O Alfa caido
–Está preparado para começar? –Trevis estava sentando em uma das cadeiras no pequeno quarto de Gabriel quando fez esta pergunta, além dele existiam mais três companheiros que tentavam se acomodar naquele quarto meio pequeno para aquela reunião. Os companheiros eram: Adriano, que se absteve de sentar e ficou na porta, encostado, Gabriel, sentando em um banquinho próximo ao Alfa e, por fim, Pablo, sentando em uma cadeira ao lado da cama... Todos estavam apreensivos e suas atenções voltadas para Eric.
–Estou...Não sou alguém de ficar enrolando...- Disse o lobisomem sorrindo fracamente – Acho que o mínimo que posso dar a vocês é uma explicação, não é? Depois de terem me salvado...
–Mas não precisa dar ainda...Se não quiser! –Interpõe Gabriel – Não quero que se exalte tanto, os ferimentos ainda não estão totalmente cicatrizados...-Nisso olhou de relance para Trevis como se o avisasse para controlar o seu temperamento.
–Só iremos conversar... Não pretendo pressiona-lo tal como um interrogatório de um criminoso...-Falou o Alfa em sua defesa – Afinal, você salvou um dos membros da alcateia, acredito que isso lhe confere direitos e vou respeita-los...
– Eu entendo que você deve estar desconfiado de mim... Não precisa fingir cortesia! –Riu Eric, contudo mas parecia uma mistura de gemidos de dor, Pablo o observa temoroso, será que aquela reunião era mesmo necessária? – Ainda acho que vocês deveriam me deixar ir... Não irei mais incomoda-los...
–Tolice... Você não vai a lugar algum, ao menos quando estiver curado!-Rosnou Pablo.
–Sabia que iria dizer isso...-Resmungou o forasteiro –Não sei nem por que eu tento...
–Realmente, nem sei por que tentas... Talvez tenhas mesmo algum ferimento no cérebro!
–Deve ter sido provocado por você quando me deu aquele tapa, se lembra?
–Oh...Então és tão frágil assim? –Provocou Pablo, Eric começou a rosnar, apesar das dores a fúria, de alguma forma, parecia atuar como um atenuante.
–Vou te mostrar quem é o fraco aqui...
–Er...Senhores, mesmo que seja bastante divertido observar as tensões sexuais que vocês dois emitem...-Interrompeu Gabriel – Mas temos uma reunião para fazer e devo lembrar que Eric está muito doente! Quando digo muito me refiro que ele não deve fazer atividades físicas tais como brigas ou... Sexo!
–Ah? –Pablo encarou o amigo, um rubor dominava suas bochechas. Eric pigarreia desconcertado – Tensões sexuais? Sexo? De onde você tirou essas ideias? O que você está insinuando?
– Bem...- O curandeiro parecia querer se explicar, porém foi interrompido por Trevis.
–Já chega! Deixem as brigas para depois da reunião...Por favor! Agora quero ouvir a história de Eric... Ao menos que vocês tenham esquecido o objetivo deste encontro? Eu não gostaria de mais atrasos... Como você, Eric, eu não gosto de enrolações...
Eric parecia ter se recuperando do embaraço, inspirou fundo, as memórias ainda estavam recentes... Afinal, não fazia muito tempo que sua vida se transformou em um pesadelo...
–Ok... Vou lhe contar a minha história –Iniciou – Meu nome, como sabem, é Eric. Eu pertencia a uma alcateia localizada ao oeste daqui...Longe das montanhas e da neve, meu povo vivia nas pradarias, erámos conhecidos como lobos fazendeiros, cuidávamos de ovelhas e cavalos...Mas isso tudo foi passado, as cidades humanas nasceram em nossas terras , cresceram e avançaram em nosso território... Meus ancestrais poderiam ter se afastado, entretanto eram teimoso e não quiseram abandonar o território, com o tempo a alcateia acabou por trocar nossos velhos hábitos por novos... Nós nos tornamos cada vez mais distantes das tradições...Não vivíamos mas nas florestas ou nas pradarias... Trocamos a vida da natureza pela vida na cidade - Eric resistiu em emitir um rosnado ao se lembrar te tudo que sua avó contou sobre o passado glorioso da alcateia, nada comparado com o que restou nos dias atuais – Hoje, a minha antiga alcateia é formada por lobisomens bêbados, drogados...Que adoram briga! Utilizam de suas habilidades de lobo para ganharem dinheiro fácil, tal como roubos ou brigas ilegais... Eu...Eu não queria fazer parte disso! Não parecíamos uma alcateia e sim uma gangue...Eu teria os abandonado e me entregado a vida de lobisomem solitário com o maior prazer...Mas eu tinha minha avó, ela ainda tinha esperança que a alcateia podia mudar... Velha tola, acreditando no passado...Como se o fantasmas dos encentrais pudessem intervir na vida das gerações atuais... Ela ficou muito doente...Eu não era um curandeiro...Na verdade nem tínhamos um...Eu fiz o possível para cuidar dela...Mas... O meu Alfa me mandou em uma missão, mesmo eu implorando para não ir...Ele não ouviu, fui forçado a participar de um roubo enquanto...Enquanto ...Minha avó morria...Sem ninguém ao seu lado...
Pablo tocou a mão de Eric, este se assustou levantando o olhar e fitando o Beta, confuso, percebeu o olhar preocupado que este o direcionava, isso ocasionou um certo conforto saber que alguém ainda, parecia cultivar algum tipo de sentimento para com ele, afinal, seu único familiar já não estava mais vivo...Aquele olhar de Pablo lhe deu coragem para continuar. Tinha que contar.
–Depois da morte da minha avó...Foi o limite...Eu não tinha mais nada me prendendo a eles, desta forma eu fiz...Algo que me arrependo...Pela a memória da minha avó, preenchido pela a raiva, eu... Convoquei o Alfa para um duelo pelo título de liderança do clã...
–Já entendi...-Interrompeu Adriano – Você o chamou para um duelo e perdeu, isso explicaria as marcas de mordida e...
–Não, isso não condiz com as mordidas!! –Analisa Gabriel –Lembrem-se que eu falei que identifiquei mordidas provenientes de lobos diferentes! Um duelo só é um combate entre dois lobos apenas...
–Na verdade, Adriano, eu venci a luta... –Murmurou Eric. Aquilo foi uma surpresa para todos.
–E-então, por que...
Antes que Gabriel perguntasse Eric lhe deu a resposta:
–Depois que venci...A alcateia me atacou, os lobos que assistiam ao duelo me atacaram...Todos eles... Quase morri...Consegui fugi, mesmo ferido, rastejei até um bar de motoqueiros, me aproveitei de um humano bêbado e roubei suas roupas e moto e fugi...Desde então estou fugindo, pensei que se eu me afastasse eles me deixariam em paz...Mas, eles estão me perseguindo...Querem me matar! – O forasteiro os encarou –Agora vocês entendem por que tenho que ir embora? Eles são perigosos e se me encontrarem serão o fim de vocês! Não quero colocar vocês em perigo...
Depois daquele relato se fez um silêncio. Trevis estava pensativo, olhou para Pablo e este assentiu, pareciam conversar mentalmente e tinham chegado a uma conclusão.
–Tudo bem... –Suspirou o Alfa.
–Isso significa que me deixarão ir? –Perguntou ansioso Eric.
–Não...Significa que vais ficar aqui!
–Ah? C-como assim? Não ouviram o que eu acabei de dizer?
–Sim, nos ouvimos... E por isso tomei essa decisão! Primeiro, você ainda está se recuperando, não tem condição de ir, segundo essa sua antiga alcateia, ela quebrou as regras antigas que mantem o nosso equilíbrio por séculos... Usar nossos poderes para prejudicar humanos, nos expondo, atacando um lobisomem que por direito deveria ser o Alfa deles... Deixar um membro morrer sem amparo... Isso tudo, não é correto! É o nosso dever informar o conselho e te proteger! Concordas Pablo?
–Totalmente! –Sorriu o Beta – O que achas Adriano?
–Esses lobos arruaceiros merecem uma lição...-Rosnou o outro Beta.
– Esperem! Vocês não sabem com quem estão se metendo! Eles não jogam limpo...Não quero que se machuquem por minha causa! –Disse Eric em um tom quase que desesperado.
–Não nos subestime... Somos bastante fortes para nos livrarmos destes lobisomens arruaceiros, podemos ser pacatos, mas sabemos nos proteger! Além disso, deve-se levar em conta que a possibilidade deles terem perdido o seu rastro quando te levamos para cá...Talvez você esteja protegido! –Explicou Pablo.
–Mas...Isso...-Eric não tinha mais argumentos, pareciam que estavam decididos...
–Vamos avisar os outros, devemos ficar alertas para caso algum lobisomem adentre em nosso território! –Falou Trevis se levantando, tinham muito que fazer, teriam que planejar estratégias de ataque, caso necessitem mesmo.
–Eu vou avisar ao conselho...-Disse Adriano –Nãos estaremos lutando sozinhos nisso... Eles irão nos ajudar!
Depois de declamarem suas tarefas ambos os lobos saem do quarto, restando Gabriel e Pablo.
–Er...Bem, acho que vou preparar um chá...-O curandeiro logo arrumou uma desculpa para deixar o "casal" sozinho – Brinquem direito! Lembre-se, nada de sexo!
–Gabriel...Eu só não te mordo por que necessitamos de um curandeiro para cuidar deste idiota aqui! –Disse o Beta apontando para o Eric que rosnou em resposta – Um idiota doente já o suficiente!
–Sei! –Riu alto o loiro saindo –Mas se comportem!
–Que imbecil...-Resmungou Pablo, suas bochechas estavam novamente da coloração de tomate e a vermelhidão só piorava ao sentir que estava sendo observado – O que foi? –Perguntou rabugento sem encarar Eric.
–Você é estranho...
–Ah? C-como assim?
–Nada...Só te acho estranho!
–O estranho aqui é você! –Finalmente se virou e o encarou, Eric o fitava intensamente o que fez que as palavras de Pablo que iriam ser ditas fossem contidas em sua boca.
–Talvez eu seja mesmo... Talvez eu seja fraco como diz... - Seu olhar parecia perder o brilho, ficou nebuloso, triste. Definitivamente Pablo não gostou deste olhar.
Um tapa foi deferido no rosto de Eric.
–Mas o que...? Por que você só vive me dando tapas!? –Rosnou.
–O lobisomem que salvou a minha filha não é um fraco! Você fugiu por quilômetros com feridas abertas, com risco de morrer de hemorragia...Recusou nossa ajuda temendo nos prejudicar! Lutou com lobisomens de sua Alcateia com base no desejo de sua avó! Como podes dizer que és fraco? Você é um dos lobisomens mais forte que conheci! Não ouse dizer que és fraco na minha frente! Para mim você é um herói!
Eric estava pasmo com aquela declaração, um sorriso se formou em seus lábios. Um sentimento estranho se formou em seu peito, não era provocado pelos ferimentos, era algo mais...Ainda não podia denominar, porém estava gostando de senti-lo.
–Obrigado...Fico feliz que achas que eu sou o seu herói! –Falou em um tom orgulhoso. Pablo logo nota que falara demais, vira o rosto corado para o lado.
–N-não aumente seu ego com isso! –Resmungou.
–Sabe, por eu seu o seu herói deveria me tratar melhor, tipo... Não me batendo! Me fazendo massagem...Dando comida na minha boca e...- Outro tapa foi desferido na outra bochecha de Eric, Pablo agora estava vermelho...De raiva.
–Só em seus sonhos que eu iriei fazer...S-s-seu lobisomem folgado! Você é o lobisomem mais idiota e folgado que conheci! –Rosna, logo se levanta e sai do quarto batendo fortemente a porta atrás de si. O forasteiro massageia as duas bochechas avermelhadas.
–Tsc... Ele está sendo contraditório... –Mas um sorriso continua estampando em seu rosto – Ser um herói...Mesmo que só para um lobisomem...Parece ser algo interessante...
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