CAPÍTULO SETE

SAVANNAH

Eu não conseguia formar palavras, muito menos frases completas, e sabia que um rubor escarlate de humilhação tinha subido às minhas bochechas. Ficar corada era a desvantagem de ser ruiva. Fiquei sentada congelada, de boca aberta. Ah, isso era ruim. Um desastre. Com certeza eu seria demitida.

Bronson colocou um par de óculos de leitura e leu em voz alta enquanto mexia no celular: — Aqui estão algumas das manchetes: "Ruiva Ardente Conquista o Coração de Astro das Corridas", "Ex-rainha de beleza vira garota dos boxes e transforma piloto em brinquedo sem camisa", "Herdeira Jenkins Auto coloca o picante no automobilismo".

— Oh, Deus. Era pior do que eu imaginava. Eu gemi e fechei os olhos enquanto a náusea subia no estômago. Eu tinha sido contratada há menos de um mês e já tinha estragado tudo. Eu tinha envergonhado a equipe e a mim mesma por causa de um homem.

Como eu deixei isso acontecer? Desde que saí dos concursos de beleza, eu tinha me esforçado tanto para não depender da minha aparência ou da minha feminilidade para avançar. E eu tinha conseguido isso, trabalhando duro para provar que era competente. Agora eu tinha destruído tudo de uma vez, arruinando minha imagem cuidadosamente construída de mulher séria e prática.

Pelo que eu tinha visto no meu celular, todos os jornais tinham aquela mesma foto de Dante me olhando como se quisesse me devorar. Pela expressão faminta no meu próprio rosto, parecia que eu estava a segundos de arrancar meu macacão de trabalho. Parecia? Não. Aquilo era exatamente o que tinha passado pela minha cabeça no momento em que a foto foi tirada.

Chique. Muito chique. Mais como um desastre completo. Eu chamaria um táxi assim que pousássemos e iria direto para o aeroporto mais próximo para voltar para os Estados Unidos.

Abri os olhos. Não tinha como explicar aquilo. Minha atração por Dante era evidente, e só existia uma opção possível agora. Eu precisava admitir meu erro horrível, arrumar minhas malas discretamente e sair da equipe assim que pousássemos na França.

Meu Deus, meus pais iam ficar tão envergonhados. Minha mãe ainda transformaria isso num eu avisei. Ou pior. Isso seria prova de que eu não estava pronta para esse mundo.

Talvez ela estivesse certa afinal. Ainda assim, eu tinha que fazer a coisa honrada.

As lágrimas ameaçaram cair, mas eu não ia deixar minhas emoções me dominarem. — Senhor, eu peço desculpas. Isso é totalmente inapropriado. Vergonhoso, até. Eu gostaria de apresentar minha renúncia da equipe. É o correto a fazer.

Bronson tirou os óculos de leitura e me olhou com expressão severa. Então ele sorriu. — Isso não vai ser necessário, Savannah. Na verdade, você sair da equipe é a última coisa que eu quero.

— Com licença? — Dante perguntou. — Acho que a Savannah está fazendo a coisa certa ao pedir demissão. Não sei como podemos trabalhar juntos. Acho que aceitar a renúncia dela é o mais adequado.

— O quê? Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Você vai me jogar na fogueira quando foi você quem agiu de forma sedutora primeiro?

Dante deu de ombros, como quem diz "fazer o quê?" — Foi um pouco desconfortável, para ser honesto. Como se você estivesse dando em cima de mim. Você pediu para eu mexer no seu cabelo.

— Depois de você tirar a camisa e ficar praticamente nu e brincar com meu cabelo, eu interrompi. — E mais uma coisa. Você está me acusando de assédio sexual?

Ele soltou um som de deboche, o que o fez parecer um puro-sangue elegante. — Assédio sexual... bem, essas são suas palavras, não minhas. Mas é uma descrição bem precisa, eu diria. Estava quente e eu tirei a camisa. Obviamente você não conseguiu se controlar perto de mim.

— O quê? Você quase me beijou! Você mexeu no meu cabelo.

Ele levou a mão ao peito. — Eu? Beijar uma funcionária dos boxes? Mexer? Nunca! Você é uma pequena insubordinada, sabia disso?

Nesse momento, a comissária de bordo apareceu atrás da cortina na frente do avião. A presença dela me assustou e eu olhei para ela, depois para Bronson, alarmada. Ele acenou para ela sair, e eu voltei o olhar para Dante.

— Ótimo trabalho em equipe, retruquei. Surreal. Cruzei os braços com força. Ele deu um sorriso de canto. Provavelmente achava que estava sexy. E estava. O que me irritou ainda mais. — Como se eu quisesse seduzir meu piloto.

— Crianças — Bronson disse rindo. — Parem. Eu não me importo se vocês dois ficaram se pegando como coelhos em cima do carro de corrida. Mas já que essa foto está na imprensa, isso me deu uma ideia. Uma oportunidade. Uma estratégia, digamos assim. Para isso funcionar, vou precisar de algo de vocês dois.

Dante e eu paramos de nos encarar e olhamos para Bronson, boquiabertos.

— Deixem eu explicar. Estamos com um problema sério tentando sair dessa acusação de roubo técnico. A imprensa está em cima da equipe por causa disso.

Dante se jogou no assento com um longo suspiro.

— Que escândalo? Do que você está falando? Eu desafivelei o cinto. — É sobre o Max e as informações técnicas? Eu li algo sobre isso na revista Autosport outro dia.

— Max, aquele merdinha, Dante resmungou, balançando a cabeça.

A reação dele me surpreendeu, porque tudo o que eu tinha lido indicava que os dois pilotos se davam muito bem.

— Isso mesmo. Basicamente, precisamos desviar a atenção da mídia do Max e da equipe, Bronson explicou. — Não quero esse caso de chassi aparecendo na imprensa o tempo todo. É ridículo acharem que usamos informação interna. Não quero a moral da equipe destruída nem uma investigação da FIA. Não nesta semana de estreia em Mônaco, nem depois.

Dante ergueu as sobrancelhas. — O que isso tem a ver com a Savannah e comigo? — ele perguntou com uma voz fria. Do jeito que ele disse meu nome, parecia que tinha encontrado sujeira no sapato.

— Aqui está meu plano. E acho brilhante. Vocês dois vão fingir que estão em um relacionamento. Vai gerar uma tempestade na mídia. Imaginem —disse ele, abrindo os braços como se apresentasse um espetáculo, — Estrela das Corridas se Apaixona pela Garota dos Boxes. A publicidade vai ser incrível.

Meu queixo caiu. — O quê? Garota dos boxes?

— Ah, qual é! — Dante rugiu e ergueu as mãos no ar em um gesto expansivo. — Isso é ridículo. Como se eu fosse namorar ela.

— Você devia se dar por sortudo, eu retruquei. — Idiota.

— Como se eu quisesse algo com alguém como você. Ele disse isso como se a ideia fosse a coisa mais absurda do mundo.

— Palhaço arrogante. Virei para Bronson, — Isso é uma piada?

— Não. Ele balançou a cabeça. — Falei com a nossa assessora, Tanya. Podemos manter a imprensa ocupada com essa história por um tempo. Talvez a temporada inteira, se precisar.

— A temporada inteira? — Dante perguntou. — São meses.

Bronson deu de ombros. — Vai atrapalhar um pouco suas outras relações. Mas você vai dar um jeito. Seja discreto.

Ele esperava que Dante continuasse saindo com outras mulheres enquanto fingia ser meu namorado?

— E todas aquelas coisas que você disse sobre orgulho em contratar a primeira mulher da equipe dos boxes da Fórmula 1? Como é que você pode falar isso se, no fim das contas, tudo o que quer é me transformar no enfeite de braço deste sujeito? Fiz um gesto na direção de Dante.

— Este cara é o melhor piloto do mundo, Dante rebateu.

— Ótimo.

— Isso é empoderamento feminino, Savannah — disse Bronson.

— O quê? Eu balancei a cabeça.

Bronson tinha aquele brilho exagerado no olhar, quase teatral, como se estivesse convencido demais da própria ideia. Quando viu que eu não assenti de imediato, ele não hesitou e seguiu em frente. — Você pode trabalhar nos boxes e ainda ter um relacionamento com o piloto principal. Não é o sonho de toda garota? Carreira e um homem rico?

Soltei um som entre engasgo e riso. — Não. Nem perto disso.

Dito isso, Dante fez sons parecidos, provavelmente porque as palavras de Bronson eram absurdas demais. Ou a ideia de fingir estar comigo era tão horrível assim.

Caramba. A gravidade da situação finalmente me atingiu. Não só esse dono de equipe lunático estava tentando me empurrar para uma farsa de relacionamento disfarçada de feminismo, como também Dante claramente me odiava e detestava minha mera presença.

— Como eu vou saber que vocês não vão contar isso pra imprensa? eu desafiei. Eu o desafiei, achando que naquele ponto não tinha mais nada a perder ao mostrar meu lado mais combativo. — Isso seria ainda pior para a equipe do que qualquer acusação de espionagem.

Bronson deu um sorriso torto. — Leia seu contrato de trabalho. Cláusula de confidencialidade. Você não pode falar nada com ninguém de fora da equipe. Nem com sua família. Vou processar você e seu pai rico por tudo o que vocês têm se fizer isso.

Não havia como envolver meu pai nisso. Não só ele ficaria profundamente decepcionado comigo, como também seria um escândalo para a empresa dele. Pensei na minha mãe e no meu irmão CEO, ambos extremamente preocupados com imagem. — E se recusarmos?

Bronson deu de ombros novamente e sorriu de forma cínica. — Eu arrumo outra trocadora de pneus. E outro piloto.

Meus olhos foram para Dante, e eu vi sua boca se abrir em choque. As mãos dele, apoiadas ao lado das coxas musculosas, se fecharam em punhos.

— Vou deixar vocês dois conversarem em particular, mas confio que vão tomar a decisão certa. Estou voltando para a área de conferência para trabalhar com meus assistentes, mas fiquem à vontade. Bronson se levantou, então parou, olhando de mim para Dante. — Vocês dois formam um casal lindo.

Ele atravessou a cabine, acenou levemente e desapareceu pela pequena porta na parte de trás do avião. Eu bufei.

— Esse filho da puta, Dante rosnou.

— Pelo menos nisso concordamos. Afundei no assento de couro macio e encarei a janela. Em que diabos eu tinha me metido com essa equipe? Eu queria chorar de frustração, mas não iria. Eu não chorava em público. Nunca. Nem em particular, na verdade. E especialmente não na frente de Dante, aquele idiota. Sim, eu estava chamando o campeão mundial de idiota na minha cabeça. Eu poderia dizer isso na cara dele também, em uns cinco segundos. Não havia chance de eu concordar com isso. Suspirei audivelmente, mas o som saiu mais parecido com o de um furão estrangulado.

A Eagle tinha sido o meu "in", meu ingresso para uma carreira no automobilismo mundial. E meu pai estava patrocinando a equipe. Eu teria que ligar para ele e para a minha mãe para explicar a foto. Enquanto minha mente girava, encostei a testa na janela oval e fria do avião.

Se eu aceitasse esse plano idiota, talvez pudesse tirar algum proveito da situação. Talvez eu conseguisse transformar isso numa oportunidade de aprender mais sobre o esporte e depois ir para outra equipe mais séria na próxima temporada. Fingir ser o interesse amoroso de Dante seria questão de algumas aparições públicas, nada mais.

Certo?

E, afinal, eu era uma boa atriz. Eu fingia estar feliz durante anos de concursos de beleza, quando na verdade não estava. Isso não podia ser mais difícil do que interpretar a namorada de uma estrela do esporte.

A vida é sobre colocar um sorriso no rosto e representar o seu papel, minha mãe sempre dizia.

Eu odiava quando minha mãe estava certa. E então me ocorreu: havia uma vantagem nesse relacionamento falso. Fingindo ser a namorada de Dante por uma temporada, minha mãe talvez parasse de me pressionar para voltar a Atlanta. Ela provavelmente ficaria encantada.

Depois, meu relacionamento falso com Dante acabaria, e minha mãe me deixaria em paz para sofrer o término, me dando ainda mais tempo. Ela tinha controlado minha vida durante toda a minha carreira em concursos de beleza, e minha saída tinha deixado anos de ressentimento para trás. Ela tinha me convencido a ficar na Geórgia para a faculdade. Eu suspeitava que ela queria que eu fizesse o que ela não conseguiu — ter uma carreira fabulosa e glamourosa em Atlanta. Ela tinha se casado cedo demais, cedo demais, e eu muitas vezes sentia que ela se arrependia disso. Em vez de admitir esse fato triste, ela se agarrou ainda mais a mim, enquanto tentava me derrubar.

As últimas palavras dela para mim — você nunca vai ter sucesso no mundo dos homens — tinham se tornado minha inspiração. Eu precisava provar que ela estava errada por qualquer meio possível.

Sucesso era a melhor vingança.

Afastei a testa quente da janela. Dante estava do outro lado da mesa e tinha virado o corpo na minha direção. Seus olhos estavam cheios de uma intensidade inquietante. Tudo seria mais fácil se ele não fosse incrivelmente bonito.

— Vamos fazer isso, ele disse em um tom firme.

Naquele instante, por causa da insistência dele, eu mudei de ideia. No que eu estava pensando? Se eu fosse em frente com essa proposta ridícula, seria motivo de piada na equipe inteira. Em todo o automobilismo. De jeito nenhum. Eu queria respeito, não uma reputação de ter chegado ao topo dormindo com alguém. Já era ruim o bastante eu ser filha de Dale Jenkins.

Eu não ia ganhar respeito me associando a esse homem arrogante.

— Não. A gente não vai fazer isso. Isso é loucura. Vou recusar e ver o que acontece. Vou pagar para ver o blefe dele.

As narinas dele se abriram. Isso teria me feito rir, se a situação não fosse tão séria.

— Olha, Savannah, ele disse, e a voz suave dele ganhou um tom mais duro. — Eu não sou de, como vocês dizem no seu idioma, adoçar as coisas.

Ele fez uma pausa e eu franzi a testa, sem entender de imediato o que ele queria dizer. — Embelezar — eu disse por fim.

— Isso. Isso mesmo. Eu não estou feliz com você nessa equipe. Mas vamos ter que trabalhar juntos nisso. Minha carreira está em jogo aqui.

Eu levei as duas mãos ao peito, como se ele tivesse tentado me ferir mortalmente. — Sério? Por que você não está feliz? O que eu fiz pra você?

Mais uma vez, a cortina cinza na frente do avião se abriu e a comissária veio até nós.

— Signore? Mais um Pellegrino? — ela perguntou. — E signora, uma Coca para você?

Ele balançou a cabeça e sorriu. Eu levantei a mão, me perguntando se ela tinha ouvido tudo e se venderia aquilo pros tabloides. Ninguém era confiável.

— Valeu, mas agora não — eu respondi.

Ela se afastou, e Dante e eu soltamos o ar ao mesmo tempo.

Ele passou a mão pelo cabelo, jogando-o para trás, um movimento fascinante, porque as linhas da mão masculina dele contrastavam de forma tão forte com os fios escuros e grossos. — Não é o que você fez comigo. É o que você pode potencialmente fazer comigo, com você e com a equipe. Mas isso não importa agora. Estamos sendo forçados a ficar juntos.

Com os olhos bem abertos, falei num tom falso e doce, daqueles reservados para bailes de debutantes e festas de irmandades universitárias. — Que agressividade. Meu Deus. Você deve ter sido realmente machucado por alguma mulher para ter sentimentos tão fortes assim. Sinto muito. Talvez você devesse trabalhar essas emoções com um profissional. Não é saudável guardar tanta negatividade dentro de si.

— Posso dizer com toda honestidade que nenhuma mulher nunca me machucou.

Respirei fundo, me fortalecendo. Eu já estava acostumada com esse tipo de conversa sexual inadequada, porque tinha estudado engenharia e convivido com homens durante anos. Eu conseguia devolver na mesma moeda. Sim, eu tinha privilégios por causa da minha família rica. Mas eu tentava trabalhar duro para provar meu valor.

Hostilidade aberta ou questionamento da minha capacidade por ser mulher... isso, para mim, ainda era um território estranho. Dante não era apenas rude — era insuportável.

— Talvez você precise explicar — como se eu fosse burra. Afinal, eu só tenho um diploma em engenharia. Por favor. — Me esclareça. Que mal eu estou causando? Nesse ponto, eu não quero estar aqui. Você é o último homem que eu quero por perto. Mas estou ofendida que você ache que eu sou ruim para a equipe. E, caso não tenha percebido, isso também está em jogo na minha carreira.

As sobrancelhas escuras dele se juntaram numa expressão feroz. Eu nunca tinha visto um homem ficar tão atraente enquanto franzia a testa, e isso fez os cantos da minha boca se levantarem.

— O quê? Você acha isso engraçado? — ele sibilou, os olhos escurecendo. — Isso é o meu campeonato que você está colocando em risco. A minha vida. Está nas suas mãozinhas delicadas toda vez que você troca meu pneu. Não se esqueça disso, Savvy. Isso aqui não é um estágio glorificado pra mim, como é pra você, uma rica filhinha de papai dos Estados Unidos.

Ele disse meu nome com tanta animosidade que eu recuei. A mandíbula de Dante se travou com força e ele endireitou os ombros. — Como eu poderia achar um homem das cavernas como esse sexy? Eu precisava destrinchar meus sentimentos depois, mas, por enquanto, eu estava pronta para o combate.

— Não acho que você esteja em posição de avaliar meu emprego e minhas conexões no automobilismo, senhor Annunziata. Se bem me lembro, você começou do zero, como um azarão. Eu também sou uma azarona, como mulher. Eu esperava que você tivesse um pouco mais de empatia pela minha situação e quisesse me ajudar a ter sucesso. Você não é o único aqui com algo a provar, meu amigo.

Lambi os lábios e percebi o olhar dele vacilar por um instante em direção à minha boca. Em vez de encarar o rosto bonito dele, foquei na vista da janela. Estávamos atravessando nuvens espessas, brancas e fofas.

— Vou ignorar sua insubordinação ao seu piloto por causa das circunstâncias. Vamos ter que trabalhar juntos e aceitar essa ideia idiota do Bronson. Mas aqui está o que eu penso. Mulheres não têm lugar em uma equipe, a menos que estejam com uma roupa reveladora segurando um guarda-chuva enquanto eu dou entrevistas.

Eu ri enquanto o observava — a pele oliva dele, o pescoço elegante e ao mesmo tempo forte, e até a orelha. Parecia tão macia e delicada que eu quase quis mordê-la e puxar de leve. Odiei ter pensado aquilo.

De onde isso tinha vindo?

— Deus me ajude — eu disse em voz baixa, usando um tom sulista.

Os olhos de Dante se estreitaram. — Você está zombando de mim?

— Talvez, senhor Annunziata.

Certamente um italiano não entenderia que "Deus me ajude" podia soar como ironia — uma forma educada de dizer "você é um idiota".

Eu me levantei e comecei a andar pelo corredor minúsculo do avião. Que ele se contorcesse um pouco enquanto eu decidia. Babaca.

— Você não precisa me chamar assim, ele resmungou. — Dante serve. Senhor Annunziata me faz parecer velho.

Sentei no sofá comprido de um dos lados do avião. Dante soltou o cinto, atravessou o corredor e sentou ao meu lado. Ele estava perto demais, perto demais mesmo. e eu sentia o cheiro do colônia cítrica dele.

— Por favor? O tom dele agora era diferente. Suave, sedutor. Ele segurou meu pulso. — Escute. Eu posso não te querer na minha equipe, mas reconheço que preciso de você agora. Para sobreviver. Para o campeonato. Você não quer fazer parte de um time vencedor?

Engoli em seco, ignorando como aquelas palavras — eu preciso de você — faziam meu coração bater forte contra o peito. E, sem perceber, ele tinha atingido exatamente o ponto fraco: competição. Se havia chance de vencer, em qualquer lugar, eu faria qualquer coisa para isso. Videogames com meu irmão, futebol na infância, concursos de beleza. Eu gostava de ganhar.

Fingir um relacionamento com o atleta mais rico do mundo talvez fosse um pouco demais.

— Claro que eu quero vencer. É por isso que estou aqui, seu idiota. Mas sinto que o Bronson está manipulando a gente, e eu odeio essa sensação.

— Você acabou de me chamar de idiota? Um olhar de pura confusão passou pelo rosto lindo dele.

— Sim.

— Vou ignorar isso também. Por que você quer vencer? Por que isso é tão importante?

— Quero provar ao mundo que uma mulher pode fazer esse trabalho. É isso que quero dizer — isso também é minha carreira. Mas por que eu deveria aceitar isso? É humilhante. Você não está chocado com a proposta do Bronson? Não acha isso manipulador e sujo?

— Talvez. Mas não estou nem um pouco chocado.

Parte de mim queria puxar meu pulso de volta, mas ele entrelaçou os dedos nos meus. O desejo passou como um sussurro pelo meu corpo. Eu nunca tinha sentido um toque tão intenso vindo de um homem. Ele apertou de leve, e eu juro que meu sangue esquentou.

— Você está ficando muito íntimo com a minha mão, cara.

Ele apertou meus dedos e falou num tom conspiratório, quase íntimo. — Cala a boca. Estamos nos conhecendo. Enfim, escuta. As equipes mentem o tempo todo para a imprensa. Existem truques e meias-verdades por todo lado. Dante mencionou o nome de um piloto famoso aposentado, dizendo que ele era gay.

— Eu achava que ele era noivo daquela estrela de Hollywood, dos filmes de ação.

Dante balançou a cabeça e apertou minha mão de novo. — Não. Tudo encenação. Eu me senti mal por ele ter achado que precisava disso.

Uau. Aparentemente havia muito sobre os bastidores do esporte que eu não sabia. Eu encarei os olhos escuros dele e vi um olhar sério, quase suplicante.

— Por que isso é tão importante pra você? — perguntei. — Se você sair hoje, ainda é um campeão seis vezes mundial.

— Este é meu último ano correndo. Minha última chance de ganhar mais um campeonato. Um recorde mundial. Depois disso... não sei o que vou fazer da vida. Talvez eu tenha que crescer.

— Deus nos livre, eu rebati.

Tentei ignorar o calor do corpo dele. Ele estava de shorts e a coxa musculosa encostava na minha perna. Olhei para nossas mãos entrelaçadas e um desejo puro me atravessou. Imaginei nossos corpos nus juntos, pressionados um contra o outro. O pensamento me deixou tonta, e eu foquei nos meus tênis.

— Certo, eu entendo — disse Dante. — Você quer provar ao mundo que mulheres são iguais. — E vou admitir, esse seu objetivo é válido — querer ser a primeira mulher nos boxes. Mesmo que eu não aprove pessoalmente. Então vamos fazer isso. Vamos provar juntos e vencer. Eu vou te ajudar. Eu juro por Deus, vou te transformar na melhor trocadora de pneus do esporte.

Levantei a cabeça. — Você faria isso por mim?

— Se você prometer me ajudar a vencer. E fingir ser minha namorada pode ser a melhor forma de tirar o foco do Max e desse escândalo idiota.

— Por que eu deveria te ajudar, então? Principalmente quando você nem me quer na equipe?

— Vou ter que deixar meus preconceitos sobre você e sobre mulheres no automobilismo de lado. Reconheço minhas falhas e vou cumprir minha palavra de impulsionar sua carreira. Olha, essa pode ser minha última chance de entrar para os grandes. — É a minha última oportunidade. Você sabe o quanto isso significa pra mim? Eu fiz uma promessa a alguém importante que eu tentaria alcançar esse marco. Estou tão perto, Savannah. Eu estou disposto a abrir mão de tudo, praticamente vender minha alma por um sétimo campeonato.

Era tudo sobre ele. Egoísta. Mesmo assim, a forma como ele disse meu nome me derreteu. E eu entendi o que era um espírito competitivo. Minhas sobrancelhas se franziram e um aperto de ciúme passou por mim ao pensar que alguém era tão importante para ele a ponto de ele fingir estar em um relacionamento com uma completa estranha para cumprir uma promessa feita a essa pessoa.

— Quem? Pra quem você prometeu?

— Minha irmã. Pouco antes dela morrer. Ele balançou a cabeça, como se já soubesse que eu perguntaria. — Não quero falar disso agora.

Agora era minha vez de apertar a mão dele. Todo aquele plano era loucura, mas a determinação feroz no rosto dele me dizia que talvez eu também ganhasse algo com aquilo. Deixar de lado a raiva do Bronson podia ser o melhor. — Certo. Nós dois queremos a mesma coisa: vencer. Eu te ajudo se você me ajudar também. Vamos fazer isso. Vamos ser uma equipe. Vamos fingir que estamos juntos.

Os cantos da boca dele subiram.

— Obrigado. Ele passou o polegar sobre o dorso da minha mão. — Sabe, isso pode ser divertido em vários níveis. Eu posso te ensinar muita coisa, Savannah.

Meu coração disparou. Ele conseguia perceber o quanto meu coração estava acelerado só de me tocar? Sua mão soltou a minha e foi até meu cabelo. Ele pegou uma mecha do meu cabelo e enrolou-a lentamente no dedo — exatamente como estava fazendo com algo dentro de mim, me deixando toda tensa, comprimida por dentro. A única coisa que eu conseguia fazer era morder o lábio, porque estava paralisada no lugar, sem saber o que aconteceria em seguida.

Por mais que eu o detestasse, também me perguntava como seria pressionar meus lábios contra os dele.

— Talvez um abraço... ou um beijo, para selar o acordo? — Dante perguntou, num tom baixo e aveludado.

Meu Deus. Aquilo era exatamente o que eu queria — e, obviamente, o que eu não deveria fazer. Principalmente dentro do avião da equipe. Beijar esse idiota arrogante, que claramente me odiava e só queria me usar? De jeito nenhum. Mesmo que os lábios dele parecessem tão macios e beijáveis. De jeito nenhum.

— Isso é nojento. Nem pense nisso. Tira isso da sua cabeça agora. Não vamos ficar de amassos porque estamos fingindo um relacionamento. Isso não é um amigos com benefícios, porque nós não somos amigos. Eu me desvencilhei dele e me levantei num impulso, querendo distância. — Vai lá falar com o Bronson. Diz que eu aceito. Rápido, antes que eu mude de ideia.

A risada dele ecoou nos meus ouvidos enquanto ele se levantava e caminhava até a parte de trás do avião, abrindo a porta do compartimento onde Bronson tinha se enfiado.

Peguei uma revista da minha bolsa para me distrair, mas percebi, com desconforto, que tinha esquecido de me preocupar com outra coisa ao considerar aquela proposta absurda: eu tinha levado em conta minha carreira, minha reputação no mundo do automobilismo e minha mãe. . .

Mas agora eu também teria que embarcar nessa loucura toda, só para provocar minha mãe. E, como bônus, eu ainda poderia irritar e desgastar Dante por vários meses.

Mas como eu — alguém com quase nenhuma experiência com homens — poderia ficar tão perto de Dante e não sucumbir ao charme dele?

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