Capítulo 51
"Esta cena e este momento
Me deixaram muito triste, pois não os apreciei
Espero que aconteçam de novo
Pois estou muito arrependido."
— Scenery, Kim Taehyung.

2021.
Respirei fundo pela terceira vez nos últimos dois minutos.
Eu me lembrava das palavras de Paloma e Ricardo: "tu não precisa fazer isso se tu não quiser." Limpei a lente da câmera de Samantha pela quase vigésima vez.
Me lembrei de quando fiz uma transmissão ao vivo, no perfil de Charlie. Havia sido uma sensação boa conversar com várias pessoas e me expressar daquela forma, mesmo com o desfecho negativo por conta do meu pai e dos comentários sobre linguagem neutra.
Respirei fundo de novo. Pressionei o botão acima da lente da câmera e comecei a gravar.

Isso tá gravando, né? Espero que sim... Bah, e aí! Sou eu de novo, por algum milagre da natureza. Tá, eu sei que já é tipo o... Quinto vídeo que eu gravo? Acho que sim. Mas eu sempre acho que vai ser o último porque não vou ter coragem de gravar outro, e também porque eu acho que vão me derrubar a qualquer momento quando eu acabar xingando sem querer. Então é um milagre eu tá aqui, mesmo!
Só que o vídeo vai ser um pouco diferente, porque, eu... Tô planejando gravar isso há muito tempo. Muito mesmo. E eu acho que isso vai fazer muita gente me olhar de um jeito diferente, por causa dos comentários que eu recebo às vezes. Não tô reclamando, eu gosto dessa coisas de interagir! Só que tô com medo de... Sei lá. Eu acho que tô enrolando.
Vocês sabem que eu comecei a me acostumar com rede social e isso de gravar vídeos por causa do Charlie Stewart, e eu tenho certeza de que alguém nos comentários vai me pedir de novo pra falar o que aconteceu com a gente, então eu já tô respondendo antes de perguntarem: não aconteceu nada, ok? Bah, somos amigos, ele passou um tempo aqui em Esplendor e voltou pra Porto Alegre, por isso que eu não apareço mais nos vídeos dele. Mas tá tudo bem, juro! Sério, se alguém me perguntar dessa parada mais uma vez eu vou postar um milhão de stories do Kim Taehyung.
Mas voltando ao que eu tava falando... Vocês também sabem que eu denunciei meu pai e tem um processo rolando. Eu sei que esse vídeo pode alcançar muita gente, e no início eu via isso só como uma forma de amedrontar meu pai e pra me encorajar a contar a verdade pra vocês, mas acabou tomando proporção... E eu não esperava por isso. Eu nunca me vi como... Alguém... Politicamente engajado com alguma coisa, mas eu admito que Charlie me inspirou e eu mudei minha opinião. E também porque eu acabei falando muito sobre orientações românticas por aqui, eu nunca encontrei representatividade arromântica na internet e eu queria pelo menos uma!
De verdade, eu achei que meus vídeos não iam chegar em muita gente e que só existiam, sei lá... Vinte arromânticos no mundo. Mas eu recebo tanta mensagem legal de gente de todo canto falando que se descobriu porque viu um vídeo meu, que dá nem pra acreditar. Eu sei que... Influenciadores? Não me considero um, mas enfim, sei que influenciadores da comunidade aroace são muito raros, e apesar de eu não ser ace, só aro, quero trazer sobre assexualidade pra cá também porque... Bom, é importante também. E eu percebi que tô fugindo do tema do vídeo, foi mal!
Agora é sério... Eu queria expor o motivo principal de eu ter denunciado meu pai. Eu já tenho todas as provas necessárias pra provar o quanto ele era violento comigo, mas... Bah, principalmente porque... Bom, ele é transfóbico.
Pois é. Ele é transfóbico, eu quero que ele seja preso por isso, não só por agressão. Eu sou uma pessoa trans.
Falar disso é difícil demais e... Caramba, que coisa ruim não poder xingar. Eu tô um pouco nervoso. Eu tô tentando usar só pronomes masculinos pra quem não tá acostumado com essa linguagem não estranhar meu vídeo. Sou trans não-binário. Meu Deus, eu falei isso mesmo? É, eu sou trans. O que meu pai fez comigo foi transfobia e eu pretendo mostrar essas provas pro juiz.
Eu tô com um pouco de medo... Porque eu sei que tem gente que não entende. Eu pensei muito sobre isso e que eu queria mostrar quem eu sou de verdade, pode ter gente que ainda vai dar razão pro meu pai falando que eu merecia isso, mas eu queria justiça pelo o que ele fez. Não vou deixar todo mundo pensar que ele fez isso comigo por pura agressão, eu quero ouvir da boca do juiz que foi um crime de transfobia e enquadrá-lo como racismo, porque assim ele consegue cumprir uma pena maior. Eu já tenho amparo da lei pra isso porque o STF já criminalizou a homofobia e a transfobia, agora eu só preciso mostrar tudo isso na audiência de coleta de provas que vai acontecer daqui um mês.
O motivo principal de eu contar tudo isso desse jeito é porque eu quero acreditar que dá pra confiar na Justiça e encorajar vocês a buscarem seus direitos. Caramba, nunca imaginei que eu seria esse tipo de pessoa, mas é... Eu não me sinto totalmente... Pronto pra falar da minha identidade de gênero, se vocês tiverem dúvidas sobre isso podem olhar os vídeos do Charlie Stewart, vou deixar aqui embaixo o link de um compilado dele, tem muito conteúdo bom. O meu foco sempre foi falar sobre orientações arromânticas aqui e sei que a maioria dos meus seguidores vieram por causa disso, e é o que pretendo continuar falando por um tempo. Mas também, quando eu me sentir preparado pra falar sobre isso, espero que vocês me escutem.
Tata também espera, ó... Dá oi, Tata. Ele é tão feinho, mas eu sei que vocês gostam quando eu mostro esse bichinho. Eu tô devendo um vídeo falando das minhas tatuagens, vocês me perturbaram com isso na rede social vizinha, mas eu tô tentando marcar uma sessão pra começar a fechar meu braço antes de mostrar. Bah, pode ser que eu faça um vídeo do processo... Eu não quero falar só sobre a comunidade aqui, é bom distrair com coisas diferente às vezes.
É, eu acho que é isso... Eu vou atualizando vocês com as novidades sobre o processo, se quiserem. Eu vou contando o que eu puder. Espero vir com notícias boas na próxima vez.
E... Pai, eu sei que tu tá vendo esse vídeo. Só quero te falar que eu não sou mais criança, não tenho mais medo de você.

Eu não esperava aquela repercussão toda.
Depois de Sam gentilmente ter editado e cortado todos os momentos em que eu gaguejei e fiquei olhando para a câmera sem saber o que dizer, e depois de varias revisões de Ricardo até ele aprovar o conteúdo, eu postei o vídeo.
Mas eu não imaginava que ele pudesse alcançar tanta gente em uma velocidade tão rápida.
Eu sempre me impressionava com o alcance da internet. Em poucas horas, meus seguidores compartillharam para outras pessoas, que compartilharam para mais outras e logo uma enxurrada de gente estava visualizando. Pessoas que eu reconhecia como ativistas e colegas de Charlie também se engajaram, provavelmente porque ele havia falado sobre isso anteriormente.
Eu estava impressionade demais.
Ricardo acompanhava tudo com atenção, sempre me orientando em como responder aos comentários e o que eu estava autorizade a falar. Paloma já estava fora de casa outra vez, mas me mandava mensagens de apoio. Até alguns colegas do curso falaram comigo e disseram que estavam do meu lado também.
Mas o que me deixou mais ansioso foi ver as notificações de Charlie me mencionando no seu perfil.
Meu lado racional sabia que ele faria isso, mas o lado emocional gostava da teoria de que ele estava chateado demais para isso. Já estávamos na metade de Janeiro e eu ainda não tinha coragem de mandar mensagem — e também não tinha tempo para pensar nisso, pois minha cabeça estava a mil com a audiência cada vez mais próxima.
Paloma havia deixado seu notebook comigo, pois eu precisaria dele para a transmissão. Ricardo e eu combinamos de fazer um teste com nós dois e, depois de conferir o microfone e as configurações da câmera, abri o link da sala para a chamada e esperei por ele.
Era o primeiro teste para a audiência online.
Em alguns minutos, o homem de cavanhaque bem feito e roupa social apareceu na tela ainda um pouco borrada.
— Oi, Jason! Fala alguma coisa!
— Tá me ouvindo?
— Tua voz tá baixa, tu tem que falar mais perto do microfone.
— Ah. — Peguei o fio e aproximei mais da minha boca. – E agora?
— Bem melhor. E aí, como tá te sentindo?
— Nervose pra cacete. — Ri com o desespero óbvio no tom da risada.
— Relaxa, vai ser só uma audiência pra coleta de provas. Terminando isso, vamos ter percorrido mais da metade do caminho.
— Tu decidiu o que vai fazer com aqueles relatórios da minha psicóloga? Recebeu todos? — Eu me referia aos documentos que minha mãe havia me mostrado anos atrás e que me entregou de novo quando fui à Porto Alegre. Tirei foto de todos e mostrei para Ricardo a fim de saber o que fazer com aquilo.
— O problema daquilo é que tua psicóloga nem deveria ter mostrado esses relatórios, então causaríamos problemas para ela.
— Ah... — Meus ombros se abaixaram. — De boa.
— Mas nós temos a gravação daquele dia na Marie Curie, do concurso. Já se sente bem pra mostrar ela inteira?
Assenti, confiante. Eu havia decidido não usá-la toda no passado para não mostrar as coisas que meu pai me disse por eu ser trans, mas minha coragem me fez mudar de ideia.
— Lembrando que tu vai ter que manter a calma na audiência e falar quando o juiz liberar. Pode deixar tudo comigo que eu já sei o que fazer. Quer repassar os artigos comigo? Só pra ficar ciente.
Concordei outra vez e vi Ricardo mexendo em alguma coisa fora da visão da câmera. Ele abriu um caderno e o folheou, pegou um marca-texto de algum lugar e tirou sua tampa.
Nos minutos seguintes, ele me deu um histórico de processos parecidos por acusações de transfobia que terminaram com a prisão dos acusados. Minha expectativa era de cinco anos de prisão por racismo, sem direito à fiança e com medida protetiva após o cumprimento da pena.
— O que Paloma e tu fizeram com o exame de corpo delito que tu fez naquela época?
— Eu... Pedi pra arquivar a denúncia que ela fez. — Revelei ao advogado, que ergueu as sobrancelhas surpreso.
— Tu tava com medo na época, né?
— Por aí.
— Bom, vou pedir uma autorização para resgatar esse exame, vamos usá-lo pra condenar Max por violência doméstica e unificar os dois crimes para a pena aumentar, o juiz vai pedir provas.
— Como assim? — Me aproximei da webcam e apoiei os braços na mesa.
— Só a denúncia atual tua não é suficiente pra uma condenação, no máximo uma prisão preventiva porque tua vida corre risco, de certa forma. Não era nem pra esse desgraçado estar na rua... — Ricardo respirou fundo. — Desculpe. É que pensar que o colega dele é o juiz me deixa nervoso, a gente tem que trabalhar em dobro pra provar alguma coisa. Eu sei que tu quer prendê-lo só por crime de lgbtfobia e enquadrar em racismo, mas também existe o crime da agressão física e podemos deixar a pena de Maximiliano maior. O juiz pode apenas somar as penas, que seria literalmente somar os anos de duração de cada condenação, ou unificar os dois crimes em um só, mas a pena continua sendo alta de qualquer jeito. Vamos lutar pela maior pena.
— Eu não entendo nada dessas coisas, ainda bem que tu tá aqui. — Ri nervose e esfreguei a mão no rosto, sem saber no que pensar direito.
— Lembrando que também teremos uma testemunha ao seu favor na audiência, estou instruindo o Stewart também.
A fala me fez tirar as mãos do rosto na mesma hora e olhar para a tela de Ricardo.
— Charlie vai depor?
— Lógico, não era essa a ideia?
— Sim, mas... — Meus argumentos fugiram e me senti idiota por pensar que Charlie seria o tipo de pessoa que me deixaria para trás desse jeito. — É, era a ideia mesmo.
— Olha, vou precisar que tu seja muito profissional no dia e não faça o advogado do teu pai dar a entender ao juiz que o depoimento de Charlie é inválido por vocês terem algo emocional. Foi até bom ele ter ficado em Porto Alegre.
Engoli em seco, mas concordei com as palavras de Ricardo.
— Tá tranquilo, a gente não tem nada mesmo. — Estalei os dedos para afastar o nervosismo.
— Vocês precisam alinhar como vai ser o depoimento também e se prepararem pro dia, marquem uma reunião online também e mantenham contato.
— Tem certeza? — Estalei o indicador duas vezes e falhei na terceira. O nervosismo queria tomar conta de mim.
— Claro, é importante vocês estarem alinhados ao contar a história, não pode ter furos ou qualquer coisa que deixe o juiz desconfiado. Marquem logo e depois me atualize, ok?
— Pode deixar. — forcei um sorriso e Ricardo se despediu de mim na câmera, dizendo que precisava resolver alguma coisa de outro cliente.
Suspirei pesadamente e desliguei o notebook. Esfreguei os olhos com as pontas dos dedos e resmunguei com insatisfação, pensative sobre as palavras de Ricardo.
Estava na hora de parar de fugir e encarar Charlie Stewart.

To ficando triste
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top