Capítulo 2

A quinta-feira chegou rápido, exceto para Henrique que contava as horas, minutos e até segundos. Quando o telefone tocou, ele chegou a saltar da cadeira e a voz da sua musa entrou-lhe doce no ouvido.

– "Oi, Henrique, conforme combinado, estou ligando. A que horas nos encontramos?"

– Oi, Sabrina, dezenove horas, pode ser? – perguntou. – Pego você na sua casa.

– "Não acha cedo demais?"

– Não. Confie em mim que precisa ser cedo.

– "Está bem. Anote meu endereço..."

Sabrina desligou e sorriu. Ela estava bem fisgada pelo engenheiro, mas tinha muito medo de voltar a se envolver, principalmente tão rápido. Por outro lado, desejava vê-lo de novo porque não conseguia parar de pensar nele e isso deixava-a um pouco intrigada, já que o viu tão poucas vezes.

Na hora marcada, o jovem tocou no interfone, a atriz desceu e os olhos do Henrique ficaram arregalados perante tanta beleza. Ela trajava um vestido verde, simples e uma maquilhagem básica; mas, para ele, não poderia estar melhor nem mais bela. Derretido, abriu a porta do carro enquanto dizia:

– Você está linda, Sabrina, linda demais!

Ela mirou-o e sorriu, avaliando-o porque ele também estava belo aos seus olhos, usando um conjunto esportivo muito bem escolhido.

Rodaram por dez minutos e o jovem estacionou em uma rua tranquila, ainda no Leblon. Sabrina estranhou o local, fora da região de comércio e lazer. Curiosa, perguntou:

– Onde estamos, Henrique, aqui não há restaurantes?

– Calma, terá um jantar que desconhece há muito tempo, pode crer em mim – saiu do carro e abriu a porta para a moça. Sem cerimônia, pegou na sua cintura e caminhou abraçado a ela, que acabou correspondendo, para seu deleite. – Temos de andar uns minutinhos porque lá nunca consigo estacionar.

– O que você tem na mão? – perguntou, vendo uma sacola enorme. – Não estou entendendo nada!

– Um presente – afirmou, enigmático.

– Para mim? – Ela sorriu. – Oba!

– Só se você tiver quatro anos – respondeu rindo. – Confie em mim.

Ele caminhava simplesmente deliciado, sentindo o corpo da moça colado ao seu. Após uns minutos, pegou uma chave e abriu a porta de um prédio, convidando a atriz a entrar. Subiram para o décimo andar, a cobertura, e Henrique tocou à campainha.

Augusto abriu a porta, ficando de olhos arregalados e queixo caído.

– Oi, maninho, trouxe companhia para o jantar. Tem lugar?

Antes que pudesse falar algo, Augusto foi empurrado para o lado por uma linda menina de quatro anos que se atirou ao colo do tio e beijou-o cheia de felicidade.

– Tio Rique, tio Rique, que bom que veio!

– Feliz aniversário, amor – disse ele, estendendo-lhe o embrulho – tome seu presente. Esta é Sabrina, minha amiga.

– Oi, tia Sabrina, entra. – Pegou a mão da Sabrina, puxando-a para dentro. – Mamãe vai adorar ver você. É você, aquela moça da TV, né? Mamãe diz que você é a melhor do mundo! Mamãe, mamãe, tio Rique tá aqui e trouxe a moça da TV.

– Filha, não precisa gritar. – Uma mulher dos seus vinte e quatro anos, muito bonita, apareceu no hall de entrada e arregalou os olhos. – Você!? E eu que achei que Augusto tava de sacanagem!

Recompôs-se e continuou:

– Desculpe. Entre e seja bem-vinda à nossa casa. – Beijou Henrique. – Que feio, mano, passaste quinze dias sem dar notícias. Podias ter ligado e aproveitado pra dar um oi prós pais. Devias tentar convencê-los a saírem de Porto Alegre e viverem aqui conosco. Me preocupo demais com eles, tchê.

Já estavam sentados na sala com a menina abrindo o presente, deliciada. Sabrina conversava com Augusto enquanto a irmã dava uma bronca no Henrique que ria:

– Eu liguei ontem, Nádia, e bem sabe que eles não virão para cá. Você passa lá quinze dias e já começa o sotaque gaúcho!

– Até parece que contigo não é a mesma coisa. Bem, vamos esperar Letícia chegar para servirmos o jantar.

– Ué, ela não estava na França com o marido!?

– Voltaram segunda. Assim, a turma da antiga fica reunida novamente.

Sabrina sentiu um aperto no coração ao ver aquela reunião familiar, ser tratada como uma pessoa comum, apesar do choque inicial do seu aparecimento. Eram todos corteses, gentis e conversam alegremente, fazendo com que ela se esquecesse por algumas horas de quem era, tornando-se mais uma anônima tal e qual eles. Como Henrique havia dito, ela teria algo que não conhecia há anos. Quando o último casal chegou, jantaram bem e, na sobremesa, trouxeram o bolo de aniversário da menina, cantando parabéns.

Enquanto tomam licores, Sabrina olhava os livros na estante. Nádia, irmã de Henrique, aproximou-se dela, entabulando uma conversa:

– Vejo que gostas de ler.

– Sim, muito, e noto que não é só Henrique que gosta do John Mathew. Vocês também têm todas as suas obras!

– Gostamos demais, sim. – Nádia sorriu. – Você não gosta dele?

– Tá brincando!? – exclamou, rindo. – Eu o amo e também tenho todos os seus livros. Queria muito conhecê-lo, mas a editora não diz nada. É como se ele fosse um fantasma!

– Bem, um dia terá de aparecer. – Nádia deu uma risada e continua. – Provavelmente ele faz isso para poder permanecer no anonimato e não ser incomodado pela mídia.

– É verdade, eu que o diga. A mídia inferniza minha vida toda hora. – Sabrina sorriu e virou-se para o acompanhante. – Está ficando tarde e preciso ir porque estou cansada e o dia foi cheio de gravações. Não se importa, Henrique?

– Vamos sim. Tchau, mana. – Despiram-se dos demais. – Augusto, Karatê no sábado ou cansou de apanhar?

– Combinado, mas desta vez eu venço. – O cunhado riu. – Afinal, um dia será a minha vez.

No elevador, pegou a mão da Sabrina que consentiu, mas aparentava um ar demasiado cansado e retraído. Enquanto caminhavam pela rua, ela foi a primeira a falar e, com a voz triste, disse:

– Sua família é muito bacana e você tinha razão; há muito que não ia a um jantar assim tão agradável, exceto sozinha. A sua sobrinha é linda demais, Henrique, um verdadeiro doce de criança.

– Viu? Sem mídia nem fofocas. – O jovem sorriu para ela e continuou, olhando nos seus olhos. – Como eu disse, você iria descobrir que eu posso ser um cara bem legal.

– É sim, Henrique, muito legal mesmo – afirmou, suspirando.

Andaram mais um pouco até que Henrique disse, abrindo a porta do carro.

– Aqui estamos. – Dentro, ela virou-se para o novo amigo e abraçou-o, pondo uma das mãos no seu pescoço e encostando a cabeça no ombro dele, começando a chorar. Acariciando os seus cabelos, Henrique perguntou-lhe com suavidade. – O que foi, meu coração? Não chore!

– Eu só queria ter uma vida assim, sabe? – disse, ainda pranteando um pouco. – Poder viver realmente a minha vida, sem que inventem falsos escândalos a meu respeito...

– Então mude para outro ramo. Onde se encontra, você não tem grande escolha. – Puxou seu rosto e beijou-a nos lábios. Ela correspondeu com intensidade. – Você me enfeitiçou, Sabrina.

– Acho que você também – afirmou, beijando o jovem, cheia de ardor e paixão.

– Quer ir para o meu apê?

– Sim, Henrique, quero ficar com você e ser apenas uma simples mulher; alguém normal, apenas eu, a Sabrina e não a atriz.

― ☼ ―

De manhã ambos acordam cedo, felizes. Ficam algum tempo abraçados, curtindo-se, até que acabam levantando para irem trabalhar. Enquanto tomam café, Henrique perguntou:

– Meu amor, se a sua vida não lhe agrada, por que não troca?

– É o que sei fazer, Henrique, e sei que sou muito boa nisso. Talvez um dia escreva algo. Eu adoraria escrever, mas não tenho o talento de John Mathew. Quem me dera!

– Já tentou escrever?

– Não.

– Então como pode dizer isso?

– Tem razão. – Sorriu e beijou-o. – Preciso trocar de roupa. Pode deixar-me no meu apartamento?

– Claro, meu amor, tudo o que você quiser – respondeu.

– Você me proporcionou a melhor noite da minha vida, Henrique, e eu sou muito grata. Pela primeira vez, desde a infância, me senti eu mesma e não uma mulher objeto.

– Não precisa agradecer, meu amor. Sabe, Sabrina, eu também tive a melhor noite da minha vida e sempre amei muito você. Só que achava que jamais teria esta chance. Pode ter certeza que, comigo, você sempre será muito feliz, porque eu a amo... – o interfone tocou, interrompendo-o. Lívido, voltou para a sala. – O zelador avisou que tem uma multidão de paparazzo na entrada. Alguém disse que você estava aqui comigo. Deve ter sido o maldito porteiro da noite que reconheceu você. O pior é que eu não vou com a cara dele.

– E agora? – perguntou ela, agoniada. Sentia-se, abatida, quase chorando de novo. – Nunca tenho paz, nunca tenho a minha vida particular.

– Não se preocupe que sairemos pela garagem. Há uma saída para outra rua que está livre, segundo ele. Ele é de plena confiança.

Assustada ela seguiu o engenheiro para o carro e o zelador abriu a outra porta. Rapidamente enveredaram pela via e afastam-se do prédio. O percurso durou dez minutos, porque precisaram de dar uma volta grande e Sabrina estava sempre calada, abatida. Quando ele ia beijá-la, foi repelido.

– Por favor, esqueça que não dá. É sempre esse inferno e sei que os meus relacionamentos não duram com esta vida. Não quero ver você sofrendo por minha causa; logo, é melhor a gente não se ver mais. Nem mesmo se você fosse um ator famoso estaríamos livres deles! Talvez até fosse pior.

– Então troque de vida, venha para o anonimato, Sabrina – pediu, olhando nos seus olhos. – Eu amo você, sempre amei e muito antes de a conhecer pessoalmente.

– Não posso. – Ela não disse mais nada e saiu do carro, cheia de lágrimas nos olhos, caminhando trôpega para dentro sem nem mesmo olhar para trás.

Abatido, Henrique permaneceu bem cinco minutos no veículo, até que foi para o trabalho. No fim da manhã, sem conseguir se concentrar no que quer que fosse, voltou para casa e trocou de roupa, decidido a passear pela praia.

Os fotógrafos já se tinham retirado, mas ele pediu ao síndico para demitir o porteiro da noite, afirmando que arcaria com as despesas da rescisão.

Caminhava sozinho, sempre desanimado, até que sentou em um quiosque e pediu uma cerveja. Nem passou meia hora, apareceu a irmã, sentando-se ao seu lado.

– Como sabia que eu estava aqui, mana?

– Quando soube pelo jornal o que aconteceu, liguei para seu escritório e Marta disse que você estava supertriste e incapaz de se concentrar. Como sei que sempre vem aqui quando tá preocupado ou quer pensar, arrisquei. O que tá havendo, Rique? Ontem parecia tudo bem! Foi por ela?

O irmão contou tudo e Nádia abraçou-o.

– É um fardo terrível, mano, mas tente novamente. Se ela gostou tanto assim de você, tente.

– Será que eu vou aguentar outro fora?

– Ligue para ela – insistiu Nádia. – Eu vi como ela olhava pra você lá em casa, Rique. Se aquilo não for amor puro e genuíno, eu sou um mico de circo.

Henrique ligou, mas ela não atendeu. Tenta meia dúzia de vezes até que desistiu. Deprimido, foi para casa e, à frente do prédio, dois homens aguardam por ele com máquinas fotográficas na mão, fotografando-o.

– Senhor, senhor, qual sua relação com Sabrina Morais?

– Vocês estão invadindo a minha privacidade. Sumam-se daqui e saibam que, se aparecer alguma foto minha na mídia sem a devida autorização, vou processar vocês e olhem que tenho advogados poderosos – disse Henrique, enquanto ligava o gravador de voz do celular.

– Vá lá! – Insistiu um. – Só uma palavrinha.

– Saiam da porta do meu prédio que eu quero entrar. Isto é propriedade privada. Eu tenho o meu direito de ir e vir e vocês estão impedindo isso. Têm exatos cinco segundos. Depois, acordarão no hospital.

A ameaça não surtiu efeito e Henrique abriu caminho à força de pancada, rebentando com os dois e destruindo as câmeras. Uma hora depois, foi levado para a delegacia, onde chamou os advogados que resolveram facilmente a situação e prepararam um processo contra os paparazzi e seus tabloides.

– O senhor deveria ter chamado a polícia, Henrique. – Um dos advogados repreendeu. – Todavia, isto não vai dar em nada. Não se preocupe, porque, além de transgredirem duas leis primordiais, eles promoveram assédio. Alegaremos legítima defesa dos seus direitos e da honra, mas procure controlar-se da próxima vez ou passa a noite na delegacia.

No dia seguinte, o telefone dele tocou e notou que era Sabrina. Imediatamente atendeu, cheio de esperança:

– Oi, meu amor, diga que mudou de opinião, por favor.

– "Você olhou os tabloides de hoje?"

– Não, nunca olho tabloides.

– "Tinha um terceiro paparazzo escondido, filmando tudo, pois eles já armam isso de propósito. É essa vida que deseja levar?"

– Se for esse o preço para estar ao seu lado, eu pago, Sabrina. Faço qualquer coisa por você. Esqueça os tabloides que eles são apenas para o povão. Não valem nada.

– "Só que eu não vou sacrificar alguém que amo nessa vida tão ingrata. Me perdoe, Henrique, mas adeus. Não me ligue mais, por favor."

– Não pode o amor de duas pess... – Notou que ela desligou e guardou o aparelho no bolso. Pegou o quimono e, cabisbaixo, foi para a academia. Enquanto caminhava, telefonou e pediu para o advogado processar os jornalecos que publicaram as suas imagens sem autorização enquanto exercia seus direitos.

Na academia, encontrou Augusto e preparam-se para treinar. Com a depressão que sentia, a sua falta de concentração era tanta que foi derrotado em poucos segundos, mas o cunhado não se vangloriou da vitória porque viu claramente os motivos. No bar, enquanto tomavam um energético, Augusto aconselhou:

– Cara, você não pode continuar assim.

– Eu sei, só que é difícil – explicou. – Hoje tentei convencê-la a mudar de ideia, mas ela é taxativa. Nem sei mais o que faço da minha vida, Guto. Tudo o que eu penso é nessa mulher, cara, tudo!

― ☼ ―

Passam-se três longos meses e Henrique foi melhorando devagar. Para não sofrer, nunca mais voltou a ver a novela e tão-pouco o último filme dela, que foi um grande sucesso de bilheteria.

Sabrina continuava infeliz e pensava sem parar no homem que conheceu e por quem se apaixonou perdidamente em tão pouco tempo. Nesse dia, ela estava em uma editora, aguardando uma resposta. Ao fundo da recepção havia um janelão de vidro onde ficava a sala do diretor e por ela viu um homem de costas, vestido com paletó e muito bem-composto. Ele lembrava tanto Henrique que sentiu um nó na garganta, morrendo de saudades do único sujeito que realmente a fez feliz por um singelo dia.

A funcionária volta e disse-lhe:

– Sinto muito, mas a informação é proibida por cláusulas contratuais. John Mathew não permite que seja dada qualquer informação a seu respeito. A multa vai à casa dos vinte milhões de dólares.

– Tudo bem, obrigada. – Desanimada, Sabrina despediu-se e foi saindo. Deitou uma vista de olhos no homem que lhe chamou a atenção e viu que estava de pé, ainda de costas, provavelmente despedindo-se. Apertou o botão do elevador e aguardou.

Quando a porta abriu, entrou e pressionou o térreo, mas, antes que se fechasse por inteiro, uma mão impediu isso e o homem que viu na sala do diretor entrou. Boquiaberta, deparou-se com Henrique, que também olhava para ela, espantado.

– Olá, Sabrina – disse a título de cumprimento. – Decidiu escrever um livro e apresentar à editora?

– Oi, Henrique, não – suspirou, triste. – Eu queria tentar obter o contato de John Mathew.

– A editora é obrigada a não divulgar nada. – Henrique olhou para ela, louco para se atirar aos seus braços. – A multa é de milhões.

– Já me informaram – confirmou a moça. – E você, o que veio fazer?

– Tenho um contrato de manutenção com a editora e seus principais escritores...

– O que foi isto? – interrompeu Sabrina, preocupada ao ver que o elevador parou e ficou tudo escuro. Segundos depois, uma luz de emergência acendeu, embora muito fraca.

– Calma. Deve ter faltado energia. Só espero que não demore muito.

– Se você tem esse contrato – disse ela, voltando ao assunto original –, saberia quem ele é, correto?

– Sim, sei, mas também estou amarrado por cláusulas contratuais, sinto muito. Só posso dizer que esse nome é apenas um pseudônimo e que ele é brasileiro. Por isso conhece tão bem o Rio. Afinal, por que deseja tanto conhecê-lo?

– Instinto e algo mais. – Olhou para a sua feição, apenas uma sombra na penumbra, e deu-se conta que ainda o amava com a mesma intensidade de antes. – Eu queria ter essa sorte que ele tem. Queria conversar com ele e entendê-lo, saber como é seu mundo. Ele me transmite algo que nem sei explicar.

– Simples: torne-se escritora – disse. Henrique calou-se por uns segundos, olhou para ela e continuou. – Sabrina?

– Sim?

Ele aproximou-se e pegou-a pelos ombros, falando trêmulo:

– Eu amo você, Sabrina. Não consigo negar isso, eu amo você.

– Não faça isso – respondeu sem convicção enquanto ele a puxava de encontro a si – por favor...

– Eu amo você, Sabrina. – O seu beijo calou-a e ela, ofegante e sem resistir, entregou-se a Henrique ali mesmo, no elevador.

– Eu amo você – repetiu depois que terminaram – faço qualquer coisa por você. Sabrina, você não precisa de mais ninguém. Case comigo e largue essa vida que farei de você a mulher mais feliz deste mundo.

– Sabe o que aconteceu com o meu último relacionamento, justamente por causa dos paparazzi? – perguntou, chorando. – Um terrível e horroroso fracasso. Eu não aguentaria isso novamente.

– Você me ama?

– Sim, muito – respondeu sem medo. – Mas não dá.

– Eu sou bastante rico, Sabrina, muito mesmo. Podemos viver bem, muito felizes e longe de tudo isso...

O elevador voltou a andar e, quando parou no térreo, ela disse em meio a mais um beijo:

– Se me ama, esqueça porque não vai dar certo. – Saiu em passos rápidos, deixando atrás de si um homem desesperado e aflito, cheio de angústia.

Henrique foi para a empresa e disse que pretende tirar o dia de folga. Vendo seu rosto, a funcionária logo adivinhou que ocorreu alguma coisa. Quando ele saiu, pegou no telefone.

– Dona Nádia, a senhora pediu para avisar se seu irmão voltasse a ficar naquele estado, deprimido. Ele acabou de voltar da reunião com a editora e está bem assim, mas muito pior que qualquer outra vez.

– "Obrigada, Marta. Eu sei exatamente o que ele vai fazer." – A irmã deu um suspiro e levantou-se, trocando de roupa rapidamente.

― ☼ ―

Nádia foi para o quiosque e encontrou o irmão sentado, contemplando o mar. Na mesa, a cerveja praticamente intacta já até devia estar quente. Beijou Henrique e sentou-se ao seu lado.

– Rique, você precisa superar isso. – afirmou.

– Eu sei, mas é difícil – respondeu, aflito.

A irmã viu as lágrimas nos seus olhos.

– Imagino que sim. Pelo jeito vocês se encontraram de novo.

– Sim, eu estava renovando o contrato de manutenção com a editora e nos vimos no elevador. Ela estava lá porque queria o contato do John Mathew.

– E por que não lhe deu?

– Porque a desejo apenas para mim, não é óbvio? – perguntou, olhando para Nádia. – Eu, Henrique, apenas o simples Henrique.

– Olhe, acho que você deveria tirar umas férias de uns dois meses. Já não tira férias há cinco anos, desde os vinte e dois quando se formou! Pegue um avião e vá para algum lugar bem longe daqui. Relaxe e descanse, que eu posso cuidar da sua empresa nesse período.

– Acho que sim. Talvez me afastando eu melhore um pouco e consiga superar tudo.

– Vá para a Califórnia que lá é verão – afirmou. Pegou na sua mão e continuou. – Venha, vamos caminhar um pouco.

Abraçado, o casal de irmãos saiu a passear pela praia na mais pura paz e anonimato, tudo aquilo que Sabrina desejava no fundo do seu coração, mas não tinha coragem de fazer. Ambos caminhavam em silêncio, tranquilos e curtindo-se muito porque eram bastante apegados. Preocupada, Nádia notou que ele não perdia a tristeza, embora tivesse ficado um pouco mais calmo.

― ☼ ―

Duas semanas depois, os amigos levaram Henrique para o aeroporto do Galeão, despedindo-se dele.

– Ei, parceiro, dá uns amassos por mim numas americanas, já que não posso mais... ai, isso dói, amor.

Henrique abraçou-os e entrou na sala de embarque. Uma hora depois, o avião decolava para a Califórnia, um estado norte-americano com praias maravilhosas.

Hospedou-se em um hotel luxuoso, à beira da praia, e a sua rotina era quase sempre passear no mar, tomar algo no bar ou visitar museus, ficando sereno, porém ainda sem a esquecer, apesar de melhorar bastante com o passar dos dias.

Já faltava apenas pouco mais de uma semana para voltar e caminhava pela praia, perto do hotel, quando viu uma pessoa conhecida, parando e estranhando a coincidência.

Deitada na areia, tomando banho de sol e esplendorosa como sempre, encontra-se Sabrina. Seu coração disparou, dando-se conta de que continuava perdidamente apaixonado por ela. Deu um sorriso entre o duvidoso e o esperançoso e, sem resistir, aproximou-se dela, sentando-se ao seu lado. Ficou alguns minutos olhando para a garota, calado, apreciando seu rosto e vendo ao seu lado o mais novo livro do seu escritor favorito. De olhos fechados, a moça nada notou até que ele rompeu o silêncio enquanto fez uma leve carícia na sua face:

– Sabe, meu amor, a nossa vida está mais cruzada do que Vidas Cruzadas, já notou? – perguntou.

Assustada, ela levantou-se e olhou para ele de queixo caído, tirando os óculos escuros. Henrique abanou a cabeça e continuou:

– Não tem jeito, Sabrina, os nossos destinos sempre se acabam cruzando. Olhe só para nós, a milhares de quilômetros de casa e pimba, nos encontramos novamente. Quando é que se vai aperceber disso, que nós fomos feitos um para o outro, meu amor?

– Você me seguiu? – perguntou, sem saber mais o que dizer.

– Já lhe disse uma vez que não tenho esse hábito – sorriu docemente. – Estou aqui há quase dois meses, tentando recuperar-me do nosso último encontro, mas sempre que estou prestes a isso, deparo-me com você e vem tudo à tona, cada vez mais forte. E você, já me esqueceu?

Ela nada disse, mas o olhar que lhe deitou traía a moça.

– O que veio fazer aqui? – perguntou-lhe, curioso.

– Fui convidada para um papel secundário em um filme de Hollywood. Agora, estava tirando a semana para mim, já que, pelo menos, aqui sou uma ilustre desconhecida.

– E por quanto tempo, meu amor? – perguntou, sorrindo. – Você nasceu para a glória e considero-a a melhor atriz o planeta!

– Não sei, Henrique – Baixou o olhar, aflita. – Infelizmente, não sei mesmo.

– Sabrina, não podemos ignorar o destino. Eu preciso de você e você de mim. Eu a amo mais que qualquer coisa neste mundo e sei que você seria muito feliz ao meu lado, tal como eu serei ao seu.

– Henrique, eu...

– Ora, Sabrina – interrompeu-a calmamente. – Seja sincera consigo e comigo. Você sente algo por mim?

Ela ficou calada, olhando para ele e com o lábio tremendo um pouco, até que acenou afirmativamente.

– Henrique... eu... eu estou grávida – afirmou, suspirando.

– Não me importo, Sabrina, assumo a criança mesmo não sendo minha. Faz quanto tempo, já que ainda nem aparece a barriga?

– A criança é sua, Henrique, foi naquele dia do elevador.

Henrique fica estático ao ouvir a revelação. Eufórico, continua, cada vez mais insistente:

– Mais um motivo, meu amor. Essa criança precisa de um pai, um pai que a ame, que a proteja. Case comigo, pelo amor de Deus, case comigo.

Ela sorriu para ele e perguntou:

– Tem certeza que vai aguentar esse inferno todo?

– Por você eu aguento qualquer coisa, mas sei que podemos mudar sua vida, Sabrina, basta querer. Já lhe disse que sou muito rico, milionário, e você pode simplesmente largar tudo, se quiser. Pode até tentar fazer o que deseja: escrever.

– Então eu aceito, meu amor, porque também o amo e sofro com esta distância. Aceito, apesar de não ser esse o meu destino, pelo menos não o que me mostraram uma vez.

Beijaram-se durante m bom tempo e Henrique levou a noiva para o quarto. Quando descobriu que ela estava no mesmo hotel, mandou fechar a diária deles e reabrir como casal, com ambos passando o resto da semana sempre juntos.

No dia seguinte, ligou para a irmã:

– Oi, mana – disse, alegre.

– "Oi, Rique" – respondeu Nádia. Encostada a ele, Sabrina escutava. – "Pelo jeito você está melhor. Sinto até felicidade na sua voz."

– Estou muito feliz, Nádia. Liguei para dizer que, quando chegar aí, vou-me casar, então preparem tudo.

– "Escute, irmão. Você saiu daqui quase morrendo de infelicidade por causa da sua eterna musa e agora diz que vai casar! Você anda bebendo?"

– Apenas preparem tudo para o meu casamento com Sabrina, ok? – pediu, rindo. – Nós chegamos aí na quinta-feira. Trocamos os dias da passagem.

– "Henrique, você tá com febre?" – perguntou a irmã, cada vez mais preocupada. – "Mano, eu vou buscar você aí amanhã mesmo e levá-lo para o psiquiatra..."

– Nós vamos casar, sim, Nádia – disse Sabrina, rindo. – Eu aceitei o pedido e você vai ser tia lá por fevereiro...

– "CARACA!" – foi o berro que ouviram e os dois caíram na risada. – "Isso deve dar até um livro bem maluco!"

– Prepare tudo para mim, tá, mana? – pediu Henrique. – Agora vou desligar para namorar um pouquinho.

― ☼ ―

Num dia seguinte chovia tanto que ambos aproveitaram para ficar relaxando no hotel. Enquanto ela via um filme, flagrou Henrique sentado no seu computador, o mesmo note que lhe emprestou.

– Por que ainda usa esse micro, amor, logo você que tem acesso às tecnologias de ponta? – questionou, curiosa. – Esse aí tem uns quinhentos anos! E você disse que ele tinha uma história, qual é?

– Como eu disse aquela vez, Sabrina, este computador possui um significado demasiado especial para mim. Desde os tempos da faculdade que o uso para escrever meus livros.

– Que livros, amor?

– Todos aqueles que você tanto ama – respondeu com um pequeno sorriso. – Eu sou John Mathew, anjo, e Augusto é meu agente literário. Por isso sou tão rico, ou acha que a minha empresa pode sustentar a vida que levo?

– Jura!? – espantada, abraçou o noivo e foi olhar o que estava na tela, lendo um trecho e notando que ele escrevia a história deles. Rindo à toa, continuou. – Eu sabia que precisava conhecer você! Uma cartomante, poucos dias antes de nos encontrarmos, disse que eu ia conhecer John Matew em breve e casaria com ele. E também disse que isso mudaria toda a minha vida pra melhor, que eu seria feliz como nunca! Agora, sei que este é meu destino.

– Estava Escrito nas Estrelas, meu amor, e eu sempre soube disso – diz, assim que ela para de o beijar. – Afinal, nossa história parece mesmo com Vidas Cruzadas. Bom título para o livro, não acha, "Escrito nas Estrelas"?

― FIM ―

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