Capítulo 53
"Você e eu, todos sentimos isso juntos
Tristeza e dor
Elas nunca são uma coincidência
Sim, nós escolhemos este jogo."
— Louder Than Bombs, BTS.

2021.
Era impossível me concentrar.
Eu estava sentado na mesa de jantar, aguardando o notebook ligar. Próximo a mim, Samantha estava guardando sua câmera na bolsa própria para transportar aquele tipo de equipamento profissional.
— Quando vai chegar a que tu pediu? — A guria perguntou enquanto fechava o zíper da bolsa, eu havia comentado com ela que iria comprar uma câmera própria para não ter que pegar emprestado o tempo todo.
— Semana que vem, tá de boa.
— Se precisar antes disso é só falar, é que sábado agora eu tenho um ensaio.
— Quem faz ensaio fotográfico na quarentena?
— Ela tá grávida de gêmeos, tá muito emocionada. — Ela deu de ombros e franziu as sobrancelhas. Igualzinho o Charlie. — Mas vamos seguir as orientações.
— Te cuida, sai de máscara e com álcool em gel. — Dei um sorriso mínimo e cruzei os braços, aguardando o notebook.
Imaginei que Samantha fosse ir embora logo depois disso, mas assim que colocou suas coisas dentro da mochila a guria apoiou um braço na cadeira e olhou para mim. Seus cabelos estavam totalmente presos em um coque para o alto e ela usava a jardineira de sempre, parecia apegada à peça.
— Por que não tá falando com o Charlie?
Fui pego de surpreso com a pergunta e respirei fundo para afastar a ansiedade que queria surgir.
— Vou falar com ele daqui a pouco.
— Mas é sobre a audiência, por que tu não falou com ele até agora? — Sam era incisiva e eu me senti desarmado. Queria ter uma resposta ácida para dar a ela e deixar por isso mesmo, mas eu já havia perdido essa habilidade há um tempo.
— Eu não sou bom com essas coisas de manter relação, nunca tive nem amigo direito.
— Acredito. — Ela ergueu uma sobrancelha única. — Mas não é só isso não.
Respirei fundo outra vez, controlando a vontade de não xingar a garota.
— Bah... Eu não sabia como continuar com... Isso que eu tinha com ele. E ele tinha que ficar em PA então não ia dar certo.
— Não tava a fim de relacionamento à distância?
— Não tô a fim de relacionamento. — Dei ênfase na última palavra e Sam balançou a cabeça, enfim concordando.
— Ok... Mas tu magoou ele, então pede desculpa.
— Pode deixar. — Me esforcei para não ser arrogante no tom de voz, pois me deixava incomodade ver Samantha tão preocupada com Charlie. Talvez ciúmes fosse a palavra, mas era ridículo.
Finalmente a guria foi embora e parou com as perguntas.
Não notei que o notebook já estava ligado há alguns minutos e então abri o e-mail para buscar o link da reunião que eu e Charlie faríamos, da mesma forma que fiz com Ricardo.
Ele não havia respondido meu e-mail, na verdade. Eu quem estava supondo que ele iria aparecer no horário que combinei sozinho.
Por isso, meu peito se acelerou absurdamente ao entrar no link e ver que ele já estava presente, com a câmera desligada.
A reação do meu corpo era imediata pela presença dele; minha nuca se arrepiava e eu sentia um levo tremor nos dedos pela ansiedade, a garganta se tornara seca de repente. Eu não sabia lidar com isso.
Digitei um "oi" no chat e liguei a câmera. Alguns segundos depois, Charlie fez o mesmo e eu quase prendi a respiração por ver o guri do outro lado da tela.
Estava o mesmo de quando o reencontrei em Porto Alegre; os cabelos voltaram a ser castanhos e curtos e ele usava uma blusa branca de gola alta, com um casaco jeans preto estilo destroyed por cima — um dos termos de moda que eu aprendi com ele, que era um jeans com rasgos na peça. Um brinco de corrente estava só em uma das orelhas e o queixo do guri estava apoiado em sua mão, com o cotovelo na mesa.
Ele estava fodidamente lindo e fiquei com vergonha de usar apenas moletom na gravação. Dava para ver que Charlie não estava em casa, provavelmente era a sala do trabalho.
— Oi. — Ele tomou a iniciativa de cumprimentar. — Consegue me ouvir?
— C-Consigo. — praguejei mentalmente por ter gaguejado. Logo eu, que zoava Charlie quando ele fazia isso.
— Ok, eu tô na gerência da Dotcom e nem sempre o sinal de internet é bom aqui. Se a conexão ficar ruim, me avisa.
— De boa. — Esfreguei as mãos nas pernas como uma reação ao nervosismo por ver Charlie ali, perto e longe ao mesmo tempo. Meu coração estava apertado e eu tentava não transparecer isso na minha voz.
— Tu disse que quer falar sobre a audiência, mas não remarcaram?
— Ahn, é... Mas a gente não falou disso até agora, então achei que era melhor se preparar.
A gente não havia falado sobre várias coisas, na verdade. Mas não seria eu a entrar naquele assunto.
— Tu acha que conseguem remarcar de novo em breve?
— Bah... Não sei. — As perguntas de Charlie estavam me deixando envergonhado. Vê-li ali, sério e falando aquelas coisas em uma calmaria estranha me deixava desarmado e com a situação fora do meu controle.
— Eu posso ajudar, se tu quiser. — Charlie tirou a mão do queixo e se reclinou na cadeira de escritório. Sua voz ficou um pouco mais distante, mas ainda era possível ouvi-lo bem.
— E-Eu acho que não tem muito o que...
— Mas tu quer ajuda? — Ele me cortou. Respirei fundo e meus ombros se encolheram.
— Quero. — Abaixei a cabeça, em tom menor. Não sabia dizer qual emoção estava sentindo exatamente, só que não era boa. — Mas tu não precisa fazer nada.
Charlie usou as duas mãos para jogar a franja de lado e inclinou a cabeça para cima. Voltei a olhar para a tela, eu sentia algo estranho no estômago por olhar demais para ele.
Eu nem parecia o Jason de antigamente.
— Por que, Jay?
Ele abaixou a cabeça de novo e olhou para o computador.
Eu não sabia com precisão sobre o que ele estava falando, mas nem precisava perguntar. Era um "por que" de vários questionamentos. Eu nem sabia por onde começar e nem sabia se eu queria, na verdade.
— Pode... Ser mais específico? — Estalei os dedos embaixo da mesa e encarei a tela. Charlie ergueu as sobrancelhas.
— Mais específico?
— É, por favor. — Pronto, a postura neutra e fria havia sumido completamente. Minha voz saiu quase implorando.
— Tá... Por que tu não quer minha ajuda?
— Não tô com moral pra isso. — Forcei um riso nervoso, Charlie continuou apenas me encarando pela tela.
— Por que tu sempre acha que não merece as coisas?
Abri a boca, incrédulo, mas não consegui dizer nada. Fiquei chocado com a franqueza de Charlie logo nos dois primeiros minutos de bate-papo, ele sempre gostava de me analisar, até demais.
— Porque sim, bah, que pergunta estranha... — Outra risada desconfortável. Balancei a cabeça e passei a mão na nuca.
— Tu sumiu porque achou que não merecia ficar comigo, agora não me deixa te ajudar porque acha que não merece depois de ter me ignorado por dois meses. Quando tu vai parar com isso?
Pisquei várias vezes, tentando processar o que ele disse. Como ele podia tirar essa conclusão tão rápido?!
— Bah, para de falar assim, Charlie!
— Mas é verdade! Tu tem que aceitar que tu tem esse problema pra começar a resolver isso!
— Caralho, como que tu é chato! — Dessa vez, a risada saiu alta e irritada. — Por que tu é assim? Vem me falar esse monte de coisa como se soubesse tudo da minha vida! Eu não sou um experimento de laboratório pra tu ficar analisando o tempo todo e criando teoria! Tu nem sabe o que eu tô passando!
Explodi de repente, o que fez Charlie erguer as sobrancelhas em surpresa. Ele mexeu na gola da blusa branca e pigarreou.
— É, não é a primeira vez que tu briga comigo por ser assim. Me desculpa... Eu também quero saber como você tá e o que tá acontecendo. — Charlie mexeu no cabelo de novo. Respirei fundo e apoiei minhas costas na cadeira, segurei o microfone perto da boca.
— Eu tô... — Procurei alguma palavra específica na mente, mas eu era ruim demais em me expressar. — Eu tô com medo dessa audiência nunca acontecer. Só consigo pensar nisso, fico o dia todo estudando sobre Direito pra me distrair, parei de usar o celular e não tô saindo de casa porque meu pai tá aparecendo direto aqui e eu finjo que não tem ninguém.
— Eu não sabia disso. — A expressão do guri foi de surpresa genuína.
— Não é o tipo de coisa que vou sair por aí falando, tchê.
— Tu devia era ter ficado aqui comigo. — Eu senti a intenção oculta de Charlie ao falar aquilo depois do meu desabafo. Ele destacou mais o "comigo" do que o "aqui" no tom da fala.
— Eu não queria te atrapalhar...
— Tu não tava atrapalhando. Caramba, Jason, tu nunca atrapalhou. — O moreno passou as duas mãos no rosto em um gesto cansado. — Tu é cabeça-dura demais.
— E esse é só um dos motivos da gente nunca dar certo.
— Mentira. — Charlie tirou as mãos do rosto, estava mais próximo da câmera. — A gente nunca dá certo porque tu não quer.
Sua frase dolorosa me atingiu em cheio e estalei os dedos da mão que não segurava o microfone, embaixo da mesa de novo. O jeito decepcionado que Charlie falou aquilo não era o que eu estava esperando, não naquela reunião que supostamente era pra ser sobre o processo.
— Charlie... — Respirei profundamente pela milésima vez e olhei para os lados, não queria ver sua imagem no notebook. — Não fala como se eu fosse o vilão.
— Não estou fazendo isso. — O vocabulário formal voltou, ele estava ficando irritado.
— Tu tá fazendo sim, tu não quer entender meu lado.
— E qual o teu lado, então? Por que tu realmente foi embora e me cortou da tua vida?
A pergunta que eu havia me feito desde o início, quando saí do seu apartamento em Porto Alegre e nunca mais o procurei. Eu sabia que boa parte do meu comportamento interpessoal era por culpa do histórico familiar, por meus pais me fazerem acreditar que eu não precisava sustentar relações com as pessoas porque eu iria me mudar alguma hora e perder o contato delas, ou porque eu estava transicionando meu corpo e elas não continuariam sendo minhas amigas, mas principalmente porque nunca tive confiança para ser íntimo de alguém, a ponto de querer mantê-lo por perto por meses e até anos.
— Jason? — Charlie chamou minha atenção, pois eu estava imóvel na cadeira. — Me responde.
Como sempre, ele era mandão. E eu sentia tanta falta disso que o peito chegava a doer.
— Eu... Eu fiquei com medo de continuar contigo e tu te envolver romanticamente com alguém. — falei mais baixo, envergonhade. Charlie ergueu as duas sobrancelhas.
— Isso é sério?
— Ahn, ou... — Cocei a parte de trás da cabeça, sem graça pelas coisas que eu estava dizendo. — Ou pior que isso, tu não te envolver com ninguém e ficar preso em uma coisa que nem tem definição direito, por minha causa.
Eu sentia o peso de cada palavra que eu dizia. Expor meus sentimentos não era nem um pouco fácil.
Meus olhos começaram a arder, mas me controlei. Proibido chorar.
— Jason... Você não devia pensar assim.
— Foda-se, eu penso, e eu ia me culpar muito se esse tipo de coisa acontecesse e se tu não ficasse completamente feliz no futuro, ficando do meu lado sem ter aquilo que tu quer.
— Tu acha que eu só quero romance? A minha vida não se resume a isso! Poxa, eu também quero ficar contigo! — A última frase me balançou e voltei a encarar sua imagem na tela. Eu queria tanto que aquela conversasse rolasse pessoalmente, mesmo sabendo que eu não teria coragem para tal.
— Mas até quando vai ser assim, Stewart? Tu não pensa da mesma forma que eu, tu nunca vai saber como é isso de não se sentir suficiente pra alguém.
— É sério que tu acha que nunca me senti assim? Caramba, Jason, olha pra ti! — Ele jogou o corpo para trás e começou a rir de forma estranha. — Tu é bonito, inteligente, descolado, engraçado, eu sempre me senti pequeno perto de ti porque tu tem uma energia e uma postura que me impacta demais! Eu nem acredito que tu tá agindo assim, quando tu que sempre foi o mais... Sabe? O mais foda! Eu nem acreditei direito quando descobri que tu era a fim de mim!
— Fala sério, Charlie...
— Eu tô falando muito sério! — Ele estava quase gritando no alto-falante. — Era eu que devia sentir que não era suficiente pra ti! Mas mesmo assim, eu quero tentar!
— Tentar o que, Charlie? O que tem pra tentar comigo?
— Eu sei lá! Mas eu queria tentar ficar contigo de algum jeito! É tão difícil assim pra tu entender? Nem dois meses depois de ficar sem você eu desistiria se tu ainda me quisesse!
Arregalei os olhos diante de sua confissão, e demorei para perceber que havia prendido a respiração. O cabelo de Charlie já estava bagunçado de tanto que ele o revirava, agoniado.
— Tu acha que eu não te quero? — Minha pergunta soou baixa pela vergonha que eu sentia de falar aquilo.
— Bom, tá agindo como se não quisesse. Dói bastante, se quer saber.
O guri passou as mãos nos cabelos uma última vez e se desencostou da cadeira para retirar a jaqueta jeans. Acompanhei com o olhar, vendo-o se livrar da peça e revelar a blusa de manga longa que se colava ao seu corpo.
— Tu é tão bonito. — Murmurei, mas eu sabia que Charlie escutou por ele vacilar por um momento e olhar para a câmera, e logo depois fingir que não havia feito isso.
— Eu preciso ir, mas a gente acabou não falando da audiência. Bom, me desculpa por desviar do assunto, a gente tenta de novo outro dia.
— Tá tudo bem. — Balancei a cabeça fracamente.
— É que eu queria ter dito essas coisas pra ti há um tempo, e só agora.. Bah, enfim. Sobre a data, eu te disse que vou te ajudar então daqui uns dias vamos conversar de novo. Pode ser?
— Claro. — Minha postura de ser aquele que dita ordens e horários de compromissos foi transferida para Charlie. — E desculpa por isso tudo.
Senti que o guri queria me dar uma reposta, mas ele pensou melhor e desistiu.
— A gente se vê. — Ele se despediu de forma neutra comigo e desligou a câmera. Eu estava um turbilhão de emoções.
Charlie era bom demais em acabar com qualquer estrutura e sanidade mental ainda existente dentro de mim.

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