Anjo Da Guarda
Escrito para o desafio 1 da Copa de Natal - Diversidades dos Biologos_do_Watttpad
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Sempre que vejo humanos, dou meia volta e fujo. Não me interessa se acabo a ir na direção contrária do refúgio onde tenho passado as noites ou se perco o rasto da minha presa. Se os avisto, o melhor que tenho a fazer é manter distância.
Mas este grupo é diferente. Já me cruzei mais vezes com eles do que com todos os outros humanos que vi na minha vida somados. Afinal, é impossível não dar com eles, com o acampamento montado quase à porta do meu refúgio. O incómodo de os ver é tão grande que cheguei a pensar que já era hora de mudar de toca. Talvez devesse ir para oeste, atrás das manadas de carneiro-azul que já não encontram pasto por aqui.
Contudo, algo me impediu de o fazer. Curiosidade, verdade seja dita.
Na entrada do meu esconderijo, levanto a cabeça para espreitar sobre a borda rochosa. A uma centena de metros lá em baixo, no curto planalto alcatifado de neve grossa, estão os três montículos de tecido amarelo onde eles se escondem.
Eu sei que a curiosidade matou o meu diminuto parente domesticado, mas não consigo resistir. Estão ali há dias sem se moverem. Mal os vejo sair das tendas. E isso intriga-me. Não é costume deles. Mas verdade seja dita, também não é normal ver humanos por estas bandas, tão no topo da montanha, no pico do inverno.
Com o sol a mergulhar no horizonte rochoso, saio cautelosamente do meu abrigo. A gelada brisa alpina incomoda-me o focinho e a vista por uns instantes, mas depressa me habituo a estar novamente exposto às intempéries. Depois, pata ante pata, inicio a minha aproximação.
A mãe dar-me-ia uma descompostura se me visse agora, a dirigir-me ao acampamento humano. Desde crias que nos ensina que o melhor a fazer é correr na direção oposta das estranhas criaturas. Evitar contacto é a melhor forma de sobrevivermos ao encontro. Contudo, separei-me dela há 2 anos. Não tenho ninguém para me repreender pela minha ousadia.
Alcanço a primeira lona amarela com cuidado, os ouvidos atentos a qualquer ameaça. Contava ouvir respirações ou comunicações, mas não ouço nada. A tenda está vazia. E entreaberta, verdade seja dita.
Espreito lá dentro. A ventania e o frio enregelaram tudo no seu interior, desde tecidos a objetos metálicos ou de plástico. Cheiro carne congelada e ervas secas que não crescem por estas bandas. Sobre um monte de tecido, um objeto esférico transparente, com pinheiros em miniatura aprisionados junto a um volume de neve com olhos e dois braços de pau. Perto da entrada, dois recipientes de loiça tombados fazem companhia a um maior, rechonchudo, com uma tampa com ar de chapéu, uma alça de um dos lados e um pescoço recurvado com uma abertura do outro lado. Aproximo o focinho e cheiro. A água presa no interior do bule tem ervas, mas não as reconheço.
Vasculho a tenda à procura de fontes de alimento. A carne congelada prende a minha atenção, mas acabo por a descobrir selada num contentor estranho que as minhas garras não conseguem desfazer sem partir tudo pela crio preservação. Não encontrando mais nada de interesse, penso dirigir-me à próxima tenda. Ao dar meia volta para sair da toca humana, detecto algo na neve. É uma bota. Um casaco desponta no manto branco um pouco mais à frente. No final do que descubro ser um trilho de roupa, uma figura humana jaz imóvel, parcialmente enterrada. Sucumbiu ao frio.
A segunda lona está vazia, mas fechada. Não cheiro nada lá dentro que não tenha cheirado na primeira. Sigo caminho até à última tenda. Eu sei que eles eram seis. Mas através da lona do terceiro abrigo, só cheiro os quatro que sobraram.
Do pouco que aprendi dos meus longínquos avistamentos sazonais, os humanos são criaturas sociais. A minha espécie prefere a solidão assim que atinge a maioridade, pelo que não entendo o instinto de se juntarem todos. Mas verdade seja dita, talvez tenha sido isso a salvá-los. Mais corpos juntos significa mais calor. Se um deles morreu enregelado, os restantes fizeram bem em manter-se quentes.
Circundo a tenda. Quase não os ouço lá dentro. Duvido até que estejam todos vivos. Roço-me na lona um par de vezes, para anunciar a minha presença, tentando provocá-los. Ao fim de algumas tentativas, as minhas ações parecem despertá-los. Começam por mexer-se desajeitadamente no interior, a cadência da fricção dos tecidos a denunciar a sua lentidão. Sussurram e gemem em pânico crescente, como crias em perigo. Quando batem na tenda do lado de dentro, percebo que a minha presença é indesejada e parto em busca de alimento.
Só retorno ao meu esconderijo ao raiar da aurora. Durmo uma curta sesta, até os movimentos dos humanos e a minha própria curiosidade me despertarem.
Talvez instigados pela minha presença no início da noite anterior, os bípedes tinham saído finalmente das suas tendas. Choraram de desgosto ao encontrar o falecido enterrado na neve em roupa interior e tinha sido o seu pranto sonoramente copioso a arrancar-me do meu sono.
Verdade seja dita, eu devia era estar quieto. Mas por algum motivo, desço para os encontrar. Acho que é pena. Dó de os ver tão desamparados, de saber que estarão condenados. Sem ajuda, ficariam eternizados na paisagem, mais dia, menos dia.
Quase os mato de susto ao descer. Nunca tinham visto um leopardo-das-neves tão de perto. Suporto as suas tentativas vãs de me afugentarem ou ferirem por alguns minutos. Depois tento que percebam que me devem seguir. Conheço a montanha desde cria, consigo perfeitamente levá-los ao sopé em segurança, para junto dos seus. Mas eles são desconfiados. E meio lerdos, verdade seja dita. Ainda levo um par de dias de mimicas na neve e vários arrastões exemplificativos dos seus pertences espalhados no exterior para perceberem a minha mensagem. Acho que foi o desespero a fazê-los entender, mas não me queixo.
Iniciamos a descida. Nunca percebi o quão lentos podem ser os bípedes até ter de ficar horas a fio à sua espera. Que passinhos tão curtos para pernas tão longas! Talvez se não viessem com as carapaças nas costas conseguissem avançar mais depressa, mas sem o equipamentos, eles não podiam passar a noite ou ter roupa seca para trocar e vestir nas eventualidades. Sou realmente abençoado pela Natureza.
Sou também abençoado por não ter de ficar com a minha futura prole a meu cargo. Já é chato caçar para me alimentar, mas encontrar comida para mais quatro bocas ingratas é um martírio. Mesmo que partilhe com eles as minhas carcaças, eles não comem! Acabo por comer tudo no fim, mas não deixa de ser inglório.
A descida é lenta e leva alguns dias. Vez ou outra sou obrigado a resgatar um dos humanos que desliza pela neve para fora dos trilhos caminháveis que os restantes abriram ou forçado a amparar os seus corpos instáveis. Eles têm tendência a acariciar o meu pelo nesses momentos de maior proximidade, mas eu não o prolongo. É desagradável, verdade seja dita. Ter os dedos deles entre o meu pelo, quase na minha pele, a deixar uma sensação fria e molhada para trás, depois de terem quebrado a minha barreira para o frio... Não, obrigado.
De noite, ou montam as tendas ou aninham-se nos abrigos que encontro para mim próprio, fazendo-se de convidados. Tenho de trocar horários de sono para os levar lá abaixo, já que os bípedes não vêm no escuro, e ainda por cima nem me deixam dormir descansado! São essas alturas que me fazem repensar as minhas atitudes, mas levanto-me no dia seguinte para continuar a jornada como se nada fosse. Às vezes nem eu mesmo me percebo.
Só paro definitivamente de caminhar quando, saindo de uma linha de árvores, se consegue avistar no horizonte o aldeamento nativo mais próximo. Tenho de esperar vários minutos para que os humanos me alcancem e, quando o fazem, não reparam de imediato que o seu destino está na sua linha de visão. Mas quando o fazem, caem de repente ao chão.
Assusto-me. Terão pisado algum buraco que não detectei? Terão colado o pé numa armadilha?
— Oh! É um milagre de natal! — grita um, choroso.
— Estamos salvos!
— Obrigado! Obrigado!
O seu pranto coletivo continua, podendo apenas ser ouvido no timbre das suas vocalizações, já que as lentes espelhadas do seu equipamento lhes protege os olhos. Contudo, não me parece ser um pranto doloroso ou aflito. Muito pelo contrário.
Eles viram-se para mim, afastado dos seus corpos por alguns metros, para continuarem as suas vocalizações incompreensíveis. Sabendo que já viram o seu destino e que até lá não se deverão perder, aceno com a cabeça aos seus gestos de despedida frenéticos e subo a encosta rapidamente, para que me percam entre o arvoredo.
Fico por perto mais algum tempo, camuflado, para ter a certeza que chegam em segurança. Mais da sua espécie vêm a correr na sua direção mal os avistam. E nesse momento, ao sabê-los bem, parto em busca de um novo esconderijo.
Só espero que estes humanos avisem os outros do bando para que não voltem a subir a montanha nesta altura do ano. Não quero repetir esta aventura tão cedo. Ou de todo, verdade seja dita.
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