Prólogo


A voz de Nick Fury era como uma lixa passando diretamente no córtex cerebral de Anthonella. Ela tamborilava os dedos na mesa de vidro temperado, o ritmo frenético sendo a única coisa que a impedia de revirar os olhos tão forte que eles poderiam ficar presos na parte de trás do crânio.

- ...uma situação diplomática delicada que exige contenção absoluta. - Fury continuava, com aquele tom paternalista que fazia o sangue de Toni ferver.

Parecia que horas haviam se passado desde que a reunião começou. O monólogo era circular, redundante e, francamente, um insulto à inteligência de todos na sala. Ela conhecia o relatório. O mundo todo conhecia o maldito relatório.

O Oitavo Continente. O segredo geográfico que a Terra manteve escondido debaixo do tapete por séculos, tal qual Wakanda, até que a invasão de Loki puxou as cortinas e revelou a "terra fantasma" para o mundo.

Toni tomou um gole de água, desejando ardentemente que fosse um uísque duplo. Desde a revelação, a política externa daquele lugar foi um grande e sonoro "não me toque".

Os Daimyos deixaram claro: qualquer passo em falso, qualquer tentativa de infiltração, e eles responderiam com força letal. Eram isolacionistas, paranóicos e, irritantemente, poderosos.

Mas a paranóia deles tinha vazado. Um grupo de criminosos - terroristas, na falta de uma palavra melhor - havia escapado daquele paraíso fechado. E o pior? Os Vingadores, os aclamados "Heróis Mais Poderosos da Terra", estavam sendo feitos de idiotas. Eles não conseguiam contê-los. A tecnologia de Toni, a força bruta, a estratégia... nada estava funcionando rápido o suficiente para impedir o rastro de desastres que esses fugitivos deixavam. Era humilhante.

- O acordo é claro... - a voz de Fury cortou os pensamentos dela, trazendo-a de volta para a sala fria e cinza. - Eles estão enviando uma força-tarefa. Cinco agentes de elite. A soberania é a chave aqui.

Toni estreitou os olhos. A "oferta" dos líderes do continente tinha um subtexto que faria qualquer advogado suar frio. Se os Vingadores capturassem os bastardos, a justiça ocidental prevaleceria. Prisões, julgamentos, burocracia. Mas se a equipe deles colocasse as mãos nos fugitivos primeiro...

- Eles lidarão com a situação "como estão acostumados". - Fury citou, e o peso da frase pairou no ar.

Não precisava ser um gênio para entender o eufemismo. "Como estão acostumados" soava visceral. Soava definitivo. Sangue por sangue.

Toni bufou, recostando-se na cadeira de couro. A tensão na sala era palpável, os outros Vingadores trocando olhares desconfortáveis, mas Fury falava com eles como se fossem cadetes no primeiro dia de treinamento, explicando o óbvio.

Pelo amor de Deus, pensou ela, sentindo a dor de cabeça pulsar atrás dos olhos. Eu sou Anthonella Stark.

O mundo podia ter seus preconceitos, mas ela carregava o título de Homem de Ferro com um orgulho feroz. O gênero não importava quando ela vestia a armadura; o poder de fogo era o mesmo, a mente por trás da liga de ouro e titânio era a mesma.

Aquele rótulo que Steve - e o resto da mídia - adorava listar? Gênia, Patricinha, Bilionária, Filantropa. Não era apenas um slogan para inflar seu ego, era um fato. Ela provou, repetidas vezes, que podia carregar o peso do mundo nas costas, mesmo usando saltos de quinze centímetros, se quisesse.

Sua paciência tinha se esgotado. Ela estava prestes a levantar, mandar Fury resumir a ópera ou enviar um memorando, quando a porta da sala de reuniões se abriu com um silvo hidráulico.

Maria Hill entrou. A expressão dela era ilegível, rígida, o tipo de cara que alguém faz quando traz notícias que vão mudar a maré. Ela não olhou para Toni, nem para os outros. Seus olhos estavam fixos em Fury.

- Diretor... - a voz de Hill era cortante. - Eles chegaram.

_____________________________________________________

O único olho bom de Nick Fury varreu a sala de conferências como um radar, demorando-se perigosamente sobre as duas figuras centrais daquela mesa: Steve Rogers e Anthonella Stark.

O ar entre os dois não estava apenas frio; estava morto. A equipe, antes uma unidade coesa, agora parecia um espelho estilhaçado após o término explosivo do relacionamento deles.

Havia pura frieza irradiando de Toni e uma culpa patética emanando de Steve, e nada, absolutamente nada que Fury tivesse tentado nas últimas semanas parecia capaz de alinhar os cacos novamente.

Para piorar, essa missão não era apenas tática; era uma aposta geopolítica de alto risco. O Presidente estava em suas costas, martelando diariamente sobre a necessidade crítica de forjar uma aliança. Washington via aqueles agentes não apenas como reforços, mas como chaves para abrir os portões daquele continente impenetrável.

Fury sabia que os Vingadores tinham a capacidade técnica para cumprir a missão de olhos fechados se agissem como soldados. O problema eram as pessoas por baixo dos uniformes. As personalidades voláteis eram o verdadeiro campo minado.

Sua preocupação recaiu pesadamente sobre Toni. Ela era brilhante, sim, mas temperamental. Afinal, o rótulo de "patricinha" que a mídia adorava usar não era totalmente infundado; quando contrariada ou emocionalmente comprometida, a genialidade dela vinha acompanhada de uma imprevisibilidade perigosa.

Com um suspiro que parecia vir do fundo de seus pulmões cansados, Fury aceitou que o cenário estava montado. Não havia mais tempo para tentativa de terapia de casal.

- Mande-os entrar, Hill. - ordenou ele, a voz grave quebrando o silêncio tenso.

A porta se abriu. O ar na sala mudou instantaneamente, carregado por uma presença estranha e pesada que fez os pelos da nuca de todos se eriçarem.

A primeira a cruzar o limiar foi uma mulher de estatura mediana, não devendo passar de 1,70m. Seus cabelos eram de um vermelho intenso, sangue seco, contrastando violentamente com a pele pálida. Mas o que prendia a atenção era a tatuagem singular em sua testa e, principalmente, seus olhos verdes. Eram olhos endurecidos, desprovidos de calor, olhos de quem já viu o inferno e decidiu morar lá. Nas costas, ela carregava uma cabaça imensa, de material desconhecido, cuja utilidade era um mistério tático absoluto para Fury.

Logo atrás dela, entrou uma segunda mulher. Loira, com traços que denunciavam algum parentesco com a ruiva, mas com uma postura diferente. Ela caminhava com confiança, carregando nas costas o que parecia ser um leque gigantesco de metal. Uma arma arcaica, pensou Fury, mas a forma como ela a porta sugeri que é letal.

O terceiro elemento era o contraste absoluto da tensão da sala. Um homem de aproximadamente 1,80m entrou com as mãos nos bolsos, exalando uma aura de tédio profundo. Ele tinha cabelos escuros presos em um rabo de cavalo alto e um cavanhaque pontiagudo. Para a incredulidade de Fury, ele tinha um cigarro aceso entre os lábios, a fumaça subindo preguiçosamente, como se ele estivesse em um bar e não na base de operações de uma das equipes mais poderosas do planeta.

Em seguida, uma figura silenciosa e letal deslizou para dentro. Uma mulher esguia, de cabelos escuros e lisos. Uma franja longa ocultava metade de seu rosto, deixando visível apenas um olho escuro e inteligente e traços de uma delicadeza enganosa. Nas costas, descansava uma espada embainhada. Ela não olhou para ninguém, mas sua postura gritava que ela estava pronta para matar antes que qualquer um ali pudesse piscar.

Por último, entrou aquele que parecia ser o sol ao redor do qual os outros orbitavam.

Era um homem imponente, com certeza acima de 1,90m, superando até mesmo a estatura de Steve Rogers. Seu corpo era uma obra de engenharia biológica, musculoso sem ser grotesco, denotando força funcional e agilidade. Seus cabelos eram chocantemente loiros, fios de ouro puro que capturavam a luz artificial da sala. Mas foram os olhos que fizeram Fury parar. Eram de um azul impressionante, elétrico e vibrante, tão intensos que faziam os olhos azuis de Steve parecerem desbotados e sem vida em comparação. E, ao contrário da tensão assassina de seus companheiros, ele trazia um sorriso aberto e amigável no rosto.

Fury estreitou o olho. Aqueles agentes estrangeiros não eram nada do que os relatórios de inteligência haviam sugerido. Eram algo muito mais perigoso.

_____________________________________________________

Toni girou o copo de água na mão, observando a procissão de figuras bizarras com um misto de ceticismo e curiosidade clínica. Francamente, parecia um circo. A mulher da cabaça, o cara com rabo de cavalo fumando como uma chaminé em um ambiente esterilizado... Se aquilo era a "elite" diplomática e militar de alguma nação escondida, o isolamento claramente havia afetado o senso estético deles. Eram estranhos. Arcaicos.

Mas então, o último homem entrou, e o cinismo de Toni travou na garganta.

Seus olhos, treinados para escanear ameaças e detalhes técnicos, foram sequestrados. Ele não era apenas alto; ele ocupava o espaço de uma maneira que fazia a sala parecer subitamente claustrofóbica. Era como ver uma maldita escultura de Michelangelo ganhar vida, mas sem a frieza do mármore. Havia calor ali.

O reconhecimento atingiu o estômago de Toni como um soco. É claro que ela tinha um tipo. O universo parecia ter uma piada reservada para ela. Loiro. Olhos azuis. Ombros largos. A silhueta gritava Capitão América. Mas enquanto seus olhos subiam e desciam por aquele corpo, a comparação morreu instantaneamente.

Steve parecia um rascunho. Esse homem era a obra-prima finalizada em cores vibrantes e traços brutais.

Onde Steve era polido pelo soro, esse estranho era pura densidade muscular esculpida por esforço bruto. Ele era mais largo. Mais imponente. Mais... homem. Havia uma masculinidade agressiva nele que fazia Steve parecer um escoteiro casto em uma reunião de lobos. Os olhos azuis de Rogers eram como um céu de verão pálido; os desse homem eram elétricos, tempestuosos, dois oceanos em fúria que faziam tudo ao redor perder a cor.

Ele era, simplesmente, mais.

Então, ele abriu a boca.

Toni viu os lábios dele se moverem, dirigindo-se a Fury, mas o centro de processamento lógico do cérebro dela desligou. Ela não ouviu palavras. Ela sentiu frequências. A voz dele era um barítono profundo, arranhado por uma rouquidão que sugeria fumaça e comando, marcado por um sotaque carregado e exótico que fazia as vogais vibrarem no ar.

O som atingiu Toni não nos ouvidos, mas direto no baixo-ventre.

Uma onda de calor vergonhosa e instantânea subiu por suas coxas, e ela teve que cruzar as pernas debaixo da mesa, sentindo o tecido da calça de repente desconfortável contra a pele sensível e úmida. Sua mente, traidora, já estava longe dali, projetando imagens em alta definição daquele homem, daquelas mãos grandes segurando-a, daquela voz rouca sussurrando obscenidades - ou ordens - em seu ouvido.

Jesus Cristo, Anthonella, ela repreendeu a si mesma, sentindo o rosto esquentar levemente. Você está patética.

Ela buscou uma justificativa racional. Era o jejum. Tinha que ser. Meses sem sexo, meses lidando com a traição de Steve e a política estúpida dos Vingadores. Seu corpo estava apenas reagindo à escassez, agarrando-se à primeira fonte de testosterona potente que entrava na sala. Era biologia básica. Necessidade fisiológica.

Com um esforço hercúleo, ela forçou sua mente a voltar para a superfície, captando o final da fala dele a tempo de ouvir seu nome e a breve apresentação dos outros quatro "estranhos" que o acompanhavam.

Fury retomou a palavra, a voz dele soando monótona comparada ao trovão que acabou de silenciar. O diretor começou a apresentar os Vingadores, falando sobre cooperação mútua e troca de inteligência, mas as palavras entraram por um ouvido e saíram pelo outro.

Toni mordeu o lábio inferior, um sorriso perigoso e quase imperceptível curvando o canto de sua boca enquanto seus olhos voltavam, magnéticos, para o líder loiro.

Fury tinha sido tão enfático antes, não tinha? Sejam amigáveis. Criem laços. Façam a aliança funcionar. O presidente estava implorando por uma abertura diplomática.

Bem, quem era ela para negar um pedido direto do Diretor da SHIELD? Se ser "amigável" significasse arrastar aquele deus nórdico falsificado - porém melhorado - para sua cama e deixá-lo realizar cada uma das fantasias sujas que estavam alagando sua mente agora, então ela seria a agente mais cooperativa da história.

No final das contas, ela poderia alegar, com toda a inocência do mundo, que estava apenas seguindo ordens.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top