Capítulo 22

"Às vezes nós nos apaixonamos pelas pessoas na hora errada." — You & Me, Marshmello

2020.

Meu espirro alto pela manhã fez Charlie correr até a porta do quarto e bater antes de entrar.

— Jason? — Ele me encarou assustado e dei outro espirro. — Tá passando mal?

— Ahn, bom dia. — Minha garganta doeu ao falar. Sem dizer nada, ele saiu correndo pelo corredor e fechei os olhos.

Meu corpo estava dolorido, principalmente na região da testa. Esfreguei a região com as pontas dos dedos e soltei um gemido de dor.

— Aqui, cheira isso. — Charlie voltou com o pó de café aberto.

— Quê? Pra quê?

— Se for covid tu não vai sentir o cheiro.

— Tá me zoando? — Me sentei e senti minhas costas doerem, fiz uma careta, o que deixou Charlie ainda mais assustado.

— Cheira isso agora! — Ele esticou o pote cheio de pó de café e revirei os olhos, mas me arrependi logo em seguida pois fez a dor na cabeça doer.

— Tá bom, que saco. — Peguei o pote com as duas mãos e aproximei meu nariz, que se irritou na mesma hora e dei outro espirro com o rosto virado para o lado. Charlie suspirou profundamente, aliviado.

— Deve ser só um resfriado.

— Claro que é, eu tô bem... — Coloquei os pés no chão para sair da cama e senti uma fraqueza momentânea; meu corpo estava dolorido.

— Fica deitado! Vou fazer um leite quente e te dar um remédio. — Charlie segurou em meu ombro e me fez voltar a deitar.

— Não precisa disso tudo, guri!

— Precisa sim! Agora fica aí, eu já volto.

Resmunguei feito uma criança e me encolhi nas cobertas de novo, Charlie ficou satisfeito que eu o obedeci e saiu do quarto. Comecei a ouvir barulhos pela cozinha e tateei meu celular pela cama. Liguei a tela e procurei algum sinal do meu advogado, mas nada.

Àquela altura, o país inteiro estava de quarentena. O Brasil realmente havia parado, tirando os serviços essencial nada funcionava ou era em formato home office. Era estranho pensar nisso.

Eu entendia a preocupação do Charlie ao me ver doente de repente, mas nós dois estávamos nos protegendo bem. Único lugar que íamos era o supermercado e em breve o próximo seria a farmácia, Paloma não tinha muitos remédios em casa e emergências podiam acontecer, como aquela.

Alguns minutos se passaram em que fiquei olhando para o teto até Charlie chegar com uma xícara que eu sabia ser de achocolatado, pelo aroma. Em outra mão, segurava a pequena maleta de remédios da Paloma.

Me sentei com cuidado na cama, com as costas na cabeceira, e murmurei um "obrigado" ao pegar a xícara. Soprei um pouco antes de tomar e a sensação do leite quente melhorou meu humor, estava bem melhor agora.

— Aqui tem... — Charlie se sentou na minha frente e começou a mexer no conteúdo da maleta aberta. — Ah, dipirona. Vai ajudar. Tem isso aqui também. — Ele me mostrou um vidro de spray de mel e gengibre. — Sua garganta tá doendo?

— Um pouco. — falei rouco, depois de tomar mais um gole.

— Essa pomada aqui é boa. — Ele retirou um pequeno pote redondo azul. — Depois que terminar de beber vai passar.

— Por que tu tá cuidando de mim? — Soltei a frase com uma aspereza que não deveria ter saído, eu só estava confuso com seus gestos, não queria soar grosso.

— Tu tá doente, alguém tem que cuidar de ti. — Charlie ignorou o tom da minha voz e respondeu calmamente.

— Nunca cuidaram antes.

— Pois agora tu tem alguém que cuida, então. — Ele fechou a maleta e olhou para mim, com um sorriso quase imperceptível. — Tu é muito estranho às vezes, sabia?

— Por quê?

— Tu te esforça tanto pra me fazer bem, me acalma, mas quando o assunto é sobre ti tu finge que é durão e que não precisa de ninguém.

— Hum. — apenas murmurei e voltei a tomar o leite.

— Por que tu não assume quando precisa de ajuda? — Charlie pendeu a cabeça para o lado e ficou me observando. — Acha que não vai ser homem o suficiente se pedir?

— Óbvio que não. — Soltei um riso que até eu admitia ser falso. Era mais complicado do que parecia.

— Se tu diz... Bom, vou ficar aqui pra te esperar terminar e aí te dar remédio.

Charlie foi até o outro lado da cama e se acomodou no outro travesseiro. Ele usava uma calça de tecido fina cinza e uma blusa de manga longa da mesma cor, e quando abraçou o travesseiro a peça subiu o suficiente para mostrar um pouco da sua barriga. Ele fechou os olhos e colocou a franja para frente, imaginei que queria tampar um pouco a testa com o próprio cabelo.

Charlie parecia um anjo, se eu não soubesse que ele era tão atentado.

— Dá pra sentir que tu tá me olhando, bebe isso logo. — Sua voz saiu abafada pelo travesseiro e soltei uma risada.

Eu já havia beijado aquele garoto e a gente iria ficar não sei quanto tempo de quarentena, grudados. Já era hora de abrir o jogo que ele provavelmente já tinha ciência.

— Golpe baixo tu ficar assim, deitado do meu lado.

— Por quê?

— Sabe que sou a fim de ti.

Silêncio. Meu consciente queria se arrepender de eu ter pronunciado aquilo, mas eu não iria ficar dando uma de sonso e inocente, nunca fui assim.

Charlie virou o rosto para o lado, e passei a ver só a parte de trás do teu cabelo.

— Você disse que só estava bêbado, achei que não fosse algo. — Seu sotaque se revelou quando ele falou formalmente. Tomei o último gole do leite e tomei coragem para continuar falando.

— Achei que era melhor ter falado aquilo pra não ficar um clima estranho depois disso, tu já me disse que é demi e-

— Eu sou demissexual, isso não tem a ver com o que sinto pelas pessoas. — Charlie me cortou. — Nada me impede de gostar de alguém.

Fiquei sem fala depois daquilo. O guri se levantou devagar e mexeu no cabelo para deixar a franja de lado, evitava me olhar diretamente nos olhos. Viu que eu havia acabado com o leite, então pegou a xícara da minha mão e colocou em cima da pequena cômoda ao lado.

Primeiro, ele pegou a pomada do pote.

— Fica parado. — Ele mandou e eu só assenti.

Fiquei olhando para ele enquanto passava o creme mentolado ao redor das minhas bochechas e nariz. Charlie estava muito perto e controlei minha respiração para que ele não me visse tenso.

— No que tá pensando? — Arrisquei em fazê-lo falar. Por um momento, ele me encarou e depois abaixou a cabeça para passar mais creme no dedo. — Me fala. — pedi em voz baixa.

— Estou pensando... — Ele começou a passar um pouco de creme no meu pescoço, mas engoliu em seco e parou. Eu não conseguia parar de olhar para ele, sua boca ficou entreaberta no meio da fala e fiquei reparando em seus lábios.

— Em quê? — incentivei.

— Que... Ou eu vou sair dessa quarentena te amando, ou querendo nunca mais olhar pra tua cara. — Ele revelou um sorriso. Notei que Charlie tinha covinhas.

Não sei quantas vezes respirei fundo só naqueles cinco minutos. Aquele guri acabava comigo.

— Tua sorte é que tô doente.

— Por quê?

— Senão iria querer te beijar de novo.

O rosto de Charlie ficou corado de repente e ele colocou a mão na minha testa, fingindo surpresa.

— Tu deve tá com febre! Olha só o que tá falando! Vai descansar, vai!

— Ô guri! — gargalhei e me arrependi em seguida, pois minha garganta arranhou. Charlie balançou a cabeça e pegou a coberta para me cobrir.

— Deita logo, vai! Que eu vou pensar no que fazer contigo.

Fiz o que ele mandou e foi bom, pela primeira vez, ser cuidado por alguém.

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