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PRA DESCONTRAIR
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OLIVER FERRI
Papeladas e mais papeladas, eu gostaria de me banhar de gasolina e me atirar no fogo.
Cansado do trabalho, a brecha para o café é mais do que bem-vinda para escapar desse inferno de rotina. Infelizmente para mim, nem todos os sábados significam folga, mas raramente são desgastantes como o resto da semana.
Encaro o copo de cappuccino pensando em virá-lo para aquecer a garganta. Faz um pouco de frio aqui e talvez eu devesse comer alguma coisa antes de voltar ao trabalho, mas não faço ideia do que quero.
Meu celular apita e acende do meu lado, havia o esquecido no balcão. Fungo e olho as novas mensagens.
Uma gostosa: oi papi
Uma gostosa: ocupado?
A tela se apaga e eu passo a língua nos dentes, olhando para os lados para me certificar de que estou sozinho. Jonathan disse que iria pegar alguma coisa no escritório, provavelmente algo para ler sobre o caso já que não recebeu nenhuma notificação interessante desde que se "separou".
Ellen ficou quieta desde que salvamos o contato um do outro, há poucos dias. Seria muito mais fácil para mim se ela nunca me chamasse considerando que fiz a merda de chamá-la. Eu estava segurando a onda para não ir atrás dela em pessoa.
Ao ver que a barra está limpa — como se qualquer pessoa algum dia da minha vida tivesse se interessado em ver com quem eu converso — desbloqueio o celular com a senha.
Oliver Ferri: oi. Não por enquanto. Por quê?
Uma gostosa: pensei em você
Ah, para com isso.
Uma gostosa: e quero te ver. Hj a noite de preferência
Oliver Ferri: não sei não. Muito trabalho.
Uma gostosa: qual é. foge comigo.
— Meu Deus, eu não aguento mais ler a mesma coisa tantas vezes. Eu juro que vou mudar de profissão. — Jonathan chega reclamando e eu escondo o celular às pressas. Ele se senta ao meu lado. — Vou virar arquiteto, sei lá. Acha que ainda dá tempo para eu fazer uma faculdade, Ollie? — ele me olha, colocando um livro pesado na bancada.
Franzo a testa para a capa. Não, não tem nada a ver com o caso que estamos trabalhando. É um livro de autoajuda para casais. Lanço um olhar incrédulo para meu melhor amigo, que pisca inocentemente. Meu celular apita sob minha coxa com outras mensagens.
— É sério isso? — mordo o lábio, cutucando o livro. Ele comprime os lábios e encolhe os ombros.
— A Hayley me recomendou — diz, referindo-se a uma colega de trabalho nossa. Abro um sorriso.
— Ah, a Hayley que nunca ficou noiva?
— Ela namora há sete anos — ele pontua, como se valesse a mesma coisa.
— Eles não moram juntos. Ela acha que sabe o que é um casamento, mas ela sabe tanto quanto eu. Não é a mesma merda.
Ele desanima ao se lembrar.
— Eu preciso de uma ajuda, de verdade.
— Para de pedir ajuda para os outros, cara. Não vai encontrar a solução para os problemas da sua vida aí. — Aponto o livro. — Não passa de charlatanismo e desperdício de dinheiro. Então, toma uma atitude ou desiste.
— Eu não quero desistir, Oliver. — Jon se zanga com meu tom grosseiro. — Só não sei como me aproximar de Julie outra vez.
— Você sabe — reviro os olhos. — Fez isso uma vez, pode fazer outra. É só fazer mais do que falar. — Aperto seu ombro e sorrio de canto. — Claro, e aqui estou eu te dando aulas outra vez sobre como tratar uma mulher.
— Vai se foder — ele bate no meu braço e eu solto uma risada, fingindo não haver um peso na minha consciência pelo que estou prestes a fazer contra ele.
— Mudando de assunto... — pego o cappuccino e o beberico. — Vou sair hoje à noite. — Falo e meu amigo se inclina em minha direção.
— Ah, é? E vai para onde? — ele une as sobrancelhas, intrigado. Eu passei da minha fase de sair todos os finais de semana. Dou de ombros.
— Não sei ainda. — A bebida está fria, mas ajo como se estivesse uma delícia. — Mas não me espere acordado.
Jonathan cerra os olhos castanhos e sorri, perverso.
— Que é que você tá tramando? — ele quer saber. — Finalmente desencalhou, Oliver?
— Não, e nem é nada sério. — Aviso para que ele não crie esperanças. Pelo amor de Deus, vai ser muito melhor que ele não crie nenhuma expectativa de conhecer uma "namorada" minha.
— Hum. — Ele levanta as sobrancelhas. — Uma foda casual, então?
— É. Mas não vai ficar se repetindo.
— Por que não? Ela não é boa?
Não, cara, não me pergunta isso. Faço careta.
— Isso não é da sua conta.
— Relaxa, não quero participar, sou homem de uma mulher só. — Ele ri e eu me imagino com uma arma e uma bala. Me sacudo, enojado.
— Cala a boca.
— Depois você me conta.
É melhor ele esperar sentado.
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ELLEN CLARKE
A procura por um emprego deveria ser tão exaustiva? Eu me pergunto. Ao que parece, ser uma vagabunda que não tem planos de fazer uma faculdade em nenhum futuro próximo é malvisto durante as entrevistas e eu soube ler nas entrelinhas que eles não me ligariam de volta nem se eu começasse a chorar aos seus pés.
Ter um rostinho lindo também não basta. Eles querem mais atributos, estes que eu não possuo por ser uma encostada de carteirinha desde que concluí o colégio. Infelizmente, não iria mirar muito alto, portanto, decidi ir procurar por uma vaga qualquer no shopping que eu tanto amo desde criança.
Meu avô facilmente iria me dispor uma vaga em um de seus bancos se eu pedisse, mas essa é uma parte da minha vida que eu prefiro ignorar. Herdarei seus negócios depois de meu pai de um jeito ou de outro, mas empurrarei as obrigações com a barriga o máximo possível. Sempre detestei a contabilidade.
Eu sou a garota das artes e da dança. O máximo que conseguiria entrar no mundo das exatas seria para fazer arquitetura, pois mando bem nos desenhos e design é um luxo, mas antes de concluir a faculdade, eu me mataria de tédio.
Também poderia ter uma ajudinha dos meus pais. Minha mãe me arranjaria algo na escolinha em que trabalha, com certeza, para supervisionar os pirralhos ou coisa do tipo, e... eu confesso que a opção não é tão apavorante, porque adoro ser adorada pelos pirralhos. Até mesmo Jonathan mexeria os pauzinhos na Lawyers Saint Thomas, mas a perspectiva de ficar levando cafezinho de um lado para o outro para os homens de preto não toca meu coração.
Quero fazer isso sozinha, quero sair de casa com o meu esforço — mesmo que não dê para ignorar o fato de que precisarei de ajudar financeira em algum momento para acelerar o processo. E aqui vamos nós, nessa perseguição deplorável como se eu precisasse muito colocar comida na mesa.
— Nem pense em trazer seu currículo aqui. — Louis diz entredentes, lutando para me barrar na porta da loja de perfumes que trabalha. Sorrio e levanto a sobrancelha, desafiadora. — Rose! — Eu o tiro do meu caminho, adentrando o estabelecimento. — Rose, inferno! Fala sério, aqui é o único lugar que consigo ficar longe de você, sua problemática! Vaza daqui, vaza!
— Ah, querido, também não suporto ficar longe de você — falo com ironia e deixo meu currículo nas mãos de sua chefe já que, claramente, se deixasse na mão de Louis, morreria na esperança de ser chamada porque ele o rasgaria sem remorso algum.
Deixo partes de mim em cada loja que me chama a atenção para abrir meu leque de chances, depois vou para casa de carona, quando chego, vejo que recebi uma nova mensagem.
Papi: e pra onde vamos?
Eu sorrio, ele chamou bem na hora.
Ellen: vem até minha casa
Papi: você tá sozinha?
Ellen: não, mas vc vai vir me buscar msm assim
Papi: fácil assim?
Ellen: fácil assim.
Meia hora mais tarde, ele me avisa que chegou.
[...]
— Eu preciso de um emprego — digo, entrando no Ford Mustang preto.
Viro-me para Oliver Ferri, ele está com uma mão no volante e a sobrancelha levantada, trajado de preto com uma corrente de prata por cima da camiseta, mais sexy, impossível. Abro um sorriso perverso e me inclino para dar um beijo na sua bochecha.
— Boa noite, senhor Ferri, quanto tempo.
— Ah, boa noite, senhorita Clarke. — Ele me mede de cima a baixo, demorando o olhar nas minhas coxas e na garrafa de Bourbon pela metade entre elas. — Veio até aqui para uma entrevista? — ironiza e eu dou risada. — E essa garrafa?
— A bebida é para descontrair. Estou curiosa com umas coisas pois decidi largar a vida de patricinha. Posso saber como você começou sua vida de trabalhador? — Coloco o cinto de segurança.
— Não precisei de muito esforço, trabalhava em uma loja de carros que pertencia a um tio meu para pagar a faculdade, depois, ingressei direto na LST com a recomendação de uns professores e, novamente, um tio meu. Contatos são importantes. — Ele dá de ombros, simplista. Afundo no banco de couro e inspiro o cheiro de carro limpo. — Mudando de assunto... para onde é que vamos?
— Não sei. Dirige aí. — Aponto a rua iluminada pelos seus faróis. Oliver não se move.
— Não sabe? — ele sorri.
— Não faço ideia, gatinho. — Arregalo os olhos.
— E eu larguei meu trabalho para ir a lugar nenhum? — levanto os ombros.
— Já estamos aqui, né?
Oliver me fita por um momento, parecendo repensar todas suas atitudes até então.
— Você é muito estranha, sabia disso?
— E você está doidinho pra se enfiar nessa estranha, não é? — provoco, baixando o tom. Oliver vira o rosto e passa a língua na bochecha, lutando contra seu lindo sorriso.
— Eu já vou para o inferno mesmo. — Ele dá a seta e sai com o carro, afastando-se do ponto cego que eu o mandei esperar por mim. Não é a primeira vez que um vizinho me vê entrar em um carro escuro no meio da noite, mas desde que não seja a minha mãe, tudo certo.
— Quer? — ofereço a bebida depois de abri-la.
Oliver me olha de relance antes de devolver o foco para a rua.
— Não dirijo e bebo ao mesmo tempo, sua imprudente.
Encaro seu perfil, seu nariz empinado e semblante sereno. Dissocio por uns segundos.
— Está diferente, senhor Ferri. Mais tranquilo, eu diria — comento, intrigada com a calma que ele exala.
— É uma máscara, não se preocupe. Por dentro estou me perguntando repetidamente por que diabos vim até você.
— Porque se encantou na minha sentada? — Sugiro. Oliver deixa escapar uma risada gostosa, juvenil.
— Você é suja.
— Que você...
— Não completa. — Ele corta minhas asas e meus ombros caem.
— Sem graça.
— Por que decidiu largar a vida de mimada? — ele pergunta depois de uns poucos segundos de silêncio, não sei para onde ele guia o carro, então fico olhando pela janela vez ou outra para ver se alguma coisa me chama a atenção.
Lojas de conveniência, postos, casas apagadas, nada por aqui...
— Me cansei de viver com meus pais. Digo, com minha mãe... — Corrijo-me. — Preciso de novos ares, sabe? Um pouco de independência cairia bem.
Oliver sorri como se meu comentário fosse cômico e o trouxesse nostalgia.
— Ah, essa fase é puxada. — Falou o senhor de oitenta anos, penso.
— Alguma dica de como prosseguir, senhor Ferri?
— Não vou estragar para você. — Ele me lança um olhar, querendo bancar o misterioso. Reviro os olhos, mas estou sorrindo. — Mas o que você vai fazer?
— Não faço ideia, vou me arriscar em algum emprego, mas não vou entrar em uma faculdade nem se me pagarem.
— Por quê? Os livros te assustam?
— Ah. Muito. E eu detesto trabalhos em grupo. — Minha resposta o faz rir de novo. Gosto de fazê-lo rir.
— Mas tem algo que você gosta de fazer? Um hobbie?
Penso e penso. Me fiz de culta durante as entrevistas e falei em todas que meu hobbie predileto era visitar museus e ler livros grandes. Mas não tenho que impressionar Oliver.
— Eu gosto de moda.
— Isso choca o total de zero pessoas. — Ele abusa do sarcasmo. Uno as sobrancelhas e o fito.
— Como poderia supor que gosto de moda, senhor Ferri? Não me lembro de ter falado nada a respeito.
— Aquele dia no shopping — ele levanta os ombros — você examinava todas as roupas que tocava e conversava muito com todas as atendentes sobre medidas e tecidos. Tinha um brilho diferente nos olhos. Apaixonado, eu diria. Você desenha ou coisa assim?
— Costumava desenhar.
— Isso é bom, acho. Devia investir nessa área.
Eu desvio o olhar e mordo o lábio, um pouco surpresa que ele tenha notado uma coisa dessas. Quem diria. Ele não olhou só para o meu corpo.
Muda de assunto, cobro de mim mesma.
— Prometo levar sua dica em conta... Hm, sabe, estive pensando e deixe-me ver uma coisa... seu nome é Oliver Ferri... é italiano?
— Meu pai era italiano. — O moreno me olha ao passar no sinal verde. Inferno, por que homens ficam tão atraentes quando nos encaram ao acelerar o carro?
— Um mafioso, eu presumo?
— Não posso dizer que sim nem que não. — Ele sorri, divertido.
— Ele era... — enfatizo, olhando-o cautelosamente. Oliver continua neutro.
— Ele morreu quando eu tinha sete anos.
— Como foi que aconteceu?
— Acidente de carro. — Ele dá um tapa no volante, baixando o olhar para o velocímetro. — Imprudência dele.
— Eu sinto muito se toquei em um assunto delicado. — Me adianto. Às vezes sou solidária. Oliver umedece os lábios, os olhos fixos na rua.
— Não, eu estou bem com isso. Me forcei a superar depois de vomitar bêbado no túmulo dele — ele ri e eu recolho os lábios para não correr o risco de rir também. Meu Deus, quem fala disso com tanta leveza? Esse cara é dos meus.
— Me desculpa — me embaraço quando as risadas me escapam. Cubro a boca e baixo a cabeça, tentando me conter.
— Não, tudo bem. Eu já ri muito disso, ele também.... tá só o pó.
Eu gargalho, seja engraçado ou cruel, eu não sei.
— Por favor, não diga...
— Sim, ele foi cremado. Enterramos o pote com as suas cinzas. Ninguém queria ficar com aquilo na sala de estar. — Ele entende o que eu não precisei dizer e o ar falta, minhas bochechas rasgariam se continuasse desse jeito. Me abano, agitada, os olhos se enchendo de lágrimas. Oliver ri comigo e balança a cabeça.
— Seu maldito, eu não queria rir do seu pai!
— Eu que deveria estar te xingando! — ele retruca, ofendido.
— Céus, você é péssimo. — Sacudo a cabeça e meus olhos se desviam para a minha direita por um momento. Um letreiro em neon brilha no meio da noite e o som de rock alcança meus ouvidos, mesmo com a janela fechada.
Um bar de motoqueiros! Eu sempre quis entrar em um bar de motoqueiros!
— Aqui! Aqui, para aqui! — Bato no ombro de Oliver e ele para no meio fio. Seu carro atrai olhares de uns caras grandes na porta do bar.
— O quê? — ele olha pelo retrovisor ao passar por umas motos corpulentas com cuidado.
— Vamos entrar aqui — tiro o cinto e levo a garrafa junto ao descer do Mustang do Oliver.
— Ellen! — ele chama e eu mantenho a porta aberta, baixando a cabeça para o olhar, ele arregala os olhos. — Esse claramente não é o nosso lugar.
— Algum preconceito, senhor italiano? Não é chique o suficiente? — Apoio o braço na porta. Oliver me olha com tédio.
— Só estou dizendo que não nos encaixamos aqui.
Solto uma risada nasalada de puro escárnio e o olho de cima a baixo com a sobrancelha levantada.
— Eu me encaixo em qualquer lugar.
— Ellen! Ellen! — ele chama, porém, já fechei a porta do seu carro e bati os saltos em direção do bar.
Os homens da porta são ainda maiores de perto com suas barbas cheias e seus braços maiores do que minha coxa cobertos de tatuagens. Dois deles me barram juntando os ombros e eu pisco inocentemente, olhando para cima.
— Não pode entrar com bebida, mocinha. — O de barba branca me avisa com um forte cheiro de cigarro escapando de cada sílaba pronunciada. Ergo a garrafa para ver em quanto que ela está. São dois dedos.
— Não seja por isso. — Viro a garrafa e encho a cara em enormes goladas. Dos quatro motoqueiros à minha frente, impressiono três. É difícil disfarçar a careta da queimação. — Melhor? — enfio a garrafa vazia no peito daquele que não esboçou nenhuma reação diante da minha impressionante apresentação e me espremo entre seus músculos para passar.
— Clarke, ei, ei! — Percebo que Oliver não me abandonou no fim das contas e estico o braço para trás, cambaleando um pouco por ter bebido muito rápido. Ele pega minha mão e eu o levo comigo para o meio do bar lotado.
Nós nos esbarramos em muitos outros corpos e eu sorrio para os estranhos, entretida com o quanto esse bar é idêntico àqueles retratados nos filmes, fala sério, alguns usam mesmo bandanas vermelhas!
— Você é louca — Oliver sussurra no meu ouvido, arrancando-me arrepios involuntários. Encolho os ombros, coloco sua mão na minha cintura e giro nos calcanhares para ficarmos frente a frente, parando de andar. Jogo os braços ao redor de seu pescoço e o puxo para mim com um sorriso convencido no rosto.
— A noite acabou de começar, papi. Não se assusta com essa louca, hein. — Sussurro a centímetros do seu rosto antes de tomar seus lábios em um beijo ardente — ou é a bebida queimando?
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OLIVER FERRI
Isso é loucura, definitivamente loucura. Nenhum momento desde que deixei minha casa para vir até Ellen pensei que acabaria em um bar cheio de gigantes.
Ela segura minha mão e me arrasta consigo quando a aponto a bancada. Não achei que seria bom ela beber mais. Do jeito que virou aquela garrafa, não demoraria a começar a rir à toa.
Puxo seu braço para que ela vá mais devagar e agarro sua cintura, a mantendo por perto porque não quero que esse animal sofra um acidente ou se esbarre com quem não deve. Ellen se apoia em mim e abraça minha cintura, jogando um braço sobre a bancada.
A mulher do outro lado nos olha com suas lentes de contato amarelas. Saiu de um filme de terror, imagino.
— Oi, linda! — Ellen acena para que ela se aproxime e a mulher dos cabelos curtos chega cerrando os olhos.
— Você não é daqui, é? — ela sorri de canto. Olho ao redor e há alguns rostos virados na nossa direção. Isso é bastante desconfortável, e, de repente, eu mesmo me considero engomado demais.
Bem, não me julguem, eu pensei que estaria em um motel a esta altura do campeonato.
— Não, não sou. Pode me ver seis shots de tequila? — Ellen pede, segurando-me com força como se eu fosse escapar.
— É pra já, lindinha. — A mulher se afasta para pegar a bebida.
— E qual é seu plano, Clarke Junior?
— Ellen.
— Quê? — Pergunto por cima do rock metálico.
— Me chama de Ellen, não gosto do meu sobrenome! — Ela grita de volta. Nossos corpos estão colados, nossos rostos a insignificantes centímetros de distância um do outro. Cerro os olhos.
— O que está tramando, Ellen?
— Eu quero me divertir, Oliver. — Seus olhos cintilam malícia. É divertida a forma como ela fala meu nome. — Beba comigo, aí, quem sabe, eu não te pago aquele boquete?
Passo a língua na bochecha e lanço um olhar para a bartender que enche nossos copos. Ela nem tenta disfarçar a risada.
— Você deveria tomar cuidado com o que fala! — me aproximo de seu ouvido e seu shampoo penetra minhas narinas. Ellen passa as mãos em meus braços como quem não quer nada.
— Ou o quê? — Ela me desafia.
Nós nos encaramos longamente e eu sorrio, viro o rosto para cima e sacudo a cabeça. Essa mulher e esse maldito rosto lindo. Ela usa um vestidinho preto de alças finas e saltos agulha e eu não me incomodaria se ela quisesse passar por cima de mim desse jeito. Está usando uma calcinha, querida?
— Porra, não posso fazer isso sóbrio. — Pego um shot. Nós nos soltamos e Ellen se anima, pegando o dela. Brindamos e viramos.
Foda-se, eu penso.
Há momentos na vida em que se precisa ativar o modo foda-se para a autopreservação. A culpa desce com a tequila pela minha garganta e eu a deixo lá no fundo.
Foda-se que ela é filha do Jonathan, isso não tem nada a ver. Eu sou um babaca por querer me divertir com ela? Ah, vamos, somos bem grandinhos. A olho de rabo de olho, pensando em debruçá-la nesse balcão e simplesmente ir fundo, porque nos dias que ficamos separados quase senti os sintomas da abstinência.
Estava precisando tê-la, então, vou tê-la.
Ellen me olha e eu acredito que está pensando nas mesmas sacanagens que eu. É errado, mas tudo bem, não será frequente. Só mais uma noite e chega. Só mais uma foda.
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