21

Sander retorna com um feixe de folhas amarradas. Seus olhos estão inchados e vermelhos como se estivesse há semanas sem dormir ou tivesse, no mínimo, chorado por um longo tempo. Acho tão bizarro o mero conceito de que possa ter emoções. Que tenha condições de sentir algo.

Ele nos encara e se demora em mim, estudando-me. Sabe que agora eu já sei o que sei. E quer saber o que penso.

Ergo o queixo e dou o melhor olhar que imagino comunicar:

Isso não muda nada, Sander Kravz.

— Talvez você devesse ir ajudar o rapaz — Doutor Salz diz, voltando a se sentar com dificuldade, assim que Sander, com uma careta de desgosto, se retira novamente. — Vá fazer um tour pela nossa bela prisão.

— Obrigada, acho que prefiro ficar por aqui — respondo, voltando a sentar-me no chão rochoso.

Antes um covarde do que um assassino de crianças, certo? Aqui pelo menos ouço histórias interessantes sobre o passado de Tibbutz. E posso tentar extrair informações de como cair fora.

— Ao lado de um velho como eu? — Ele ri levemente e tosse. — Você deveria buscar amizade com alguém da sua idade. Com um rapaz?

Faço uma expressão de nojo.

— Com Sander Kravz? É sério isso?

— Bem, a vida é longa e ser um Imperdoável pode se tornar bem solitário... — ele cantarola e ri, retomando a tarefa de costurar pratos.

Aí percebo que está apenas me provocando. Reviro os olhos e balanço a cabeça negativamente.

— O senhor sabe que existe... um lance entre eu e o seu filho. — Não me sinto à vontade para mentir a respeito disso, mas ao mesmo tempo penso que seja uma resposta convincente. "Um lance" não é longe da verdade.

Doutor Salz para o trabalho e me encara com uma expressão de infinita pena.

— Querida... Não existe nada entre você e meu filho.

Nossa. Ouvir isso em voz alta dói mais do que pensei que faria. Ele não está longe da razão, mas... nada é um pouco forte demais, mesmo nas atuais circunstâncias. Estou prestes a falar que Raah me beijou e tal, mas o senhor se adianta e interrompe minha pretensão de defesa.

— Para todos eles, você não existe mais — ele explica. — Esqueça da outra vida. Ela já é passado agora.

Alongo meus braços para o alto, inspirando fundo, contemplando as formas alternativas sobre como posso reagir a esse conselho. Por fim, resolvo abrir o jogo.

— Com todo o respeito, não estou planejando passar muito tempo aqui.

— Oh, não. — Dr. Salz me observa com um misto de compaixão e exasperação. — Você não pode voltar, minha querida. Nunca mais.

— O senhor não entende. — Sorrio em retorno de forma condescendente. — Eu precisovoltar. Eu tenho que... — Então lembro que o homem não sabe que sua filha está à beira da morte e mudo o discurso — Tenho algo a realizar. Quer dizer, é uma caverna. Tem que haver uma forma de sair daqui.

— Você não entendeu. — Seu olhar se aprofunda e escurece com contrição e pesar. — Estamos na pior prisão já criada. Uma da qual é impossível escapar.

— Impossível? Não, não — insisto, forçando um sorriso confiante e balançando a cabeça negativamente. — Sempre há uma maneira de escapar.

— Querida... eu garanto. — Ele desvia o olhar e enxuga a testa com as costas de uma mão. — Você nunca mais deixará essa prisão.

Há tanta convicção em sua voz que qualquer pouca confiança que sinto a respeito de fugir se esvai. Doutor Salz é, em primeiro lugar, um doutor. Em segundo, um legítimo tibbutzino. Em terceiro, está há anos e anos aqui. Se está dizendo que nunca mais sairei daqui, certamente deve ter seus motivos para acreditar nisso.

É levando isso em consideração que um silencioso desespero, que me recuso a reconhecer totalmente, começa a se espalhar como uma onda gelada a partir do meu peito até o resto dos membros do meu corpo. Em todo esse tempo eu encaro o portador das más notícias, me recusando a demonstrar tal transformação interior.

Meu cérebro trabalha com tanto vigor para contrapor sua afirmativa que quase sou capaz de sentir os impulsos nervosos atravessando com um violento furor pelas sinapses, abrindo caminhos onde não haviam antes. Ao menos essa é minha explicação para o retorno repentino da imagem mental que surgira em meu cérebro apenas por meio segundo na primeira vez que eu vira o Doutor aqui nesta caverna. Sua silhueta na forma de uma figura fosca e ondeante, velada por uma cortina d'água.

— A gruta. — Recordo repentinamente com um salto. — Eu vi uma sombra na gruta. Era o senhor! — brado, semi-triunfante e semi-desconfiada. — Tem que ser possível sair daqui!

— Sair? — Ele ri, levemente, e fecha os olhos. — Sim. Você não está prestando atenção, mocinha. Sair nunca foi a questão. A questão é escapar da prisão. Sabe o que aconteceria se você fosse vista por alguém lá fora? Se alguém sequer suspeitasse que gostaria de fazer uma visita à cidade? Todo cidadão de Tibbutz está legalmente autorizado a executar imediatamente um Imperdoável à vista. E nenhum patriota deixaria de fazê-lo.

— Executar? — questiono, aturdida. — Mas, por quê?

— Esta é a pior prisão já inventada, minha querida. — Ele olha ao redor com olhos vazios. — Uma prisão sem grades ou paredes. Se estas existissem, teríamos ao menos a esperança de encontrar escapatória. A crueldade de nossa situação é que temos a ilusão de liberdade, mas vivemos sob a eterna condenação da sociedade. É como a morte, só que pior.

— Então... se eu não for vista... — sugiro, recusando a desistir tão facilmente.

Não lutei minha vida toda para conseguir uma vaga em Tibbutz só para no fim passar o dia inteiro trancafiada conformada numa caverna.

— Não se engane. — Seu rosto enrubesce com tons escuros e irregulares, as sobrancelhas contraídas no meio da testa. — Não só será morta, como todos nós seremos severamente punidos — sibila, furioso, o cabelo grisalho se erguendo no topo da cabeça como um topete malcriado.

Eu me retraio com a reprimenda. Estou acostumada a receber esse tipo de bronca do Raah, mas vinda de alguém tão mais velho, instintivamente sinto que necessito responder com respeito.

— Todos nós? — pergunto miudamente. — Quantos imperdoáveis há, afinal?

— No momento, espalhados pelo nosso espaço autorizado, algumas centenas. Somos uma boa comunidade. Trabalhamos. Sobrevivemos. Tente se adaptar — aconselha, um pouco mais controlado. — O único motivo pelo qual está viva é que você ainda é vista como alguém que pode ser útil para a sociedade. Se acharem que não podem mantê-la na linha, no entanto...

— Quer saber? — Interrompo, pressionando os lábios um contra o outro e expiro pelo nariz. — Eu acho que eu vou... — Aponto com um polegar na direção que Sander saiu pela última vez. — Eu acho que vou lá dar uma olhada.

O homem consente com o rosto, parecendo ligeiramente ofendido, e eu mordo meu lábio inferior. Não queria ser desrespeitosa, mas ouvi-lo por mais tempo seria permitir que sua influência se tornasse ainda mais forte em mim e já luto o suficiente com inseguranças e auto-questionamento para permitir mais essa voz me injetando dúvidas.

Isso é algo que sempre me chamou a atenção a respeito de pessoas mais velhas. Não de todas, mas aquelas que têm essa aura sobejante de amargura e arrependimento sobre si. Uma tendência de transformar fracassos em regra de vida, entitulando-as "experiência". É como se, em algum momento de suas vidas, tivessem deixado de acreditar nas possibilidades e toda sua energia se volta para nos convencer de que não há outro caminho; energia esta que ainda poderia estar sendo utilizada para coisas tão proveitosas.

Porque se houver de fato outro caminho, isso significa talvez que não tentaram o suficiente ou não foram bons o bastante para encontrá-lo. E, quem somos nós, jovens, para descobrir algo que não foram capazes? Que significado têm suas vidas se alcançarmos... mais?

E o que está se tornando cada vez mais claro para mim é que o Doutor Salz continua o mesmo conformista acovardado de sempre. A única diferença é que agora o faz do outro lado das grades. Figurativamente falando.

Digamos que estou tentando extrair leite da vaca errada. Essas tetas já secaram faz tempo.

Se quero sair daqui, talvez eu devesse tentar procurar alguém que nem sempre joga de acordo com as regras. Alguém disposto a arriscar.

Mesmo que esse alguém seja a pior espécie de pessoa nesse planeta.

Nota da Noemi:
Não resisti diante dos pedidos fofos 😍 por isso postei mais um capítulo 💕
Não esqueçam do votinho e do comentário

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