Señor Bob

O mundo está um lugar estranho. Diria mesmo que está arruinado.

Tornámo-nos tão frios e impessoais. Tão distantes um dos outros. As ruas podem estar cheias, a abarrotar com as multidões, repletas de sons e de cheiros. Mesmo assim, se estivermos perdidos nessa massa de corpos gigantesca, continuamos sozinhos.

Os sorrisos tornaram-se ocos e amarelos, vazios de significado. Ostentamo-los na cara por rotina, como mecanismo de defesa contra a curiosidade alheia. Porque, hoje em dia, já não há preocupação genuína; só resta mesmo a curiosidade.

Estamos cada vez mais míopes. Vemos cada vez menos do que se passa à nossa volta e prestamos cada vez mais atenção ao nosso umbigo e ao pequeno ecrã nas nossas mãos ou àquele assente numa mesa à frente dos nossos olhos. Deixámos de aproveitar as paisagens, o céu e as nuvens. Deixámos de admirar os rostos que nos rodeiam e todos os pequenos pormenores que os tornam únicos. Deixámos de ver os problemas que surgem a cada dia e, quando os vemos, só agimos se for do nosso interesse. Não combatemos a inércia a não ser em proveito próprio.

Ouvimos as coisas e os sons, mas não escutamos. Não tiramos sentido ou significado às coisas, nem mesmo na mais simples das conversas, que hoje em dia não passam de repetições ocas de opiniões alheias, pré formadas e que nos saem da boca sem grande esforço. Preferimos o ruído ao silêncio e não somos muito criteriosos a substituir a ausência de som. Desde que aniquile a quietude ensurdecedora que outrora convidava a reflexão e pensamento profundo, até palavras disconexas e ignorantes ou batidas incessantes geradas por máquinas nos servem.

Eu acordei apenas há um ano. Estava preso num ciclo vicioso sem fim ou felicidade à vista e, sem qualquer razão em especial, acordei. Talvez tenha sido o meu subconsciente a acordar-me, farto de ser um escravo oprimido de outrem que não eu. Talvez me faltasse algo que desconhecia. Ou, se calhar, não passou tudo de um mero acaso. Seja como for, de repente, vi-me rodeado de autómatos insensíveis, que marchavam ao ritmo da rotina, do dinheiro e do silício. Cansado de ter estado tantos anos confinado a um mundo a preto e branco, deixei tudo para trás para procurar as cores do que em criança me disseram servir para pintar os dias de felicidade.

Hoje, viajo apenas com uma mochila e um estojo. Quando o sol se ergue no horizonte, eu levanto-me com ele. Ingiro os restos da ceia anterior e procuro um lugar para estender os farrapos do que um dia foi uma manta.

Retiro a velha guitarra do seu estojo e toco. Toco para ninguém em especial. Para mim. Para todos à minha volta. Fico absorto na música, preso num transe de sentimentos e melodias. Tenho a noção de que, por vezes, tenho espectadores. Mas são efémeros. Quando a música chega ao fim e pouso o instrumento junto às minhas pernas dobradas, acordando os sentidos para o mundo e saindo da bolha de magia em que me enfiei, não sobra ninguém à minha volta. Nenhum verdadeiro ouvinte. E os únicos sinais de que realmente tive plateia, para além daquela vaga sensação semelhante à que se tem quando, ainda meio a dormir, abrimos os olhos cheios de sono para ver alguém na beira da cama antes de mergulharmos de cabeça na escuridão repousante, sem termos muito bem a certeza se aquele vulto que vimos era real ou fruto de um sonho durante a curta vigilia; sem ser essa sensação, as moedas que não pedi e que foram atiradas para a esquina da manta, na falta de um estojo aberto, são os únicos sinais de que alguém parou ao meu lado para me ver tocar e, quiçá, ouvir a melodia que improvisei no calor do momento.

Recolho as moedas todas para um bolso furado antes de recomeçar a tocar, não por ganância, mas por precaução. Dos trocos que a vida me atirar, ficarei com os suficientes para sobreviver e repartirei os restantes para verdadeiros sem abrigo, abandonados pela sociedade ao destino e ao desespero. Deixar umas moedas a reluzir à luz do sol é convidar quem tem os bolsos cheios a ir beber um café e comer um bolo para acompanhar, tudo à borla.

Quando não estou a tocar, sento-me num banco ou na beira de um passeio, à sombra, a ver os transeuntes passar. Gosto de estudá-los durante os breves instantes em que o meu olhar os consegue ter no campo de visão e tentar adivinhar o que é que gritam as suas almas. O que é que eles seriam, se não se tivessem sentido obrigados, ainda na adolescência, a seguir os padrões da sociedade. Se olhar com atenção, descubro pintores. Descubro cantores, atletas, músicos, observadores de pássaros e colecionadores de livros. Descubro professores no lugar de advogados, médicos disfarçados de agentes de seguros, bibliotecários em vez funcionários públicos nalguma grande instituição. São poucos os que vestem a pele que gostariam de usar. Mas, mesmo entre esses raros sortudos, quase nenhum tem verdadeira alegria.

Às vezes sinto vergonha em me considerar 'humano'. Se ser humano é andar triste e cabisbaixo, impulsionado por valores fúteis que não nos pertencem, não posso ser outra coisa qualquer?

— Miau!

Como este gato que agora me observa, aqui  sentado ao meu lado numa praça nas aterafadas ruas de Londres, depois de mais um concerto para os pássaros e para as mentes distraídas. Tem o pêlo laranja velho mas farfalhudo, olhos verdes atentos, bigodes compridos e uma pata a menos.

— Miau!

Estendo-lhe a mão e ele aproxima-se, farejando. Quando o seu narizinho cor de rosa se mexe, o focinho de pelos brancos e laranjas, que combinam na perfeição com o meu cabelo, franze-se. Ao fim de uns instantes, o felino roça a sua cabeça em mim e eu chego-lhe os dedos ao pêlo, mimando-o.

— De onde é que tu vieste?

O gato é gordinho e tem um pêlo baço mas bem cuidado. De certeza que tem dono. Olho em volta, mas ninguém parece ter perdido um gato.

— Talvez tenhas só vindo passear. — Pego na guitarra pousada no chão e tento uns acordes. — Gostas de música?

O gato senta-se junto a mim, a admirar as pessoas passar. Inspirado, começo a tocar.

Sabias que a esmola que oferecem é maior se estiveres acompanhado de algum animal?

A chuva de moedas que se segue é intensa. Com o felino como companhia, ganho mais numa hora do que costumo ganhar num dia.

Quando acabo de tocar e reparo neste pormenor, guardo as moedas num bolso e levanto-me. Coloco a manta dentro da mochila, pego na mala, no estojo e na guitarra, e parto. Pouco depois, noto que o gato me segue.

— Para perneta, até que és aventureiro. Vou chamar-te... Capitão. O que te parece?

O gato continua a seguir-me em silêncio, indiferente ao nome pirata que lhe arranjei. O Capitão de certeza que não tem sentido de humor.

Enquanto mudo de poiso na cidade, redistribuo as moedas extra que recebi. Os meus irmãos de rua, mais desafortunados do que eu, agredecem o gesto com uma reverência de cabeça.

Sigo o resto do dia assim: a tocar porque me dá prazer, a mudar de poiso pelo excesso de caridade e a redistribuir as moedas por quem delas necessita. O Capitão segue-me o tempo todo, mesmo com o andar desajeitado das três patas. Se tem dono, que eu acredito que tenha, não está preocupado em regressar a casa. Talvez só esteja a quebrar um pouco a rotina.

À tarde, ao soprar uma brisa fria, decido duas coisas: 1) parar numa loja e comprar um cachecol verde pequeno para proteger o meu novo amigo peludo e 2) procurar o dono do Capitão. Apesar da enorme companhia que o felino me faz e de ser o único que verdadeiramente me ouve em anos, não posso deixar que alguma família passe mal a noite por não o ter em casa. Nunca tive bichos para me fazer companhia durante a vida, mas imagino que perder um seja tão ou mais doloroso do que perder uma parte de nós próprios.

Enquanto vou tocando, pergunto a quem passa se conhece o pequeno perneta. A resposta, daqueles que se dignam a dirigir-me a palavra, é sempre a mesma: nunca viram o gato mais gordo.

Ao fim do dia, em pé num miradouro com vista para Londres, eu e o Capitão fitamos o pôr do sol. Dos donos dele, nem sinal.

— Amanhã também é dia, rapaz. Se alguém sentir a tua falta, vamos encontrá-lo. Se não, podes ficar comigo. Fazemos uma bela dupla!

O gato mia e eu sento-me no chão ao seu lado. Pouso o estojo cheio e a mochila ao meu lado e uso a mão esquerda para afagar o gato até este ronronar, enquanto a mão direita retira uma sandes acabada de comprar da mochila. Parto pequenos pedaços e coloco ao lado do Capitão, que os morde com avidez.

— Bob! — ouço de repente. — Bob!

O gato levanta a cabeça e mia. Dá alguns passos para a frente, sem se afastar muito de mim, e volta a miar para a voz infantil do outro lado do miradouro.

Señor Bob, és tu! — grita uma pequena, correndo para o gato, que se derrete em seguida ao colo da dona. — Estava tão preocupada, Señor Bob!

Franzo o cenho. Aquele nome cheira-me a referência cinematográfica, mas a minha memória diz-me que nunca vi o filme de onde pertence.

— Então é esse o nome dele — digo. A pré adolescente assusta-se, só agora reparando em mim. — Sendo assim, está entregue!

Eu sorrio. Ela escrutina a minha barba ruiva grisalha e os vincos do frio na minha cara antes de sorrir de volta.

— Obrigada.

Ela vira-se para ir embora, mas o gato mia e espreneia-se para se soltar. Uma vez no chão, o Capitão, ou antes, o Señor Bob, vem até mim. Com uma mão enregelada, afago-lhe o queixo.

— O Bob parece gostar de si — diz a menina, balançando o corpo para a frente e para trás.

— É o único fã da minha música — solto antes de gargalhar.

Empurro o gato na direcção da dona escondida debaixo das grossas camadas de roupa, que o pega ao colo.

— O senhor tem onde ficar esta noite?

Pisco os olhos arregalados, sem compreender.

— O senhor salvou o Bob. Até lhe deu um cachecol bonito! Sem si, sabe-se lá o que lhe poderia ter acontecido. O mínimo que posso fazer é oferecer-lhe uma refeição quente e talvez um teto, se não o tiver.

Fico relutante. Mas, em poucos minutos, os pais da menina aparecem, chamando por ela. Em vez de ir embora como se nada fosse, a pré adolescente explica a situação aos pais, mostrando o gato laranja com orgulho. Em menos de nada, a oferta é reforçada e três pares de olhos expectantes voltam-se para mim, à espera de resposta. Sem saber muito bem porquê, aceito.

🐈

Nessa noite, dormi na casa de uns familiares daquele trio, depois de comer a primeira refeição quente e caseira em meses e de tocar uma música de agradecimento àquela simpática família. No dia seguinte, ofereceram-me o pequeno almoço, que durou horas por causa da conversa. Já não tinha uma com ninguém há tanto tempo, que me soube pela vida.

Antes de me ir embora, o pai da jovem impediu-me. Ele era dono de uma quinta nos subúrbios — estava apenas de visita a familiares na capital com a mulher, a filha e o gato — e estava a precisar de mão de obra. Se eu quisesse, o trabalho era meu.

Estive tentado a recusar, mas os olhos brilhantes da garota e o semblante sábio do gato levaram-me a aceitar.

Agora, trabalho para eles. Trabalho com eles. E trabalho com muita alegria. Sou mais feliz agora com tarefas de campo, com jantares ao ar livre, com serenatas para uma família modesta que aprecia verdadeiramente a minha música e a receber em troca apenas um teto e comida quente, do que com os anos de estudos na faculdade, os horários de trabalho burocrático da firma e os rios de dinheiro que me entravam nos bolsos todos os dias, e que ainda hoje se encontram nas contas bancárias, à espera de uma boa oportunidade para fazer o bem. Vivo uma vida modesta e rústica, mas de certeza forma gratificante. Não me sinto preso a nada e tenho a porta desta família sempre aberta, seja para entrar ou para sair.

E é ao olhar para os bigodes brancos do Señor Bob — cuja referência do nome agora entendo — e para o sorriso da sua jovem dona que sinto o coração a transbordar de esperança. Afinal, talvez o mundo não seja tão superficial e desinteressado. Talvez só tenhamos de procurar com atenção porque, no meio de todo aquele branco e de todo aquele preto, se encondem as cores do arco íris com as quais se pinta um mundo melhor.

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