Capítulo 57
"Eu sou uma estrela
Que brilha no céu à noite
Se eu cair uma vez, vou deixar para lá e me levantar
Tenha força, está tudo bem
Eu estou bem aqui,
Você é linde como você é
Um futuro brilhante e deslumbrante está diante dos meus olhos."
— Return, Wendy.

2021.
Entreguei para o assistente no cartório o número da minha senha assim que me sentei desajeitado na cadeira e deixei as muletas ao lado da mesa do atendimento.
— Boa tarde. — falei sem expressão e o atendente me olhou confuso. Pegou o comprovante da senha e digitou alguma coisa no computador.
No momento em que cheguei ao cartório, fui direcionade para uma máquina que pedia o tipo de serviço que eu gostaria, e só depois me fornecia uma senha com um código em um comprovante amarelado. Foi esse código que o atendente digitou e viu o tipo de serviço que eu havia escolhido.
— Bom dia, eu sinto muito. — Ele falou desconcertado. Ninguém sabia falar com as pessoas nesses momentos, comecei a perceber isso. — Vou precisar de alguns documentos do requerido, eu tenho uma lista...
— Já tá aqui. — estendi o envelope de papel com os documentos do meu pai e a declaração de óbito feita pelo médico. — Não é a primeira vez que eu faço isso.
O atendente coçou a garganta e abaixou os olhos em direção ao envelope, o qual pegou com cuidado. Ele o abriu e colocou todos os papéis na mesa, folheando-os um por um e marcando um "x" na lista ao lado.
— Obrigado. Seu documento de identidade, por favor.
Entreguei meu RG, ele olhou a frente e o verso e depois me encarou.
— Nome diferente.
— Sou trans, eu que escolhi. — respondi sem reação alguma, já estava pouco me fodendo pra qualquer coisa.
— Bah, sério? Qual foi a inspiração? — O atendente me surpreendeu com a pergunta e ergui as sobrancelhas, surprese. Ele notou como fiquei e começou a gaguejar. — D-Desculpa, só fiquei curioso, eu nunca fiz um pro-processo de retificação aqui antes e eu-
— 0,01% do Brasil se chama Jason. — Interrompi suas desculpas e percebi que era a primeira vez que alguém perguntava a origem do meu nome, conquanto eu sempre tive a resposta para isso e nunca a usara. — Pessoas com esse nome são excêntricas e idealistas, tem a mente criativa, mas também são muito instáveis. — Dei um sorriso triste e o atendente arregalou os olhos, surpreso que eu estava respondendo sua pergunta de forma séria. — Dizem que têm uma personalidade confiável, prática e planejadora, são estrategistas e sempre buscam conhecimento. A única parte ruim é que significa "Deus é a salvação."
— Por que isso é ruim?
— Porque não acredito em Deus, e mesmo se acreditasse não foi Ele quem me salvou. — Voltei à expressão apática e o atendente abriu a boca, surpreendido por minhas palavras. — Quanto vai ficar?
Ele demorou para entender que eu estava falando sobre a certidão de óbito outra vez. Quando se deu conta, gaguejou de novo e disse que logo iria me passar o valor.
Após alguns minutos de atendimento, me levantei com as muletas e fui para a saída do cartório. Charlie me esperava do lado de fora, mesmo insistindo para entrar comigo eu disse a ele que queria fazer isso sozinhe.
Assim que me viu, ele abriu seu aplicativo para pedir um motorista. Eu me sentia um pouco mal por vê-ló gastando dinheiro desse jeito por conta da minha perna, pois eu não poderia dirigir por um bom tempo e sequer pegar ônibus nesse estado.
— Vamos logo pra casa, sua irmã tá chegando! — O guri se aproximou e me ajudou a descer as escadas do cartório que possuía zero acessibilidade. — Ela me ligou enquanto tu tava lá dentro e eu contei um pouco do que aconteceu.
— O que tu falou? — Fiquei com medo de Charlie ter me exposto demais, ele era bom em fazer isso mesmo quando o fazia na inocência ou com boas intenções.
— Só sobre o que aconteceu hoje, deixei o resto contigo. Não se preocupa. — Ele me deu um sorriso que revelou uma pequena covinha e aquilo me acalmou em parte.
Charlie parecia ser a única coisa leve e doce no meio do caos que minha vida se tornou.

Eu não sabia o quanto eu estava sentindo falta do abraço de Camila, até recebê-lo.
Mesmo sendo alguns meses mais velha do que eu, ela era menor em questão de altura. Seus cabelos, loiros como os da mãe, estavam em um rosa desbotado que batia nos ombros — cor também presente no seu casaco e no piercing holográfico do seu nariz.
Mesmo mais baixa do que eu, a sensação era de que eu quem estava sendo envolvido no seu abraço. Me abaixei um pouco para ficar na sua altura e ela passar os braços ao redor das minhas costas e afagá-las.
Diferente de mim, Camila não chorava. Quanto à Charlie, ele apenas olhava surpreso para nós dois abraçados no meio da sala de casa, cinco minutos após sua chegada.
Era bom ter um membro da família por perto.
— Charlie me contou o que houve... — Camila se afastou para olhar meu rosto, seu braço me segurava bem pela cintura pois eu estava apoiado em uma perna só; não aguentei esperar por ela quando a vi e saí "pulando" pela sala, foi até vergonhoso. — Eu preciso que tu me conta tudo.
Concordei com a cabeça e esfreguei os olhos com as mãos para tirar as lágrimas, eu não sabia por que estava chorando tanto.
— Vamo' sentar.
— Isso, tu tem que ficar sentado. — Ela assentiu e me ajudou a chegar até o sofá.
— Ahn, desculpa atrapalhar os dois, mas... — Charlie deu alguns passos em nossa direção. — Vocês são gêmeos?
— Bah, Charlie, tu sabe que nossa mãe é diferente!
— Mas vocês são... Idênticos. — Ele falou com uma surpresa absurda e soltei uma pequena risada, mais leve. Charlie tinha o dom de acalmar os ânimos de qualquer um com aqueles comentários. — Sério, se tu pôr uma peruca rosa vai ficar igual tua irmã, que assustador.
— Como o Jason é bonito, eu acho que é um elogio. — Camila sorriu tímida. — Valeu, Charlie.
O guri sorriu sem mostrar os dentes e a campainha da casa tocou. Automaticamente prendi a respiração e peguei na mão de Camila, sentada ao meu lado.
— Ai, Jason! — Ela se assustou com o movimento e olhou para mim, mas eu estava concentrado na porta. Charlie notou meu susto e correu para o local, abrindo-a logo em seguida.
— Sammy! — Ele terminou de abrir a porta e abraçou a negra de cabelos soltos e cacheados, a qual usava uma máscara de tecido preta. O aperto na mão de Camila diminuiu e ela massageou a região, avermelhada pela pele extremamente branca.
— Desculpa. — sussurrei com vergonha e abaixei o olhar. — É que... É uma coisa que tenho que contar também. — falei baixo por estar sem graça, já que Charlie e Samantha agora se encontravam no mesmo cômodo.
— Guri! — Sam correu até mim e deu a volta na mesa de centro para não passar por cima da minha perna. Ela se abaixou para me dar um abraço rápido e percebeu a presença de minha irmã ao lado. — Tu é a irmã do Jason?
— Charlie contou pra ti? — perguntei.
— Não, mas é que vocês são parecidos. — ela disse surpresa e se virou para a Camila. — Prazer, Samantha. — A guria ergueu a mão tímida em um aceno e minha irmã sorriu, notei que ela estava um pouco envergonhada, pois mexeu em uma mecha do cabelo.
— Camila, prazer. — A loira de cabelos rosas esboçou um sorriso leve e fiquei em choque ao ver seu rosto acompanhando a cor dos seus fios.
Camila não era hétero?!
— Bah, então, vocês tão ocupados então eu vou... Pra lá com o Charlie. — Samantha apontou para uma direção qualquer. — E depois eu falo contigo, pode ser?
— Tá de boa. — Assenti e Samantha se afastou, visivelmente sem graça por nos interromper. Charlie disse a ela para irem à varanda da casa e voltei minha atenção à Camila.
Com o afastamento de Samantha do cômodo, era como se nada tivesse acontecido e ela voltara ao semblante triste e preocupado de antes. Não havia como comentar nada sobre a forma com que ela olhou para a guria.
— Agora me conta tudo, por favor. — Ela pousou a mão em minha perna estendida para comportar o pé na mesinha e me olhou atenta. — Porque eu sei que teu choro não é por sentir saudades do pai. Eu só vou ter uma opinião sobre isso e decidir se vou chorar ou ficar aliviada depois que tu me contar a verdade.
A frieza de Camila era impressionante, me perguntei se isso era algo de família. Que ótima herança nosso pai nos deu.
Éramos parecidos demais.
E então contei tudo: literalmente, desde quando Max dizia que eu era uma aberração aos oito anos, às idas ao médico durante a adolescência, o bloqueador hormonal, a cirurgia, a testosterona, as lições que ele me dava dizendo que eu precisava disso e aquilo para me tornar um homem e que foi difícil me desgarrar daquilo para começar a entender minha identidade não-binária. Contei de quando ele me batia sempre que descobria que eu havia ficado com algum guri, que mudávamos de endereço por minha causa para que eu nunca mantivesse relações com outras pessoas por tempo demais, pelo medo de descobrirem sobre meu gênero.
Quase duas horas se passaram enquanto eu ainda falava e Camila apenas ouvia, vez ou outra erguia as sobrancelhas ou balançava a cabeça, incrédula com algo. Contei sobre como foram os últimos meses com medo de sair de casa, sobre a quarentena com Charlie e a criação do meu canal de vídeos que eu sabia que não poderia atualizar por um bom tempo por não estar com cabeça para aquilo. Contei sobre Ricardo e Paloma, dei detalhes sobre o processo e também disse mais coisas do passado, de como eram as consultas com a psicóloga e minhas relações com outros adolescentes. Falei até sobre como meu pai me forçou a transar com uma mulher e que, mesmo sendo bissexual, eu não conseguia me relacionar nesse nível com alguma guria por conta daquilo, mesmo quando eu queria.
Essa parte foi a mais difícil, pois eu nunca havia sequer comentado sobre isso com Charlie. Camila ficou surpresa quando contei a ela.
— Sério, eu sabia que o pai era uma pessoa conservadora demais... Mas isso é o tipo de coisa que os pais faziam com os filhos há vinte anos atrás.
— É mais comum do que tu pensa, a... — Travei ao continuar, mas Camila continuava a me encarar concentrada e me forcei a prosseguir. — Mulher disse que eu não era o primeiro a... Fazer isso aí.
— Tu já falou disso com alguém? — Neguei com a cabeça. O assunto criou um escudo mental em meu corpo e minha reação física foi abraçar meus próprios braços. — Tu deveria buscar ajuda, contar essas coisas te faz superar melhor.
— Eu tenho vergonha. — Virei o rosto e fixei meu olhar na perna engessada, que por sinal possuía vários desenhos feitos por Charlie.
— Quer me contar? Sou tua irmã, sabe que pode contar comigo.
Refleti sobre isso. Mesmo com pouco contato, a intimidade que eu tinha com Camila sempre seria eterna, pois éramos irmãos.
Mesmo assim, eu não podia fazer isso por enquanto.
— Eu não quero falar disso agora, desculpa. — fiquei ainda mais envergonhado e pressionei as unhas na pele dos meus braços. Camila notou meu movimento e se aproximou, me impedindo de continuar.
— Não faz isso. Tu não te cortou mais não, né?
— Como tu sabe? — Um arrepio horrível percorreu meu corpo e arregalei os olhos, assustade.
— Eu notava, só nunca soube como falar disso antes. Agora que tu tá crescido e eu tô mais madura, posso te ajudar melhor. É sério, Jason, a gente devia ter sido mais próximo.
— Foi tu que disse pra eu falar contigo de novo só quando eu parasse de fumar... — falei magoado pela nossa briga antiga.
— Tu leva as coisas muito ao pé da letra! Tua sorte é que tu tá todo ralado, senão eu te dava um tapão! — Ela reclamou e cruzou os braços. — Aliás, tu parou?
— Lógico que não!
— Mas que droga, Jason! Tu tem que parar! — O olhar de Camila para mim era de pura irritação. — Isso tem a ver com o pai também, né? Foi ele que te ensinou?
— Não é que ele ensinou, mas ele nunca reclamou. — Dei de ombros.
— Sério, se um dia ele tiver câncer e... — A voz de Camila morreu no meio da frase e ela pressionou os próprios lábios em uma linha.
Sua ficha não havia caído.
Minha irmã respirou fundo e olhou ao redor da sala, cortando nosso contato visual. O silêncio ficou doloroso de repente.
— Essa casa tá no nosso nome, tu sabe. — Ela mudou de assunto.
— Sei.
— A gente vai vender, cada um fica com metade e tu vai morar com a tia Andressa.
— Quê? Por quê? — Me mexi no sofá, surpreso com seu plano dito na hora.
— Porque tu vai precisar ficar em repouso e fazer fisioterapia quando tirar esse gesso. — Camila prosseguiu sem ainda olhar para mim. — Tua mãe vai cuidar bem de ti, e quando tu puder andar de boa de novo vai usar o dinheiro da casa pra arrumar um lugar pra ti e começar a trabalhar.
— Não posso ir embora... A faculdade. — Me agarrei ao que eu tinha em Esplendor. Eu não queria me mudar outra vez.
— Tu pode trancar e continuar em outra faculdade, perto da tia. Não é tua prioridade agora.
Eu não estava gostando daquilo. Camila chegara depois de tanto tempo e já estava com um plano formado sobre meu futuro. Infelizmente eu precisava concordar de qualquer forma, pois a ideia geral era boa.
— Eu ainda preciso resolver as coisas do processo aqui...
— O processo vai acabar, Jason. — Camila voltou a me encarar e foi quando notei que seus olhos estavam vermelhos e brilhantes por lágrimas que estavam presas. Sua voz saiu com uma emoção contida. — O pai tá morto. Sai dessa cidade e vai viver, pelo amor de Deus.
Engoli em seco e encarei o chão, sem coragem de continuar olhando para a minha irmã.
Eu sabia que ela estava certa. Era hora de dar adeus àquilo tudo e começar de novo, por mais assustador que fosse.

Não acredito que só falta o último cap e o epílogo ;(((
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