Capítulo 29

- O que você fez? – me assusto com a intromissão repentina. Não havia, até então, notado a presença de Arath. De onde ele veio? Tenho certeza que estava sozinha aqui, apenas Zader e eu.
O que ele está fazendo aqui.
Me desespero por um segundo.
Os outros três estão sozinhos com Neka? Tem algo de errado por trás daquela máscara de condescedência.
Começo a questionar se confiar tão cegamente no fato de que Zader jamais faria algo para me machucar foi uma boa ideia. Ainda há muito mal que pode ser feito a eles sem que o resultado seja a morte.
Olho para Arath, que me encara com cautela no olhar. Como se esperasse que, a qualquer momento, eu fosse atacá-lo por um motivo desconhecido. Não entendo muito bem o motivo dessa reação, mas parece ser recíproca. Não me sinto confortável perto dele.
- Como assim o Sul está sob controle, Kyara? – pergunta, exasperado. – O que você fez?
Sorrio.
O Reino do Sul sempre foi meu projeto particular. O que eu fiz? Recentemente, nada. Posso aguentar um Ministro que claramente despreza minha capacidade como governante em nome da boa política do Reino. Um governo formado por animosidade explícita poderia causar insegurança em meu povo.
Posso aguentar depender das tropas de um Reino conservador incapaz de reconhecer o potencial de metade da população pelo simples fato de acreditarem que essa parcela nasceu apenas para enfeitar os belos campos floridos e entreter seus soldados. Ainda que com muita dificuldade. Mas sempre me permiti pequenos atos de rebeldia diários que forçaram as tropas a abrir suas academias para treinamento, ainda que em pouca quantidade.
Posso aguentar o Rei do Reino de Fora, pai de Tobiah, e seu comportamento invasivo e insistente para com as nossas terras. Isso já foi resolvido.
Nunca consegui aceitar com um sorriso no rosto o sistema trabalhista do Sul. A ganância tamanha por parte de seus governantes a ponto de escravizar uma parcela tão grande da população para trabalhar nas minhas de extração de ouro.
Não.
O acordo de paz firmado entre os Reinos decretou que o Norte seria responsável por enviar os Mestres a todos os habitantes dos quatro Reinos. Foi com relutância que os governantes do Sul aceitaram que até mesmo seus escravos tivessem acesso a eles. Chegaram à conclusão, por fim, que seria útil que aprendessem como realizar seu trabalho com mais afinco e competência.
O que nunca se deram conta foi que os Mestres enviados estavam ensinando muito mais do que isso. Há anos o clima no Reino borbulha uma rebelião silenciosa, à qual os governantes não deram atenção, menosprezando o poder contido nas mãos daqueles cujo o sangue construiu uma nação.
Isso sim é arrogância.
A bolha estava a ponto de estourar há muito tempo.
Tudo que fiz foi, quando recebi a Profecia, enviar, juntos com as cartas entregues à Adaliz, a ordem aos meus Mestres para que finalizassem suas instruções.
Com sorte, a essa hora o Sul está debaixo de fogo.
- O que você fez dessa vez, Kya? – ele insiste, rispidamente. Seu tom de voz é afiado, acusatório. Me sinto como uma criança insolente pega no ato de uma travessura. Seu rosto estampa um semblante cansado, mas firme. Suas feições são delicadas, sua pele amendoada, impecável, quase brilha sob a penumbra do sol poente. Seus olhos, contudo, revelam sua idade. Idade que não sei qual é.
- Dessa vez? – pergunto. Ele revira os olhos para mim e preciso me segurar para não rir pela familiaridade do gesto.
- É a terceira vez que você aparece aqui com essa cara deslavada, certa de que tem todas as respostas para todos os mistérios do universo, e eu já estou ficando cansado disso. – Ele bufa, passando a mão bruscamente pelo cabelo desgrenhado. – Vamos, me diga o que foi que você fez dessa para que eu possa consertar antes que o tudo vá por água abaixo de novo e eu tenha que esperar mais quinhentos anos para a mocinha resolver aparecer.
Terceira... vez?
O... que?
- Do que você está falando? – pergunto, sibilando. Não tenho certeza se em um sussurro ou um grito. Tudo isso é irreal. Nada dessa história faz o menor sentido.
Quando o Ministro leu aquele pergaminho, as palavras da Profecia pareciam nada além de uma brincadeira de mal gosto, uma punição a longo prazo por todos os meus anos de insolência contra a instituição religiosa sagrada dos Quatro Reinos. Parecia algo perfeitamente razoável de se esperar de Deuses dos quais não se tinha notícias há quatro milênios, e que pareciam manifestar sua existência apenas para fazer a vida de seus súditos ainda mais difícil.
E aqui estou eu, de frente a pessoas em carne e osso que clamam ser as maiores forças das quais já se teve notícia. Os criadores de tudo, senhores do destino de todos.
Mas, se são tão poderosos assim, por que estão reclusos para além das Terras Proibidas, escondidos, fugidos de uma Maldição que ninguém sabe o que é, largando sua criação à mercê da sorte?
E como assim é a terceira vez que estou aqui?
Ouço Zader suspirar pesadamente ao meu lado, um suspiro frustrado.
- Achei que tivéssemos combinado que ela não estava pronta para essa conversa ainda – ele sussurra rispidamente para Arath, que abaixa a cabeça e a balança negativamente
- Ela tem que estar pronta! – grita em resposta. – Ela está a ponto de pegar aquela adaga e enfiar no peito de uma pessoa que sequer sabemos quem é. Nossa existência está nas mãos dela. Ela tem que estar pronta!
- Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui! – brado, como uma criança mimada que está sendo deixada de fora da conversa. Isso já está ficando ridículo. – Ele tem razão – digo, olhando para Zader. – Me diga o que preciso saber.
Aquele pergaminho não dizia nada sobre enfiar adagas no peito de ninguém, então é melhor que tenham uma ótima explicação para isso.

O tronco irregular da árvore que me serve de apoio cutuca minha pele por cima do vestido desgastado pela viagem.
Preciso de um banho.
Sentada na grama úmida pelo sereno da noite, percorro meus dedos pela lâmina afiada da Adaga em meu colo. Arath e Zader olham para a arma com aflição em seus olhos, como se fosse a qualquer momento escapar de meus dedos e atacar um dos dois. O ferro frio encravado com pedras violetas em seu cabo revestido por uma fina camada de couro é mais pesado do que sua aparência indica.
As palavras de ambos ainda ecoam em minha mente enquanto, em silêncio, processo cada informação que foi fornecida. O quanto da minha própria vida eu não sei?
Vidas.
O quanto das minhas vidas eu não sei.
Essa é a quarta, pelo que me disseram. E cada vez que volto em um novo corpo, para uma nova história, demora mais tempo para que eu reencontre esse lugar.
Eu... não entendo muito bem o que tudo isso significa.
- A Profecia foi escrita como recurso final. Toda criação tem uma, você sabe? Cada vez que um mundo é criado, uma profecia é escrita para o reger. Raramente é cumprida, mas sempre é escrita. – Não sabia. - O destino final da sua alma sempre foi o Trono. Foi para isso que você foi criada – explica Zader, enquanto cautelosamente toca meu joelho, exigindo minha atenção. Seus olhos violetas brilham sob a luz prateada do luar que oferece uma iluminação muito maior do que eu esperaria. Ah, pelos Deuses, isso deveria ser a última coisa a me surpreender.
- Nós tentamos fazer com que o problema fosse resolvido nas suas outras vidas mas, para ser justo, Neka avisou que não funcionaria – Arath entra na conversa. – A magnânima Deusa da Sabedoria estava certa, é claro, mas não nos impediu de continuar tentando – ele continua, debochado.
"A verdade é que qualquer tentativa valia a pena. Não foi para viver isolados, escondidos, clandestinos, que viemos para cá. Criamos os Reinos como uma brisa de esperança de um lugar melhor dentro de um mundo destruído. Quando selamos os portões, impedindo que ele entrasse, e Neka não escreveu a Profecia do Reino imediatamente, sabíamos que algo não estava certo. Ainda assim, continuamos. Não tinha para onde voltar.
"E então criamos você. Bom, Zader criou você. E você passou a ocupar a posição antes ocupada por ele. Mesmo não sendo uma Deusa, mesmo não possuindo os poderes de uma, sua alma foi criada para ser imortal, e foi criada para governar esse novo mundo. E foi só depois que você foi criada que a Profecia foi escrita. Para você, especialmente para você. "
As últimas frases foram ditas pausadamente, cada palavra pronunciada com cuidado. Seus olhos, ainda fixos aos meus, me obrigam a decifrar o significado oculto por detrás de tudo isso.
Eu fui criada para governar o Reino, isso faz sentido. Em momento algum duvidei que meu destino fosse, de fato, o trono. Essa certeza indiscutível que todos chamam de arrogância e pretensão, para mim sempre foi a prova máxima da existência dos Deuses. E eu estava certa.
Sorrio.
O que eu não daria para que o Ministro estivesse aqui para ouvir cada uma essas palavras?
A verdade é que, mesmo que ele estivesse, é provável que, ao fim da conversa, apenas levantasse, limpasse a grama de suas vestes, dispensasse todos com um gesto desdenhoso com a mão e continuasse vivendo sua vida regido por suas certezas obtusas. A verdade é que a arrogante nunca fui eu. É ele.
Que a Profecia fora escrita para mim, também não é nenhuma surpresa. Eu não estaria aqui se não fosse o caso. Não estaria aqui se não fosse necessário.
- Minha alma é imortal? – questiono a única parte da explicação que não faz sentido algum para mim. – Como pode ser, se você acabaram de dizer que essa é a minha terceira vida?
- Quarta. – Zader me corrige. – E imortal é diferente de... imatável. Isso é uma palavra? – ele pergunta, olhando para Athar. O outro dá os ombros. – O fato é que você pode morrer. Bom, na verdade você não pode morrer, você precisa ser morta. Mas sempre vai voltar. Demora alguns anos, sim, para que suas partículas se reconectem e sua alma se torne sólida o suficiente para habitar um novo corpo e tudo mais. Mas você. Sempre. Vai. Voltar.
- Por que você diz isso como se fosse um problema? – pergunto, quando noto o tom que sua voz assume.
- Você ainda não entendeu, Kya? – Arath pergunta, olhos fixos aos meus. – O mundo é regido por um equilíbrio muito frágil. Quatro eram os Deuses no início de tudo, lado a lado trabalhávamos na criação. Quatro almas imortais, somente. Nada mais. Nenhuma a mais.
Você passou a ocupar a posição que era ocupada por ELE.
Quatro almas imortais, nenhuma a mais.
Sua alma é imortal, Kya.
Você. Sempre. Vai. Voltar.
- O que diziam as palavras da Profecia, Kya?
Não.
A Maldição dos Deuses a ser quebrada e cada decisão não pode ser confiada
- O que diziam, Kya?
A cada passo sua redenção se aproxima, Quatro Reinos e uma só sina
Não.
- O único mal a ser combatido é a existência de uma alma imortal a mais nesse mundo.
Não.
- Você é a Maldição, querida.
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