O Estojo
Escrito para o desafio 12 do projeto Destrave A Sua Escrita (DASE)
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(250/250 palavras)
Tremem-me as mãos ao sentir as letras gravadas em relevo no estojo preto. Não o vejo há uma década e se a minha mãe não me tivesse pedido ajuda com a sua arrecadação, jamais o teria reencontrado.
Sacudo as palmas. Há menos pó do que seria de esperar ao fim de 10 anos. Julguei ter mandado o estojo fora, desvinculando-me de todos os sonhos despedaçados, mas a minha família foi contra as minhas vontades. Talvez tenha sido o meu pai. Ou a minha irmã. Sempre foram os meus maiores fãs.
Afasto-me como se o estojo me queimasse. Saio da arrecadação ofegante, batendo com a porta. A madeira nas minhas costas ampara-me a queda quando as alucinações auditivas e o furacão no meu peito me cospem para o passado.
As milhares de partituras. As embocaduras dolorosas depois de horas infindáveis de repetições. A custosa conquista do estatuto de 2º clarinete na orquestra. Nada disso me queima mais a retina que a última das dezenas de rejeições. O último concerto, a última vez que eu e o clarinete fomos um só. A última vez que me elucidaram sobre o naufrágio que seria o meu futuro se insistisse em perseguir um sonho inalcançável para os meus dotes medíocres.
Música clássica não é para todos. Não como carreira. Ingenuamente, julguei que pudesse ser para mim. Mas depois de tantas portas que se me fecharam na cara, percebi. O meu parco talento não era suficiente para fazer da minha paixão carreira.
E, por isso, abri mão dela.
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