Capítulo 47


"Eu vou escutar a sua voz gritando silenciosamente
Para que você não se canse de se perder em algum canto do seu coração
Entre as frestas daquele espaço mal fechado que é você
Um choro silencioso que apenas eu escuto."
— Silent Cry, Stray Kids.

Eu não tinha condições de andar de carro depois de tudo aquilo e eu já precisava pagar pelo estacionamento de qualquer forma, então fiquei sentado no veículo de portas abertas, esperando não-sei-o-quê.

Mandei uma mensagem para Charlie falando onde estava, sem temer pela sua reação. Contudo, não obtive resposta pois eu sabia que ele estava ocupado.

Eu batia com a parte de trás da cabeça no banco várias vezes, tentando afastar meus pensamentos.

"Isso não é sobre mim, não é sobre mim."

Minha mente ainda girava pelos acontecimentos recentes e pelo álcool consumido meia hora atrás. Eu não tinha nem um cigarro para me acalmar naquela hora. Fiquei batendo os dedos no volante e olhando para a frente, com uma das pernas largadas para fora do carro.

Meu celular vibrou pelas notificações que eu havia reativado.

"Tô indo falar contigo.", era a mensagem de Charlie. Meu corpo se alertou na mesma hora.

Eu estava com medo de que ele brigasse comigo, me chamasse de idiota por vir ao hospital sem ter sido chamado, como se eu tivesse algo a ver com aquilo tudo. Eu não saberia como reagir se ele começasse a discutir comigo ali no carro.

Fiquei olhando para os lados até ver o guri, caminhar rápido até o fusca. Notei como sua expressão estava abatida vendo-o dar a volta no carro por trás e abrir a porta do banco do passageiro para ficar ao meu lado.

Charlie não disse nada num primeiro momento. Ele começou a mexer nos bolsos internos do sobretudo e a tirar algumas coisas dali de dentro: seu crachá da Dotcom, alguns papéis, um isqueiro e um maço de Marlboro, e os deixou todos em cima do suporte do porta-luvas.

Quando fiz menção de pegar o cigarro, ele deu um tapa leve na minha mão.

— Eu vou jogar isso fora. Se os pais da Sammy não fumassem, não teria acontecido o que aconteceu.

— Como é que é? — Enruguei a testa na mesma hora e me aproximei dele, o qual passou as mãos no rosto, exausto.

— Não foi só culpa da covid, foi insuficiência pulmonar.

Eu não sabia exatamente o que era aquilo, mas tinha a ver com pulmão e entendi o contexto.

Eu não poderia reclamar, Charlie estava certo.

Ficamos em silêncio por alguns segundos no carro. O guri olhava para a frente, ofegante. Notei seus cabelos coloridos desarrumados, os meus também não estavam muito bons.

— Quando vai me falar por que tá aqui? — Ele interrompeu o silêncio em uma pergunta inexpressiva. Eu odiava quando Charlie fazia aquilo, falar e perguntar coisas sem reação, esperando por algo. — Eu te disse que ia explicar tudo depois.

— Não consegui esperar, queria te ver. — falei baixo, me condenando por estar tão vulnerável. — Tá precisando de alguma coisa? Posso buscar em casa ou comprar, sei lá. — Apertei meus dedos contra o volante. Estava me esforçando para ser uma boa pessoa.

— Eu vou dormir aqui hoje, então acho que... É. — Ele suspirou e encolheu os ombros. Eu queria desesperadamente abraçá-lo, mas me contive. — Se tu puder trazer umas roupas...

— Pra ela também? — falei duro, mesmo sem querer. "Não é sobre você, Jason, não é sobre você."

— Seria bom. — Charlie balançou a cabeça minimamente.

— Aonde ela tá ficando?

— No hospital.

— Como assim? Desde quando isso?

— Umas três semanas.

Não consegui falar nada por mais um período de tempo. Ficamos ali, parados e olhando para a frente até Charlie resolver falar de novo:

— Preciso desabafar. — Ele contou aquilo depois de um suspiro alto e pesado. — Estou me sentindo culpado porque Sammy poderia ter passado mais tempo com os pais se não tivesse brigado com eles por minha causa.

— Não te faz bem ficar pensando nisso, Charlie...

— Mesmo assim, é no que fico pensando. — Sua respiração se acelerou. — Eu fui um péssimo marido.

Ouvir ele falando de si daquela forma me causava um desconforto estranho.

Porra, Samantha e Charlie possuíam uma puta história, tão digna de um livro que o próprio guri escreveu um inspirado nisso. O que eu estava fazendo ali?!

— Tu quer ajudar ela pra não sentir mais essa culpa? Ou por que quer se resolver com ela?

— Os dois. — Charlie disse com tristeza e abaixou a cabeça. Eu não esperava por aquela resposta. — Ela... Foi importante, eu quero me retratar.

— Só se retratar? – Quando notei, já tinha falado. Charlie virou o rosto para mim.

— O que tu quer dizer com isso?

— Quero dizer que vocês tiveram um relacionamento longo e eu entendo se... — Minha voz falhou e me perdi na frase. Fiquei com a boca aberta, sem continuar.

— É sério que tu tá pensando nisso? — Sua voz de Charlie saiu num tom acusatório que me assustou. — Tu acha que eu sou o tipo de pessoa que ia aproveitar o momento frágil dela pra tentar alguma coisa?

— Claro que não, porra. — Passei as mãos no volante, irritado. Não conseguia nem olhar para ele. — Só tô falando, vocês tiveram uma parada importante juntos e eu entendo isso.

— Eu e você também.

A voz de Charlie soava cada vez mais amargurada, e ouvi-lo citando nós dois com aquele tom me deixou mais angustiado.

— Não é a mesma coisa e tu sabe. — Abaixei a cabeça e respirei fundo. Eu podia sentir os olhos de Charlie em mim.

— E por que não?

— Porque eu nunca vou me apaixonar por você.

Meu maxilar doía de tanto que eu o pressionava. Charlie se mexeu no carro e eu sabia que ele voltou a olhar para a frente, mas não me respondeu.

Não era para aquela conversa estar acontecendo, não diante de um contexto de luto. Mas eu já havia começado a falar, não havia espaço para me arrepender.

— Tu nunca vai ter uma história pra contar sobre mim em que tu vai dizer que foi um péssimo marido. — Me esforcei para não falhar minha voz enquanto falava, me lembrando de Charlie dizendo minutos atrás que havia sido um péssimo marido para Samantha. — Tu não vai ter uma aliança no teu dedo junto comigo igual tu tinha com ela.

— Para de falar isso. — Ele disse entredentes, sua voz ameaçando falhar também.

— Eu nunca vou te apresentar como meu namorado. — falar aquilo destruía meu coração fodido em mil pedaços.

— Eu nunca te pedi pra fazer isso. — A voz de Charlie saiu rouca.

— Não precisa pedir, eu acho que tu merece alguém que faça isso por ti. Não vou fazer.

— Você é tão filho da puta por querer falar disso agora, com tudo o que tá acontecendo! — Vi pelo canto do olho que ele passou a mão nos olhos, estava chorando.

— Eu sei. — Meus dedos estavam quase esbranquiçados de tão forte que eu segurava o volante do carro. — Tu quer que eu vou embora?

— Eu quero que tu aceita que tô ajudando a Sammy porque ela precisa de mim, e não pra tentar alguma coisa! Era pra você tá do meu lado agora!

Eu queria me afundar na cadeira. Charlie tinha razão.

— O problema não é eu te achar insuficiente, é tu mesmo se sentir assim! E aí foi só alguém aparecer que tu deu pra trás e colocou uma ideia errada na tua cabeça!

Fechei os olhos, decidido a não chorar por aquela situação. Eu não estava com direito de me lamentar.

Charlie continuava falando.

— A gente tem coisas muito mais importantes pra pensar agora do que a droga de um relacionamento que eu nem falei que queria! — Ele elevou o tom de voz. — Eu vi as mensagens do teu pai na minha conta! Tu tá numa situação complicada! Eu já sei que tu mostrou que é não-binárie na live sem querer e que teve gente te criticando! E daqui a um mês a gente tem uma coisa importante pra fazer pra ajudar a prender teu pai! E tu tá mais preocupade em eu voltar pra Sammy?! Porra, Jason!

Todas aquelas palavras foram ditas com tanta dor e raiva que eu só conseguia sentir vergonha.

— Eu não posso nem te chamar de egoísta, porque nem em si mesme tu tá pensando direito!

— Eu já entendi. — falei com raiva, ainda de cabeça baixa. Quando Charlie queria jogar suas verdades em mim, ele engatava tudo em um sermão único.

— Entendeu droga nenhuma! Eu sei que quando tu chegar em casa vai ficar pensando na Sammy e eu juntos aqui no hospital! Sendo que não tá acontecendo nada, meu Deus, os pais dela MORRERAM! — Ele disse a última palavra tão alto e doloroso que senti minha nuca se arrepiar por um momento rápido.

Eu realmente estava sendo um grande filho da puta.

— Me desculpa. — Foi o que tive coragem de dizer.

Charlie respirou fundo um milhão de vezes e passou as mãos no rosto de novo. Com um pouco de dificuldade, retirou o sobretudo do corpo e colocou atrás do carro. Voltou a ficar de frente e mexeu nos cabelos azuis.

— Eu volto mais tarde com as coisas. — Quebrei o silêncio e ele apenas balançou a cabeça, concordando.

— Traz minha almofada do Chimmy, por favor. — falou se referindo à pelúcia do Jimin. — Serve de travesseiro.

— Não quer que trago um de verdade?

— Não, vou ficar abraçado com ele ouvindo Serendipity. — Disse em tom mais calmo e respirou fundo outra vez. — Me desculpa por gritar contigo.

— Eu mereci. Fui escroto.

— Tô com medo de tu te afastar. — A postura irritada de Charlie deu lugar a uma preocupação tímida e comedida.

— Eu também. — fui honesto. — Vou passar no supermercado e comprar alguma coisa.

— Tudo bem. — Outra respiração pesada, e então Charlie colocou a mão na maçaneta do carro.

Sem olhar para mim ou se despedir, ele saiu do veículo e acompanhei seu andar subindo às escadas e entrando na recepção do hospital.

Suspirei em um quase gemido de frustração e olhei em cima do porta-luvas, o maço de cigarros continuava lá. Charlie esqueceu de levar embora para jogar fora.

Controlei minha vontade de abrir aquilo e decidi jogar na primeira lixeira que encontrasse.

Peguei o celular guardado entre os bancos e pesquisei pela música que Charlie falou. Quando o player tocou, cliquei na tradução para saber logo do que se tratava.

"Quando você me chamou
Eu me tornei sua flor
Como se nós estivéssemos esperando por isso
Nós florescemos até congelarmos
Talvez seja uma providência do universo
Tinha que ser assim
Você sabe, eu sei
Você sou eu, e eu sou você".

Charlie e sua habilidade de encontrar músicas com letras que fodiam o psicológico de qualquer um.

"Tanto quanto o meu coração palpita, eu me preocupo
O destino continua com inveja de nós
Eu estou tão assustado quanto você
Quando você me vê
Quando você me toca."

Resmunguei e dei a partida no carro, me concentrando apenas na melodia da música e na voz do artista que era mais fina que os demais. A única frase em inglês que eu conseguia entender era "Apenas me deixe te amar."

Mas que grande ironia.

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