9: Cookies e Girassóis
A Colecionadora amanheceu se sentindo mesmo muito melhor. É incrível como na manhã seguinte nada parece tão ruim quanto parecia na noite anterior. Como se o sol nos iluminasse por dentro também, nos enchendo de clareza sobre as coisas, e coragem para começar tudo de novo.
Metaforicamente, é claro, pois o dia amanheceu nublado. Mas a chuva que caía não era pesada e melancólica, mas sim aconchegante e fresca. Como um banho para a alma.
- Você quer descansar hoje? - Ângelo perguntou, afagando os cabelos da Colecionadora.
- Hoje é um dia perfeito para assar cookies e comer com sorvete. Mas antes, quero comprar um girassol.
- Tudo bem. - Concordou ele, que já estava acostumado com o jeito meio maluquinho dela - Quer que eu vá com você?
- Não precisa. Eu vou. Que tal você ir preparando os ingredientes pros cookies?
- Ok, deixa comigo. Gotas de chocolate? Nozes?
- Tudo! - Ela riu e beijou-o suavemente nos lábios.
A Colecionadora vestiu sua capa de chuva, suas galochas, e saiu pela porta da frente. Enquanto isso, Ângelo tirou a manteiga da geladeira, e começou a separar os utensílios necessários, como fizera no dia anterior.
Naquela manhã a Colecionadora optou por caminhar, algo que sempre a acalmava. Ia pulando poças, estendendo a língua para pegar gotinhas de chuva, e saltitando alegremente, como uma criança.
Como sabemos, ela era muito ligada à natureza, e por isso gostava de ter por perto plantas que combinassem com seu humor, que criassem o ambiente de como queria se sentir.
O girassol, por exemplo, era a flor mais alegre e cheia de vida de todas. A alfazema, intensa e reconfortante. O antúrio, resiliente. E assim a lista seguia...
Estava tão distraída, que quase passou direto pela floricultura, notando a fachada rosa desbotada só no último minuto. O prédio tinha sido construído em estética art dèco, e nunca fora reformado. Lascas de tinta estavam soltas por toda parte, e uma pintura feita a mão, com letras brancas floreadas, quase apagadas, dizia: "Floricultura Arco do Cupido".
Esse era um dos lugares favoritos da Colecionadora, sem dúvida. Quando você entrava, era engolido por um mar de flores coloridas de inúmeras cores e tamanhos, um banquete para os sentidos.
Mas quando adentrava a segunda câmara, dava de cara com uma fonte de três andares, com estátuas de cupidos no topo, lançando água para cima, que escorria com preguiça até o poço mais de baixo. Ali ficavam também as folhagens, em tons variados de verde, seu aroma enchendo o ar.
A dona do estabelecimento, uma senhora baixinha, de cabelos grisalhos e rosto corado, veio até ela apoiada em sua bengalinha.
- Colecionadora! Que bom te ver! Eu estava justo pensando em você!
- É mesmo?! Que bom, dona Emília! Como vai a senhora?
- Vou indo, minha filha. Sabe como é... A idade chega!
- A senhora diz isso, mas aposto que os anos só te melhoram, como um vinho! - A velhinha gargalhou em resposta - O que a senhora estava pensando sobre mim, hein?
- Que eu preciso te entregar uma coisa.
- É? O quê?
- Espera aqui só um minuto, vou buscar.
Dona Emília entrou nos fundos da loja, e algum tempo depois voltou com um envelope amassado na mão.
- Eu soube que vocês estavam procurando pela Aurora...
- A senhora conhecia ela?
- De vista. Mas eu era muito amiga da Amélia, avó do Ângelo.
- Que surpresa!
- Ela me deu esse envelope. Disse que era para eu guardar bem, que um dia o Ângelo ia vir aqui procurando por ele. E eu guardei direitinho! Foi isso que você veio buscar?
- Bom, na verdade eu vim comprar um girassol, mas pode deixar que eu entrego pro Ângelo.
Dona Emília riu cheia de afeto nos olhos, e colocou o envelope na mão da Colecionadora.
- Vou pegar o girassol mais bonito para você! - Disse ela.
- Como sempre a senhora é muito gentil! - Respondeu a Colecionadora, sorrindo seu melhor sorriso.
A senhora se enfiou no meio das flores e um momento depois ressurgiu, com um vaso coberto de mini girassóis nas mãos.
- Não quer tomar um chá quentinho? É bom, nesse tempo...
- Eu adoraria! Mas o Ângelo está me esperando em casa pra gente fazer cookies.
- Você tem razão, melhor passar seu tempo com um rapaz bonitão do que com uma velha como eu! - Disse Emília, e caiu na gargalhada.
- Ei! A senhora sabe que eu adoro bater papo com você! Faz assim, semana que vem eu venho tomar um chá, pode ser?
- Combinado!
As duas se abraçaram rapidamente, a Colecionadora pagou pelas flores, colocou o envelope dentro da roupa, por baixo da capa de chuva, para não molhar, e saiu com o vaso de flores nas mãos. A essa altura não chovia mais tão forte.
Na volta para casa, passou na sorveteria de frente a praça de grama, e comprou um pote de sorvete.
***
Ângelo ouviu o trinco da porta da frente abrindo.
- Amor, tô de volta! - ouviu a Colecionadora gritar da sala.
- E aí? Encontrou o que procurava?
- Encontrei algo muito melhor!
Ela entrou na cozinha já sem a capa de chuva, e descalça; colocou o pote de sorvete no congelador. Tirou o envelope de debaixo da blusa, e mostrou para ele.
- A dona Emília me deu isso, falou que era da sua avó - E contou exatamente o que tinha acontecido - Mas eu posso te pedir um favor? Vamos ler só amanhã? Eu quero passar hoje só com você, ok?
- Tá bom, acho que aguento esperar. Ou não. Mas vou tentar - Disse ele, rindo, e envolveu sua cintura - Quer provar a massa?
- Você sabe que eu não como massa crua!
- Ei, massa crua de cookies é quase uma religião!
- Não, obrigada. Essa eu vou passar!
Enquanto a Colecionadora saiu, Ângelo bateu a massa e colocou para gelar. Já tinha se passado tempo suficiente, então, os dois pegaram a massa na geladeira, Ângelo forrou a forma com papel manteiga, e a Colecionadora distribuiu bolinhas de massa com uma colher de pegar sorvete.
Depois disso, Ângelo foi lavar a louça e a Colecionadora sentou-se diante do forno, e ficou observando através da portinha de vidro as bolinhas derreterem e se transformarem em discos achatados.
Com os cookies já assados, cada um pegou uma tigelinha, colocaram uma bola de sorvete e alguns cookies, e se sentaram na rede da varanda, sentindo o cheiro de terra molhada, e vendo as gotas gordas de orvalho nas folhas ao redor.
- Quando eu era criança, sempre imaginava que as gotas de chuva eram copinhos de plástico caindo no telhado da minha casa - Disse a Colecionadora de boca cheia, e Ângelo se acabou de rir.
- Isso não faz sentido nenhum!
- Essa que é a graça da imaginação, ué, qualquer coisa é possível!
Os dois passaram o dia todo de preguicinha, e de noite adormeceram ouviram milhares de copinhos caindo no telhado...
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