32. Azul cinzento

No começo, apenas um. Depois, a divisão. No fim, a alteração. E uma cor se tornou outra.

Tudo espalhado, sujo e confuso; eram as palavras que descreviam o estado daquela salinha e da mente de Elliot. Não devia ter acordado. Não devia ter acordado naquele lugar. Não deviam ter feito isso com ele. Eles não sabiam de nada. Não sabiam de nada!

— Eu não devia tá aqui... — A voz dolorida de Elliot foi sufocada pelo choro silencioso.

Se ainda houvesse alguém naquela salinha que pudesse enxergar, veria o harmínion parado no corredor, olhando dentro da sala e arranhando o próprio braço — um ato de desespero, autoflagelação ou descrença na realidade.

— Vocês não podem mexer... — soluçou, as pupilas vermelhas recusando-se a desviar do chão da sala — ...com o que não sabem.

Apertou com força o braço arranhado e prendeu os soluços ao ranger os dentes. Afastou-se até sentir a parede do corredor em suas costas. Já tinha passado por essa sensação abrasadora e atordoante. Estava perdido outra vez. Muitos pensamentos o rodeavam; muito mais do que ele lembrava possuir. Parecia que vivera duas vidas distintas.

— Que eu faço agora? — perguntou a quem não podia respondê-lo.

O cheiro chamou sua atenção. Passou os olhos sobre o próprio corpo e notou a umidade ao ver as manchas escuras que o cobriam. Era sangue... de novo. As pupilas ficaram finas como agulhas. Ele cobriu a boca e trancou o nariz, soltando o braço. Precisava sair de lá.

Caminhou na velocidade que a tontura permitiu, os pezinhos descalços deixando pegadas vermelhas e desalinhadas pelo corredor.

Mori custava a acreditar que estava em um carro a caminho do laboratório de um cientista com o objetivo de resgatar um harmínion. Ah! Do outro lado do veículo havia uma pessoa que se dizia ser uma cópia e, além de ter roubado a identidade do original, envenenara a mente dela com dilemas. Uma situação bem diferente do que a Mori de antes — filha perfeita e exemplo da sociedade — estava acostumada. E por mais assustador e indecente que parecesse, estava gostando daquilo! Talvez "gostar" fosse uma escolha exagerada de verbo. Ela queria... não... ansiava pela resolução. Adrenalina era uma iguaria que a Mori do passado provava em colheres de chá e apenas uma vez ao ano — normalmente no período de provas escolares —, nunca imaginando que poderia desfrutar do sabor. Era tão estranho se recusar a retomar o caminho da normalidade, que chegou a questionar se ela mesma também não era uma cópia da Mori original.

Apesar desses sentimentos contraditórios e instigantes, não estava saltitando de felicidade. Dentro da aventura — ao menos para ela era uma aventura — existiam seus próprios conflitos. O joguinho mental de Low aturdia seu espírito. A maioria dos meus órgãos internos não é originalmente minha; sem dúvida era verdade porque se encaixava com o fato de que Low foi uma cobaia de um experimento sobre órgãos. A frase parecia exagerada, entretanto a jovem não pôde desviar do pensamento que questionava quantas operações foram realizadas até chegar àquele intento. Sentiu calafrios. Operações eram muito... invasivas e primitivas, existindo, nos dias atuais, somente em histórias sobre a antiguidade ou — ela ouviu falar — em ações beneficentes de ajuda aos uncodeds. Realizar esse tipo de procedimento era uma barbárie. Nem Elliot foi submetido a isso.

A segunda opção — já comi vísceras humanas — causava refluxos em seu estômago ao ser cogitada. Comer... você sabe o que... era impensável. Um ato considerado inescrupuloso até na época das sociedades antigas que faziam operações. Diziam que, antes do code, pessoas perdidas por muito tempo aderiam a ela por necessidade, mas agora ninguém se perdia, exceto, talvez, os uncodeds. Se Low cometeu um ato desses... deixa para lá... era melhor nem pensar. No entanto... será que a pessoa que ele era — antes de ser Arlow Crow — foi um uncoded? Se fosse verdade, o último dilema seria mais crível — fui diretamente responsável pela morte de mais de uma pessoa. Ninguém escapava impune de um homicídio — graças ao histórico de localização do code somado aos depoimentos verídicos —, a não ser aqueles que não possuíam um code, porém essas pessoas não tinham permissão de viver na sociedade.

Com esses pensamentos, concluiu que seria plausível Low ter iniciado sua vida como um uncoded, contudo, segundo a conversa com Sílvia, ele frequentou a escola... Então a hipótese dela era de que uma criança cometeu um crime hediondo? Talvez não quisesse saber... talvez fosse melhor não responder essas perguntas. Aquele seria mesmo um teste de Low para descobrir o quanto sua mente podia aguentar? Ou ele estaria se divertindo às custas dela e nada era verdade... E se tudo fosse verdade?!

Permaneceu imóvel ao observá-lo pelo canto dos olhos, tentando ser sutil enquanto procurava o mínimo resquício de um sorriso de escárnio disfarçado. Estaria sentada próxima a uma cópia assassina e canibal?!

Low estava muito diferente de antes... menos... surtado — ela reparou, semicerrando os olhos com desconfiança. Ele estava ligeiramente inclinado para trás, moldado na posição do banco, as pernas esticadas, os braços cruzados, o rosto quase voltado para o teto e os olhos fechados. Mori acreditaria que ele estava dormindo, se não fosse pelos óculos que perduravam no rosto dele. Qualquer pessoa removeria o objeto ao dormir. Qualquer pessoa que não tivesse tantos segredos guardados e projetos misteriosos. Nunca tinha pensado nisso antes, mas agora parecia óbvio: para alguém que precisava esconder informações, os óculos eram ferramentas ideais; o que seria mais seguro do que mantê-las sempre à vista?

Por um segundo, a ideia traquinas de roubar os óculos tentou sua consciência. Se os tivesse como reféns, Low estaria disposto a ceder toda a verdade de uma vez em troca deles? No segundo seguinte, repudiou a ideia. Que isso, Mori? Ficar na companhia dele era uma ameaça à sua própria integridade moral? Ela não era assim; além do mais... a brincadeira só daria certo se ele estivesse dormindo de verdade.

— Você nasceu um uncoded? — ela indagou, esperando não somente a resposta, como também a confirmação de que ele estava acordado.

— Todos nascem uncodeds. — Low respondeu sem abrir os olhos e sem fragmentos de sonolência na voz.

— Sabe o que quis dizer.

— E você também sabe o que eu quis dizer.

Não, ela não sabia. Ou melhor, sabia, sim, que era uma resposta com finalidade de esquivar... Foi o que pensou, até permitir que o pensamento se desenvolvesse. Por qual outro motivo dar uma resposta evasiva assim, se não fosse para esconder um "sim"? Aquela era a maneira de Arlow Crow conversar quando não queria dizer nem a verdade e nem uma mentira. O Low mentiroso, que ela descobriu pouco tempo após a "fuga" de Elliot, devolveria um simples "não". Por que conversar com ele tinha de ser tão complexo?

— Não precisa entrar no laboratório dele se não quiser. — Low abriu os olhos e os direcionou ao mapa holográfico no painel do carro. Haviam acabado de chegar à cidade onde Raymond residia.

Foi inesperado ouvir aquilo da pessoa que se dizia ansiosa para avaliar a reação de Mori. A jovem só poderia supor que, antes alterado, agora ele deveria estar calmo — por qualquer razão que fosse, ou talvez ele sentisse, de verdade, a morte do Dr. Crow — e com o estado mental natural recobrado.

— Quero ir até o fim.

— Se assim deseja... — Um sorriso discreto surgiu por um instante em um canto da boca dele. — Sabe o que encontrará lá? Pessoas... várias pessoas. Uncodeds usados como cobaias. — As pupilas ainda seguiam o ponto verde no mapa.

— São... voluntários? — A jovem arregalou os olhos e sua voz fraquejou.

Ele a mirou com um olhar severo. Estava sério demais... demais para o próprio Low.

— Isso é desumano. — Mori considerou o olhar amedrontador como uma negativa. — Está mentindo, não é? O governo sabe disso? — Mesmo que os uncodeds não tivessem permissão de fazer parte da sociedade, o governo tinha programas de ajuda na área da saúde. Eram os cientistas do governo quem curavam as doenças dos uncodeds; o Dr. Ray, inclusive, ganhara prêmios por sua colaboração em um desses programas. Esse último pensamento não era suficiente para se chegar a uma resposta? Pergunta estúpida. O governo assassinou um professor por descobrir um segredo; quantos mais existiam?

A atenção de Low foi retomada pelo mapa e depois transferida para a janela. O veículo estava saindo do centro da cidade e trocando a vista de prédios por casas com terrenos cada vez maiores.

Mori não teve tempo de continuar discorrendo suas ideias, porque Low, contrariando sua natureza silenciosa, discursou para a janela:

— O code foi criado após o grande cataclismo de inverno. Depois de estarmos tão próximos da extinção, o número de pessoas que se recusou a utilizá-lo era insignificantemente baixo; um grupo composto por adoradores idiotas da internet. Não aceitaram perder o anonimato online e acabaram se tornando anônimos na vida real... além de perderem o acesso à internet. — Ela pôde vislumbrar o sorriso discreto dele refletido no vidro. — Irônico como algumas pessoas preferem morrer cedo a se sentirem expostas. E no fim, a sociedade se adaptou à exposição, trocando algumas tecnologias por recursos antigos.

A jovem se sentiu tentada a interrompê-lo com um "já aprendi isso na escola", porém não quis encerrar o fluxo de palavras que vinha do ser humano mais calado que ela conhecia — algum segredo poderia escorregar para fora. Apesar de ele estar bem falante nesses últimos dias.

— O problema começou há uns cinquenta anos, com os primeiros sinais de defeito do code. Muitos aderiram aos uncodeds naquela época, revoltando-se e revivendo uma violência que não víamos há séculos. A revolta foi contida, o assunto abafado e as poucas disseminações na internet foram apagadas ou transformadas em boatos e brincadeiras de mau gosto... mas você acha que o governo deixaria esses uncodeds soltos? — Um riso ligeiro e sarcástico escapou. — Os animais ganharam a proteção de uma organização privada depois de quase se extinguirem e, mesmo que não fosse assim, o code só funciona em humanos. Uncodeds são a escolha mais lógica como cobaias.

— Então para que servem os projetos de reabilitação do governo? — Mori questionou com desconfiança. Todas as "verdades" de Low, até agora, pareciam absurdas ou conter segundas intenções de testá-la ou enganá-la... por diversão, quem sabe?

— Para disfarçar. Aqueles que têm famílias grandes são reabilitados, mas aqueles que chegam sozinhos... Pense: um uncoded que deseja fazer parte da sociedade e que dificilmente notariam sua falta.

— Os uncodeds sabem disso?

As pupilas de Low se moveram, como se tivessem a intenção de encarar a jovem, no entanto seu corpo não correspondeu a esse intento e elas, derrotadas, voltaram ao ponto anterior. Se demorasse a responder, levantaria suspeitas sobre sua hesitação.

— Não sei...

Não bastasse a demora da resposta, esta também contribuiu para que Mori duvidasse dela. Em um curto instante, Low conseguira a proeza de falhar em sua atuação — algo raro de acontecer.

— Como sabe de tudo isso?

— Convivi com alquimistas e... fizemos um acordo. Podem me usar como cobaia, que não irei contestar, mas quero acesso a todas as informações que tiverem sobre a experiência e o governo — ele citou.

— Isso é... — Encarando o reflexo dele, Mori levou alguns segundos para fechar a boca, rangendo os dentes com força, e desviar o olhar para o chão.

Não sabia se era uma brincadeira ou a verdade, entretanto... inegavelmente... era um teste... porque, a cada informação, sentia-se bombardeada por pensamentos que não deveriam existir nesta era. Não viviam a sociedade perfeita, porém as pessoas não sofriam os males de antigamente; fome, pobreza, doenças, guerra... tudo não passava de matéria de história para estudar na escola. Não havia necessidade de ideias revoltantes quando tudo era perfeito. Não foi treinada para cogitar essas informações no mundo atual e, portanto, agora elas lhe tiravam o ar.

— Se não pode lutar contra eles, adapte-se a eles — Low complementou.

A jovem não percebeu que sua coluna envergara para frente, deixando seu queixo a centímetros dos joelhos. Fechou os olhos e, devido ao ângulo em que estava, os cabelos esconderam suas feições.

— Chegamos — ouviu o aviso de Low. — Ainda decidida a fazer parte disso?

Ainda tinha tempo de desistir? Estaria jogando sua vida fora, comprometendo sua própria segurança? Por qual razão? Curiosidade não era uma motivação inteligente, contudo, ao abrir os olhos, visualizou a mecha verde pendendo à sua frente.

— Mais do que nunca.

O veículo adentrou uma propriedade demarcada por sebes. Não havia muros — como na maioria das casas — e tampouco um portão. Construções novas eram o oposto da chácara enjaulada de Maurício e Sílvia, cujas barreiras fortificadas tinham, como único propósito — e em teoria —, manter o legado histórico vivo.

A mansão do Dr. Ray ficava no fim da cidade — ou era essa a impressão. A partir da entrada, havia um gramado imenso, cortado no centro por uma estrada feita de blocos de pedra até a construção e, atrás desta, uma floresta se estendia para além de uma colina, onde morria a vista. Todo o cenário estava tingido por um azul cinzento de um céu sem sol.

Há sete anos, Low partiu daquele lugar com a intenção de esquecê-lo, mesmo consciente de que seria um plano falho — só poderia esquecer, definitivamente, se deixasse de utilizar um de seus experimentos, e seria surreal considerar essa possibilidade. Retornava, agora, não somente com o intuito de salvar Elliot, como também com a pretensão de cumprir uma promessa... se Nick estiver vivo.

Apertou a própria nuca com a mão esquerda, quase arranhando-a com seu nervosismo. A mente clamava por alívio, por uma sensação entorpecida que apagasse os rastros emocionais. Só mais uma dose... todavia, essa não era uma opção. Se encontrasse Nick, preferiria ter uma conversa sem ressentimentos — sentimentos, estes, que necessitariam de apenas uma gota de sua invenção para despertar. Não poderia arriscar que a conversa tivesse o mesmo fim da última vez, porque nunca mais haveria outra chance como esta. Tudo acabaria hoje.

— Depois que encontrarmos o Elliot, precisarei de um tempo lá dentro — ele informou Mori, contudo sua voz saiu em um sussurro tão baixo que parecia não querer ser ouvida.

— O quê?

Ele ignorou a pergunta e vasculhou a sacola de compras em busca do pequeno pacote de doces para guardá-lo no bolso da calça.

O carro contornou a propriedade e estacionou atrás da mansão, fora da estrada e em cima do gramado. A jovem ficou deslumbrada pela visão do lugar, que parecia saído de um conto de fadas — aqueles exatos tons de cor adicionaram detalhes misteriosos e um tanto mórbidos à sua imaginação —, e deixou passar despercebida a parada do automóvel. Retornou à realidade ao ouvir uma frase discreta de Low, porém não captou o que foi dito quando ele saiu de forma repentina do veículo; copiou a ação dele apressadamente.

Low caminhou direto para uma porta verde, camuflada pela parede de mesma cor.

— Espera — Mori pediu, embora já o acompanhasse; decerto queria que ele parasse, o que não aconteceu. — É um laboratório como o do doutor Crow? Se for, então... o Dr. Ray vai saber que estou com você. Posso me tornar um alvo?

— Agora é que vai se preocupar com isso? Precisa aprender a pensar em todas as possibilidades antes de tomar uma decisão. — Chegou até a porta e lançou um olhar de canto rápido para a jovem. — Mas pode ficar tranquila; alquimistas do alto escalão, como Raymond, não tem a obrigação de registrar imagens de seus experimentos.

A resposta fez mais do que acalmar a garota, pois cutucou sua curiosidade. Ali estava aquela palavra de novo: alquimista. Low a mencionou momentos atrás, enquanto ela tentava absorver e filtrar a torrente de informações. Mais tarde precisaria perguntar o que significava. Ele não estava se referindo aos alquimistas de antigamente, não é?

Ao tocar na maçaneta, Low percebeu que a porta não estava fechada. Uma leve pressão foi mais do que suficiente para que ela se abrisse por completo. A seriedade invocada para prosseguir com seu objetivo o impediu de soltar a mínima fagulha de um sorriso interno — então Raymond saiu com tanta pressa para ver o cadáver dele que se esqueceu de fechar a porta? Aquela nem era a porta principal, mas não deixava de ser cômico, apesar de Low estar indisposto para comemorar a falha extraordinária de seu inimigo.

Ele desceu as escadas até sumir do campo de visão de Mori, que respirou fundo, reafirmou mentalmente suas razões questionáveis e foi atrás dele.

Embora ignorasse suas incertezas, a jovem caminhou com apreensão por aquele estranho corredor branco que lembrava o laboratório do doutor Crow. Como sempre acontecia quando estava nervosa, as perguntas sem sentido logo vieram. Por que o laboratório era sempre no porão? Ou pior ainda, no caso do Dr. Ray, no subterrâneo? Isso condizia demais com as histórias de terror que lia. Sempre existia um segredo macabro no porão. Cobaias. Humanas. Como a que está andando à sua frente.

Sacudiu a cabeça e fechou os olhos com força, tentando impedir que sua imaginação criasse uma imagem que não queria ver. Como resultado, quase esbarrou em Low, que parara diante de duas portas de aço que se conectavam para bloquear a passagem.

O Low não estava com o code do Dr. Crow? Será que não conseguiu abrir as portas? Mas o celular funcionou com o toque dele... E se o Dr. Ray tivesse barrado a permissão?!

Ela começou a contorná-lo, entretanto, antes de chegar à frente dele, descobriu a resposta em um buraco disforme nas portas, por onde era possível ver a continuação do corredor.

Low se agachou para examinar de perto o aço cortado. Não hesitou em tocar na borda enrugada do material e acompanhar o movimento sinuoso da parte inferior.

— Parece ácido — ele constatou.

— O Elliot fez isso? — Mori apoiou as mãos nos joelhos para se abaixar. Recordou-se de uma situação que estivera perdida em suas memórias. — No dia em que ele desapareceu, as grades da janela foram destruídas.

— É por isso que é tão difícil realizar experiências em harmínions. Eles não ficam presos por muito tempo e o cadáver tem as mesmas características de um humano. É impossível estudá-los, vivos ou mortos.

— A não ser que seja um filhote — ela completou, lembrando-se, também, do dia em que conheceu o Dr. Ray. — Então ele fugiu? — Endireitou o corpo e observou o caminho por onde vieram.

Low mirou para a mesma direção que ela. A hipótese de que Elliot tivesse desistido da fuga e retornado para o laboratório era quase inexistente, contudo precisariam do localizador para confirmar seu paradeiro — o localizador que permaneceu no automóvel. Sentiu-se em uma encruzilhada. Precisava encontrar Elliot o mais rápido possível — quem sabe ele não estaria locomovendo-se a uma velocidade absurda naquele momento? Todavia... todavia, tinha algo de extrema importância que necessitava fazer naquele laboratório e, se não o fizesse agora, uma nova oportunidade poderia jamais surgir de novo.

— O localizador ficou no carro — disse ele, ainda com os olhos voltados para a saída. — Veja aonde ele está indo... preciso fazer uma coisa antes.

A curiosidade de Mori se chocou com a necessidade de ajudar. Todo aquele suspense, teste e comentário sobre cobaias humanas... para dispensá-la na entrada do laboratório? Talvez fosse uma última chance de não ver algo que não quisesse ver. Porém, Low mentiu e roubou um harmínion para salvá-lo do governo. No começo, pensou que ele estivesse obcecado pelo projeto, mas alterou essa opinião ao reparar, pouco a pouco, que Low se importava com Elliot... então o que poderia existir naquele laboratório que ele considerasse mais urgente do que buscar o garoto? Se Mori fosse outra pessoa, talvez o embate fosse mais acirrado, no entanto, sendo quem ela era, a necessidade de ajudar sempre venceria a curiosidade... exceto que aquele pedido não ajudaria em nada.

— Do que adianta eu saber onde ele está, se terei que esperar por você? — argumentou, cruzando os braços e encarando Low, que também abandonou a vista do corredor para retribuir o olhar.

— Não disse que faria o que eu pedisse?

— Já tivemos essa conversa antes e eu já falei que desisti dessa ideia. — A indignação dela reverberou em sua voz, enfraquecendo em seguida. — Mas se quiser ficar sozinho, atenderei ao seu pedido. — Não sabia ao certo o que encontraria no laboratório e quão intrusiva seria ao persistir.

Quem poderia adivinhar o que Low queria? Ele, com certeza, não. Da mesma forma que Mori enfrentou uma divergência interna, ele também carregava duas vontades contrárias. Existia um lado que se autodesprezava e que trazia, como consequência, a euforia amarga de causar a outros uma situação tão caótica quanto a que se encontrava; o outro lado, que despertava em raras ocasiões, suplicava por uma privacidade quase inexistente em sua vida.

— Pode vir. — Virou-se na direção das portas deformadas e tocou em uma delas com a palma da mão. No mesmo instante, elas começaram a recuar para dentro das paredes. — Nem sei mesmo o que é ter privacidade — acrescentou em voz baixa para si mesmo, encarando a passagem liberada; a odiosa passagem que não via há anos.

Mori o acompanhou apreensiva. Seus pensamentos exagerados sugeriam que uma pessoa apareceria do nada a qualquer momento... por uma porta escondida ou algo assim... e não seria uma simples pessoa... seria uma cobaia...

Houve um susto, apesar de não ser pelo motivo que ela esperava. Ao virarem a esquina do corredor, encontraram uma mancha vermelha na parede a quase um metro do chão. Enquanto Mori relutava em aceitar que aquilo parecia demais com sangue seco, Low deslizou três dedos pela mancha, aproximando-se e encurvando-se para analisá-la. Não; aquilo não era elixir.

Sem pressa, ele se voltou para o meio do corredor e abaixou a cabeça. Perseguindo o olhar dele, Mori reparou no chão. Pegadas pequenas — de uma criança — e outras manchas marcavam o piso brilhante. Todas do mesmo material da parede... que devia ser tinta. Com certeza era tinta! No mundo real, nem em notícias uma cena dessas existia... só em histórias... de terror ou de antigamente... ou de terror de antigamente.

As pegadas vinham de uma porta aberta mais à frente. A luz do recinto se derramava à frente deles, o interior oculto pelo ângulo em que se encontravam.

Low foi direto para aquela sala, deixando para trás a jovem, cujos olhos estavam vidrados de medo e o corpo se recusava a chegar mais perto dos vestígios sangrentos.

Por um curto momento, Low sentiu um êxtase envolto em decepção ao imaginar que encontraria Raymond em pedaços. Seria inconveniente para o seu plano de vingança, contudo não se importaria de encontrá-lo ferido e sofrendo dores horrendas. Pena que não foi com isso que se deparou naquela sala.

Vermelho e lilás se mesclavam em sangue e tecido pelo chão. Os pedaços de pano — rasgados, retorcidos, estrangulados... dilacerados — cobriam o ambiente como confetes de carnaval.

A atenção de Low foi tomada pela gola do que antes fora uma blusa; separada do maior pedaço que restara, estava próxima a fios dourados. Era uma confirmação que usaria em suas análises futuras, mas, por hora, poderia considerar como prova primordial do ataque de Raymond.

Foi quase tarde demais quando percebeu os sons de passos que culminaram em uma presença logo atrás de si, que tentava enxergar através dos espaços livres de sua silhueta.

Mori não conseguiu discernir o que tinha lá dentro. De repente, seus braços foram agarrados por Low e seu corpo girado e prensado contra a parede do corredor ao lado da porta. Soltou um grito sufocado. Imobilizada pelo susto daquele movimento bruto, seu olhar pasmo se prendeu aos olhos cinzentos e inexpressivos como nuvens de uma chuva que se recusava a cair.

— Não está nos meus planos você ver isso — disse ele, afastando-se em seguida.

Mesmo livre, Mori reservou alguns segundos para estabilizar a respiração e se recuperar do susto. Ao dirigir o olhar para o lado, viu que a porta estava fechada — nem ouvira esta se fechando. Low posicionara o indicador sobre o material da porta e, com o holograma aparecendo ali, deslizou um botão verde, de uma imagem de interruptor, para a esquerda, onde este se tingiu de vermelho. Após o holograma desaparecer, os pensamentos da jovem voltaram a fluir.

— Tem alguém ali? — ela perguntou, ainda colada à parede.

— Ninguém com quem deva se preocupar. — Não adiantaria negar, mas seria melhor omitir algumas informações por hora; deveriam dispensar o mínimo possível de tempo naquele lugar.

Low retornou alguns passos no corredor e atravessou duas portas duplas que foram ignoradas quando seguiram as pegadas de sangue.

Assim que ele sumiu de vista, Mori desgrudou da parede e tomou o mesmo caminho, lançando um último olhar amedrontado à porta que deixava para trás. Havia alguém do outro lado. Estaria precisando de ajuda? Seria tarde demais? Elliot teria perdido o controle mais uma vez? Com a porta trancada, não poderia descobrir. Teria de convencer Low a ajudar quem quer que fosse. Por incrível que parecesse, nem estranhou a falta de emoção dele perante o acontecimento. Nada mais a surpreenderia depois de presenciar a forma com que ele tratou o doutor Crow.

A ingenuidade era comum naquela geração, e a dela seria destruída em poucos segundos.

Passou pelas mesmas portas que Low e encontrou um corredor branco contendo várias salas com paredes de vidro. Percorreu o lugar com um caminhar hesitante. Em uma das salas, um movimento brusco exigiu sua atenção. Do fundo do cômodo, uma mulher correu até o vidro, apoiando as mãos neste enquanto desacelerava para, em seguida, voltar correndo até o fundo. Ela usava roupas simples de paciente, que Mori vira em seriados de hospitais. Na terceira vez em que a mulher apareceu em seu campo de visão, a palavra ecoou por sua cabeça: cobaias.

Cobriu a boca com as mãos e deixou escapar um soluço aterrorizado. Low tinha razão; não estava preparada para aquilo. E onde ele estava agora? A duas salas de distância de seu foco, avistou Low de frente para um dos vidros, gesticulando com as mãos. Do outro lado, um homem, vestido como a mulher que vira, também movimentava as mãos.

Observou de longe, não se atrevendo a se aproximar. Aquele parecia ser outro mundo; uma realidade bizarra e escondida, desconfortável de imaginar e impossível de aceitar. Pressionou ainda mais as mãos contra a boca, sobressaltada pelo barulho seco de Low socando o vidro como se pretendesse atingir o rosto do homem; depois, ele virou a cabeça para o lado, acalmando-se com uma expiração forçada, e retomou a conversa de sinais.

Muitas hipóteses percorreram a cabeça agitada da jovem; reservou todas para mais tarde. Aquele não parecia ser o momento apropriado para interromper, portanto ela se afastou, aprofundando-se naquele corredor nefasto, e quando checou os dois por cima do ombro, seu olhar foi captado e retribuído pelo homem atrás do vidro. Lindos olhos azuis-esverdeados... encarcerados em um laboratório.

Low acompanhou o foco de Nick quando ele desviou as pupilas para encarar Mori. Sua mão estava dolorida, todavia isso não importava; até o anoitecer já estaria recuperada. Ao ter de volta a atenção de Nick, observou seus próximos sinais, que questionavam quem era aquela moça. Para economizar tempo, Low apenas sinalizou que a jovem era uma conhecida e andou em direção à porta do quarto dele. Encostou a mão na porta metálica e sentiu o frio do material; sentiu, também, a indesejável sensação nostálgica do seu primeiro lar.

O holograma que apareceu não lhe deu a opção de abrir a porta, permitindo apenas que abrisse uma portinhola perto do chão. Então Crow não tinha mesmo como tirar Nick do quarto. Depois do que ele aprontou, é óbvio que Raymond restringiria o acesso.

Tirou do bolso o pacote de doces e seu estojo de pílulas. Retirou a pílula de cor mais escura e, após fechar o estojo e abrir o pacote, jogou-a entre as balas. Confirmando a abertura da portinhola, passou o pacote a Nick, que esperava do outro lado.

Foi somente por um milésimo de segundo, um tempo impossível para o arrependimento, que repensou e considerou não soltar o pacote nas mãos dele. Não havia outra maneira. Não existia outra opção. Sempre foi assim. Era isso... ou pior. Era o tipo de escolha que precisou aprender a tomar. Será que, como várias vezes antes, não teria coragem de encará-lo enquanto aguardavam? Não permitiria que acontecesse outra vez e, por essa razão, acompanhou Nick da porta até onde estavam antes, sem desviar o olhar.

Nick se sentou no chão com uma perna esticada ao lado do vidro e a outra dobrada, o joelho para cima. Low o imitou, recostando o tronco naquela maldita parede transparente, porém em uma posição contrária, como se fosse o reflexo do outro; conteve-se para não fechar os olhos ao vê-lo esvaziar, de uma só vez, o pacote de doces na boca.

Após mastigar e engolir, Nick sorriu com serenidade; queria mostrar que estava tudo bem, mas Low não retribuiu.

"Como entrou?" — Nick formulou a pergunta com as mãos.

"Crow. O code."

Nick enrugou a testa e arregalou os olhos — as olheiras de anos atrás haviam sumido.

"Quantos anos?" — indagou, alterando a face para uma expressão entristecida.

"Quarenta e quatro."

"Não desperdice."

Low assentiu com a cabeça e a apoiou no vidro, o olhar cansado preso às pupilas azuis.

"Me conta o que fez lá fora" — Nick solicitou.

Aquele momento ficaria guardado como uma lembrança surreal para Low. Seria como um sonho, daqueles em que parece se passar anos e, ao despertar, descobre-se que não passaram nem cinco minutos. Talvez sua mente pregasse peças no futuro, no entanto lembraria que conseguiu compactar sete anos em menos de sete minutos na linguagem de sinais criada na infância.

Lembraria como as pálpebras de Nick brigaram com ele, tentando se fechar, e como a cabeça dele pendeu para o lado até a bochecha ser amassada contra o vidro. Em nenhum instante Low desfez o contato visual — se não fosse necessário, talvez nem tivesse piscado.

Tinha que ser assim. Porque Nick era um cabeça-dura e Low não o obrigaria a sofrer pelo resto da vida. De repente, despertou agitado daquele sonho. Os olhos vidrados não conseguiram continuar encarando a realidade. Ele se levantou de súbito e fez o caminho de volta pelo corredor.

Mori captou a movimentação rápida. Estivera observando, com o coração apertado, uma das cobaias desenhar um círculo incessantemente com um osso de borracha. Ao ver Low sumindo de vista, correu atrás dele. Passou pelo homem de olhos claros e o observou de relance — desejou não ter feito isso. Ou ele estava dormindo... ou... Sentiu náuseas e apertou o passo, os olhos arderam e um soluço escapou.

Conseguiu alcançar Low enquanto ele abria as portas avariadas por Elliot.

— O que aconteceu? — Perdida em um labirinto mental, Mori teve dificuldade em organizar seus pensamentos de forma coerente. — Vai deixá-los aí?

Low não respondeu. Seu semblante inexpressivo não se alterou. Assim que as portas se abriram, continuou o caminho.

— Não pode fazer isso! — Mori insistiu, alarmada. — Temos que tirá-los de lá!

Seguiu-o pelas escadas.

— O que aconteceu com ele?!

— Fique quieta... por favor. — Foi a única resposta que ela obteve.

Ele entrou no carro primeiro, fechando a porta em seguida. Mori, indignada e exasperada, contornou o veículo e entrou pelo outro lado.

— Temos que fazer alguma coisa! — Sentou no banco e persistiu uma última vez.

Low enrugou a testa de forma exagerada, incomodado pela voz alta. Em suas mãos estava o localizador. Após averiguar as informações do aparelho, jogou-o no banco ao lado e exibiu um sorriso sinistro de amargura. Removeu os óculos e os deixou pendendo, seguros por apenas uma mão, enquanto a outra encobriu seus olhos e deslizou para baixo até tapar a boca, revelando um olhar raivoso que mirava o banco à frente.

Apreensiva, a jovem apanhou o objeto jogado. Aprisionou o ar em seus pulmões ao constatar que não existia mais um ponto a ser localizado.

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