Capítulo 23
"Cicatrizes são apenas nossos uniformes
Lembrando-nos quem somos
Um mapa para nos mostrar de onde viemos
Vamos informá-los que não terminamos
Uma alma ferida
Só cresce mais forte no final
Cicatrizes são apenas nossos uniformes
Lembrando-nos quem somos."
- Scars
Teflon Sega

— Você pegou tudo, querida? -Vovó pergunta pela terceira ou quarta vez. Ela está tão nervosa quanto eu, e não a julgo, depois de acertar as coisas com Jhonny, ele passou a me visitar quase todos os dias e agora estamos indo juntos passar uma tarde e provavelmente toda uma noite em um lugar afastado da cidade.
Vovó também começou a sair mais com Hugo depois de se certificar de que Jhonatan era realmente um bom garoto e poderia ser deixado a sós comigo.
Por falar nisso, eles se dão muito bem.
A tal ponto de que às vezes é ela quem pergunta pelo garoto tatuado, parece até que sente falta dos seus elogios e dos sorrisos faceiros que ele lhe dá sempre que aparece.
Porque ele tem esse magnetismo que atrai qualquer um, até mesmo uma senhora de idade.
Durante as duas semanas que viemos saindo, Jhonny me tratou de um jeito que eu nunca tinha sido tratada antes. Eu realmente pensava que ele era só mais um daqueles caras que se acham a última bolacha do pacote, no entanto, a cada dia ele me prova que as aparências enganam. E como enganam.
— Sim, vó. Coloquei toalha, escova de dentes, uma roupa extra para qualquer emergência e até mesmo um kit de primeiros socorros. Ah, também coloquei uma manta caso faça frio. -Revelo com um sorriso e ela cruza os braços pensativa.
— Hum... e camisinhas, está levando? Porque eu sou muito jovem para ter bisnetos. -Seus olhos brilham contradizendo a si mesma e nego com a cabeça sentindo minhas bochechas esquentarem rapidamente.
Me viro de costas em um movimento rápido e começo a mexer na pequena mochila em uma tentativa de disfarçar a timidez.
— Na verdade, não coloquei não. -Suspiro. — Jhonny não... eu e ele não...
— Vocês ainda não fizeram sexo?
A surpresa na sua voz não é uma novidade. Era de se esperar que estivéssemos transando e tudo mais, mas sempre que as coisas esquentam entre a gente, ele interrompe tudo e voltamos para a estaca zero.
Eu sei que sua intenção é que eu esteja segura do que quero, contudo, há momentos em que me pego pensando se ele não vai se cansar disso e me mandar à merda.
— Ava? -Vovó balança o braço se colocando na minha frente.
Foco a vista no seu corpo conservado e respondo com um sorriso triste.
— Ainda não... e não precisa se preocupar, ok? Só estamos indo passar algumas horas em um balneário, além do mais, Julio e Julieta estão indo com a gente. -Assinalo dando de ombros.
— Eu não me preocupo com você, meu amor, sei que é uma garota responsável. -Solto uma longa respiração descompassada. — E sei também que não há nada de errado em se entregar para alguém que você gosta. Só quero que se proteja e se certifique de que essa é a pessoa correta, tudo bem? -Seus dedos apertam de leve a minha bochecha e fecho os olhos sabendo exatamente o que ela quer dizer.
Cometi o erro de perder minha virgindade com Beto e não há maior arrependimento do que esse.
A minha primeira vez não foi bonita como nos livros ou filmes.
Eu estava tão nervosa... e também cegada pela ilusão de que eu o amava e que devia isso a ele. Beto não foi cuidadoso, muito menos carinhoso. Ele só estava interessado no seu próprio bem e não queria nem mesmo usar proteção.
Tive que insistir e dizer que não poderíamos correr esse risco, que ele não queria um filho tão novo, que isso seria péssimo para a sua imagem.
Foi só assim que ele finalmente colocou o preservativo, então subiu em cima de mim sem nem ao menos se certificar se eu estava lubrificada ou não e me penetrou de uma vez.
Naquele dia eu chorei em silêncio enquanto ele dormia ao meu lado como se nada tivesse acontecido. Me senti tão suja e impura que até mesmo vomitei algumas vezes durante a noite.
Porque para todos os efeitos, as garotas só prestam quando são imaculadas.
Tinha escutado isso do meu próprio namorado tantas vezes que comecei a acreditar que aquilo era a regra. E quando ele tirou de mim o que até aquele momento, era o meu bem mais precioso, foi como um balde de água fria.
Eu estava acabada, pensava que não passava de uma qualquer e que ele jamais me olharia com os mesmos olhos.
O que eu não entendia, era que todo esse papo de merda, era apenas uma estratégia para me manipular.
E conforme lembro desses momentos e compreendo-os de uma maneira mais madura, meu ódio pelo meu ex namorado só aumenta.
— Obrigada... -Murmuro com a voz embargada. Meus olhos se enchem de lágrimas e engulo em seco para tentar me controlar.
Vovó ao perceber o meu estado, me puxa para um abraço e aperto seu corpo contra o meu.
— Você vale muito, querida. Não deixe que ninguém te diga o contrário. E se Jhonatan se atrever a te tratar minimamente mal, ele vai ter que se ver comigo. -Solto uma risadinha divertida.
— Tenho certeza que sim.
Pisco várias vezes e sorrio com sinceridade.
Vovó é a pessoa que mais me apoia e meu amor por ela é infinito.
Como é possível que seu filho, sangue do seu sangue, seja alguém tão horrível?
Chacoalho a cabeça para tentar parar de pensar nos meus pais.
Eles não merecem sequer estar presentes nas minhas memórias.
Nos separamos do abraço e vou até o pequeno guarda roupas de madeira envernizada com alguns arranhões espalhados.
Abro uma das portas escutando o seu rangido característico e pego um biquíni, protetor solar, um par de chinelos, um creme para queimaduras de sol e a pomada que passo em cima das tatuagens para não ressecá-las.
Termino de arrumar minhas coisas bem a tempo de escutar o barulho da campainha e imediatamente meus batimentos cardíacos se aceleram.
Quando Jhonatan me chamou para esse passeio, minha primeira reação foi não aceitar.
Eu estava com medo de ficar sozinha com ele em um lugar afastado da cidade, por mais que saiba que ele não me fará mal.
Mesmo assim, o temor está intrínseco em cada célula do meu ser e esse instinto de proteção sempre me faz duvidar.
Então ele sugeriu chamar Julio e a namorada para irem juntos e por um breve momento pareceu que ele sabia que aquilo me deixaria mais tranquila e que poderia respirar livremente.
Como se ele pudesse ler meus pensamentos ou algo do tipo.
— Vou te ligar quando chegarmos lá e também enviarei a localização pelo gps, ok? -Prometo e vovó concorda com um meio sorriso.
— Vá tranquila e aproveite, meu amor. Qualquer coisa é só me ligar e irei correndo.
Nos abraçamos uma última vez e desço até a sala, indo em direção à saída com a bolsa no ombro e o corpo inteiro tremendo.
Respiro profundamente várias vezes antes de colocar a mão sobre a maçaneta e girá-la lentamente para abrir a porta.
A figura de Jhonny vai se revelando pouco a pouco e não consigo evitar corar ao vê-lo com uma bermuda sarja preta e uma blusa de algodão com manga três quartos e botões no pescoço. Alguns deles estão abertos de modo que posso notar várias das suas tatuagens escondidas por baixo do tecido branco.
Sua boca se curva em um sorriso ao me ver e seus olhos observam atentamente a roupa que escolhi para o passeio.
Uma bermuda jeans curta e uma blusinha de alças com o decote levemente pronunciado.
Hoje está fazendo bastante calor, para a nossa sorte, e decidi usar isso ao meu favor.
Jhonatan desliza a língua pelos lábios e engole em seco sem deixar de me olhar.
— Oi... -Ele diz baixinho se aproximando lentamente.
— Oi... -Devolvo, me controlando para não começar a suar e acabar estragando tudo.
— Está muito bonita, Ava. -Sou puxada para um abraço e encosto a bochecha no seu ombro respirando fundo ao sentir o cheiro do seu perfume amadeirado.
— Obrigada, você também está um gato. -Brinco lhe arrancando uma risadinha.
Ele faz isso cada vez que nos encontramos.
Me aperta contra si sem dizer uma só palavra. Só duas pessoas curtindo uma à outra em silêncio. Não sei de onde ele tirou esse comportamento, o único que sei, é que eu adoro.
Ficamos abraçados por pelo menos uns cinco minutos até que vovó coça a garganta atrás de nós.
— Cuide bem da minha netinha, querido, ou serei obrigada a usar algumas técnicas que aprendi quando estava no exército. -Vovó ameaça e aperto os lábios para não cair na risada.
— Pode ficar tranquila, Beth. Vou proteger minha bela donzela com a própria vida, se for necessário. -Ele diz sério e por alguns segundos prendo a respiração tentando não me iludir com a frase.
Porque é óbvio que ele está brincando.
— É bom mesmo, agora vão logo que eu preciso sair. Até mais tarde, amores. -Somos praticamente enxotados porta afora e caminhamos a passos rápidos até a picape de Jhonatan.
Decidimos ir no seu carro já que como estamos levando bolsas, barracas e algumas coisas para comer, obviamente não seria possível carregar tudo na Mabel.
Paramos ao lado da sua porta e ele estende a mão para pegar a minha bolsa para guardá-la no banco de trás.
— Fico muito feliz que tenha aceitado vir, sabia? -Seu olhar se prende ao meu e sorrio involuntariamente.
Como de costume, não sei o que responder, então aproximo seu rosto do meu e beijo sua boca lentamente.
A cada dia que passa, me sinto mais e mais ligada a ele.
A tal ponto de que a primeira coisa que penso ao acordar é em como ele está e a última coisa que desejo no final do dia, é poder beijá-lo uma e outra e outra vez.
E não gosto nada disso.
Não quero me prender a um romance apenas para acabar me ferrando no final.
Esse instinto de autoproteção me esgota e me deixa cansada de tudo.
Eu só quero ser alguém normal e ter a chance de me arriscar a uma paixão sem medo do que acontecerá no futuro.
Quero poder ter essa segurança de que se não formos feitos um para o outro, pelo menos não sairemos feridos no processo.
Tanto físico quanto psicologicamente.
— Sua avó foi para o exército mesmo? -Jhonny muda de assunto depois de alguns minutos ao perceber que não vou responder à sua frase.
Levanto as sobrancelhas e sorrio em divertimento.
— Só ficará sabendo se me tratar mal, então fique atento. -Provoco com os braços cruzados.
Ele se aproxima a passos lentos e desfaz o meu gesto para poder me abraçar apertado e recebo um beijo rápido na testa.
— Nesse caso, acho que nunca vou descobrir.
Engulo em seco e devolvo o abraço sentindo um aperto no peito.
Uma sensação estranha que não me deixa em paz desde que começamos nosso... o que quer que tenhamos.
É como se tudo isso não passasse de um sonho e a qualquer momento eu vou acordar e perceber que nada existiu. Que ainda estou em casa com aquelas pessoas horríveis e um namorado que alguma vez eu cheguei a amar.
— Está muito silenciosa hoje, linda, aconteceu alguma coisa? -Os olhos castanhos me fitam com cautela e nego com a cabeça me recriminando mentalmente por ser tão idiota e transparente.
— Não é nada, só estou ansiosa pelo passeio -minto. — Julio já está a caminho, ou irão com a gente?
Jhonatan não me responde de imediato, em vez disso, ele segura meu rosto com as duas mãos e faço um esforço gigantesco para tentar não transparecer o quão nervosa estou por ficar a sós com ele.
— Se não quiser ir, é só falar, não vou ficar chateado. Podemos visitar qualquer outro lugar, até mesmo aquela pracinha no centro da cidade... -Balanço a cabeça para cima e para baixo.
— Está tudo bem, Jhonny, de verdade. É melhor irmos antes que o trânsito fique pesado. -Retiro suas mãos do meu rosto com cuidado e beijo-o rapidamente antes de ir até o lado do passageiro.
Jhonatan não diz nada.
Ele entra no carro e se senta no banco, mas não faz menção de colocar a chave na ignição, o que me deixa curiosa e preocupada ao mesmo tempo.
— Ava, quero que entenda que você pode falar comigo se não estiver de acordo com algo. Eu sei que não teve uma experiência boa no passado, e é exatamente por isso que age desse jeito. -Ele começa me encarando com seriedade e sinto um frio na barriga.
Oh não. Não. Não.
Luto com o cinto de segurança, tentando encaixá-lo no lugar com os dedos trêmulos.
Droga.
Quando será que vou parar de ficar assim, tão na defensiva?
— Espera. -Jhonny me ajuda a colocá-lo no lugar com o cenho franzido.
— Obrigada. -Sussurro sentindo minhas bochechas esquentarem outra vez.
Seu olhar atento se prende ao meu e de repente é como se o tempo ao nosso redor parasse e só existisse eu e ele.
— Eu gosto de você, Ava, de verdade. -Ele diz com convicção. — Não quero que se sinta desconfiada comigo, com medo, ou...
Não permito que ele continue falando.
Colo meus lábios nos seus de maneira desajeitada e caímos na risada ao ver como acabo ficando imobilizada no banco contra a minha vontade.
— Não estou com medo. -Sussurro acariciando sua bochecha. — Só... tenha um pouco de paciência comigo. Tudo isso ainda é muito novo para mim.
Ele encosta a testa na minha e respiro fundo sentindo meu corpo inteiro tremer.
Seus dedos percorrem a minha coxa lentamente, subindo e descendo, contornando minhas tatuagens e me fazendo arrepiar por completo.
— Eu sei. -Recebo um beijo demorado. — Para mim também, você é a primeira garota que eu... -Coloco os dedos sobre a sua boca novamente.
Não quero saber disso.
Quero dizer, eu desejo com todas as minhas forças escutar as palavras que ficam presas entre seus lábios carnudos, no entanto, é óbvio que a partir do momento em que sairmos dessa nossa bolha de ilusão, tudo vai desmoronar e não sei se estou preparada para a queda.
NOTA DO AUTOR
Helloooooo queridassss e queridossss
Sim, eu sei que eu demorei, mas é a vida né mores hahaha
Bom, aqui está o capítulo fresquinho
pra vcs começarem a semana com o pé direito.
Espero que tenham gostado,
não se esqueçam de votar e comentar.
Amo vcs 🥰
Bjinhossss BF🖤🖤🖤
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