Capítulo 4

"Sei que você está sufocando com seus medos, já te disse que estou bem aqui,
Eu ficarei ao seu lado todas as noites." — Be Kind, Marshmello ft. Halsey

[Conteúdo sensível: menção à pedofilia e cutting]

2011.

Camila veio passar o fim de semana aqui, e sempre que isso acontece é um pouco estranho. Somos irmãos apenas por parte de pai e ela não se dá tão bem com a minha mãe, eu não entendia muito bem aquela história, mas era uma confusão enorme. Tínhamos um ano de diferença, mas Camila agia como se fosse bem mais velha.

Meu pai sempre gostou mais da Camila do que de mim, ou pelo menos era isso o que parecia. Talvez porque ela nasceu como uma garota e eu não.

Minha mãe arrumou o meu quarto para colocar um colchão no chão, pois não tinha outro quarto para ela ficar. Quando ouvi o som de um carro estacionando, corri para a porta o mais rápido possível.

— Cami!!! — Gritei ao ver a garota de cabelos pretos e cacheados, que deu um sorriso enorme ao me ver. Ela correu para me dar um abraço e vi sua mãe entregando a mochila de Camila para o meu pai. Eles trocaram algumas palavras, mas antes de ir, a tia Fabiana me olhou fixamente e depois falou alguma coisa para meu pai, com uma expressão ruim.

Camila sequer olhou para minha mãe quando passou por ela e fomos direto para o quarto. Ela era mais alta do que eu, já estávamos com quatorze anos, mas ela parecia ter uns dezessete.

— Me conta tudo que tá acontecendo! — Camila se sentou no colchão e eu fiquei em minha cama. — É verdade que tu saiu da escola?

— Ahn, eu tô estudando em casa. — falei um pouco sem graça. Era abril, e desde fevereiro eu estava sem ir à escola.

— Que sonho, tchê!!! Tô morrendo de inveja! — Camila deu uma gargalhada e fingi estar rindo também. Eu era muito bom em esconder o que eu sentia.

Meus pais não tiveram coragem de me matricular na escola durante aquele ano, pois os últimos meses do ano anterior foram os piores da minha vida. O bloqueador hormonal fazia cada vez mais efeito, mas eu continuava sendo tratado como A Jade. As garotas não queriam minha companhia, os garotos me achavam um alienígena e os professores não me respeitavam. As aulas de Educação Física me deixavam mal e os comentários que eu ouvia me faziam querer chorar.

Mas eu não queria que Camila soubesse daquelas coisas.

— E tu tá bem, né? Tipo, tudo certo?

— Tô, tô sim. — Estranhamente, toda vez que eu tinha que responder para alguém se eu estava bem, eu sentia um formigamento nas cicatrizes dos meus pulsos. Eu sabia que era algo da minha cabeça, a psicóloga já havia me dito.

Instantaneamente cobri meu pulso marcado com a mão para que Camila não visse. Eu precisava começar a usar pulseiras daqui pra frente.

— Hein, eu tô namorando, mas é segredo. — Ela se inclinou e apoiou o corpo na minha cama, sua voz saiu mais baixa. — Ele tem dezenove.

Meus olhos se arregalaram de surpresa e abri a boca, mas ela colocou o dedo indicador nos próprios lábios em sinal de silêncio.

— Você é doida! E se o pai descobrir?

— Ele não vai saber, só se tu abrir o bocão. A gente até já transou, ele é amigo de um colega meu. — Camila disse com um sorrisinho e fiquei ainda mais impressionado. — Bah, que foi que tá com essa cara? Seus amigos não falam disso contigo não?

— Eu não tenho muito amigo pra conversar... — E eu também não sabia exatamente o que pensar sobre sexo.

— Tá, eu vou ser essa amiga então, desce aqui. — Ela deu uma batidinha no colchão forrado com lençol amarelo e desci para ficar na sua altura. — Vamos lá, você gosta de garotos?

— Acho que sim, gosto.

— E de garotas?

— Eu não sei, acho que um pouco. Tem só esses dois sexos?

— Eu acho que sim, não sei. Tu que sabe dessas coisas, tu é um garoto e uma garota ao mesmo tempo!

— Não sou uma garota! — franzi as sobrancelhas, irritado. Camila revirou os olhos.

— Ai, tá bom, me desculpa! Mas tu devia saber dessas coisas melhor do que eu, o que eu sei é só da internet.

— E o que tu sabe da internet?

— Ó, tu pode ser gay, lésbica, bi ou pan. Tem outros também, mas são os mais comuns. Sabe o que é cada um?

— Não sei o que é pan.

— É tipo... Ai, como vou explicar... É tipo ser bi, mas com uma vibe diferente, tu gosta de pessoas sem pensar no gênero delas. Bi também tem isso, mas bi também é tipo "gostar de mais de um gênero". Eu não sei bem, Jade, faz muito tempo que eu li isso.

— Tudo bem. — Gravei na memória aquelas informações que Camila me contou.

— E aí tem as pessoas que são assexuais, né, e as arromanticas também. Tu já conhece?

— Eu não faço ideia. — falei com uma risada tímida. Se eu ainda tivesse o cabelo grande, teria colocado uma mecha dele atrás da orelha.

— São pessoas que não sentem atração, e aí nem rola essa parada de gostar de um gênero porque elas nem gostam, ou gostam muito pouco, sabe? Tipo, assexual não tem vontade de transar. Eu com certeza não sou uma!

Meus olhos se arregalaram. Como eu ia saber que eu era se nunca fiz isso? Eu deveria saber? Eu só tinha treze anos, mas Camila também só tinha quatorze e ela já sabia.

— E aí tu já imagina que arromântico é a mesma coisa, mas pra namorar e essas coisas românticas aí. Às vezes eles até querem transar, porque não são assexuais, mas não querem além disso.

— Como tu sabe de tudo isso?

— Bah, eu descubro na internet. Mas eu nem sou nada dessas coisas, eu sou hétero mesmo. Só que eu tenho um irmão que é transexual, ia ser feio ficar sem saber, né!

Camila bagunçou meu cabelo e eu ri, confortável com a palavra transexual. Era bom ter algo que me identificava.

— Mas e aí, tu vai querer continuar te chamando Jade?

— Ah... — Meus ombros se encolheram. — Eu não sei, não tenho outro nome.

Nesse momento, minha mãe gritou para irmos almoçar. Camila bufou e eu fiquei triste pelo assunto ter que dar uma pausa.

— Então depois do almoço a gente vai pensar em um nome bem maneiro pra ti! E aí a gente fala pro pai mudar na certidão.

Meus olhos brilharam ao ouvir aquilo, pois eu nem fazia ideia de que isso era possível. Pensar que eu poderia mudar meu nome e os meus documentos me deixou ansioso para escolher logo um nome que tivesse mais a ver comigo.

Que nome ficaria legal em mim?

2020.

A casa de Paloma estava silenciosa, o que era de se esperar. Ela previa retornar para Esplendor em até duas semanas, após revezar o turno de trabalho com outros psicólogos na cidade vizinha.

Charlie deixou sua mala no quarto de visitas, Paloma me liberou de dormir em seu quarto enquanto ele estava lá. Como ele voltaria para Porto Alegre antes dela retornar à Esplendor, estava tudo bem encaminhado.

Retirei a máscara, o cachecol e a jaqueta, pois dentro de casa não estava tão frio. Charlie fez o mesmo e avisou que usaria o banheiro, então fui para a varanda da casa e acendi um cigarro.

Paloma era apaixonada por plantas e possuía várias espalhadas pela casa, me perguntei se fumar perto delas era ruim. Depois concluí que até para mim isso era ruim, então as plantas não eram lá tão importantes assim.

O trajeto de ônibus foi silencioso, pois Charlie dormiu na maior parte do tempo. Eu não sei como ele conseguiu esse feito. Me senti ansioso, não pude fumar e meu celular ficou sem sinal durante a viagem. Meu corpo estava dolorido e eu precisava de um banho bem quente assim que Charlie terminasse o seu.

Ainda era estranho pensar que aquele garoto estava ali, na mesma casa que a minha, depois de dois anos. Ao mesmo tempo que eu me sentia próximo dele, também me sentia um estranho.

Fiquei na varanda por alguns minutos, até terminar todo o tabaco e ouvir a porta do banheiro sendo aberta. Charlie se dirigiu para o quarto de hóspedes e foi a minha chance de entrar no banheiro e tirar toda a tensão do corpo.

Quando tranquei a porta, retirei todas as peças de roupa enquanto me olhava pelo espelho de corpo que Paloma tinha de forma bizarra, o qual cobria quase uma parede inteira e você podia visualizar o seu corpo inteiro. Assim que abaixei a roupa de baixo, chutei a calça e a cueca para o canto e não pude evitar de encarar meu reflexo.

A cinta ao redor do meu quadril tinha a mesma cor da minha pele, e o packer se fixava bem à ela. Quando tive que tirá-la, notei as marcas que ficaram por usar aquilo de forma excessiva.

Olhei novamente meu corpo e agora tudo passava a ser desproporcional. O abdômen marcado pela academia não possuía um sinal sequer da cirurgia e estava coberto por uma tatuagem tribal. Haviam outras duas nas costelas, um dos braços estava fechado e eu tinha planos de fechar o outro. Minha barriga era definida de forma sutil e havia até uma pequena caveira tatuada acima do quadril, perto do umbigo.

Então olhei mais para baixo, encarando aquela região do meu corpo. Sem cinta, packer, cueca, nenhum volume que me ajudasse a cobrir o que era uma ausência.

Às vezes, eu sentia que precisava ter aquilo no meu corpo. Em outras, eu me questionava se, na verdade, eu só aprendi que precisava ter. De qualquer forma, eu já havia me acostumado. Todos os homens ao redor de mim possuíam, então eu também deveria.

"Mas agora tu tá com um cara aí do teu lado que também não tem."

Charlie era o único que eu conhecia, e pensar que alguém com o mesmo corpo que eu estava ali, tão perto de mim, de forma natural, era quase amedrontador.

Desisti de pensar sobre aquilo e tomei um banho rápido, apenas para colocar o packer de novo. A necessidade de usar aquilo era tão grande que ela não se encerrava na hora de dormir.

Me vesti e sai do banheiro, meu corpo entrou em choque com a temperatura menor fora do box aquecido pela água quente. Para chegar ao quarto de Paloma, eu precisava passar pelo quarto de hóspedes e a porta estava aberta, então andei pelo corredor e parei na porta do que seria o quarto de Charlie por uma semana. Ele estava de pijamas e guardando as roupas da viagem na mala.

— Que pijama é esse aí? — Cruzei os braços e me apoiei na porta. Charlie olhou para mim e sorriu, seus cabelos castanhos estavam bagunçados e o pijama que ele vestia era um conjunto de listras amarelas, rosas e azuis.

— Parece a bandeira pan, né? Comprei por causa disso. — Ele falou e voltou a fechar a mala.

— Que que tu disse? Pan? — Falei a palavra com confusão no teor da voz. Ele percebeu minha dúvida e olhou para mim.

— Ahn... Achei que você acompanhava meu Instagram. — Seu rosto ficou em um tom rosado quase igual ao das listras cor-de-rosa da sua roupa.

— Eu, é, não lembro de ter visto isso. — Coloquei uma das mãos para trás e puxei alguns fios do cabelo. — Então, tu... Tu é pan?

— Ahn, é. Isso.

O clima no quarto ficou estranho de repente e eu não fazia ideia do porquê.

— Puxa, e teve mais alguma coisa em Porto Alegre que tu descobriu? — Tentei soar com diversão, mas de alguma forma falar sobre sexualidade me incomodava ao extremo. Talvez fosse esse o motivo da estranheza no assunto.

— Ah, bom, já que tu perguntou... E como tu não me acompanha no Instagram... — Ele disse ácido, mas com uma risada no final; pegou a coberta dobrada em cima da cama e começou a desdobrá-la, ficando de costas para mim.

— Eu te acompanho, sim, mas não muito, e não consigo ler textos muito longos.

— Sei. — Ele terminou de arrumar a coberta na cama e se sentou, voltando a ficar de frente para mim. Seus braços se cruzaram e ele inclinou a cabeça para o lado, uma mania que eu sabia que ele pegou de mim. — Eu sou panromântico e demissexual. Isso te incomoda? Soa muito militante ou modinha de internet pra ti?

O olhar de Charlie era desafiador, havia um vislumbre de um sorriso que ele queria dar, mas estava se controlando. Cortei o contato visual e olhei para o chão.

— Tá tranquilo, eu não penso assim não. Legal ver que tu se descobriu e entende dessas coisas, por isso que muita gente te segue.

— Ah, valeu. — Ele deu um sorriso leve e descruzou os braços para pegar o celular em cima da cama. — Pode apagar a luz pra mim?

— Claro. — Me desencostei da porta e fui até o interruptor. — Ah, amanhã a gente vai marcar o dia pra ir depor, tá?

— Beleza. — Ele piscou e se sentou com o celular nas mãos. — Good night, Jay.

— Boa noite. — falei com a testa franzida após o apelido aleatório e a frase em inglês, então desliguei o interruptor e saí do quarto.

Charlie Stewart era uma caixinha de surpresas, e isso me assustava um pouco.

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