A Dama da Lanterna
Conto escrito para o desafio 4 da Copa de Natal - Diversidades dos Biologos_do_Watttpad
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Florence quis verificar as horas no relógio de bolso, mas não o encontrou em lado algum. Fora-lhe oferecido pela irmã mais velha antes de partir para Scutari e ainda que pudesse conferir o horário noutros aparelhos, já se tornara seu hábito consultá-lo. Era um pedaço de casa, uma fonte de força e coragem para os momentos mais desafiantes. Teria de o procurar no dia seguinte, nem que virasse o complexo do avesso. Alguém haveria de o ter visto algures.
Suspirando resignada, olhou pela fresta lá para fora. A hora ia alta. A ceia tinha passado há muito. Os médicos tinham-se retirado para os seus aposentos e ela própria tinha dispensado há umas horas as enfermeiras que tinha sob a sua alçada. Estava só com o negrume de uma noite enevoada num hospital militar preenchido por respirações elaboradas e gemidos.
Era tempo de iniciar as suas rondas noturnas.
Com um fósforo magricelas de uma caixa gasta, acendeu a lanterna. Um halo de luz tomou conta do breu do corredor, mas não mais do que a um braço de distância. As trevas do hospital tinham um alcance muito superior à chama da pobre candeia.
Os seus passos eram leves e decididos, próprios de uma pequena mulher com um grande propósito. Ao entrar na primeira ala, os queixumes dos enfermos ricocheteavam nas paredes de pedra com mais força do que os saltos dos seus sapatos a martelar o chão.
Acercou-se de um primeiro, junto da porta. A medicação racionada concedera-lhe a bênção do sono, ainda que agitado, pelo que Florence não se demorou. Passando ao próximo, continuou a percorrer a ala sobrelotada, analisando cada um dos seus pacientes com olhos atentos.
Os que acordavam sobressaltados, ou que nem dormir conseguiam, encaravam a sua chegada, anunciada pela claridade baça da lanterna, como um farol no meio de uma tempestade. Alguns pediam-lhe auxílio: um assoar de nariz, uma ida ao bacio, um ajeitar das almofadas, um cobertor extra, uma mãozinha para beber água ou mudar de posição e aliviar as escaras. Florence fazia-lo com zelo e dedicação, saltitando sempre entre a bacia de água limpa na entrada da sala e os pacientes nos quais tocava.
Outros, como Graham, precisavam que ficasse com eles até adormecerem. O jovem, mais novo que ela por uma mão cheia de anos, era atormentado por pesadelos terríveis que o faziam ver cenas que os seus olhos mutilados por estilhaços de munição jamais tornariam a enxergar. Graham não o pedia explicitamente, mas Florence pousava a lanterna acesa nos pés da cama e sentava-se junto da cabeceira, a sua mão áspera por cima da dele, sussurrando-lhe o que ele precisava de ouvir até que a respiração pesasse tanto ao ponto de o afundar no sono.
Depois seguia caminho, vigilante do repouso dos feridos em todas as alas do edifício.
— Enfermeira Nightingale, bons olhos a vejam...
Numa das últimas alas, Ian Cooper recebeu-a com um sorriso. Florence retribuiu.
— Conseguiu o que lhe pedi? — perguntou o homem, ajeitando-se atabalhoadamente na cama.
A mulher deixou a lanterna de lado para o ajudar a acomodar-se.
— Claro. As cozinhas já estão prevenidas. Não sei se lhe trará lembranças de casa, mas vamos fazer o que pudermos.
Ian apertou a mão dela com a sua.
— Que bom... Como tenho saudades de um bom pudim de ameixa.
Levou a mão livre à sua testa suada para lhe verificar a febre. Tinha baixado, graças a Deus. Mesmo assim, decidiu trocar o pano e deixá-lo ali até de manhã. Mal não faria.
— O que seria de um Natal sem pudim, não era?
O soldado sorriu fracamente. Era em alturas como aquela que lhes doía estar naquele desterro, longe de casa e das suas famílias. Para atenuar as saudades, Ian e alguns dos seus companheiros tinham pedido a Florence que lhes trouxesse um pouco da festividade ao hospital, como a que os sãos teriam direito na messe do acampamento. As enfermeiras que trabalhavam com ela já tinham sugerido fazer algumas atividades com os mais aptos no dia de Natal, mas depois de tanta insistência, decidiram tentar oferecer também um gosto da ceia natalícia aos pacientes que a conseguissem saborear.
Ofereceu-lhe um copo de água, que Ian bebeu com avidez.
— Posso pedir-lhe outro favor?
Florence, que lavava as mãos para verificar o penso da perna amputada, respondeu-lhe com candura.
— Diga-me, soldado. O que posso fazer por si?
— Eu sei que já enviou as outras cartas para a minha família, mas...!
A sua fala foi interrompida por um silvo de dor quando Florence levantou o penso para verificar a cicatrização. Como desconfiava, teve de estancar um pequeno sangramento e trocar o penso por panos lavados, mas pelo menos não lhe pareceu haver infeção. Teria de pedir ao médico que o verificasse na manhã seguinte, à luz do dia.
— Mas será que me podia ajudar a escrever mais uma? — terminou de perguntar, a voz rouca de cansaço. — Não falo com o meu irmão há tanto tempo...
— Se está a pensar escrever últimas palavras, tire daí a ideia! — repreendeu num sussurro afetado, tentando não acordar os doentes próximos. — O pior já passou. Não tarda estará a calcorrear o hospital de cima a baixo e a dar com a Enfermeira Jane em doida!
Ian vergonhou-se momentaneamente ao ter citada a mais recente detentora dos seus afetos.
— Nada disso.... Só que estar aqui deitado fez-me pensar nas saudades que tenho dele... Chateámo-nos, já não sei bem porquê, e desde então que não trocámos uma única carta... Gostaria de remendar as coisas e, quem sabe, passar com ele a próxima consoada...
Embriagado pelo sono tardio, as palavras do soldado enrolavam-se na língua. Mesmo assim, foram suficientes para despertar em Florence a sua piedade. Apesar das suas divergências, que só escalaram quando Florence decidiu ser enfermeira, ela e Frances tinham sido muito chegadas na adolescência. Esses tempos de cumplicidade entre irmãs seriam para sempre memórias queridas.
A mulher deu um último puxão nas ligaduras, certificando-se que estavam presas, antes de se levantar da cama.
— Muito bem, então. Amanhã escrevemos a carta, pode ser?
Ian assentiu. Florence demorou-se mais um pouco, fazendo conversa até que o soldado adormecesse. Depois, de lanterna em punho, terminou as rondas no hospital, oferecendo cuidado e palavras amigas aos coitados insones.
Quando voltou para o quarto, faltava pouco para o raiar da aurora. Atrás das portas pelas quais passava, conseguia ouvir as enfermeiras madrugadoras que se preparavam para um novo dia de trabalho. Era a altura perfeita para dormir umas horinhas e reunir forças para a jornada laboral seguinte.
Entrou no quatro e substituiu a lanterna das rondas pela vela da cabeceira. Refrescou-se, trocou de roupa e deixou-se cair na cama que tinha vindo a chamar de sua desde que a destacaram para aquele hospital. Sentiu o corpo pesado de todas as tarefas do dia anterior, mas não se arrependia de nada, nem mesmo das horas extra.
Apagou a vela e deitou a cabeça latejante na almofada. Ao fazê-lo, sentiu relevo. As mãos frias viajaram sob a fronha, acabando por encontrar a forma familiar do relógio de bolso. Estivera sempre ali, fiel e paciente, à espera do seu regresso.
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Espero que tenham tido umas boas festas e que tenham uma excelente entrada em 2026!
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ꜰʟᴏʀᴇɴᴄᴇ ɴɪɢʜᴛɪɴɢᴀʟᴇ (1820-1910) foi uma estaticista e reformadora social britânica, considerada a Mãe da Enfermagem moderna. Ficou conhecida como "The Lady with the Lamp" pelas rondas noturnas que fazia no hospital de campanha de Scutari, atual Turquia, durante a Guerra da Crimeia (1853-1856).
O seu trabalho, muito focado na melhoria das condições de higiene, saneamento e organização dos cuidados de saúde, incluía o uso de estatística para fundamentar as suas reformas. No fim da guerra, os seus feitos conduziram à criação da primeira escola de enfermagem profissional e ao estabelecimento das bases da enfermagem moderna.
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