Capítulo 10
Horas depois, o zumbido constante dos motores do Quinjet era o único som que preenchia o silêncio desconfortável da cabine, enquanto cortavam os céus em direção ao Chile.
A atmosfera lá dentro era tão densa que poderia ser cortada com uma daquelas facas estranhas que os ninjas carregavam. Havia uma linha invisível, mas intransponível, dividindo o espaço: de um lado, os integrantes masculinos dos Vingadores, exalando desaprovação e tensão; do outro, os Shinobis, relaxados e letais.
O único que parecia felizmente imune àquela guerra fria de testosterona era Thor. O Deus do Trovão, com sua incapacidade crônica de entender as complexidades mesquinhas dos relacionamentos humanos, estava empenhado em uma conversa animada — e dolorosamente unilateral — com Gaara.
— ...E então, Lady da Areia, a besta de Jotunheim rugiu, mas Mjolnir foi mais rápido! — Thor trovejava, gesticulando animadamente.
Gaara, com os braços cruzados e os olhos fechados, respondia apenas com grunhidos baixos.
— Hn.
— Ah.
— Certo.
A falta de entusiasmo da ruiva não diminuía em nada o ímpeto do gigante. De dentro do capacete de sua armadura, Toni revirou os olhos, suspirando. Ela olhou ao redor: Steve na cabine, Thor tagarelando, Naruto ao seu lado.
Sério, pensou ela com um humor ácido, qual é o meu problema com loiros? Parece que tenho um ímã para eles. Um ex-namorado puritano, um deus barulhento e agora um ninja sexualmente talentoso. O universo deve estar rindo da minha cara.
Toni tinha escolhido, deliberadamente, sentar-se longe de Steve e Sam. Ela estava flanqueada por Natasha de um lado e Naruto do outro. Mesmo através das camadas de liga de ouro-titânio da Mark, ela jurava que podia sentir o calor corporal irradiando de Naruto.
Ele estava sentado com os olhos fechados, aparentemente meditando, mas Toni sabia que ele estava alerta a cada movimento na nave.
Enquanto sobrevoavam a costa chilena, aproximando-se das coordenadas de pouso, Naruto se moveu.
Sem abrir os olhos ou mudar sua postura relaxada, ele enfiou a mão na bolsa de utilidades presa à perna e retirou um punhado de pequenos frascos de vidro contendo um líquido roxo viscoso. Com um movimento rápido de pulso, ele os lançou pelo ar.
Os reflexos dos Vingadores entraram em ação, cada um pegando o frasco destinado a si.
Bruce segurou o pequeno vidro contra a luz, seus óculos refletindo o líquido suspeito.
— O que é isso? — perguntou ele, a curiosidade científica aguçada, mas cautelosa.
— Antídoto. — respondeu Naruto, finalmente abrindo os olhos azuis. — Sasori, o homem das marionetes, usa um veneno neurotóxico nas armas dele. Uma grande amiga minha, uma das melhores médicas do nosso continente, desenvolveu isso. A remessa chegou há algumas horas. Bebam se forem arranhados.
Temari, que estava afiando o leque gigante, parou por um momento e olhou seriamente para os Vingadores.
— Não subestimem isso. — a voz dela era grave, perdendo o tom de zombaria habitual. — Esse veneno é extremamente mortal. Ele destrói as células musculares e paralisa o sistema respiratório. Meu irmão, Kankuro... ele quase morreu por causa disso anos atrás.
Ela olhou para os heróis ocidentais com uma franqueza brutal.
— Kankuro só sobreviveu tempo suficiente para o antídoto ser descoberto e produzido porque ele é um Shinobi de elite. Ele usou o chakra para queimar o veneno e retardar o efeito. Vocês? Vocês não têm chakra. Se aquele veneno entrar na corrente sanguínea de vocês sem esse antídoto, vocês estarão mortos antes de atingirem o chão. É uma questão de minutos, não de horas.
Um silêncio pesado caiu sobre a equipe. A realidade da ameaça afundou. Não eram apenas robôs ou alienígenas genéricos; eram assassinos que usavam química letal.
Toni olhou para o frasco em sua mão metálica. Seu primeiro instinto foi devolver.
Eu estou dentro da armadura mais avançada do planeta, pensou ela. Sistemas de filtragem de ar, vedação hermética. Nada entra aqui.
Ela começou a estender a mão para devolver o frasco a Naruto.
— Eu não preciso diss...
Antes que ela pudesse terminar, Naruto colocou a mão grande e quente sobre a manopla fria da armadura dela, cobrindo os dedos metálicos com os dele. O gesto foi firme, mas carregado de uma proteção silenciosa que fez o coração de Toni falhar uma batida.
— Fique com ele, Toni. — ele pediu, olhando diretamente nos olhos dela através da placa facial luminosa, como se pudesse ver o rosto dela lá dentro. — Eu sei que sua armadura é impenetrável. Eu não duvido da sua capacidade. Mas...
Ele apertou levemente a mão dela.
— Eu ficaria muito mais tranquilo sabendo que você tem isso, apenas por precaução. Por favor. Pela minha paz de espírito.
Toni sentiu suas defesas derreterem mais rápido do que gelo no deserto. Não era uma ordem, como Steve faria. Não era uma dúvida sobre sua competência. Era cuidado. Puro e simples cuidado.
— Tudo bem. — ela disse, a voz saindo um pouco mais suave do que pretendia pelos alto-falantes externos. — Eu vou guardar.
Ela recolheu o frasco para um compartimento seguro na coxa da armadura.
Do cockpit, Steve se virou para anunciar a chegada. Seus olhos caíram imediatamente sobre as mãos unidas de Naruto e a manopla de Toni. O olhar que ele lançou foi tão acalorado, tão cheio de ciúme e frustração, que parecia capaz de queimar o metal. Ele fuzilou Naruto com o olhar, mas o ninja apenas recolheu a mão calmamente, sem se deixar abalar.
— Estamos no local. — declarou Steve, a voz tensa e cortante, cheia de uma raiva mal contida. — Preparem-se para o pouso. E fiquem alertas.
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A interface holográfica da armadura Mark zumbia suavemente diante dos olhos de Toni, os sensores térmicos e sonares varrendo o perímetro. As ruas daquela cidade costeira chilena estavam desertas. Não apenas "vazias de trânsito", mas sepulcrais.
Toni franziu a testa por trás da placa frontal de ouro e titânio. Aquilo estava errado. Nas dezenas de batalhas que os Vingadores haviam travado ao redor do globo, uma regra era universal: a humanidade era estupidamente curiosa. Não importava se havia deuses literais caindo do céu ou robôs assassinos destruindo quarteirões; sempre havia algum idiota com um smartphone tentando gravar a própria morte para ganhar curtidas.
Mas ali? Nada. Nenhuma cortina se movendo, nenhum batimento cardíaco nos becos. Era como se a cidade inteira soubesse que a morte estava caminhando pelo asfalto e tivesse fugido antes mesmo de qualquer sirene de evacuação soar.
Ela desviou a atenção dos monitores para a equipe à sua frente. O contraste era quase cômico.
Os Vingadores marchavam tensos, armas em punho, escudos erguidos, os passos pesados ecoando nas paredes dos prédios. Em contrapartida, Naruto e seus Shinobis caminhavam com uma fluidez silenciosa e irritante. Eles pareciam estar dando um passeio em um parque no domingo de manhã.
Mas Toni, com sua mente analítica e os scanners da armadura, via além da ilusão. A postura relaxada deles era uma mentira predatória. Ela notou como os músculos sob a jaqueta de Naruto estavam contraídos, como os olhos de Sasuke varriam os pontos cegos dos telhados, como a mão de Temari pairava a milímetros do leque em suas costas. Eles eram molas comprimidas, esperando o gatilho.
O gatilho veio de baixo.
Não houve aviso de radar. Um som metálico e sibilante rasgou o ar, rápido demais para a visão humana acompanhar. Do chão de pedra, uma cauda colossal, segmentada e afiada como a de um escorpião demoníaco, explodiu em direção ao ponto exato onde Temari estava pisando uma fração de segundo antes.
O coração de Toni deu um salto, seus repulsores zumbindo para disparar, mas a ajuda foi desnecessária.
Desafiando completamente as leis da gravidade e da aerodinâmica que Toni dedicou a vida a dominar, Temari não apenas desviou. A loira estava no ar, flutuando com a leveza impossível de uma pluma, equilibrando-se graciosamente sobre o leque gigante de metal que agora pairava sob seus pés.
Antes que o cérebro de Toni pudesse formular a pergunta "Como diabos a física permite isso?", o mundo inteiro tremeu.
Uma explosão massiva detonou a poucos metros dali, estilhaçando o asfalto e enviando uma onda de choque abrasadora contra a armadura de Toni. Os compensadores inerciais da Mark gritaram, e ela ouviu Clint praguejar pelo comunicador enquanto Sam manobrava violentamente para não ser engolido pela bola de fogo.
Quando a fumaça espessa e o pó de concreto começaram a baixar, a diferença de experiência ficou gritante. Os Vingadores estavam recuados, processando o impacto repentino. Os Shinobis? Não haviam recuado um centímetro. Eles permaneciam exatamente onde estavam, os rostos esculpidos em pedra, sem um único músculo traindo surpresa. Eles conheciam essa coreografia maldita.
Da cortina de poeira e fumaça, duas figuras emergiram lentamente, os mantos negros com nuvens vermelhas balançando com o vento quente da destruição.
Eram exatamente como as descrições macabras de Shikamaru. De um lado, uma aberração corcunda, cujo manto mal escondia a estrutura não humana e a monstruosa cauda de escorpião envenenada que chicoteava o ar atrás dele. Do outro, o loiro andrógino.
Ele tinha um sorriso rasgado e insano no rosto.
Toni deu um zoom no visor, sentindo o estômago embrulhar ao confirmar que, sim, os boatos eram verdadeiros: havia literalmente bocas com dentes afiados nas palmas das mãos dele, mastigando algo grotesco.
— Vocês nos fizeram esperar demais, hn! — a voz de Deidara ecoou pela rua destruída, aguda, teatral e carregada de uma euforia maníaca. Ele abriu os braços como um maestro diante de uma orquestra. — Sinceramente, que falta de educação. Mas não se preocupem, a espera vai valer a pena! Eu mal posso me segurar para mostrar a todos vocês a minha grande e verdadeira apresentação artística, hn!
A provocação pairou no ar, doentia e arrogante.
Os Shinobis não morderam a isca. Nenhum insulto foi devolvido, nenhuma bravata de herói foi dita. Em um silêncio absoluto e ensurdecedor, eles simplesmente mudaram o peso do corpo, armas sendo sacadas, chakras fazendo o ar ao redor deles vibrar. A intenção assassina era tão densa que Toni pôde jurar que os sensores de temperatura da armadura caíram alguns graus.
Toni energizou seus repulsores no máximo, o brilho azul iluminando a poeira ao seu redor. Os sistemas de mira travaram no loiro maníaco. Ela estava pronta para a guerra.
Mas, enquanto o zumbido de suas armas atingia o ápice, um frio escorregadio e primitivo se enroscou na base de sua espinha. Algo no fundo de sua alma genial e cínica estava gritando.
Ruas vazias. Uma emboscada barulhenta e frontal. Dois terroristas que simplesmente apareceram no meio da rua para discursar.
Não, pensou Toni, os olhos varrendo os telhados vazios através dos sensores. Isso está errado. Isso é fácil demais.
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