8. Chá verde
A situação era um desastre e os imprevistos enfadonhos, mas o chá estava ótimo. Era o acompanhamento perfeito para assistir a uma cena hilariante.
Após o pequeno surto entre tio e sobrinho, Daniel, Teris e Sara foram orientados a sair do laboratório. Os doutores Crow e Raymond precisavam conversar sobre o que fazer com o caso do harmínion, já que este se encontrava... ou melhor, não se encontrava.
Dr. Ray se sentou em uma cadeira atrás da mesa, lamentando a xícara vazia à sua frente. Com o olhar sonhador, observou Crow enrolar um esparadrapo em volta da mão esquerda, para segurar um curativo, e depois se jogar na cadeira de escritório enquanto massageava a mandíbula.
— Ele poderia tê-lo nocauteado — disse Ray, não da maneira séria que o momento pedia, mas em tom de brincadeira, quase liberando um riso.
Talvez Dr. Crow nem tivesse escutado o comentário. Os braços estavam apoiados nas pernas e os olhos miravam desfocados para o bisturi no chão, o mesmo que cortou a palma de sua mão quando ele caíra.
— Perdi o Elliot. — Ele abaixou a cabeça. — Tanto trabalho para procurar um harmínion... e tanta sorte em encontrar um tão cooperativo.
— Não tem ideia de onde ele possa estar? O Low usou o seu carro; por que não rastreia o trajeto?
Elias Crow suspirou.
— Até poderia rastrear e fazer uma investigação, além de tentar verificar os contatos dele, mas de que adianta se eu for preso depois? — Respirou fundo e em seguida puxou os lábios em um sorriso cínico. — E ainda tem toda a merda que aconteceu na convenção pra resolver; nem sei como não tem repórteres invadindo a minha casa.
— Parece o momento ideal para você abusar da minha boa vontade — disse Dr. Ray, sorridente, enquanto descansava o queixo em uma das mãos, cujo braço apoiava-se na mesa.
Doutor Crow girou a cadeira para encarar o amigo que, ao contrário da desolação estampada em sua própria face, ostentava uma arrogância de quem sabe mais do que pensam.
— Sobre os repórteres, não precisamos fazer nada. Assim que eles descobrem que se trata de um harmínion, as notícias somem. — Dr. Ray expeliu as últimas palavras em um tom misterioso. — E recebi uma reprimenda por planejar a apresentação de um harmínion na convenção; eles não querem a exposição desse tipo de experimento.
— E você só me diz agora. — Dr. Crow não se alterou. Conhecia o amigo bem demais para se surpreender com seus segredos, além de que o cansaço dificultaria qualquer reação enérgica como a indignação.
— Em consideração a nossa amizade; assim a culpa recai somente sobre mim. De outra forma, você estaria a caminho da cadeia e nunca mais ouviríamos falar seu nome. — Inspirou e prosseguiu: — E por falar nisso, você disse que seria preso...
Dr. Crow hesitou antes de responder e fechou as mãos durante a pausa.
— Low ameaçou nos denunciar.
Por um instante, Dr. Ray franziu a testa surpreso e encarou o amigo como se tentasse entender uma piada. De repente, seu sorriso arriscou rasgar a face tal era sua extensão. O riso começou baixo e foi aumentando de volume, até o próprio Raymond parar ao perceber a proporção estrambólica a que chegou. O corpo encurvara para frente enquanto ria.
— Ele tem alguma noção do que acontecerá se fizer isso? — Ray limpou os olhos, pois chegou a chorar de tanto rir. — Para ele, com certeza não será nada vantajoso.
— E para nós? — Dr. Crow questionou, ainda mantendo a seriedade mesmo depois de presenciar as gargalhadas exageradas do amigo; uma cena a que se acostumara, embora sempre fosse inquietante assisti-la.
— Eu tenho o passe livre. No máximo, ganho uma advertência. Mas você, meu amigo... Tudo depende da gravidade com que considerarão o caso, se ficarão irritados ou animados. Talvez eu possa livrá-lo dessa, talvez não. — Dr. Ray voltou a se endireitar. — E qual é a condição para não nos denunciar?
— Que eu não mostre a filmagem das câmeras. — Crow massageou a mandíbula de novo. — Mas com certeza ele vai me chantagear se eu tentar procurar o Elliot.
Seguiu-se um silêncio que durou quase meio minuto.
— Então esqueça o Elliot. — Ray demonstrou um entusiasmo repentino. — Agora não adianta chorar pelo harmínion roubado. Depois nos preocupamos em recuperá-lo. Enquanto isso, venha trabalhar comigo; pelos velhos tempos. Só para começar, pode me arranjar mais algumas amostras, porque as minhas estão quase no fim.
— Você é doente — disse Dr. Crow, mais como uma piada do que uma ofensa, enquanto sacudia a cabeça de leve e delineava um sorriso amarelo.
— E você é brilhante! — Doutor Ray rebateu de imediato, apontando o dedo para o amigo.
O esboço de sorriso de Crow se tornou verdadeiro com o elogio, no entanto dissipou-se em um segundo.
— Se eu fizesse isso, o Low jamais me perdoaria.
— Depois de apanhar e ser ameaçado, ainda se importa com isso? — Dr. Ray pareceu abismado. — Deixe eu me corrigir: você era brilhante; agora é um molenga.
— Eu mudei.
Dr. Crow ligou o painel holográfico. Com a mão boa, acessou os comandos na tela, enquanto Ray apenas observava, e confirmou a mensagem que apagaria o backup de todas as filmagens. Eu mudei.
Raymond apertou os olhos. O doutor Elias Crow um dia foi brilhante, um dia foi o amiguinho ideal para brincar de cientista, um dia foi útil. Para que ele servia agora? Qual é a utilidade de um cientista que se permite barrar por "valores morais" quando tem a oportunidade de expandir o desenvolvimento humano?

Momentos atrás, enquanto todos seguiram escada abaixo para o laboratório, Mori permaneceu escondida na biblioteca. No sentido exato da palavra, escondida, como estivera antes de Low retornar, e usando um livro como escudo — As Aventuras de Alice no País das Maravilhas —, o qual iniciou a leitura há poucos dias.
Lamentava o acerto de sua intuição. Sabia que algo assim aconteceria... Sabia, no entanto não pôde convencer ninguém. Esperou uma tragédia, porém não a fuga de Elliot; pensando bem, se ela fosse mais esperta não teria revelado informações importantes como se fossem meras curiosidades. Se agora não podiam mais localizar o harmínion, quem poderia dizer que a culpa não era dela?
O que fariam quando descobrissem que parte do problema não existiria se ela tivesse ficado de boca fechada? Apertou os cantos do livro — se a capa não fosse de material tão duro ela já o teria amassado por completo.
Estava sendo precipitada. Quem poderia dedurá-la? O próprio Elliot não estava ali, mas quem mais estivera presente? Sara? Foi durante um dos exames? Nem se lembrava direito das circunstâncias, somente do fato. Se foi para distraí-lo de um exame, então...
E a Teris? Lembrava que Teris aparecera em algum momento, entretanto não tinha certeza de quando. Seria arriscado pedir a ela que mantivesse segredo. Ou talvez ela mesma devesse contar ao Dr. Crow antes que o fizessem... Afinal, hora ou outra a verdade viria à tona... Isso! Precisava contar a alguém! A culpa era dela! Como pudera ser tão burra? Não servia para nada mesmo. Não era boa em nada e só ajudava a atrapalhar. Se contasse, será que eles a atirariam à fogueira?
Enquanto estava em seu posto desconfortável na poltrona, Dr. Ray passou pela biblioteca sem ser notado pela garota; somente quando o doutor retornava para o laboratório, com uma xícara nas mãos, foi que ele se fez notar.
— Está certa em ficar aqui. Aqueles dois vão acabar ferindo alguém enquanto tentam se matar — ele comentou, sorrindo para ela como se pudesse forçar a piada a ter graça. — Acho que já é hora de eu voltar.
Mori aguardou ele sair antes de abaixar o livro e mostrar seu semblante infeliz. Dr. Crow estava furioso. Low não conseguiu encontrar Elliot. Então era provável que o doutor, que esperava que o sobrinho milagrosamente trouxesse Elliot de volta, estivesse neste momento descontando seu mau humor em Low.
Ela afundou de cara no livro, frustrada. Não era justo com Low. Em outra circunstância inexistente, naquela em que ela não dissera nada ao harmínion, Low teria encontrado Elliot e a situação, embora não fosse resolvida, seria muito melhor.
Remoeu por poucos minutos. Não tinha tempo a perder escondendo-se atrás de sua covardia. Todos precisavam saber que ela também contribuíra para o desastre. Por mais amedrontador que fosse, era o certo a fazer. Certo...?
Levantou-se deixando o livro aberto na poltrona, respirou fundo e andou firmemente para a porta. Certo. Era o certo. Dane-se o medo, não conseguiria ler em paz até que confessasse sua mancada.
A cinco passos da porta, foi surpreendida por Low, que entrou marchando acelerado. Por um segundo, ele a olhou de relance, somente reparando na presença em seu caminho. Esse um segundo foi o suficiente para Mori notar que ele apertava com o polegar uma região acima do olho, onde aparentava estar sujo de sangue.
Foi só ele subir apressado pela escada que Mori o seguiu preocupada.
— O que aconteceu? Você se machucou?
E como Low não respondeu, ela continuou em seu encalço, acelerando os passos a ponto de quase correr até conseguir alcançá-lo no corredor.
Depois de um ano inteiro de convivência, ela sabia o que ele faria a seguir. Avançou mais rápido até chegar à porta do quarto, bem a tempo de se postar na frente e bloqueá-la antes que Low pudesse escapar.
— O que está fazendo? — ele perguntou de forma ríspida e um tanto agressiva, as pupilas tão estreitas que causavam pavor mesmo com a mão ainda prensada no ferimento.
Mori engoliu em seco, incerta do que dizer. Por que fez isso mesmo? E por que não estava disposta a abrir passagem?
— Está sangrando. — Nervosa por tropeçar nesses pensamentos, foi o que conseguiu gaguejar como resposta.
— Saia.
Ela sacudiu a cabeça na horizontal em movimentos curtos e rápidos.
— Você sempre faz isso. Não posso deixar... Vocês brigaram? O Dr. Ray disse que isso aconteceria. — Os olhos estavam arregalados; estar em uma situação não planejada era desesperador.
Low respirou fundo e piscou devagar em uma tentativa de acalmar os nervos; precisava focar na ideia de que Mori não merecia o mesmo que Crow. Olhou para baixo por um instante e depois a encarou.
— Saia — repetiu, porém com uma dose imperceptível de amenidade forçada.
— Não vou! — ela insistiu, sentindo uma ardência na vista que indicava o surgimento de lágrimas.
— Não estou com paciência para isso...
Mas o resto da frase foi abafado pelo guincho da garota.
— Foi minha culpa! Eu piorei tudo! Devia ter contado ao doutor antes, mas não consegui... — A voz foi morrendo até ser encerrada por um soluço.
— Mori! — Ele acentuou o tom para chamar a atenção dela. — Depois conversamos. Vá descansar.
Entretanto ela sacudiu a cabeça de novo.
— Se eu tivesse contado, o doutor não ficaria tão bravo com você. E com certeza teríamos encontrado o Elliot... Você levou toda a culpa por minha causa...
O comentário capturou o interesse de Low. Se havia algo que Mori sabia a respeito de tudo o que ocorrera, então seria melhor que ele descobrisse o quanto antes. Só precisava controlar a raiva; não apagá-la, mas trancá-la nas cavernas mais profundas da mente, onde o monstro aguardaria o momento de sair.
E como mágica, em um piscar de olhos ele se mostrou controlado, vestindo uma máscara relaxada enquanto os vestígios da fúria se desintegravam de sua face.
— ...Porque tive medo de falar. Eu fiz uma burrada muito grande, mas juro que nem pensei que isso pudesse acontecer... Se eu soubesse... — Mori continuou, rodeando o assunto e evitando chegar ao âmago; estava tão agitada quanto Elliot no fatídico dia em que experimentou café.
— Ok, vamos conversar agora — ele cedeu com tranquilidade. — Mas pode ser dentro do meu quarto ao invés de na porta dele? — Queria evitar qualquer mínima possibilidade de esbarrar em mais alguém no corredor.
Embora ainda estivesse aflita, Mori atenuou suas linhas de expressão, aliviada.
— É melhor cuidar desse corte antes. No banheiro tem gel cicatrizador — ela informou, pontuando o próximo passo óbvio a ser tomado enquanto passava a sensação de que não deveria ser contestada.
Seguiram até o banheiro no mesmo andar. Enquanto Mori aguardava apoiada na parede com as mãos nas costas, Low lavou o ferimento e o cobriu com o gel — que tinha a textura parecida com plástico e atualmente era o melhor tipo de curativo a se usar em casos simples. Encarou o espelho examinando também o local abaixo do olho, ponderando se ficaria roxo ou não.
— Então... — Mori mirou o tapete a seus pés. — Vocês brigaram feio...
Low ficou de costas para a pia e observou a jovem. Necessitaria acompanhar a conversa para chegar ao ponto que o interessava.
— Estamos todos nervosos. É compreensível que isso aconteça.
— Foi por que você não trouxe o Elliot de volta?
— Em parte. — Low permaneceu observando-a fixamente, mesmo que ela evitasse seus olhos.
— Sei...
O silêncio que se seguiu o deixou inquieto, elevado pelo fato de que a pessoa à sua frente se segurava para não chorar. O ideal seria esperar que Mori estivesse pronta para falar, assim a conversa fluiria com mais naturalidade e menos suspeita, contudo esperar que alguém surgisse e interrompesse o momento não era uma opção.
— Então... O que queria me contar? — ele perguntou, calculando o tempo de hesitação para não parecer insensível.
Mori estremeceu e intensificou a inclinação em direção ao chão. Era a hora. Melhor falar de uma vez e acabar logo com isso.
Mas a voz saiu tão fraca que suas palavras se perderam na incompreensão.
— O quê? — Low conduzia sua paciência com maestria.
Ela respirou fundo antes de repetir.
— Eu contei ao Elliot sobre o localizador.
Não houve qualquer alteração na expressão de Low; nenhuma reação física ou choque mental perante a grande "revelação". No final, não era uma informação tão importante, nada que ameaçasse seus planos; não era importante, todavia poderia ser útil em breve.
— Só isso? — ele questionou por garantia, indicando, na voz, a superficialidade daquela preocupação.
A jovem levantou a cabeça e o encarou desacreditada, a testa franzida e os olhos arregalados.
— O Elliot não sabia! E eu contei a ele! E... e depois ele arrancou o localizador!
Ainda sem obter a reação que esperava de Low, Mori cogitou que ele não estivesse prestando atenção.
— Se eu não tivesse contado, o Elliot não saberia sobre o localizador e você teria encontrado ele. — Explicou porque, aparentemente, Low não estava entendendo.
A aflição de Mori conseguiu atingir uma fagulha de compaixão em Low. Um evento quase inexistente e que, ao menos, o fez considerar o que poderia fazer para acalmar a pobre alma — e se deveria mesmo fazer algo.
— Talvez ele já soubesse — sugeriu, cruzando os braços.
— Não, ele não sabia. — A rebatida irrompeu de modo frenético. Talvez, se essa fosse outra época da história da humanidade, a jovem se autoflagelaria depois da conversa.
— Contou a ele com a intenção de persuadi-lo a escapar?
— É claro que não! — E a resposta veio feroz. — Senão não teria contado.
— Me parece um caso claro de ingenuidade. — Ele levantou as sobrancelhas. — Portanto, considere como um acidente. Isso não muda o que fez, mas se não foi intencional... Pessoas erram.
Caso encerrado; poderia se reclusar no quarto agora. Pena que Mori prosseguiu.
— Você tem razão. Eu errei e me sinto péssima por isso... E, ah, o doutor vai ficar tão irritado...
Talvez só mais uma tentativa de tranquilizá-la. Se ele não conseguisse, desistiria de continuar perdendo tempo com essa infantilidade.
— Pode falar com o meu tio. Ele vai entender. — Low se aproximou da garota e colocou a mão em seu ombro, encarando-a de maneira hipnotizante. — Eu também poderia ter impedido o Elliot. Deveria ter sedado ele... Ou ter reagido quando ele me atacou, mas assim como você, fui ingênuo mesmo depois de tudo o que aconteceu ontem.
Havia verdade no que dissera — ao menos na parte em que o Dr. Crow não se irritaria com a jovem, pois ele não a culparia quando tinha ciência do que, de fato, ocorreu.
Mori desconectou o olhar virando o rosto para o lado. É, devia contar ao doutor imediatamente. Não seria justo usar Low como bode expiatório quando ele estava se esforçando para que ela se sentisse melhor.
— Agora vou esfriar a cabeça. — Ele passou pela porta do banheiro, contudo volveu antes de ir embora. — E darei um conselho a você: não fique dando ouvidos ao Raymond, ele é um idiota. — Pretendera usar um adjetivo que definisse melhor a integralidade do doutor, no entanto tal palavra pareceu inapropriada para o momento.
Não fazia ideia se Mori seguiria seu conselho, entretanto, o aviso foi dado.

No laboratório de Daniel pairava o mesmo silêncio gélido de um frigorífico. Daniel, Sara e Teris voltaram à limpeza depois de presenciarem a discussão e serem gentilmente enxotados do cômodo pelos doutores.
A claridade que entrava pela janela não combinava com o cenário frígido; se colaborava em algo, era somente em trazer mais sono devido ao sinal de que era cedo e todos ainda deveriam estar na cama.
Teris se apoiava no esfregão — abraçada e com o rosto colado a ele. De acordo com sua expressão, estava exausta e, ao que parecia, dormindo em pé.
Na cadeira acolchoada de Daniel, Sara se encolhera na posição menos desconfortável que encontrara. Com os olhos semicerrados era difícil dizer a que mundo pertencia: ao terreno ou ao dos sonhos.
No mesmo estado de torpor que as outras, Daniel se sentara no chão com as costas na parede. Momentos antes, estivera agachado e recolhendo os papeis que não foram manchados por algum material viscoso, porém o cansaço e sensação de abatimento o jogaram no chão, na atual posição, ainda apertando na mão as folhas que conseguira salvar.
Seu olhar sonolento apontava para a forma amarela no piso, que era a luz do sol no molde alongado da janela. A consciência estava quase esmaecendo quando...
— Vocês estão bem?
Acordado em estado de alerta ao ser assustado pelo som repentino da voz, ele virou a cabeça para ver Mori parada à porta do laboratório.

Cinco minutos depois e eles estavam sentados à mesa da cozinha, juntos da presença obstinada do desânimo que teimou em segui-los.
Sara não compartilhava do mesmo sentimento que os outros. Não era como se não estivesse preocupada; tinha a vantagem de saber que Elliot estava bem e, embora adorasse dividir uma informação animadora, sabia que não devia fazê-lo. Então, como boa ação que podia realizar, foi direto em direção à pia para preparar algo quente.
— Ah, Sara, não precisa. — Mori apareceu ao lado dela. — Deixa que eu faço. — Era parte de sua personalidade querer cuidar dos outros quando estivessem infelizes e soubesse, com convicção, que nada do que fizesse pioraria a situação.
Entretanto as duas se entreolharam com as testas franzidas ao se depararem com uma garrafa de chá pronto e quentinho na pia.
— Dr. Ray — Mori constatou, lembrando-se de mais cedo.
A jovem distribuiu três xícaras de chá na mesa e permaneceu em pé, segurando o encosto de uma das cadeiras livres.
Sara ficou de bruços, com a cabeça mergulhada atrás dos antebraços, enquanto batia com o dedo na xícara ao seu lado, tentando se lembrar do ritmo de uma música de um filme que assistiu com Elliot.
Teris engoliu o chá de uma só vez e depois segurou a fronte com uma das mãos, escondendo os olhos e aparentando sofrer de uma dor de cabeça terrível.
Daniel agradeceu quando Mori lhe trouxe a xícara e depois voltou a seu estado inanimado.
Observar o grupo que se lamentava em silêncio, assim como ela, fez Mori entender que o sentimento de culpa não era exclusivo dela. Low também demonstrara isso. Todos afundavam no mesmo barco, cada um em seu canto isolado. Era insuportável ver cada membro da equipe, que considerava como família, sofrendo sozinho.
— Acham que podíamos ter feito alguma coisa? — Ela perguntou enquanto contemplava os detalhes da mesa de madeira, como se esperasse que o móvel a respondesse.
Após um suspiro, conseguiu obter uma réplica.
— De que adianta pensar nisso agora? — O fato de Daniel usar um tom sarcástico e contrário a sua personalidade dizia muito sobre seu mau humor.
— Concordo. Preciso dormir e esquecer tudo isso. — Teris também sofria do mesmo mal que Daniel.
Sara olhou de Teris para Daniel, ambos cabisbaixos, e depois fitou Mori, que agora mordia o lábio inferior. Pôde perceber que não foi intenção da jovem cutucar a ferida, apesar de ser isso o que fizera. Agora, Mori parecia ainda mais abatida, e foi condenada a grudar no chão pelas palavras que lhe foram dirigidas, pois Sara estava certa de que ela não ousaria se mexer e chamar atenção de novo depois desse "ataque".
— Mas fizemos tudo o que deu pra fazer. — Sara levantou a cabeça; ainda precisava realizar uma boa ação para se sentir bem. — Fizemos o nosso melhor! Não se arrependam; nós domesticamos um harmínion pela primeira vez no mundo! E, eu não sou uma cientista, mas isso não faz de nós uma referência? Acho que um dia vamos conviver com os harmínions, e tenho certeza que a nossa pesquisa ajudará nisso.
Se as palavras de Sara precisavam de um tempo para atingi-los, esse tempo não foi suficiente, porque menos de dois segundos depois Teris se levantou de repente e saiu da cozinha a passos duros.
— Teris? — Daniel chamou surpreso.
— Vou dormir! — Ela respondeu irritada e em voz alta, para ser ouvida da escada.
Diante da cena, Mori somente observou Daniel se levantar e correr atrás da namorada.
Restaram somente Mori e Sara olhando para a porta da cozinha, como se esperassem o retorno dos outros.
Por fim, Mori estendeu a mão para pegar a xícara de Daniel que permanecia intacta, contudo Sara foi mais rápida.
— Melhor ir pra cama também, ou vou dormir em pé — Sara declarou, recolhendo também sua própria xícara e despejando o conteúdo na pia. Contemplou o chá rodopiar no ralo e lamentou quando ele não levou junto a culpa que ela sentia por ser a única que teria um sono tranquilo.
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