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DISTÂNCIA E DESEJO
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ELLEN CLARKE

Só pode ser sacanagem com a minha cara, penso, ao passo que abro o sorriso mais falso da minha vida. Eu irei matar Louis por ter profetizado essa merda para cima de mim.

Oliver se aproxima atrás de meu pai tão sem jeito quanto eu e sem tirar aqueles malditos olhos cinzentos do meu rosto. Santo Cristo, ele fica ainda mais lindo sem barba, deixando que sua mandíbula se destaque e ele fique com a cara mais metida a modelo. Esqueço como se respira por uns segundos.

Lembro-me da sua fotografia no casamento. A câmera não fez jus a beleza desse homem enfiado em um terno preto e sob medida para os seus ombros.

Meu pai toca minhas costas e me aponta para a mulher bonitona do lado de Oliver. Ela tem os cabelos ondulados, peitos pequenos e é magra que não aguenta vento, mas muito sensual. Ela usa um grosso colar banhado a ouro e parece que gostar de esbanjar exatamente como eu quando coloco na cabeça que vou me arrumar.

— Esta é minha filha, a Ellen — Jonathan apresenta e eu encaro a quarentona sem fazer a mínima ideia de quem ela é e o que faz com Oliver. Eles se parecem um pouco, então acho que é uma tia ou a mãe dele.

— Meu Deus, como você cresceu! — A mulher de cabelos negros e algumas poucas linhas de expressão segura meu queixo, tomando cuidado para não borrar minha maquiagem e eu aprecio a sua consideração. — Te peguei no colo uma vez, tinha acabado de nascer, seu pai estava tão feliz!

Sorrio sem jeito e olho para Oliver outra vez antes de conseguir me controlar. Ele continua me encarando. Não esperávamos nos esbarrar tão cedo, talvez nunca mais.

— Esta é minha mãe. — Oliver apresenta e nós duas apertamos as mãos educadamente. Oh, pulamos uns estágios, né?

— É um prazer conhecê-la, senhora Ferri.

— O prazer é todo meu, querida. Pode me chamar de Davina.

— É um nome lindo, combina com a senhora.

— Eu diria que linda é você, mas não é elogio o suficiente! — Ela segura minhas mãos e meu sorriso se torna verdadeiro porque ela soa sincera.

— Não parece que ela vai receber um Oscar? — Jonathan brinca e os dois riem, sem sentir a tensão entre Oliver e eu e isso é um alívio.

— Está fabulosa, não é, Oliver? — Ela bate as costas da mão no peito do filho, como se o censurasse por estar tão na dele. Desta vez, todos olhamos para o mais alto.

— Sim. Você está incrível — ele responde e eu sorrio, virando o rosto sem saber onde me enfiar por conta do nervosismo que me abraça.

— Com licença! — Uma atendente chama nossa atenção e nós nos apressamos, a fila tinha se movido.

— Perdão, uma mesa para quatro, por favor. — Jonathan toma a frente e eu quero me esconder atrás dele, mas finalmente Oliver para de me olhar e nós ficamos a uma distância segura um do outro. Minhas mãos estão suando pra caralho.

A atendente do ajeitado rabo de cavalo nos guia mais adentro do restaurante, o barulho de talheres se torna mais alto e das conversas também. Eu já queria que o jantar fosse breve, agora é tudo o que eu preciso. Deus, me livra o mais rápido possível dessa tortura.

— E onde está sua mãe, Ellen? — Davina pergunta. Nos aproximamos da mesa redonda iluminada por velas e eu sou a primeira a me sentar.

Davina se senta do meu lado e Jonathan tira Oliver do seu caminho, fazendo-o se sentar na minha frente ao invés da frente de sua mãe. Desgraçado. Oliver respira fundo antes de se ajeitar na cadeira, irritado. Nós trocamos olhares e nos concentramos nas pessoas conosco.

— Ela estava indisposta hoje — invento, sem me aprofundar no assunto. — Não pôde vir.

— Ah, é uma pena. Faz tanto tempo que não vejo Rose. — São poucas as pessoas que chamam minha mãe pelo segundo nome. Não estranho o fato de meus pais nunca terem me falado da mãe de Oliver, mas mal falamos da nossa própria família, quem dirá as dos outros.

— Oliver me contou que se mudou para Nova Orleans — Jon muda de assunto. — Pretende voltar para Atlanta ou está só de passagem?

— É uma pequena visita, estava com saudade dos meus meninos. — Ela lança um sorriso afetuoso para Oliver e nós dois trocamos olhares de novo. — Parece que eles nunca têm tempo de ir me ver, então tive que vir até eles!

— Eu já disse, mãe... — Oliver começa, no entanto, Davina o interrompe com um aceno.

— E eu entendi, não vou crucificá-lo, querido, apesar de querer bastante — ela cerra os olhos azuis claros na direção do filho e eu dou uma risada baixa, atraindo o olhar dele. Oliver passa a língua na bochecha e se ajeita na cadeira uma segunda vez quando o garçom chega.

— Boa noite — o rapaz de cabelos crespos cumprimenta, trajando um uniforme de pinguim.

Fico abobalhada com a beleza inocente dele e seus olhos cor de mel. Pego o cardápio que o rapaz me oferece e, ao reparar que eu babo por ele, ele abre um sorriso tímido, sem conseguir manter o contato visual. Meu Deus. Eu adoro os tímidos.

— Senhor Ferri, senhor Clarke — ele cumprimenta os homens à minha frente e eu volto a olhar Oliver, que sorria. Me recuso a ficar babando por ele e olho a plaquinha no peito do garçom. David.

— Já sabem o que vão querer?

— Vamos começar molhando a garganta, querido. Traga um bom vinho, por favor. — Davina pede.

— E talvez seu número de telefone? — Acrescento e David arregala os lindos olhos, corando. Ah, que bonitinho!

— Ellen! — Jonathan censura, horrorizado, ao passo que Davina Ferri cai na gargalhada.

— Que garota audaciosa, eu adorei! — Ela segura meu braço e eu abro um sorriso convencido.

— A-ah, é-é que... eu... — David gagueja.

— Pode deixar pra lá, rapaz. Ellen está brincando, não é? — Jonathan ergue a sobrancelha.

Não, não estou. Passo os olhos de meu pai e para Oliver. Quem eu quero provocar mais? Eis a questão. Oliver sequer me encara, o pano de mesa é muito mais interessante, mas reparo nos seus dedos tamborilando com impaciência.

— Vai depender de você, gatinho. — Volto a David. De cabeça baixa, ele pede licença e se afasta com pressa.

— O que foi isso, Ellen? — Jonathan indaga, irritado.

Arregalo os olhos inocentemente.

— Eu estava brincando. É o que eu faço de melhor — digo, cruzando as pernas.

Por debaixo da mesa, meu pé encontra a perna de Oliver e ele faz uma careta com o chute que recebe, mas nós dois fingimos que nada aconteceu. Ele me lança um olhar sério e eu ignoro, voltando-me para sua mãe, que me abria um sorriso largo.

— É uma mulher de muita atitude, Ellen, isso é raro!

— Não precisa assustar os garçons com sua atitude, ainda assim — meu pai balança a cabeça, contrariado.

— Ah, Jonny, tendo esse rostinho, ela pode fazer o que ela quiser. — Davina aperta minha bochecha. Gostei muito dela, principalmente pelo fato de ela não me achar uma vagabunda. — Mas se eu fosse você, querida, iria atrás dos estagiários na firma em que seu pai trabalha. Ali só os melhores crescerão. — Ela levanta as sobrancelhas sugestivamente e eu solto uma gargalhada sincera.

— Mãe, por favor, não a dê ideias. — Oliver chama nossa atenção, cerrando os punhos. — Não precisamos que o sobrenome Clarke seja manchado na empresa. — Ele me abre um sorriso malvado.

Cerro os olhos para o maldito e os cantos dos meus lábios sobem. Ele pede por um tapa.

— E eu concordo. — Jonathan emenda.

— Não gosto de advogados, sabe? — Olho para a adorável Davina. — Eles só falam um monte de baboseiras ao seu favor e fazem de tudo para convencer o maior número de pessoas que eles são os justos.

— É isso que acha, Clarke Junior? — Oliver levanta a sobrancelha. Começo a odiar esse apelido estúpido.

Quis acrescentar que eles também são um bando de paspalhões usando uniforme, mas seria uma mentira muito grande fazer qualquer coisa senão enaltecer o quão Oliver fica bem de terno e com os cabelos cor de chocolate penteados para trás.

Por favor, me prende com essa gravata e me fode que nem nossa primeira vez. Vamos fazer isso enquanto estamos com raiva um do outro.

— É uma mera opinião. — Sorrio que nem uma cínica, como se não fosse abrir as pernas assim que ele pedisse. Meu orgulho que me mantenha no controle.

Ele foi um babaca primeiro.

— É um pouco mais do que parecer justo para os outros...

— Ah, é? — O interrompo. — Bem, porque, para mim, não passa disso. Vocês fazem o que fazem pelo dinheiro e isso não tem nada a ver com justiça. — Oliver e eu nos fitamos por um momento sério e o vinho chega.

Que beleza, mal começamos a comer.

[...]

— Deveríamos fazer isso mais vezes. — Davina diz quando nos levantamos. Ela e Jonathan apertam as mãos, sorridentes.

Depois que Oliver e eu paramos de nos alfinetar, os dois coordenaram conversas bem mais levianas e divertidas. Oliver e eu participamos educadamente, e, no meio de uma fala sua, ele retribuiu o chute que o dei. Eu quase me engasguei com o vinho que tomava. Ai dele se manchasse meu casaco de pele! Ai dele!

— Eu concordo, seria muito legal nos encontrarmos assim. Venha para Atlanta mais vezes! — Jonathan convida. Ele é tão decente que às vezes me esqueço que me magoa com tanta facilidade.

Ele não é um cara mau, penso pela primeira vez. Ele só não sabe ser pai.

— Se prometer ir me visitar em Nova Orleans — ela solta um suspiro satisfeito. Oliver tinha saído para pegar as chaves do seu Mustang.

— Me desculpem interromper, mas estou precisando ir ao banheiro. Eu volto rapidinho! — estou realmente apertada.

— Ah, sim, querida, pode ir! Não se preocupe! — Davina balança a cabeça.

— Vamos esperar por você lá fora — Jonathan fala e nós nos dividimos.

Volto para o restaurante e olho ao redor a procura do corredor que me levaria aos banheiros. Quando o encontro, marcho até lá rapidamente e me enfio no banheiro feminino, apressada em baixar a calcinha dentro da cabine. Solto um suspiro, sentindo leveza ao me aliviar e o cheiro gostoso de lavanda do banheiro limpo. Assim que saio da cabine, vou lavar as mãos.

Me ajeito no espelho, penteando os cabelos com os dedos, e penso nas falas de Oliver maldito Ferri. O imito aos resmungos e a vontade de o bater retorna. Engraçadinho, ele é meu maior paga pau e agora age como se não gostasse de mim.

Não precisamos que o sobrenome Clarke seja manchado — resmungo, afinando a voz porque foi como eu o ouvi falando. Sacudo as mãos e as seco em uma toalha branca. — Argh, idiota.

Um segundo depois, verifico se estou mesmo sozinha no banheiro e, ao ver que sim, estufo o peito e ergo o queixo, saindo. Poderia acabar tudo bem se não o visse vindo pela direção oposta assim que a porta fecha atrás de mim. Nós dois paramos de andar.

— Fala sério, você está me perseguindo? — Reclamo. Ele revira os olhos, soprando uma risada de escárnio.

— Não fique tão cheia de si, Clarke Junior, o banheiro masculino também é por aqui. — Ele se aproxima para apontar a placa atrás de mim. O encaro com tédio.

— Pra quem me chutou, você até que tem umas atitudes bem convenientes.

Nos encaramos por uns minutos. Oliver me mede de cima a baixo, passando a língua na bochecha. Inferno, minhas pernas ficam bambas quando ele faz cara de zangado.

— Que ceninha foi aquela? — Ele quebra o gelo.

— A que você fez?

— Não. A que você fez. — Ele dá um passo na minha direção e seus ombros dominam minha visão. Empino o nariz para o enfrentar com firmeza. — Você quem começou brincando com aquele garoto.

Umedeço o lábio e sorrio.

— Ah, ficou com ciúmes, papi?

— Foi o que tentou fazer? Que presunçoso da sua parte presumir que eu sentiria qualquer coisa. — Ele sorri torto e seus olhos faíscam.

— E, ainda assim, a carapuça serviu. Se não tivesse se importado com aquilo, não teria por quê mencionar.

— Eu não... — Ele se interrompe e me olha com raiva enquanto eu ergo a sobrancelha. — Você foi desnecessária, Clarke Junior.

— E você foi um babaca, Ferri Junior.

Meu sangue esquenta e meu coração se acelera. Ele se acha no direito de me chamar de desnecessária? Ele quem começou sendo todo rude comigo porque acredita dever alguma merda para o meu pai.

— Não só hoje como antes.

Oliver solta um suspiro longo e vira o rosto.

— Eu não queria ter te ofendido aquele dia.

— Bem que poderia ter sido menos ríspido.

— Eu sinto muito. — Ele empurra as palavras para fora. — Não foi minha intenção.

— Não é o que parece — balanço a cabeça e reviro os olhos. — Eu simplesmente não entendo todo esse seu receio.

— Você tem um melhor amigo, como pode não entender? — Ele rebate e eu comprimo os lábios.

Ok, isso foi um tapa na minha boca porque eu nunca faria nada pelas costas de Louis. Ainda mais algo que eu soubesse que o magoaria, no fim.

— Tudo bem. Já colocou um ponto final nisso, de qualquer forma. Devia se sentir orgulhoso. — Sacudo os ombros, como quem não dá a mínima.

Oliver me observa daquele jeito que eu sei o que ele está pensando. Ele está a um braço de distância. O Ferri bufa e coça o rosto, olhando para o lado outra vez.

Até parece que não conseguimos ficar com raiva um do outro. E eu tenho raiva dos outros muito fácil. Cogito ficar o olhando porque não me incomoda ficar perto dele, mas estou demorando demais pra quem só ia fazer xixi.

— Olha... eu vou indo, Ferri. Jon está me esperando.

— Sim, eu sei. — Ele sai da minha frente de cabeça baixa, dando um passo para o lado. Eu caminho, mas sua voz me para no meio do corredor. — E, Ellen.

O olho por cima do ombro e ele parece muito sério.

— Você está magnífica. — Ele aponta meu vestido e eu me sinto estranha. Sou acostumada com elogios, mas é um pouco diferente vindo dele e eu não sei por quê. Um arrepio sobe pela minha espinha e meu coração dispara.

Ah, que se dane. Dou meia volta e ele me encontra no meio do caminho.

Nós nos atracamos em um beijo e o calor do seu corpo me abraça. Seguro sua nuca enquanto nossas línguas se juntam e nossas bocas se encaixam uma última vez. Ele abraça minha cintura e eu fico sob seu domínio enquanto cambaleamos naquele corredor fracamente iluminado.

Eu não entendia o significado de atração, mas acho que é o que nós sentimos um pelo outro porque é tudo intenso e irresistível. Bagunço seus cabelos e me arrepio conforme suas mãos passeiam pelo meu corpo, por baixo do meu casaco.

Oliver me pressiona contra a parede e me beija lenta e intensamente. Seu desejo por mim me molha de tesão porque tenho certeza de que é disso que Oliver é feito. Nós fazemos sentido, inferno.

Não, Louis, nem de longe nos cansamos um do outro.

A língua dele conhece cada centímetro da minha boca e suas mãos grandes me apertam. Seguro seu rosto e vou para o céu.

Queria que ele me despisse e me penetrasse com calma e firmeza, dessa mesma forma que me beija. Nossas bocas clamam uma pela outra e tudo se encaixa. É o melhor beijo da minha vida. Oliver aperta minha cintura de forma possessiva e eu sorrio.

— Ainda sou desnecessária? — Não posso deixar passar quando damos um tempo para respirar.

— Cala a boca — ele sussurra, ofegante. Seus lábios descem pelo meu pescoço e eu arfo, olhando para o lado. Empurro Oliver por reflexo ao ver uma mulher parada no começo do corredor.

Minha respiração está descompassada e meu estômago, encolhido, tudo fica fora do lugar quando nos separamos, mas não, não é a mãe de Oliver e sim uma velha qualquer traumatizada. Oliver e eu nos recompomos.

Ele passa a mão nos cabelos e umedece os lábios, nós trocamos olhares, nossos peitos subindo e descendo. Nós queremos mais do que isso, mas acabou.

— Adeus, senhor Ferri — afasto-me com pressa.

— Adeus, senhorita Clarke. — Ele se despede com a voz rouca. Vou embora, demorando a me desfazer da sensação de suas mãos no meu corpo.

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