ATO II; descobrindo o novo-mundo.
❝ Uma criatura sem coração, é uma criatura sem amor. E uma criatura sem amor é um animal. Ser animal é talvez suportável, embora o homem que se tornou um, certamente no final, estará pagando o próprio preço no inferno. ❞
— Stephen King;
(🧭)
H y u n j i n
Não conseguia acreditar em uma única palavra, que alguém já tenha dirigido à mim. Não deveria ter uma chance no inferno, de que Lee Felix fosse minha alma gêmea, de jeito nenhum. Eu não acreditei em nada que havia saído de suas bocas.
E, no entanto, aqui estava, rebobinando a televisão pela terceira vez, para assistir à Colheita do distrito doze. De novo e de novo. Claro. Felix era muito fofo. E poderia admitir, que o outro tinha os... bem, os olhos mais bonitos que já tinha visto na vida. O que dizia muito, porque eu tinha me apaixonado um pouco pelos olhos de Changbin na primeira vez que nos encontramos.
Felix chorou muito, isso era óbvio. Ele chorou quando todos se conheceram. Ele chorou quando gritaram comigo. Ele chorou durante a Colheita.
Mas, sinto que estava dividido.
Sim, seu rosto era lindo, mas Felix não era tudo isso – ele estava imundo na televisão. A maneira como seu cabelo estava tão bagunçado e ele tinha sujeira real em suas roupas. Também, não podia acreditar que tinha aparecido na televisão assim, mas com base na aparência de todos em seu distrito, não parecia uma escolha estética.
Felix era pequeno, fraco, vulnerável...
― Ei.
Imediatamente corri para me sentar, quando a porta do vagão se abriu novamente. Pausando a televisão, olhei para Bang Chan com um beicinho nos lábios.
O ancião olhou para a TV por menos de um segundo, antes de soltar um longo suspiro, que fez eu me afundar nas almofadas, jogando a cabeça para trás e reclamando.
― Oh, Deus! Eles não podem enviar o Minho hyung, em seu lugar?
Bang Chan riu, andando para se sentar ao meu lado, jogando um braço em volta do sofá.
― Vá em frente, aperte o play.
Eu estava relutante em fazer isso, além de saber exatamente o que meu companheiro estava procurando, não estava afim de lhe entregar essa satisfação. No final, Chan pegou o controle remoto das minhas mãos, e ligou a tv sozinho.
Ele piscou de volta para o momento em que houve um borbulhante e gaguejar, eu me ofereço!
Meus lábios estavam pressionados em uma linha dura, quando as câmeras focaram no rosto de Felix, no olhar perdido e desamparado. Eles eram estrelas, seus olhos eram estrelas. Eles cintilaram e brilharam. Eles quicaram completamente perdidos até que um pacificador o agarrou.
Do meu lado, Bang Chan mal conteve um silvo de dor, esfregando a mão no peito. Pois houve um latejar surdo que doeu quando Felix estava sendo levado para o palco. Jisung sempre foi um excelente ator, ele interpretou a personalidade alegre tão bem, que quase nunca havia falhas e rachaduras em sua personalidade quando os Jogos chegavam; havia, agora.
Mostrou-o sussurrando para um de seus companheiros e Changbin parecendo quase enjoado. Antes de perceber as câmeras, e engolir em seco.
― Você era muito jovem quando conheceu Jeogin, — Christopher falou. — por acaso, você não se lembra de como é a sensação, de encontrar pela primeira vez sua alma gêmea? O vínculo que passa por sua alma. Já fizemos isso tantas vezes, que simplesmente sabemos...
― Eu não acredito em você! — respirei, honesto e simples. — Há seis de nós, não oito, é assim que sempre foi. Eu pensei que era só Jeogin e eu, então você e o hyung vieram, e agora... não. Não é possível.
Christopher, suspirou.
― Hyun, se você apenas...
― Mostre-me sua marca! — Bang Chan pressionou os lábios em uma linha, e continuei minha fúria. — Mostre-me sua marca, e então eu acreditarei em você. Caso contrário, ele e Seungmin estarão mortos.
Nós não podíamos fazer isso, não podíamos simplesmente ir até alguém e exigir ver a marca da alma de outra pessoa. Era inapropriado, privado. Ninguém mais deve ver a marca da alma de outra pessoa, exceto suas outras almas gêmeas.
E eu sabia disso.
― Todos vocês, podem estar bravos por eu ter me oferecido, — sussurrei, sem olhar para Christopher. — mas isso não vai mudar nada. Eles iam me colocar na tigela mesmo sem eu me voluntariar, se caso não fizesse isso, eu seria expulso do Distrito.
Bang Chan apertou os lábios em uma linha. Ele não tinha nada a acrescentar, pois sabia que Hyunjin estava certo. O Capitol enviava apenas o melhor dos melhores do Distrito Dois, e eu estava recebendo cinco estrelas em meus relatórios de treinamento, muito antes de conhecê-los.
As carreiras foram bem alimentadas, todos foram treinados. E quem tinha a vantagem, eram soldados. Mas não havia utilidade para os soldados, a não ser ir para a guerra. Eu nunca entendi os Jogos da maneira que eles entendiam. Nunca ouvi. E agora... agora, era isso.
Minhas almas gêmeas não estavam preocupados comigo. Eu sou ágil, rápido e forte, até superei todos nos últimos três exames de treinamento. Agora, eles tinham que se preocupar com Felix, porque eu estava no modo caçador e não havia nada que eles pudessem dizer ou fazer que me fizesse ouvir.
Parece que vou ter descobrir por conta própria.
― Você vai cometer um erro, moleque.
Apenas ignorei, e me levantei.
― Se eu fizer isso, vai ser o meu próprio erro. Pode deixar, que vou lidar com as consequências.
Bang Chan franziu os lábios, quando comecei a andar em direção ao corredor, gritando rapidamente.
― Não o mate, Hyunjin! Estamos falando a verdade!
[...]
Eu não conseguia dormir. Mal me lembrava de ter chegado ao Tribute Center, além do solavanco abrupto do trem e dos discursos excitados de Jisung.
― O Distrito Doze tem os quartos mais bonitos! Nós temos a cobertura, não é incrível?
Penso nas pessoas em suas casas, se encaminhando para suas camas, imagino minha casa, com suas persianas cerradas. O que minha mãe estaria fazendo a uma hora dessas? Será que ela conseguiu comer a ceia? O cozido de peixe e os morangos? Ou será que eles ficaram intocados em seu prato?
Será que ela assistiu à reprise dos eventos do dia na velha, e acabada televisão que fica na mesa encostada na parede? Certamente mais lágrimas se seguiram. Será que minha mãe está conseguindo se controlar? Ou será que já começou a tirar o corpo fora?
A imagem daquele velho e desprezível Buttercup, se postando na cama para tomar conta da minha mãe, me conforta. Se ela chorar, ele encostará o focinho em seus braços e se enroscará ali, até que ela se acalme e caia no sono. Estou muito contente por não tê-lo afogado. Imaginar minha casa, me faz sofrer de solidão.
Se eu tiver de chorar, agora é o momento para isso. De manhã já terei sido capaz de enxugar os estragos causados pelas lágrimas em meu rosto. Mas não há nenhuma lágrima, estou cansado e entorpecido demais para chorar. A única coisa que sinto é um desejo de estar em qualquer outro lugar. Mas o sono não veio para mim a noite toda.
Meus aposentos são maiores do que toda nossa casa. São elegantes como o vagão do
trem. Mas também possuem tantas geringonças automáticas, que tenho certeza de que nunca terei tempo para apertar todos os botões.
Só o chuveiro possui um painel com mais de cem opções a escolher: regulagem da temperatura da água, pressão, sabonetes, xampus, essências aromáticas, óleos e esponjas para massagem. Quando você sai do boxe e pisa sobre um capacho, aquecedores são acionados para secar seu corpo.
Eu tinha apenas algumas semanas até a morte. Tudo insinuava que estava andando por uma névoa nebulosa e densa, como se houvesse uma nuvem espessa sobre meus ombros. Era difícil respirar através da nuvem, e ainda mais difícil de digerir qualquer situação. Jisung e Changbin, estavam na minha cola desde as cinco da manhã. Me seguindo e marrastando para fora do meu novo quarto.
Jisung até escolheu minhas roupas e divagou; A diferença, foi que não disse uma palavra, mas enviei a Seungmin uma expressão confusa, quando ele bateu com força em meu ombro esta manhã. Mas eu o entendi, ele queria vencer. Seungmin não havia desistido igual à mim. Para ele, sou uma ameaça. E não podia culpá-lo por lançar olhares de raiva, mais do que falar com alguém.
No instante em que me sento, servem um enorme prato de comida. Ovos, presunto e pilhas de batatas fritas. Uma terrina de frutas está sobre um leito de gelo para manter a temperatura. A cesta de pãezinhos que é depositada à minha frente, manteria minha família alimentada por uma semana. Vejo um elegante copo de suco de laranja, pelo menos, parece ser.
Só provei suco de laranja uma vez na vida, na festa de ano-novo, quando meu pai comprou um frasco especialmente para a ocasião, e uma xícara de café. Minha mãe adora café, item que quase nunca tínhamos condições de ter em casa, mas, para mim, o gosto é amargo e sem densidade. Uma xícara de uma robusta substância marrom que jamais vi na vida.
Havia outro homem sentado na mesa. Quando fui puxado para fora do dormitório, pro café da manhã. Ele tinha cabelo roxo e feições afiadas. Mas não pulou imediatamente em meu pescoço, e nem prendeu suas garras ao redor do meu corpo, como muitas outras pessoas do Capitol.
Tento focar na conversa, quando uma garota coloca duas fatias de bolo, com um visual esplendoroso sobre a mesa e o ilumina com destreza. A vela se acende e então, as chamas ficam tremeluzindo ao redor da borda. Até que finalmente somem. Fico em dúvida por alguns instantes.
― Tá, agora vamos discutir sobre roupas? — Changbin se arrastava entediado pela mesa de centro. Fazia dez minutos que todos estavam em silêncio, desde que cada um sentou no seu lugar. — Minho, você não vai conseguir! Ao invés disso, está assustando os meus Tributos.
― Por favor. Como se você tivesse mais interesse neles, do que naquela garrafa de whisky, no bolso do seu casaco.
Observei Jisung gargalhar, não era desagradável ou de alguma forma irritante. Foi como um vislumbre de diversão genuína se acumulando. Changbin também não pareceu ofendido, ele apenas se moveu para cair ao lado do recém-chegado.
― Sim, precisamos atualizá-lo sobre algumas coisas.
Com certeza, ele não têm a mesma arrogância que muitas pessoas do Capitol tinha. Mas esse tipo de conhecimento caindo sobre mim, me deixou cego para o que estava acontecendo. Porque o olhar que Minho lançou para mim, era como se ele pudesse ver através de minha alma.
― Meu nome é Lee Know, e estou honrado em ser o estilista do Distrito Doze, este ano. Lamento que isso tenha acontecido com vocês dois. — os olhos de Minho se voltaram para Seungmin. — E estou feliz em ajudar, de qualquer maneira.
― Você deveria apenas parabenizá-los! — Changbin falou, lentamente.
Minho riu. Em segundos estava sério novamente, quando ele se recostou para dar uma olhada em Changbin.
― Lembra da última vez que te parabenizei, hyung?
Seungmin limpou a garganta, assim que o riso começou.
― Não seremos apenas mineiros de carvão? Como todos os anos?
Ouvi a cadeira do meu lado se aproximando, Jisung estendeu a mão para pegar os biscoitos na mesinha de centro; respirei fundo, pois parecia estar esquecendo que não era o único nessa situação. Era horrível da minha parte ficar feliz, por não estar sozinho nessa?
Claro. Seungmin estava aqui, mas evitou toda a minha existência. Os outros não me tratavam como se eu já estivesse morto. O que, honestamente, era bom. Preferia não pensar muito sobre o que estava por vir.
― O desfile dos tributos, é amanhã. — Minho começou. — Nós deveríamos discutir como devem se vestir, depois que os assistentes limparem e prepararem vocês dois, mas eu queria conhecê-los antes, para discutir toda a coisa do mineiro de carvão...
― Para que serve o desfile? — resolvi dizer as primeiras palavras, que evitei falar o dia todo.
Changbin respirou fundo e praticamente estremeceu ao olhar para mim. Jisung se aproximou um pouco mais. Seu braço movendo-se para cobrir as costas do meu assento, com seus lábios pressionados em uma linha.
― Seu distrito não transmitiu?
― O Distrito Doze só transmite as entrevistas e... os Jogos em si. — respondeu Seungmin.
― Entendo... bem, é para mostrar vocês ao Capitol. — Minho murmurou, um brilho de interesse passou em seus olhos, antes de se inclinar sobre a mesa para apontar em minha direção. — Vocês dois são igualmente lindos, tenho certeza que haverá padrinhos o suficiente.
Me afundei na almofada, Jisung sorriu por cima da cabeça para os outros, praticamente arrulhando.
― Por favor, não jogue cinzas em nós! — Seungmin reclamou, com um acesso de raiva.
Mordi o lábio, e dei um aceno em concordância, quando todos olharam para mim — eu preferia não estar coberto de cinzas. Não precisar respirar aquele ar tóxico, é gratificante.
Minho cantarolou.
― Eu não quero fazer isso. Prefiro fazer algo que eles vão se lembrar. Já lhes explicaram, sobre tentar conseguir patrocinadores?
― Seungmin responde e faz cara feia demais e Felix não fala muito. — Changbin comentou, com um suspiro profundo.
Torci o nariz com o comentário, mas não podia reclamar. Jisung se aproximou ainda mais, os dedos acariciando minha nuca discretamente. Changbin estreitou os olhos, advertindo-o, mas Jisung apenas ignorou, e se inclinou para chegar perto do meu rosto.
― Acho que poderíamos trabalhar nisso, não podemos, querido? Se você falar um pouco mais, o Capitol vai ver o quanto você é lindo.
Minhas bochechas ficaram rosadas.
O Capitol já tinha interesse no Distrito, devido ao fato de ter me voluntariado. Eu havia feito um grande show, sendo o primeiro Tributo Doze a se voluntariar.
Todas as lágrimas que derramei, praticamente abriram um buraco nos corações frios do Capitólio. O que dizia muito, considerando que os habitantes da Capital, viam as pessoas se matarem por diversão. Já estava um passo à frente, e nem sabia ainda. Só precisava me esforçar um pouco mais.
― Então, o desfile é apenas para ser observado? — Seungmin zombou. — Parece que somos apenas um colírio para os olhos.
Ninguém poderia argumentar, porque ele estava certo. Nós éramos. E mesmo que Changbin protestasse, enquanto o garoto se levantava para ir embora, ninguém poderia dizer que ele não estava certo. Nós estavamos lá, apenas para fingir que tínhamos uma chance. Todos olharam para mim quando Changbin caiu em seu lugar, e esfregou sua têmpora.
― Hum, — apertei os lábios, mexendo nervosamente na camisa. — o que eu preciso fazer?
― Vamos começar com a sua imagem. Todo mundo se pergunta por que você se voluntariou, o que você vai dizer?
Comecei a me sentir um pouco enjoado. Molhei os lábios e puxei os dedos. Meu primeiro instinto foi olhar para Changbin, e o outro imediatamente baixou a cabeça e suspirou.
Isso não foi um bom sinal, basicamente confirmou o que Changbin havia pensado, presumido — que apenas havia me oferecido, porque senti, que não tinha outra escolha.
― Nós vamos contar a eles uma história triste.– disse de repente. Se levantando, com olhos fixos em mim. — Nós vamos dizer, que você não suportava mais ver nenhuma criança se machucar, então, você decidiu se voluntariar. Pode fazer isso?
Comecei a tremer visivelmente, até quando Changbin se endireitou, para se ajoelhar na minha frente, repousando suas mãos em cima do meu joelho.
― Eu... sim!
O mais velho sorriu só um pouco. Pegou minha mão trêmula, esfregando o polegar para frente e para trás nos nós dos meus dedos.
― Você precisa conquistar as pessoas. Eles vão te amar, só precisa ser você mesmo, pode chorar no momento que sentir vontade. Mas tem que tentar nesses Jogos, ok?
― Eu... — engoli em seco. — vou tentar, hyung.
Changbin podia ver através de uma mentira como essa, especialmente quando estava tremendo do jeito que estava, mas ele apenas sorriu e apertou minha mão com mais força, elogiando.
― Bom menino. Agora, vamos levá-lo ao Tribute Center.
(🧭)
Por enquanto as coisas estão calminhas, né? Mas aguardem só um pouquinho, que lá vem tiro, porrada, e bomba!
Hyunjin vai ser um porre por um tempinho, mas não se preocupem, que ele vai melhorar.
Ah, e não irei postar dois capítulos por semana. Essa foi uma pequena exceção para vocês terem mais um capítulo 'pra ler, nessa reta inicial. Normalmente, se tudo der certo, postarei um capítulo por semana, toda segunda-feira.
Beijinhos, e até o próximo capítulo! 💜
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