CAPÍTULO TRINTA E CINCO

SAVANNAH

Eram necessários dois voos para chegar a Atlanta e depois um terceiro, em um aviãozinho regional, para chegar a Savannah. O sol nasceu e se pôs, depois nasceu de novo, e passei a maior parte da viagem dormindo ou levemente embriagada de vinho. A viagem pareceu durar dias, mas, na realidade, levou trinta e seis horas.

Trinta e seis horas de dúvidas, segundas, terceiras e quartas reflexões, assentos apertados e comida tão sem graça e horrível que parei de comer em algum lugar sobre a Europa. Houve choro nos banheiros dos aviões — muito choro. Em certo momento, joguei um cobertor sobre a cabeça e tentei dormir, mas acabei apenas soluçando baixinho. Minha dor era uma ferida aberta, crua, visível para todos.

Como se eu me importasse.

Eu estava grogue e sem mais lágrimas quando cheguei à minha cidade natal, e meu celular estava sem bateria porque meu carregador continuava em Dubai, já que eu era uma idiota e o tinha deixado para trás sem querer. Eu pretendia comprar outro durante minha conexão em Berlim, mas não tive muito tempo para pegar o próximo voo. Então usei o telefone de um estranho pouco antes da decolagem para mandar mensagem ao meu irmão. Felizmente, ele estava na casa da nossa família em Savannah, e eu implorei para que deixasse a chave embaixo do capacho da nossa casa de praia em Tybee Island. Eu precisava do oceano e da solidão, não das lembranças familiares da minha infância.

— Por favor, não conte para a mamãe e o papai que eu voltei. Estou implorando, digitei.

Tudo bem, mas você me deve uma — respondeu meu irmão. Eles estão em Atlanta, no condomínio.

Li a mensagem e soltei um suspiro. Um casal próximo me encarou.

Finalmente, uma boa notícia, murmurei, sem me importar por estar falando sozinha em público.

Meu corpo inteiro estava tão exausto que até meus dentes doíam. Entrei em um táxi no aeroporto de Savannah e pedi ao motorista que me levasse para Tybee. Foi uma sorte meus pais estarem em Atlanta. Eu não suportaria o bombardeio de perguntas da minha mãe naquele momento. Depois de alguns dias sozinha, eu ligaria para ela e tentaria explicar tudo.

E, se algum repórter curioso estivesse procurando a falsa ex-noiva de Dante depois da conquista do campeonato, jamais me encontraria ali. Não que alguém tentasse. Eu tinha certeza de que Dante estava de volta à Itália, aproveitando os holofotes. Eu era apenas uma nota de rodapé na história da Fórmula 1.

No banco de trás do táxi, deixei a cabeça cair contra o encosto. Talvez fosse porque eu estava tão perto de casa, mas me senti mais relaxada na umidade e no ritmo lento do Sul dos Estados Unidos do que durante toda a viagem. Acabei adormecendo durante a hora de percurso.

Senhorita, chegamos — disse o motorista, me despertando. Seu sotaque sulista parecia ao mesmo tempo estranho e reconfortante depois de meses ouvindo outros idiomas e sotaques.

— Obrigada. Paguei a corrida e peguei minha mochila. A maior parte dos meus pertences tinha sido enviada para casa a partir de Dubai. Os vestidos de gala, os programas de corrida que eu colecionara como lembrança — tudo. Eu só tinha trazido uma troca de roupas, os brincos de diamante que Dante me dera em Mônaco, um protetor labial e meus eletrônicos, que agora estavam tão sem energia quanto eu.

Saí do táxi e franzi a testa.

Havia um carro desconhecido na entrada da casa. Um Toyota prata com placas da Geórgia. Talvez fosse do assistente do meu irmão. Ele provavelmente estava ocupado demais para entregar a chave pessoalmente, o que me irritou.

Tentando ignorar isso, fechei os olhos e inspirei profundamente. O ar tinha cheiro de água salgada e jasmim. A aconchegante casa amarela de frente para a praia foi a primeira coisa que me trouxe alegria em dias. Sorri, e lágrimas encheram meus olhos.

Meu Deus, eu estava exausta. E estava em casa.

Passei a mochila por um dos ombros e fui para os fundos da casa, voltados para o mar. Eu tinha pedido ao meu irmão para deixar a chave embaixo do capacho, perto da cadeira de balanço da varanda. Tybee era pequena e segura, e todos os vizinhos se conheciam.

Virei a esquina e vi uma figura sentada na cadeira. O quê—

Dante?

Parei imóvel ao pé da escada da varanda. O que você está fazendo aqui? Eu não sabia se devia ficar furiosa ou cair no choro. Por que estava me sentindo tão tonta de repente? E como diabos ele tinha chegado ali tão rápido? Antes de mim? Nada fazia sentido.

Talvez eu estivesse alucinando. Deve ser isso. Porque, caso contrário, por que um italiano lindo, descansado e absurdamente atraente estaria sentado na varanda da casa de praia dos meus pais, observando o oceano?

Mas uma alucinação me abraçaria? Uma alucinação me beijaria suavemente? A última vez que eu o tinha visto fora dois dias antes, dentro de um carro de corrida, em uma pista no Oriente Médio. Talvez eu tivesse entrado em alguma espécie de dobra no espaço-tempo.

Estou aqui porque amo você — disse ele com a voz rouca.

Olhei ao redor, sentindo uma centelha de esperança se acender em meu peito. O que você disse? Você é real?

Seus olhos quase negros brilhavam intensamente. Sou. E estou aqui para pedir desculpas.

Fiquei encarando-o, confusa. Era realmente ele. Você acabou de dizer que me ama?

Ele beijou minha testa. — Uhum. Sim.

Por que você está aqui? Eu deveria soar zangada, mas estava cansada demais e, de repente, feliz demais para conseguir ser dura.

Porque eu precisava ver você.

— Ah. Minhas pernas não conseguiram mais me sustentar, e sentei no degrau superior. Ele se agachou diante de mim.

Me desculpe, Savannah mia. Descobri o que aconteceu. E sinto muito por Tanya ter contado tudo aquilo em Dubai. Ela estava errada. Ela e Jack mandaram desculpas. Seus olhos se suavizaram com uma expressão de sofrimento.

Mas era verdade? Não consegui impedir as lágrimas de escorrerem pelo meu rosto.

Dante inspirou fundo e olhou para o chão. — Quando nos conhecemos, eu realmente disse ao Jack que estava pensando em seduzir você para tirá-la da equipe. Foi um comentário impensado e eu não falava sério. Foi horrível da minha parte, e peço desculpas. Eu era, como você diria, um idiota.

Um grande idiota.

Mas eu parei de querer seduzir você por diversão em Montreal. Passei a querer seduzir você de verdade. Porque você era a pessoa mais autêntica que eu já tinha conhecido. Descobri que você é linda. Inteligente. Engraçada. Carinhosa. E entende muito de pneus.

Eu já estava chorando sem controle. Dante sentou-se ao meu lado e me abraçou, acariciando meus cabelos e beijando minha cabeça.

Descobri outra coisa. Que você é leal. Você me deu mais do seu coração do que qualquer outra pessoa já me deu, Savannah. O que você me deu vale mais do que qualquer campeonato.

Eu não conseguia pensar em nada para responder.

Ele ergueu meu queixo. — Eu me apaixonei por você. E percebi que quero que você seja minha noiva de verdade. Minha esposa.

Meu Deus, sussurrei, escondendo o rosto em seu peito. Você não é um idiota.

Ele se ajoelhou no degrau mais baixo e tirou algo brilhante do bolso. Fiquei olhando para o anel. Não era o mesmo que eu tinha usado durante a temporada.

Era ainda mais bonito.

Pedi para um joalheiro de Dubai entregar vários anéis para que eu escolhesse um durante o voo para os Estados Unidos. Escolhi este. Safira e diamantes. A safira tem a mesma cor da água da gruta em Amalfi. A nossa gruta. Onde me apaixonei por você.

Ele segurou minha mão e ergueu os olhos para mim, com uma lágrima escorrendo pelo rosto.

Você quer se casar comigo, Savannah? Quer ser minha companheira de equipe para o resto da vida? Eu preciso de você.

Assenti entre lágrimas. — Sim. Eu quero. Eu quero.

Ele colocou o anel em meu dedo e se levantou.

Eu te amo, Dante. Olhei para seus olhos escuros e acolhedores, e uma sensação de paz me envolveu. Eu estava em casa. E estava com ele. Ele me abraçou com tanta força que o ar saiu dos meus pulmões. Nós dois rimos.

Querido, como você chegou aqui tão rápido?

Sou o homem mais rápido do mundo. Afastei-me um pouco e dei uma risadinha. Não, sério. Como? Eu consegui uma passagem de última hora e levei dois dias e meio. Quanto tempo você está aqui?

Essas são as vantagens de ser campeão mundial. Consegui um voo na classe executiva e levei pouco menos de vinte horas. Cheguei a Savannah, aluguei um Toyota discreto, encontrei seu irmão, expliquei tudo e depois vim para cá esperar.

Você alugou um Toyota? E contou tudo para o meu irmão?

Bem, quase tudo. Omiti alguns detalhes.

Olhei para ele horrorizada. — Espero que muitos detalhes.

— Relaxa. Ele se divertiu bastante. E já tinha assistido à coletiva de imprensa.

Que coletiva? Franzi a testa.

A que dei depois da corrida, quando contei ao mundo que nós tínhamos voltado e que eu queria um casamento na véspera de Ano-Novo.

— O quê? Amore mio, se você não quiser casar tão rápido, tudo bem. Foi apenas uma ideia.

— Não, eu. . .
Minha voz sumiu, e eu ri ao imaginar minha mãe entrando em pânico para organizar um casamento tão rápido e, ao mesmo tempo, ficando nas nuvens porque sua filha estava realmente se casando com o atleta mais rico do mundo.

— O quê? A véspera de Ano-Novo é perfeita. Mal posso esperar para contar aos meus pais. Talvez possamos nos casar aqui. Na praia. Pode estar frio. Mas seria perfeito.

Sabe o que é perfeito? Ele ergueu a chave da casa e foi abrir a porta.

— O quê?

Ele me puxou para dentro da minha própria casa, e eu ri.

— Que finalmente estamos juntos. Sem prazos, sem corridas e sem nenhum lugar para ir.      

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