisa em entrevistas.
Max joga. Todos os pilotos mais jovens jogam. Eles cresceram com essa bobagem de realidade virtual. Eu sou um purista. Tomei um gole da minha água com gás e me afundei no sofá.
— Esquece isso. Não seja um velho. Vamos jogar. Ela mexeu na televisão e nos aparelhos e me entregou um volante. Passei as mãos sobre ele como se estivesse no meu próprio carro. Era quase igual ao de verdade. Hmm. Tinha as borboletas de troca de marcha atrás do volante, igual ao meu carro. Que brinquedo divertido para crianças.
Ah, e toma. Ela estava ajoelhada à minha frente, posicionando uma pequena caixa com pedais aos meus pés. Você sabe o que fazer com isso, certo?
Soltei um som de desdém. — Nunca joguei, mas tenho certeza de que descubro. Lembro que o criador do jogo me chamou para gravar alguns anúncios e me fez várias perguntas quando estavam desenvolvendo isso.
Mas você nunca experimentou?
Por uns cinco minutos, na frente da imprensa. Achei entediante.
Seu bobo. Isso é divertido.
Ela voltou ao sofá com outro volante e outro conjunto de pedais.
Espera, nós vamos competir um contra o outro? — perguntei.
— Ué, claro.
Às vezes ela era tão engraçada que eu não conseguia evitar rir. — Isso mal parece justo. Eu sou o campeão mundial, sabia?
— Você nunca jogou. Vou acabar com esse seu traseiro romano.
— Você já jogou antes?
Ela me lançou um sorriso presunçoso enquanto os dedos voavam pelo controle remoto. A televisão ganhou vida. — Claro. Meu irmão e eu jogávamos o tempo todo. Sou uma boa motorista. Na verdade, uma excelente motorista.
— Vamos ver. Dei de ombros e me sentei mais ereto.
— Se você está tão confiante na minha falta de habilidade, vou escolher meu piloto e meu carro primeiro.
— Certo. Claro.
Observei enquanto ela navegava pelos menus e então vi um avatar com o meu rosto ser destacado. — Ei! Você não pode me escolher!
Ela olhou para mim de lado. — Claro que posso. Você deixou eu escolher primeiro. Estou escolhendo o melhor piloto.
— Então eu nem posso ser eu mesmo nessa corrida? Franzi a testa. — Como é que eu faço isso?
Aqui. Ela se inclinou e apertou alguns botões, fazendo eu me sentir como um sujeito que tinha crescido brincando com gravetos, pedras e fogueiras. Você pode ser o Max.
Eu não quero ser o Max. O rosto convencido do meu jovem companheiro de equipe apareceu na tela. Azar. Esta corrida vai servir de treino. Ela apertou outro botão e a pista surgiu na televisão.
Ah, vamos correr na Espanha, é? Murmurei. Sempre me dei bem lá.
— Ah é? Pena que eu estou com o melhor piloto.
A bandeira quadriculada apareceu e meu coração disparou. Ela soltou um grito de comemoração ao acelerar seu carro virtual até o fundo e disparar à minha frente na pista.
◊
SAVANNAH
— Você não é um piloto tão ruim assim, Dante Annunziata.
Eram quatro da manhã, e estávamos jogando videogame de corrida havia horas. Fizemos uma pausa para pedir uma pizza pelo serviço de quarto e agora estávamos esparramados juntos no sofá da suíte, rindo. Eu estava me divertindo muito com ele, principalmente porque era divertido demais vê-lo relaxar enquanto jogávamos e brincávamos.
Percebi então que Dante nunca tivera a chance de ser um jovem comum. Ele sempre fora um piloto, desde criança. Sempre competindo. Mais ou menos como eu, só que em escala mundial. Pelo que eu havia entendido, o pai dele o pressionava e, quando ele continuava vencendo, pressionava ainda mais.
Nesse sentido, éramos muito parecidos. O pai dele, minha mãe — ambos nos colocaram sob os holofotes quando éramos crianças. Eu não sabia se Dante enxergava os paralelos entre nossas criações, porque ele sempre se apressava em apontar nossas diferenças. Diferença de idade, diferenças culturais, preferências alimentares. Mas, na minha opinião, a razão de nos darmos tão bem — como naquela noite — era justamente porque éramos tão parecidos.
— Eu achei que você ia me vencer no começo. Ele passou a mão pelos meus cabelos. — Você também é uma excelente piloto.
— Para uma garota, você quer dizer.
— Não quis dizer isso de forma alguma. Fiquei surpreso com o quão realista o jogo era. Eu deveria usá-lo para treinar. . . A voz dele foi diminuindo. — Claro, não vai haver mais treinamento depois deste ano.
— Isso te deixa triste? Levantei a cabeça do peito dele.
— Triste? Um pouco. Acho que fico pensando no futuro e no que ele reserva. Vou precisar amadurecer um pouco. Bastante, na verdade.
— Você não quer amadurecer?
— Quero, eu acho. Ele deu de ombros. — Não quero ser como meu pai, que só pensava em prazer e mulheres. Quero mais da vida. Algo significativo. Preciso descobrir como fazer isso.
Apoiei a cabeça de volta no peito dele. A situação familiar de Dante parecia muito mais complicada do que a minha.
Ficamos assim por vários minutos, ele acariciando meu braço e eu ouvindo os batimentos do coração dele. A frequência cardíaca de repouso de uma pessoa comum gira em torno de setenta batimentos por minuto, mas pilotos como Dante costumam ter algo próximo de quarenta, porque são extremamente condicionados fisicamente. O coração dele batia tão devagar que, em determinado momento, senti um lampejo de pânico ao me perguntar se ele estava mesmo vivo. Foi quase um milagre quando finalmente ouvi aquele lento tum... tum...
— Me diga o que significam todos estes. Ele interrompeu meus pensamentos ao acariciar os pingentes da pulseira de prata em meu pulso.
Mudei de posição para ficar deitada de costas, parcialmente sobre ele. — Ah. Minha mãe começou essa pulseira para mim. Ela e meu pai me dão um pingente todos os anos. Tenho vinte e cinco pingentes, um para cada ano da minha vida, e mais um de boa sorte.
Expliquei cada um deles, começando pela sapatilha de balé.
— Então você começou a fazer balé aos quatro anos?
— Isso mesmo. Eu adorava. E este aqui, o batom, foi quando completei oito anos, por causa do meu primeiro grande concurso de beleza.
— Oito anos! Meu Deus. Você era tão pequena.
— Era. Eu queria dar uma surra em todas as outras meninas no palco. E consegui.
Ele riu. — Brava. Essa é a minha garota.
Girei o pulso e toquei outro pingente. — E este livro é de quando entrei na primeira série.
— O que é este aqui?
Segurei entre os dedos um pingente com duas meninas desenhadas como bonequinhos. — Este foi da minha melhor amiga, Kayla. Você vai conhecê-la no Brasil daqui a algumas semanas. E este outro é um anjo. Meu pai me deu quando completei quatorze anos e fui para o ensino médio. Foi o mesmo ano em que ele me levou à minha primeira corrida da NASCAR. Eu considero meu pai o meu anjo.
— Você é um anjo. Ele beijou a palma da minha mão, enviando uma chuva de faíscas pelo meu braço. — E o sapo?
— Minha mãe me deu esse no meu aniversário de vinte e quatro anos, no começo deste ano. Ela esperava que eu encontrasse meu príncipe encantado.
— Talvez. . . bem, deixa pra lá. E este? Um peixe?
— Ah. Eu o comprei antes de vir para a Itália. É o único que comprei para mim mesma. Desprendi o pequeno pingente da pulseira. — Isto se chama uma gárgula de golfinho. Só existe em Savannah. Os de verdade ficam na ponta das calhas de escoamento de água.
— Gárgula?
Ele pareceu confuso, então continuei. — Sabe, os canos que levam a água da chuva para longe dos prédios. Eles são considerados símbolos de boa sorte na minha cidade. Tem por toda parte em Savannah. Sentei-me sobre ele, montando em seu colo. — Aqui. Quero que fique com ele. Você vai precisar de sorte pelo resto da temporada.
— Você não precisa.
— Não, eu quero. Quero que você tenha sorte nesta corrida noturna e em todas as que vierem depois. Pressionei o pingente na mão dele.
— Obrigado. Vou usá-lo junto do pingente da minha irmã.
Aquilo me pareceu incrivelmente doce. Vulnerável, até. — Épico. Inclinei-me para beijá-lo enquanto ele apertava minha bunda.
— Agora vou dormir no quarto de hóspedes. Ele segurou meu pulso. — Por que não dorme ao meu lado? Eu vou me comportar.
— Você é quem tem a regra de não fazer sexo antes das corridas. Talvez consiga se controlar esta noite, já que estamos cansados, mas vai conseguir resistir amanhã de manhã, quando eu estiver me esfregando em você, meio sonolenta, querendo você dentro de mim? Pressionei meus lábios contra os dele.
— Claro que eu não conseguiria resistir a você. Ele gemeu. — Acho que você tem razão. Mas, Savannah?
Deslizei para fora do colo dele. Já de pé, olhei para baixo. Ele ergueu a mão e passou os dedos pela lateral da minha coxa. — Sim?
— Tranque a porta. Porque eu já estou tentado.
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