Capítulo 19

"Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal."

Niccolò Machiavelli.

Aquele mundo era o oposto do primeiro. Tratava-se de um deserto escaldante, com uma atmosfera pobre em oxigênio, muito seca e com um cheiro horroroso por ter uma pequena concentração de ácido sulfídrico na sua composição, o que dava a sensação que se tinha entrado em uma sauna cheia de cebolas podres, mas não era suficiente para prejudicar a saúde de um ser humano, menos ainda de um mago.

Igor viu o inimigo a uns cinquenta metros e arremessou uma bola de plasma sobre ele; mas, devido à gravidade bem mais baixa daquele mundo, errou o alvo e a esfera ígnea caiu bem depois do monstro, traindo a posição do atacante.

Assustado, Samuel abriu um novo portal e voltou a fugir, desta vez para um mundo normal, mas desabitado. No meio da vegetação exuberante daquele planeta, Igor teve dificuldade para encontrá-lo, até porque não havia pegadas que o denunciassem.

Após uma hora andando sem rumo, sentou-se em uma pequena rocha, pegou o cristal e pensou na criatura. O detetor começou a brilhar de imediato e, assustado, levantou-se de chofre e atirou-se para o lado ao mesmo tempo que sentiu uma onda de ódio alcançar a sua mente e foi atingido de raspão pela esfera negra.

Sentiu a agonia e frieza que tentava drenar a sua força, mas a sorte veio a favorecê-lo mais uma vez por ter deixado o instinto tomar conta e, também, porque a criatura estava fraca. Se tivesse permanecido sentado, as coisas teriam sido bem diferentes e provavelmente estaria cativo do Samuel.

Mesmo assim, Igor cambaleou e sofreu as consequências de ficar confiante em excesso. Ergueu a custo a sua barreira e virou-se, encontrando o inimigo bem à sua frente. Pegou a espada e avançou, usando-a para largar uma verdadeira tempestade de raios sobre a criatura. O demônio, sem qualquer emoção para absorver e aumentar o seu poder, começou a sentir os efeitos, encolhendo enquanto era bombardeado. Desesperado, saltou para o lado e começou a correr, abrindo mais um portal e fugindo.

Igor não repetiu o erro de saltar atrás da sombra pelo mesmo caminho, preferindo abrir a sua própria fenda e continuar no encalço do demônio preto. Enquanto avançava, concluiu que não precisava mais de um aparelho para o seguir porque podia sentir a sua mente, em especial o ódio que ele emanava. O contato físico entre ambos proporcionou-lhe essa vantagem, mas o mesmo devia ocorrer com o inimigo e todo o cuidado era pouco para não ser encurralado porque ele era muito ardiloso e Igor já sentiu isso na pele.

Ele também sabia que o uso contínuo da sua barreira pessoal acabaria por enfraquecê-lo, mas era muito mais fácil ser morto pela criatura de que o oposto. Naquele momento, tudo era uma questão de gato e rato e o jovem mago precisava de ter todo o cuidado para não se tornar no rato.

O local do mundo para onde a criatura fugiu estava no período noturno e era escuro como breu, dificultando bastante as coisas.

Decidiu fazer a experiência de o localizar pelas emanações mentais e concentrou-se. Esvaziou a mente para não se distrair e aguardou um pouco até que, bem devagar, um sentimento estranho apoderava-se dele. Era um sentimento que não lhe pertencia mas quase que poderia ser seu, emanando ódio, frustração e medo. Sim, agora Igor sabia que a criatura sentia medo dele e, mais uma vez sentiu a confiança em si próprio crescer. Não teve dificuldade e determinar a direção o passou a caminhar rápido naquela direção, procurando aproximar-se.

– Não adianta, Samuel. – Igor arremessou uma enorme bola de luz para cima, iluminando tudo em volta e vendo o seu inimigo fidagal a poucos metros. – Onde quer que tu vás, eu te localizo.

A criatura escondeu-se atrás de uma grande árvore enquanto Igor aproximava-se mais e o jovem ficou pensando se destruía a árvore para expôr o inimigo, porém isso era contra os seus princípios. Quando concluiu que se tornava necessário, pelo bem da sua segurança, alguém saiu de trás, mas não era a criatura e sim nada menos do que a própria mãe, que lhe estendeu os braços e disse:

– Meu filho, que saudades. Estou livre dele, me tira daqui pelo amor da Deusa, que ele é assustador.

– Mãe – sussurrou, tremendo e aproximando-se –, mãe...

Igor, quando viu a sua mãe, sentiu toda a saudade que tinha recalcado naquele período e procurou alcançá-la o quanto antes, desfazendo a barreira de proteção. O seu coração batia com força e ele sentiu um nó na garganta quando sentiu o seu cheiro.

– Filho, me ajuda antes que ele mude de ideia – insistiu a mãe, assustada. – Ele me soltou para que desistas de o perseguir. Me ajuda que aquilo é um horror.

Ela cambaleou, fraca, e o mago esqueceu de todas as precauções, dando um salto para a frente de forma a ajudar a mãe e tocando as suas mãos, trêmulo. Desejava tanto vê-la viva e com saúde que se esqueceu do resto.

– Mãe! – O jovem abraçou-a, sorrindo e tremendo de emoção, mas foi nesse momento que descobriu o erro que cometeu porque ela parecia crescer enquanto Igor sentia-se cada vez mais fraco.

Amaldiçoando-se e desesperado para se libertar, saltou para trás. Apesar de tudo, Samuel ainda estava muito fraco para ter força física suficiente para o manter preso e o mago acabou caindo de costas. A risada macabra manifestou-se enquanto ele rolava para o lado de forma a escapar da bola de energia negra que quase o atingiu. Igor reconheceu que só escapou porque o demônio preto sentiu-se confiante em excesso e precipitou-se. Se Samuel tivesse esperado o abraço concretizar-se por inteiro, Igor não teria sido capaz de escapar com energia suficiente para se defender.

Embora enfraquecido, levantou-se, ergueu a sua barreira e formou uma bola de energia destrutiva; mas, por mais que soubesse que aquilo não era a sua mãe, o mago não conseguia reagir, não tinha coragem de atacar aquela imagem delicada e de aparência desprotegida que ele amava tanto.

Exasperado, bloqueou a sua mente e transportou-se para um lugar atrás da criatura, a cerca de vinte metros, ficando em silêncio e tentando se recuperar das emoções, respirando fundo.

Naquele momento, lembrou-se das palavras de Gwydion que dizia que o monstro se alimentava das emoções e, ainda com dificuldade, fez um esforço hercúleo para se dominar ou acabaria morto naquele mundo porque os papéis estavam mais uma vez invertidos.

Samuel ainda não descobrira que ele estava tão perto e isso foi a sua perdição quando a bola de plasma o acertou. Igor sentiu um nó na garganta ao ver a figura da mãe atingida e a criatura virou-se, rindo quando sentiu uma ponta de emoção. Aproximou-se dele, notando que Igor estava enfraquecido e muito indeciso.

– Não acredito que vais me tratar desse jeito, meu filho – disse, apelando para as emoções. – Eu sou a tua mãe, que te carreguei no colo e tanto brinquei contigo.

Igor parecia ainda mais indeciso à medida que Samuel dizia isso e se aproximava. Sentindo o gosto da vitória, a criatura continuou:

– Tu que foste o meu bebê e que corrias para o meu colo sempre que algo te assustava, encontrando meus braços acolhedores, filho, lembras?

– Mãe – disse Igor, trêmulo, quase como que hipnotizado.

Samuel sentia que ele afrouxava a sua barreira e conseguia absorver alguma energia, dando-lhe mais confiança. Quanto mais perto chegava, mais energia absorvia, mas não o suficiente para Igor notar e se proteger.

Quando estava quase tocando no adversário e já eufórico pela vitória garantida, voltou à sua forma natural para poder absorver Igor de um só golpe, sabendo que ia passar a ter um poder incomensurável.

Tocou nele pronto a sugá-lo, procurando buscar os fluxos vitais do mago e forma a subtraí-los para si e deixando apenas uma casca vazia e morta no chão. Feliz viu que Igor enfraquecia e decidiu aplicar toda a força de um só golpe. Samuel ia soltar uma grande gargalhada quando viu o mago erguer a mão para ele e algo forte atingiu Samuel, uma coisa que não era física e muito poderosa que atuou com tanta violência que atirou a criatura para trás e caiu de costas. Foi então que Samuel deu-se conta de que Igor tinha alguma proteção natural que o impedia de ser assimilado ou destruído e ele jamais poderia se aproveitar dos seus conhecimentos. Ele até enfraquecia, mas não podia ser sugado.

Livre dos escrúpulos de destruir a criatura na forma da mãe e descobrindo que alguma coisa deu muito errada com a criatura que tentou safar-se, rolando para o lado e levantando-se, mas Igor aprendia muito rápido e não perdeu tempo.

Sabendo que estava demasiado fraco e que era capaz de fazer o mesmo que o inimigo, Igor ergueu ambas as mãos e um par de raios negros atingiram Samuel, começando a sugar a energia vital do monstro.

Samuel sentiu que perdia a sua própria energia e atirou-se para o lado tão rápido que o mago não conseguiu acompanhar o movimento, perdendo o foco do raio. Em desespero, o ser o plano zero começou a correr sem rumo, desde que fosse o mais longe possível de Igor que, apesar de tudo, ainda conseguiu arrebatar de volta uma grande quantidade de força, reequilibrando o combate.

O mago arremessou uma esfera branca que, ao acertar Samuel, transformou-se em gelo a menos de sessenta graus negativos, a temperatura do dióxido de carbono congelado. Cada vez mais aflita, a criatura abriu nova passagem ao acaso e atravessou, ganhando uma pausa na batalha.

Igor continuou no seu encalço, sem trégua. Apesar de se ter enfraquecido bastante, acabou recuperando grande parte da energia e ganhou muito mais confiança porque agora sabia que a criatura era incapaz de o destruir. Ele chegou a indagar a si mesmo se não seria esse o motivo de tamanho ódio contra si, mas concluiu que era algo irrelevante para se perder tempo em conjecturas.

Daquela vez, os dois foram parar em um mundo povoado, surgindo em uma cidade cheia de seres semelhantes a pigmeus, bastante primitivos. Quando o mago atravessou a barreira, eles ajoelharam-se em devoção ao Grande Deus da Luz Verde. Igor viu Samuel perto e arremessou nova esfera de gelo, mas a criatura virou-se e revidou sem se importar com o que estava no caminho. Vendo que ela ia atingir os pobres e inocentes nativos com a bola negra, o mago criou um campo de energia que ficou entre eles e a esfera, enquanto a criatura aproveitava para fugir outra vez para outro mundo.

Os pigmeus, que também tinham a pele verde, assistiam uma luta entre poderosos deuses, um verde e outro preto, e sentiam-se extasiados, claro que tomando o partido do Igor, que era verde como eles.

O mago abriu uma nova fenda para continuar a sua perseguição, mas notou duas coisas: Samuel andava cada vez mais devagar e demorava mais a abrir os portais. A conclusão só podia ser uma e ele agiu como tal: decidiu provocar o esgotamento à criatura, apesar de ele mesmo não estar em melhor forma, em especial depois do último encontro.

― ☼ ―

Já andavam nessa perseguição há quatro dias da Terra e mesmo Igor sentia os efeitos violentos da falta de sono e alimentação. No início daquele dia, ambos entrincheiraram-se e ficaram cerca de seis horas consecutivas lançando tudo quanto era coisa destrutiva que podiam imaginar, um contra o outro, enquanto acusavam-se e agrediam-se aos palavrões. Igor, contudo, tinha o cuidado de manter as suas emoções sempre sob controle, impossibilitando Samuel de obter qualquer tipo de energia adicional a menos que capturasse e matasse alguém, mas o mago estava sempre atento para que a criatura não fizesse mais vítimas.

Em dado momento, os dois ficaram em silêncio, quietos, e Igor tentou descansar um pouco quando sentiu a cabeça pesada demais. Assustado ergueu-se rápido para se deparar com Samuel rindo da sua cara e lançando uma das suas bolas de energia negra. Com um berro de raiva atirou-se para o lado, rolando no chão e arremessando uma esfera de plasma, descobrindo que apenas carbonizou parte do solo à sua frente, que não havia nada. Preocupado, deu-se conta que dormitou e sonhou com o ataque dele, um sonho muito vívido por causa do cansaço. Ergueu-se mais um pouco e notou que Samuel tinha aproveitado para fugir por um portal. Levantou-se às pressas para retomar a perseguição, sentindo uma forte tontura e quase caindo, mas controlou-se, reiniciando a caçada.

O guardião supremo atravessou a abertura que Samuel deixou aberta, tendo antes o cuidado de ver se não se tratava de outra armadilha, e fechou-a em seguida, sentindo de imediato a força abusiva da gravitação local que quase o atirou ao chão. Esperou uns minutos para se adaptar e aproveitou para olhar em volta, procurando. Encontrou o demônio preto a uns cinquenta metros, de joelhos e de costas. Aproximou-se com alguma dificuldade, mas sem ser atacado, agradecendo à Deusa por isso porque ele também sentia-se no fim. Ergueu a espada e estava de tal forma cansado que ela parecia pesar uma tonelada.

Na primeira tentativa fraquejou, sentindo a vista tremer enquanto pontos pretos apareciam à sua frente e teve medo que Samuel notasse, mas ele continuava de costas, talvez tão ou mais acabado que o mago. Ergueu a arma outra vez, agora com mais firmeza. Por causa dos seus escrúpulos, não seria capaz de atacar o monstro por trás, mesmo sabendo que aquilo não era hora para ter moral.

– Cheque mate, Samuel – disse de espada em punho. A criatura virou-se devagar, mas já não ria. – Ainda estou disposto a te oferecer uma rendição honrosa desde que devolvas as essências vitais que arrebataste.

– Jamais me pegarás. – Samuel transformou-se sem aviso em uma mulher linda, de cabelos negros e olhos castanhos, muito expressivos. – Para que me queres de volta, Igor, se desprezaste o meu amor. Esqueceste aquela semana que passamos juntos! Estou melhor aqui; deixa-me a sós.

– Não conseguirás provocar qualquer reação emocional da minha parte, Samuel – respondeu Igor, tentado manter a firmeza. – A minha mãe foi a última. Caroline e eu tentamos um namoro, mas não era o que queríamos. Foi bom para ambos, nossa primeira experiência, só que a amizade foi muito mais forte e ficamos bem resolvidos. Ninguém desprezou ninguém.

– Eu dei-lhe o poder supremo e você traiu seus irmãos. – Agora era Sergey que estava perante Igor, com o olhar severo. – Olhe o que fez com todos nós, seu incompetente.

– Esquece, Samuel – retrucou o mago, impassível. – Tens trinta segundos para decidir. Depois disso, será a tua destruição.

– Eu sou indestrutível, Mago – respondeu a sombra. – E tenho a certeza que tu deves estar sem forças. Em breve, estarás morto, mas eu ainda estarei aqui, aguardando com toda a paciência...

Samuel foi interrompido por uma pequena bola de plasma que atingiu o solo ao seu lado, fazendo com que pulasse para trás. O demônio negro pareceu não notar que a esfera era fraca, tamanho era seu medo, e tentou abrir um portal para fugir, conseguindo um sucesso parcial. Entretanto, um raio lançado pela espada cortou o caminho e a conexão.

– Estás no fim, Samuel, e esse foi o teu último portal aberto. Sem energia para absorver, tu morres, não é? – Igor riu, mas sabia que também não era mais capaz de repetir aquilo por falta de força. – Não devias ter deixado que te tocasse porque eu também aprendo. Nada tens de indestrutível.

– Se me matares, morrem todos comigo – avisou ele rindo, na esperança de uma pequena reação emocional. – Todos aqueles que tu amaste e que eu arrebatei para mim. Tirei-te tudo, Mago, tudo.

Igor calou-se para não deixar passar uma emoção, mas sentia um pouco de desespero. Achava que a monstruosidade ir-se-ia entregar para não perecer e acabou de descobrir que se enganou. Ele já pensou em uma solução para isso, mas o seu maior inimigo era o medo que tal resultado provocaria em si próprio.

– E quando tu morreres neste deserto escaldante de um mundo desconhecido – continuou o monstro –, vou pegar Eduarda de volta para mim e vou usá-la até me cansar.

Igor não soube de onde arranjou mais força, mas atingiu a criatura com um raio de energia negra similar às esferas que o monstro criava. Samuel fez menção de fugir outra vez assim que viu que o truque não teve efeito, mas não conseguiu. Desesperado, virou-se e viu Igor com a mão estendida, por onde saía o fluxo que o destruía aos poucos.

Demasiado fraco para continuar a correr, ele foi caindo até ficar de joelhos. Nesse momento, Igor suspendeu o ataque e aproximou-se, também exausto e com dificuldade. O mundo onde estavam era um deserto só, com o sol escaldante que trazia temperaturas superiores cinquenta e cinco graus, no limite da capacidade de resistência humana, isso sem falar na gravitação elevada em uns sessenta por cento. Sentia vertigens e via pontinhos pretos a dançarem à frente dos seus olhos, sabendo que isso era o sinal que ele já estava por um fio porque foram dias inteiros sem comer nem beber ou dormir, sem parar, sempre com a barreira pessoal ativa.

Foi apenas a vontade férrea de tentar salvar os seus súbditos e amigos que o impediu de matar a criatura ali mesmo e retornar para casa, acabar com o pesadelo e dormir pelo menos um dia inteiro. Em vez disso, baixou a mão e suspendeu a sua barreira de proteção porque sabia que aquele demônio preto já não tinha forças para o atacar e ele precisava de cada gota de energia que pudesse reservar para o último ato, uma ação que talvez até lhe custasse a própria vida.

– Sabes, Samuel – disse, tentando aparentar muita calma –, os meus mentores e mestres que tu tens aí contigo sempre me disseram que estavam para ver alguém que aprendesse tão rápido, que eu não lhes dava a menor graça de ensinar por causa disso e hoje agradeço ao Universo por ter esse dom que a Deusa me deu.

Esticou a mão e agarrou a criatura pelo pescoço, sentindo de imediato um formigamento forte quando o ser demoníaco tentou arrebatar a sua força vital, mas ele lacrou os seus pensamentos e sentimentos, tornando-se para Samuel algo similar a um androide.

Era a barreira perfeita.

– Como eu te disse – continuou o mago –, aprendo bem rápido, mas agora tu acabaste com a tua chance de te salvares porque não necessito mais de ti, já que posso fazer a mesma coisa.

– Tu mo... morrerás – retrucou a custo.

– Pois esse é um risco que acho que vale a pena correr – respondeu Igor com um sorriso feroz –, um preço que vale a pena pagar. Uma vida, a minha, por mais de cinquenta mil inocentes que estão aí apenas por minha culpa. Qual seria o Guardião Supremo que não daria a sua vida de bom grado?

Terminou de falar e puxou o inimigo para perto, tocando na cabeça do demônio preto. O seu corpo começou a brilhar forte em uma cor branca, enquanto a criatura negra pulsava, ora mais intensa, ora mais fraca. Ambos travavam uma batalha violenta e silenciosa, invocando as suas últimas reservas de energia que nenhum dos dois sabia ainda ter.

Igor não se lembrava quando foi que começou a gritar, apenas que gritava muito e cada vez mais alto à medida que a criatura definhava. Ele não saberia nem dizer os motivos dos berros, se eram gritos de dor, tristeza ou vitória, nem mesmo por que gritava ou o que gritava e mesmo quando a voz já não lhe saía da garganta maltratada, ele, ainda assim, tentava berrar.

A batalha entre os dois seres vivos tão díspares demorou muito tempo, um tempo que Igor não sentiu passar até que, nas suas mãos, já não existia mais nada da criatura. Toda a sua essência fora absorvida e, no chão, jazia apenas uma casca negra, vazia. Com um último esforço, o jovem ergueu a mão e soltou um raio de plasma que dissolveu aquilo. Após, deu dois passos e caiu desacordado.

― ☼ ―

– Gwydion – disse Eduarda pela décima vez –, estou morta de preocupação. Faz seis dias que ele está lutando contra Samuel sem qualquer notícia...

– "Agora, nós nem temos mais como o seguir" – respondeu o dragão, mantendo a calma –, "mas eu tenho fé no Guardião."

Eduarda tentava, porém o seu nervosismo aumentava cada vez mais e nem os pais a acalmavam, embora tivessem tentado mais de uma vez. Valdo também fez um esforço para ajudar e não conseguiu. Então, Ezequiel disse:

– Minha querida, Igor já enfrentou essa criatura mais de uma vez e sempre foi derrotado. – Ela ia falar, mas o sábio fez sinal para que se acalmasse. – E sempre que isso aconteceu, ele bateu em retirada de modo a se recuperar para poder continuar a batalha. Então, eu acho que este silêncio é bom sinal, muito bom mesmo, ainda mais depois que aprendeu a criar a nova barreira de proteção.

– Será? – Ela sacudiu a cabeça. – Jamais devia ter permitido que ele me enrolasse para eu não ficar junto.

– Ele a ama muito, minha filha – insistiu Ezequiel –, e fez isso porque quer vê-la em segurança. Mas como ele a convenceu?

― ☼ ―

O sol estava quente, insuportável, e tudo o que Igor queria era descansar em uma sombra e tomar um pouco de água. Com muita dificuldade, abriu os olhos e precisou de toda a sua força de vontade para se erguer, senão morreria ali mesmo. Quando anoitecesse, a temperatura daquele deserto ia cair a valores negativos em poucos minutos e surgiriam tempestades fortíssimas para as quais ele já não possuía nenhuma defesa.

Sabia que a sua vida não ia durar nem mais um par de horas, mas precisava de salvar as almas aprisionadas dentro de si ou todo aquele esforço teria sido em vão. Foi nesse momento que evocou a coisa mais forte que podia pensar: a lembrança da sua doce Eduarda. Pensou nela com toda a força do seu ser e isso deu-lhe mais um pouco de energia para se levantar. Ele tinha de sair daquele deserto antes que morresse de vez.

Tentou erguer a mão para abrir uma passagem e nem pensou direito para onde, desde que houvesse água e sombra, mas o seu braço parecia pesar mais de cem quilos. Insistiu mais um pouco, bem devagar, até que deixou cair a mão enquanto ativava aquele setor especial da sua mente e um portal foi aberto.

Devagar, avançou um pé, seguido pelo outro muito a custo. Foi um esforço hercúleo dar aquele passo, mas precisava de dar mais um. Tocou a barreira, rompendo a membrana que separava os dois mundos e sentiu logo o vento fresco passar, provocando um pequeno alívio. Logrou o segundo passo e alcançou o outro planeta, que devia estar pelo menos vinte e cinco ou trinta graus mais fresco, proporcionando-lhe um alívio imediato.

Igor precisava de ir o quanto antes para o Mundo de Cristal, mas não estava certo de que conseguiria e isso deixava-o ainda mais desesperado porque, após as infindáveis dificuldades, ele carregava todas aqueles milhares de essências dentro de si, vidas que desapareceriam para sempre se falhasse e morresse. Para sua grande tristeza, sentia que o fim era eminente.

Ainda teve tempo para pensar que, apesar de não desejar a morte, não a temia e nesse aspecto sentia-se sereno, mas triste por saber que nunca mais naquela vida teria a sua adorada noiva nos braços.

Com dificuldade, olhou em volta e tentou calcular em que plano estava, só que o cérebro dele já não conseguia trabalhar com coerência por ter sofrido um desgaste excessivo. Sem nem mesmo fechar o portal, deu mais um passo, desta vez bem mais fácil e o que sobrava de raciocínio lógico disse-lhe que ali a gravitação era muito menor, talvez igual à da Terra ou até um pouco inferior.

De certa forma isso trouxe um alívio tão grande que voltou a olhar em volta e descobriu, para sua alegria, que estava a apenas cem metros do seu objetivo. Esboçou algo parecido com um sorriso e deu mais um passo.

― ☼ ―

Eduarda ficou um pouco vermelha e o sábio irrompeu numa gargalhada homérica.

– Já sei, prometeu um filho – comentou, com lágrimas nos olhos de tanto rir. Ao ver que acertou em cheio, riu ainda mais.

– Eu sempre quis isso com ele – disse a moça, acanhada –, desde que começamos a namorar na faculdade, na verdade até antes...

– Não há a menor dúvida de que você e a minha Ailin são o mesmo espírito. – Ele ainda ria, mas Eduarda notava que era de amor. – E Igor, embora não soubesse, sentia. Por isso é que o exílio no passado não o deixou desesperado, se bem que ficava triste muitas vezes. E olhe que, apesar da grande semelhança física, Ailin era ainda mais bonita.

– Ainda bem que Gwydion despertou minhas lembranças – disse Eduarda, distraida. – Fez-me entender isso, sem falar que os meus poderes aumentaram de forma absurda como se eu tivesse absorvido o aprendizado do passado. Sei até lutar com uma espada, coisa que nunca fiz.

– Mas foi isso mesmo que aconteceu. – Ezequiel sacudiu a cabeça e sorriu. – Já pensou que o você de hoje não existiria se Igor não tivesse cumprido aquela promessa no passado?

– Sabe, acho esse nome Ailin encantador. – Ela sorriu. – Mas também gosto muito de Eduarda.

A conversa acontecia no palácio administrativo, em uma varanda espaçosa no topo do prédio. Debruçado no peitoril, Valdo não se cansava de olhar para a paisagem de sonho daquele lugar. Ouvia a conversa da amiga próxima, mas apenas com um ouvido porque a sua concentração era quase toda centrada na visão das nuvens de gotículas de água que pairavam ao redor, refrescando o lugar, em especial o parque enorme à frente e as várias cachoeiras em desnível e a toda a volta. Eduarda olhou para o amigo, que apresentava o semblante extasiado e depois para a paisagem. Voltou-se para Ezequiel e disse:

– Estou morrendo de saudades dele – suspirou bem fundo e continuou. – Foi boa ideia a escolha deste mundo para a nossa sede.

– Como assim nossa sede? – perguntou Valdo, virando-se para a amiga. – Tu também és daqui?

– Esta é a capital dos magos e feiticeiras, Valdo – explicou Ezequiel –, e Eduarda é uma de nós. Ela só desconhecia seus poderes. Além disso, Igor é o líder supremo deste mundo e do nosso povo e ela é a sua futura esposa.

– Mas bah, Dudinha, tu hein? – Valdo riu. – A minha doce amiga é uma bruxinha e ainda por cima noiva do rei dos bruxinhos.

– Pois é, Valdinho. – A garota fez borboletas saírem voando da sua mão. – Meu lugar é ao lado dele, mas iremos sempre te visitar, podes ficar descansado. Só não fala bruxo que, para nós, bruxo é do mal.

– Tá bom. – Valdo riu e continuou. – Mas, na verdade, nada é mais belo do que...

– Atenção, alarme. – A voz do computador era alta, sobrepondo-se a tudo. Na frente deles apareceu uma imagem holográfica que lembrava muito um mago, mas que era, na aparência, feito de cristal. – Houve uma ruptura planar não programada dentro da esfera planetária.

– Identificar – comandou Ezequiel, hirto. – Obter a posição mais precisa possível.

– Posição identificada – respondeu a máquina cristalina, tão avançada que nada na Terra poder-se-ia assemelhar. – Ocorreu a duzentos quilômetros daqui, ao norte. Fica perto do Castelo das Almas.

– Castelo das Almas? – Ezequiel franziu a testa. – Computador, o que vem a ser isso?

A imagem tridimensional de uma construção enorme e toda de cristal apareceu de frente a eles. A máquina continuou:

– Esta construção foi erguida pelo Magnífico Guardião Supremo Igor Montenegro após a catástrofe registrada por ele e está cheia de dispositivos de segurança. Só pode ser aberta pela presença dele ou por dentro. Quem se aproximar será impedido e quem insistir na entrada será morto, pois foi essa a diretriz definida. Seguem as coordenadas...

– Gwydion – gritou Eduarda, exasperada. – Podes voar duzentos quilômetros carregando-me?

– "Facilmente" – foi a resposta tradicional. – "Mas o ideal seria abrir um portal para o local desejado em função da distância."

– Não posso abrir o portal porque desconheço o local exceto por uma imagem e direção. Ainda não possuo a destreza necessária para isso. Em quanto tempo chegaríamos lá?

– "Uma hora, talvez, mas precisas de proteção para o rosto por causa da velocidade elevada."

– Então vamos, por favor – pediu, nervosa. – Pega-me aqui na varanda.

Segundos depois, Eduarda montava em Gwydion e disse:

– Acho melhor todos virem, Ezequiel. Talvez Igor não tenha conseguido trazer a criatura para aqui e precise de ajuda.

– Faz sentido. Vá na frente, filha – disse o mago, já sem sorrir e não tão calmo. – Saci e os outros dragões seguirão atrás, conosco. Computador: como está a situação?

– Inalterada – respondeu a máquina, impessoal. – Quem abriu o portal não o fechou.

– Minha Deusa – resmungou o guardião, cada vez mais preocupado. – Igor jamais deixaria de fechar o portal. Espero que a criatura dos infernos não tenha vencido.

Correu a chamar os outros, enquanto Eduarda afastava-se a toda a velocidade.

― ☼ ―

Gwydion batia as quatro asas com vigor e, em poucos segundos, estava a uma altura considerável. Para compensar o frio que fazia, obrigou o seu corpo a irradiar calor para manter a garota aquecida enquanto disparava para o norte em uma velocidade alucinante, compatível com um avião a jato.

O vento era tão forte que chicoteava o seu rosto, provocando dores e dificuldade em respirar. Para aliviar isso, Eduarda usou os seus poderes e uma barreira de proteção rodeou-lhe o corpo. Ao contrário das barreiras verdes, vermelhas, laranjas ou azuis, que eram para a batalhar conforme a situação, aquela era muito branca, apenas para a proteger da fricção do ar.

Mais calma, tentava entender o que poderia ter ocorrido, mas o seu grande medo era o noivo estar ferido.

– "Saci e os outros estão chegando perto. Quando emparelharem, acelerarei mais" – disse Gwydion –, "mas precisas de me ajudar a saber o que procuramos."

– "Quanto já percorremos?" – perguntou pensando com força porque não conseguiria falar com o vento todo. – "Nós temos que achar uma construção maciça de cristal com uns cem metros de lado."

– "Faltam noventa quilômetros." – disse Gwydion. Depois, explicou. – "Não podemos voar mais rápido, porque apenas tu e Ez são capazes de criar a barreira de proteção. Os outros usam casacos e gorros, insuficientes para velocidades maiores."

O Castelo das Almas tornou-se visível a cinquenta quilômetros de distância por causa do forte brilho que emitia em função do pôr do sol e foi nesse momento que descobriram que a construção era feita de um monólito de diamante, com toda a certeza inexpugnável e indestrutível. Eduarda foi a primeira a encontrar o portal ainda aberto a cerca de cem metros da construção, apontando para o dragão. No meio do caminho, ela viu o corpo que jazia no chão.

Naquele mesmo segundo as coisas mudaram. Ela sentiu que tudo parecia parado enquanto a sua garganta contraiu-se de medo e desespero.

Um pouco mais para trás, Ezequiel arregalou os olhos assustado quando viu Gwydion dar um mergulho a pique, achando que enlouqueceu, mas logo viu o corpo e pediu para Saci fazer o mesmo.

Obedecendo ao seu pedido angustiado, Gwydion parecia uma pedra a cair e só frenou o seu mergulho descontrolado muito perto do chão, pousando a uns dez metros do sujeito, que estava caído de bruços. Eduarda nem esperou que ele se abaixasse e saltou do dorso do dragão, torcendo o pé ao colidir com o piso, apesar de ser areia macia. Com uma careta de dor, correu para o ferido, embora com alguma dificuldade. Aquelas roupas esfarrapadas e sujas mais o cabelo loiro do seu dono indicavam com um alto grau de probabilidade que se tratava do noivo e a garota nem se preocupou consigo.

À medida que se aproximava, os passos ficavam mais dolorosos e difíceis de dar, mas Eduarda não dava importância e mancava cada vez mais. Alcançou-o e abaixou-se, puxando seus ombros. Assim que o virou, as suas suspeitas confirmaram-se e, dando um grito de desespero, agarrou o seu corpo, chorando copiosamente abraçada a Igor quando Valdo, os pais e Ezequiel aproximaram-se.

– É Igor – murmurou o amigo com a voz sumida. – Meu Deus...

– Saci – pediu o guardião da sabedoria –, por favor tente fechar o portal antes que ocorra uma desgraça, se é que já não ocorreu.

Preocupado, aproximou-se do par e bastou um olhar crítico para ver tudo o que a moça não notou. Com cuidado, puxou Eduarda para trás e ergueu um pouco o amigo, usando o bordão para irradiar alguma energia.

– Vai matá-lo sufocado, minha filha – disse o sábio. A garota arregalou os olhos e virou o rosto para o noivo, tentando ver algo em meio às lágrimas, que dificultavam muito.

Ezequiel confirmou:

– Sim, filha, ainda está vivo, mas está por um fio. Precisamos...

Igor abriu os olhos e afastou o bordão. Devagar, estendeu a mão que tremia bastante, apontando a construção. Tentou falar algo, mas a sua garganta maltratada não obedecia nem ele tinha energia suficiente. Com uma força de vontade sobre-humana, tentou erguer-se e, depois, arrastar-se.

Compreendendo o seu desejo, Ezequiel pediu para Levi ajudar a erguer o mago, pegando cada um por um ombro. Com a cabeça caída e mais arrastando os pés na areia do que andando, Igor foi levado pelos cinquenta metros que faltavam para alcançar a pequena fortaleza. Ezequiel queria irradiar alguma energia adicional, mas não poderia fazer ambas as coisas e o mago foi taxativo para que o conduzissem ao tal de Castelo das Almas que o sábio supunha ser o local onde estavam os corpos dos magos. Com isso, concluiu que a batalha foi vencida, mas a um alto custo.

Perto da porta, Igor reagiu mais uma vez e fez sinal para que parassem, ordenando por gestos que os dois saíssem de perto. Como Ezequiel tinha ouvido as explicações do computador, entendeu a ordem e afastou-se, mas Levi não o quis largar, irritado com a atitude do mentor.

– Deixe-o que ele precisa de ir sozinho, Levi – explicou o sábio, puxando o seu aprendiz pelo braço. – Aquilo é uma fortaleza programada para nos impedir e matar em caso de insistência.

Aos tropeções, o jovem alcançou a porta e tocou-a com a mão, logo após caindo de joelhos. Eduarda mancava bastante e Valdo dava-lhe apoio, mas, quando viu o noivo cair de novo, esqueceu as dores e aproximou-se, correndo como podia. Ezequiel tentou berrar um aviso, mas não houve tempo; a parede da fortaleza começou a brilhar e atingiu-a no peito com um raio de algo que a atirou para trás e provocou muitas dores, mas não a feriu.

Nesse momento a porta abriu-se e Igor, vendo isso, entregou-se à exaustão e caiu bem na entrada. Perante o olhar abismado de todos, seu corpo começou a brilhar com muita força, saindo dele algo que lembrava fumaça, só que se tratava uma fumaça que tinha a nuance de fornas humanas em miniatura. Isso aconteceu por quase quinze minutos até que tudo voltou ao normal. Crente que as barreiras de proteção foram desativadas, Ezequiel aproximou-se do corpo quase correndo porque estava preocupadíssimo com o amigo, sendo o primeiro a chegar.

Mancando cada vez mais e apoiada pelo colega da faculdade, Eduarda seguia atrás, tremendo sem parar.

Quando Ezequiel abaixou-se e tocou o pescoço do jovem procurando os batimentos cardíacos, o seu pior pressentimento estava comprovado ele olhou para a moça, sacudindo a cabeça em uma negativa e deixando escapar uma lágrima. Com um grito agudo e desesperado, Eduarda deixou-se cair ao chão, chorando inconsolável.

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Gravidade 60% maior significa que um homem normal de 90 Kg, como o Igor, nesse mundo pesa 144 Kg, exigindo um esforço físico enorme.

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