Capítulo 36

Caminho pelas ruas, atravessando vielas, até chegar à uma praça ovalar que abriga bancos de madeira envelhecida pelo tempo. O cheiro de grama molhada denuncia a chuva que se fez presente durante a noite, lavando as ruas, construções e a minha alma. Levanto meu olhar em direção ao Castelo que se sobrepõe sobre todas as outras construções ao seu redor e encaro a janela que sei ser a do escritório.
Lembro-me de olhar para essa praça, para esse banco, e invejar as pessoas que aqui passavam, viviam sua vida sem maiores preocupações, enquanto esperava que a Profecia me fosse entregue. Toco meu ombro, tirando do caminho o tecido que envolve minha pele. Sinto a marca em minha pele, o Medalhão para sempre gravado em meu corpo, denunciando minha existência, minha história.
Uma criança corre em minha direção para buscar uma bola de couro desgastado, com remendos a ponto de romper, que rola até atingir meus pés, e para me olhando com curiosidade. A menina, que não deve ter mais do que oito anos, arruma o cabelo e alisa o vestido amarrotado e sujo de lama na tentativa de disfarçar sua travessura. Com a sobrancelha erguida, entrego a bola a ela, que morde o lábio em nervosismo.
Ouço o grito de outras crianças do outro lado da praça, chamando seu nome e acenando com as mãos, ansiosas para continuar a brincadeira.
— Por favor, não conte para minha mãe. Ela vai ficar furiosa se souber que não estou praticando tecelagem. — A aflição em seus olhos é real e sorrio em resposta.
— Você não deveria desobedecer sua mãe – repreendo. – Mas prometo que esse vai ser nosso segredo.
A menina corre apressada de volta para os amigos, virando a cabeça para acenar para mim uma vez antes de se perder em meio às outras crianças.
É fim de tarde e as lojas começam a fechar, o cheiro de pão fresco deixando o ar enquanto as pessoas voltam às suas casas, para suas famílias, após mais um dia.
Respiro fundo, deixando o ar gelado adentrar meus pulmões com a certeza de que qualquer que seja o sacrifício necessário, vale a pena. A vida de cada uma dessas pessoas vale a pena, e lutar por elas vale a pena. Ainda que o preço a ser pago seja alto e corroa minha alma.
— O que a mulher mais bonita do Reino faz sozinha em um banco de praça? — Sorrio antes mesmo de Tobiah adentrar meu campo de visão, segurando em suas mãos um livro de capa marrom.
— De todos os Reinos – corrijo, e ele senta-se ao meu lado. — Como sabia que eu estava aqui?
— Não sabia – ele responde. – Estou vindo do acampamento improvisado para os que chegaram do Sul. – Tobiah apoia o livro em seu colo e percorre as mãos pelo rosto. Posso ver a dor em seus olhos quando ele olha em minha direção. – As crianças... – As palavras morrem em sua boca e ele balança a cabeça em negação.
Ele não precisa dizer nada. Estive no local mais cedo e o cenário é desolador. Centenas de pessoas, escapadas das minas, famílias inteiras despedaçadas por anos de escravidão. Crianças sozinhas, assustadas, procurando por seus pais há muito mortos, fracas e sujas, com machucados espalhados pelo corpo.
Laurunda andava de um lado para o outro, perdida e assustada, mas fingindo estar no controle de suas próprias emoções. Ela acenou com a cabeça quando me viu, em um reconhecimento silencioso. Não esperava nada diferente dela, e é bom saber exatamente o que esperar.
Os Mestres já foram enviados, a Sanatrix está cuidando dos feridos, o Sacerdote oferece consolo espiritual. Gerações perdidas, feridas, devastadas. Vai levar muito tempo até que aquelas pessoas sejam capazes de retomar controle de sua vida, mesmo com toda ajuda que agora recebem. Algumas provavelmente nunca vão se recuperar, jamais serão capazes de deixar para trás os traumas e sofrimentos de uma vida inteira.
Não vejo a hora de todos os governantes do Sul serem punidos à altura por seus crimes. Mas a verdade é que todos nós somos culpados, culpados por omissão. Por virar as costas e fechar os olhos para o que acontecia a céu aberto, sem disfarces.
— Vou precisar voltar para o Reino de Fora por alguns dias, para organizar o envio de mantimentos – Tobiah explica, foleando as páginas preenchidas com listas e quantidades de alimentos a serem enviados. – Volto assim que puder.
— Não tenha pressa – respondo. Sei que ele vai enviar os carregamentos o mais rápido possível, mas não significa que ele precise estar aqui para isso. – É sua casa, fique o tempo que precisar.
Preciso visitar o local o quanto antes para prestar os devidos agradecimento aos pais de Tobiah pelo apoio e lealdade, mesmo em minha ausência. Enviei uma carta a Adaliz mais cedo, e é provável que ela esteja a caminho nesse exato momento.
O maior triunfo de um governante é escolher com cuidado as pessoas que o cercam. É saber em quem confiar. Tomo a mão de Tobiah, enlaçando seus dedos nos meus. Parece que estou fazendo um bom trabalho nessa área.
— Já disse que minha casa é aqui – ele sussurra antes de depositar um beijo em minha testa.
Não consigo evitar o sorriso.
— Bom – digo, apoiando a cabeça em seu ombro —, logo tudo será sua casa. – Aceno com a mão, abrangendo o todo que nos cerca.
Não sei o que vai acontecer a seguir. Os Reinos foram divididos após os Deuses sumirem em meio às Terras Distantes, isolando-se de sua criação, mergulhando-nos em uma longa guerra que acabou com a divisão dos Quatro Reinos.
Eles vão voltar? Retomar controle de tudo, unificar novamente seus domínios? Espero que sim.
O tempo vai dizer.
Por ora, permito-me desfrutar da calmaria que sucede a tempestade. Por ora, meus esforços estão voltados em ajudar aquelas pessoas que vieram a mim, ao meu Reino, em busca de refúgio e ajuda.
Levanto-me do banco, trazendo Tobiah comigo enquanto caminhamos de volta ao Castelo. Aponto para lojas, construções, estátuas e pessoas, inundando seus ouvidos com informações sobre o Norte.
A noite brilha escura quando chegamos aos portões, a lua cintilante no céu iluminando nosso caminho enquanto adentramos a construção. Antes de alcançarmos o salão principal, contudo, Willahelm nos intercepta.
— Seu cavalo está pronto, Alteza – ele diz, se dirigindo a Tobiah, as mãos atrás do corpo em uma postura impecável.
Sua feição não mascara a dor, as olheiras que marcam sua pele contam a história da noite mal dormida que o assolou. Pergunto-me se ele teve pesadelos. Se seus olhos inchados são o reflexo das lágrimas traiçoeiras que molharam seu travesseiro. Se sua voz rouca é resultado dos gritos incontrolados que escaparam sua garganta.
Pergunto-me se sua dor é tão grande quanto a minha.
Tobiah levanta meu queixo em sua direção e toca-me com seus lábios macios.
— Estarei de volta logo, Kya – ele diz. – Temos um casamento para organizar – ele provoca.
Reviro os olhos e forço um grunhido de insatisfação.
— Você está louco se acha que vou perder o meu tempo escolhendo flores e adornos. Tenho um Reino para governar.
Ele sorri e faz uma reverência exagerada.
— Não esperava nada de diferente, Majestade.
Observo enquanto ele anda em direção ao estábulo, seus passos ecoando pelo salão enquanto sua silhueta desaparece pelo corredor. Volto meu olhar para o guarda de pé à minha frente, incapaz de me encarar. Toco seu braço e ele me olha assustado.
— Eu a amava – diz, uma lágrima escorrendo por sua bochecha.
— Eu também – respondo em um sussurro, porque é verdade.
Eu tenho sorte de ter Tobiah ao meu lado, para aplacar a dor que insiste em irracionalmente tomar conta do meu peito. Ainda que sua presença não seja capaz de exterminar o sentimento, o amor despretensioso que a cada dia cresce em meu peito é o suficiente para me manter de pé. O amor que sinto por ele e o amor pelo meu Reino me fazem seguir adiante apesar da grande perda.
A verdade é que não importa os pecados daquele que habitava o corpo que deveria pertencer à minha irmã, em nada importa suas intenções. Sua presença se fez notada e, para bem ou para mal, sua falta será sentida.
Não há certo ou errado, e minha própria mente é uma confusão que escolho evitar no momento. No fim do dia, tudo se resume a escolhas, e eu escolhi seguir a Profecia que me foi designada.
Escolhi seguir meu destino.
E nada pode tirar isso de mim.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top