Capítulo 33


Pequenas ondulações que surgem na água por onde o barco passa. O azul profundo se estende pelo infinito, recobrindo os arredores, até que seja tudo o que pode ser visto. Ao longe, sinto mais do que vejo o pequeno pedaço de terra que abriga aqueles que deveriam ser os seres mais poderosos de toda a existência.

É engraçado como, por toda minha vida, fui ensinada, ainda que inutilmente, a colocar em um pedestal os Deuses, os Criadores do céu e da terra, controladores de toda a vida e existência.

Se fossem assim tão poderosos, essa bagunça toda não existiria para começo de conversa.

Não são orações que alimentam sua existência como eu acreditava. É poder. Tão divinos, mas tão humanos. Ali, isolados à Oeste, refugiados longe do mundo que criaram, são incapazes de se erguer sobre as dificuldades.

Fugiram uma vez e escolheram fugir de novo. E eu sou obrigada a consertar essa confusão.

Por mais que esteja ansiosa para voltar para casa e, finalmente, tomar aquilo que me pertence, não estou ansiosa pelo que terei que fazer para alcançar esse resultado.

- Majestade. – A voz de Laurunda me faz parar de encarar o vazio e volto minha atenção para dentro da embarcação. – Não entendo porque Cathal está amarrado.

Não há qualquer acusação em sua voz. Toda a aspereza em seu tom parece ter sido deixada de lado, ao menos por hora. 

Suspiro.

A presença de Cathal me incomoda. Minha vida seria muito mais fácil de ele fosse Ele e eu pudesse terminar sua existência. De uma forma ou outra, a punição para traição é a morte, e não há dúvidas de que sua intenção nunca foi nada além se aproveitar de sua posição por motivações pessoais.

Em partes, contudo, não consigo culpá-lo. Ele arriscou sua vida e seguiu instruções escusas por pura ingenuidade. Por amor, talvez.

Não tenho garantias de que o que ele me disse no quarto, enquanto Tobiah e Laurunda guardavam a porta, é verdade. Mas não duvido que seja. E em nada me surpreende que o Ministro esteja, mais uma vez, por trás disso.

Cathal me disse que queria ter ficado com Layla, cuidado de minha irmã, amparado sua noiva em um momento de dificuldade como o que ela enfrentou, com a morte do pai seguida pela perda da irmã. É... cuidadoso de sua parte.

Arthuro ordenou que ele se juntasse a mim, e uma ordem do Primeiro Comandante do Reino de Dentro não é algo que um soldado possa negar. Especialmente porque Arthuro é seu pai.

De alguma forma, o Ministro convenceu o Comandante de que o afastamento de Cathal seria proveitoso. E posso imaginar o motivo. Vi a forma como Hadaward olhava para Layla, o desejo descarado.

O Principe do Sul tem uma reputação, sua fraqueza é, de fato, uma mulher bonita. E não há ninguém mais bela que minha irmã. E é muito mais interessante para o Ministro uma aliança com o Sul.

O que Arthuro ganha com isso, ainda é um mistério. E Cathal parece não saber de nada também.

- É complicado – limito-me a responder, porque é verdade. Ela dá os ombros e vira as costas, parecendo satisfeita com essa resposta como ficaria com qualquer outra.

Olho ao redor e vejo os gêmeos, um em cada estremo da embarcação, controlando seu movimento. Qual será a história por trás desses homens? O que eles são?

Não tenho tempo de tentar chegar a nenhuma conclusão quando sinto um par de mãos me tocar a cintura por trás.

- Você quer alguma coisa, Príncipe? – pergunto, não conseguindo esconder o sorriso em minha voz.

Ainda me é estranho aceitar a importância de Tobiah em minha vida, e continuo repetindo para mim mesma que sua presença é fundamental unicamente pela Profecia, e que nosso relacionamento foi moldado para atender a necessidades políticas de nossos Reinos.

Que muito em breve serão meus.

Mas não acho que vou ser capaz de continuar com a mentira por muito mais tempo. E Tobiah parece saber disso.

- Quero, na verdade – ele responde, apoiando a cabeça na minha. – Podemos conversar?

Sob o balanço suave do barco, Tobiah senta ao meu lado usando as bolsas, surradas e encardidas da viagem, como apoio para nossas costas.

Eu me esforço para segurar o riso enquanto observo sua feição cautelosa ao segurar a Adaga. Ele gira, cuidadosamente, a lâmina em suas mãos, o cenho franzido como se tentasse desvendar os mistérios ali contidos.

Sei que ele está processando toda a informação que compartilhei. Revirando em sua mente cada palavra de cada um dos Deuses, tentando colocar sentido em toda essa história. Assim como eu tenho feito desde o primeiro dia.

É como se eu pudesse ouvir seus pensamentos, gritos agudos em indignação. Sua boca abre e fecha várias vezes quando ele olha em minha direção, e posso ver me reflexo no brilho amendoado de seus olhos.

Quase não reconheço a mulher que me encara refletida olhos dele.

- Então você precisa matar alguém. – É a primeira frase que sai de sua boca após minutos de silêncio contemplativo.

Sorrio.

- Nenhuma pergunta sobre eu ser a Maldição, ou ser potencialmente imortal? – pergunto, a cabeça inclinada, analisando-o com curiosidade. Ele balança a cabeça de um lado para o outro, considerando minha pergunta por um momento.

- Não – diz, sorrindo. – Isso faz sentido.

O sorriso que ilumina seu rosto aumenta quando reviro meus olhos, e demoro um segundo para entender o que está acontecendo quando ele me puxa em direção e me acomoda em seu peito. Sua mão percorre meus fios embaraçados e suspiro fundo.

Poderia me acostumar com isso. Poderia me acostumar com essa vida. Poderia me acostumar com a paz e monotonia de uma vida normal, onde minhas preocupações nada seriam além de trivialidades diárias.

- Bobagem – ele sussurra contra minha cabeça. – Você morreria de tédio depois de uma semana. Você foi feita para comandar o mundo, não uma casa – ele diz, e percebo que falei em voz alta.

- Não preciso matar ninguém – respondo sua colocação anterior, mudando de assunto para evitar me deixar levar pela doçura de suas palavras. Explico para ele a função de receptáculo de almas que a Adaga possui, e concordo com ele quando diz que não parece a mais eficiente das estratégias.

- E o que acontece se alguém resolver devolver a alma para outro corpo. Isso é possível?

Balanço a cabeça em negativa, mas paro no meio caminho.

- Uma pessoa não sobreviveria à lâmina – digo, enquanto penso sobre o assunto -, mas talvez um corpo que abrigue uma alma imortal, talvez? – respondo, pensando nos Deuses e seu sistema desordenado. Talvez tenha sido por isso que Neka recuou tão rapidamente quando apontei a Adaga em sua direção. Faz sentido. Honestamente, não duvido que nada seja possível.

O cair da noite vem rápido, anunciando o fim de um dia longo que revira meus pensamentos. Pela primeira vez em muito tempo, penso em minha mãe, em todos os dias em que ela não esteve presente em minha vida, tomada de nós por um infortúnio do destino.

Me pergunto como teriam sido as coisas caso ela não tivesse morrido. Lembro das palavras de Zader sobre o outro mundo, uma outra realidade mais desenvolvida que a nossa. Não entendo bem o que isso significa, mas me pergunto se, em outras circunstâncias, algo pudesse ter sido feito para salvá-la.

Inevitavelmente, levo a mão ao pescoço, em busca do Colar que nunca deveria ter estado ali. O Colar que, ainda por um período de tempo realmente curto, foi minha última ligação com meus pais. Antes de estar completamente sozinha no mundo.

Agora somos somente Layla e eu.

Tem sido somente Layla e eu por muito tempo. Durante toda nossa infância, minha irmã foi a única família que tive.

Em nosso aniversário de vinte e dois anos, em meio a uma celebração grandiosa, o Rei, nosso pai, fez um discurso, taça de vinho ao ar, sorriso em seus olhos.

"Vocês não existem uma sem a outra," ele disse. "São opostos que se completam como peças de um quebra-cabeça que rege o mundo."

Palavras sábias que não poderiam ser mais verdadeiras. Layla e eu, não podemos ser mais diferentes. E, ainda assim, um mundo em que minha irmã não exista é quase inconcebível para mim.

Não consigo dormir.

O som da água em movimento acalenta meus pensamentos tempestuosos, embalados pelo som da minha alma conflituosa como uma canção de ninar recitada por monstros.

Quando o sol desponta ao longe, aquecendo minha face manchada por lágrimas derramadas de forma clandestina, escondida do olhar de todos, abafada pela brisa fresca que ressoa em meus ouvidos, vejo a costa. Reconheço as ilhas à minha frente, distantes, a quilômetros de distância.

Estou muito mais perto de casa do que estive nas últimas semanas. Mais algumas horas e vou poder sentir meus pés tocando o chão de onde jamais deveria ter saído.

- Você não dormiu. – Não é uma pergunta que sai da boca de Tobiah enquanto ele me entrega uma pequena vasilha com frutas.

Tomo meu tempo para admirá-lo em silêncio, pela primeira vez em muito tempo. Ele envelheceu anos nas últimas semanas, sua feição entrega o peso dos últimos acontecimentos. E, ainda assim, nenhuma reclamação escapou por seus lábios, e o admiro pela forma como escolheu lidar com tudo.

Ele não me faz perguntas, nem promete que tudo vai ficar bem. Apenas para ao meu lado, apoiado no convés enquanto permito que o suco adocicado toque minha língua e sacie minha fome.

Nas horas que se seguem, me conta histórias sobre sua infância, explica cada uma de suas cicatrizes, descreve lugares escondidos em cavernas inexploradas que nunca conheci.

E a única promessa que ele me faz é que, não importa o que aconteça, o sol vai nascer de novo amanhã.

Que meu povo ainda vai estar lá, ainda que eu não esteja.

Que, para isso, eu só preciso cumprir meu destino.

E isso é motivação o suficiente para que eu decida fazer o que precisa ser feito, sem receios e sem hesitações.

Estou voltando para casa.

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