Capítulo 5

Kya se vira em direção à multidão e nos encara por um segundo, respira fundo e nos saúda.
- O Rei se foi muito antes do que devia, - diz - deixou esse Reino órfão. Perdemos não só um governante mas também um pai. Estamos todos aqui hoje para dizer o nosso adeus àquele que nos liderou e guiou ao que somos hoje, e encaminhar nossas orações aos Deuses.
Ela se prosta diante de seu povo como uma verdadeira líder. Não vacila por um segundo sequer. Me lembro daquela discreta lágrima escorrendo por sua sedosa bochecha ao pé da escada, e pelo olhar surpreso em seu rosto quando a sequei, posso dizer que ela sequer havia percebido que estava chorando. Princesa Kya não me parece do tipo que chora; ao menos não em público. Por todos os Reinos ouvimos diversas histórias sobre todas essas pessoas que muitas vezes nunca temos a chance de conhecer de fato. E com as Gêmeas do Norte não foi diferente. A beleza e carisma da Princesa Layla são conhecidas nos quatro cantos dos Reinos. Todos já ouviram uma história sobre sua melodiosa voz, sobre sua postura suave, sua risada fácil e seu humor leve. Sobre a Princesa Kya, ninguém jamais levantou uma palavra de dúvida sobre como será uma governante excelente - talvez a mais competente da história do Norte. Sua sobriedade e altivez são conhecidas tão bem quanto a luz da manhã; arrogante, prepotente e impertinente também são citados aqui e ali.
O que ninguém nunca me contou foi sobre sua beleza - tanto sua óbvia beleza física quanto a beleza de seu coração. Sempre imaginei a Princesa Kya do Norte sendo uma mulher de feições duras, sem espaço para um sorriso, impiedosa e com o coração de gelo. Não esperava encontrar uma menina baixinha de voz suave, mas que não permite questionamentos quando fala; longos cabelos castanhos e olhos que parecem ter visto muito mais do que sua feição transparece. A beleza é um fator comum entre as duas irmãs, isso é indiscutível, mas a beleza da Princesa Layla é... óbvia. Os níveis de complexidade de Kya não se limitam aos seus argumentos muito bem construídos.
A futura rainha se aproxima da mesa e estende o braço em direção à sua irmã. Princesa Layla deixa seu lugar na primeira fileira, ao lado do Ministro, e se dirige ao altar, subindo lentamente os três degraus até alcançar sua irmã. Juntas, começam a oração, acompanhadas em uníssono por cada um dos presentes. Cada um, menos os representantes dos outros Reinos. As palavras que estão dizendo vêm da mais antiga das linhagens do Norte, da época de antes de a linguagem dos Reinos ser unificada.
Abaixo minha cabeça em sinal de respeito e ouço as palavras melodiosas em uma língua desconhecida.
A Cerimônia é similar em todos os Reinos e eu sei que ao fim da oração o corpo do Rei será ofertado aos Deuses. Não sei como o ritual acontece no Norte, a última vez em que a Cerimônia ocorreu eu não era nascido, nem era meu Pai, ou meu Avô.
Ao fim da oração, encaro o altar e vejo as irmãs segurando um pote de metal. O Templo está em completo silêncio agora. Elas começam a derramar o conteúdo do pote sobre a mesa onde está o Rei, o líquido violeta caindo sobre o manto que cobre seu corpo.
Me assusto quando vejo uma leve chama violeta se formar onde o líquido foi derramado.
- Que seu corpo sirva de combustível para os Deuses, sua alma alimente a benevolência sobre nós e seu espírito nunca nos deixe e por toda eternidade guarde este Reino que sempre será seu. Que sua sabedoria faça parte de mim e eu seja digna do seu legado. Que os Deuses nos abençoem, e que nos encontremos de novo -Kya recita.
- Que nos encontremos de novo - repetem todos os presentes.
- Que nos encontremos de novo - sussurro, atrasado.
A chama violeta se intensifica por um segundo antes de se extinguir por completo, sendo substituída por uma mesa completamente vazia a não ser por um pequeno baú dourado, a resposta dos Deuses às orações que acabaram de ser feitas, a bênção dEles para a nova Rainha.
Layla abre o baú. O Ministro levanta de seu lugar, carregando o Manto Real, e vai até onde Kya está de pé, no meio do altar, em frente à mesa encarando a multidão à sua frente, que exala expectativa.
O Ministro veste o Manto sobre os ombros de Kya, virando-a em sua direção e faz uma longa reverência, à qual Kya acena com a cabeça, sem sorrir.
Layla retira uma coroa prateada do baú. Mesmo a essa distância posso ver o brilho reverencioso nos olhos da Princesa enquanto segura a adornada coroa em suas mãos. Kya ajoelha-se em sua frente, joelho direito tocando o chão, apoiando os braços no outro, os olhos fixados na irmã.
A coroa deveria ser entregue à Rainha pela sua mãe. Nunca conheci a mãe das gêmeas, mas nos quatro Reinos Elena é, ainda, conhecida pela bondade e carisma, por ser amada por todos em todos os Reinos, e sua morte foi uma grande perda.
Imagino que a falta da mãe faça esse momento ainda mais significativo.
Princesa Layla deposita gentilmente a coroa na cabeça de Kya.
- Que você a use com sabedoria, que seja digna de seu poder e que nada seja mais importante que seu povo. Mamãe estaria orgulhosa - diz Layla. Ela toma a mão de sua irmã e a levanta - Saúdem sua Rainha!
A multidão irrompe em palmas, e não consigo tirar os olhos da agora Rainha Kya. Ela nasceu para usar essa coroa e o manto sobre seus ombros, seus olhos sorriem mas mantém uma postura firme e respeitosa. Nossos olhos se cruzam e murmuro "parabéns" em silêncio, e ela sorri.
A Rainha fica de pé de frente para a multidão enquanto Layla retorna ao baú e retira mais um item de dentro deste. Ela segura algo em suas mãos por um segundo e quando vira de volta para a multidão, tem seus olhos arregalados e a boca aberta. A tensão em seu corpo é visível, e ela levanta o pequeno medalhão do tamanho de uma laranja acima da sua cabeça. Está longe e não é possível ver em detalhes, mas não é necessário. Eu sei o que aquele símbolo significa. Olho ao redor e a expressão na face de cada uma das pessoas presentes naquele recinto diz que todos sabemos.
Kya se vira para sua irmã e, ao ver o medalhão em suas mãos, solta um sonoro "Não!". Quando se vira de volta para nós, encontra cada um dos seus súditos ao chão, ajoelhados com a mão direita prostada sobre seus corações.
"Não, não, não, não" - ouço-a murmurar.
Os Deuses enviaram o Medalhão dos Quatro Reinos.
A Rainha da Profecia foi coroada.
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