Parte 3
32 dias de investigação
Quarto de Hotel no Cairo
Tarde
O homem ergueu a última mala que restava. Os objetos do quarto tinham, se possível dizer, mais vida que as duas almas presentes ali. Retornariam para a Inglaterra fracassados e isso os massacrou como nunca antes.
— Estamos prontos. Mas, e quanto a você? Vai retirar esses papéis ou os deixará aí para que o serviço de quarto limpe tudo? — disse James girando a maçaneta da porta.
Niccols observava um emaranhado de documentos colados na parede do quarto. Havia inúmeras marcações por todos os lados, e nenhuma parecia levar a lugar algum.
— Vou descer em breve — respondeu alheia à pergunta do amigo.
Os ataques aumentaram, assim como os saques. Haviam tomado proporções gigantescas, um verdadeiro problema de Estado. Contudo, ela estava resignada a uma falha.
A maneira como os crimes ocorriam sugeria atuação em grupo. A natureza das primeiras chacinas evidenciavam vingança ou algo próximo a revanchismo. Niccols fortaleceu, assim, sua teoria sobre alianças extremistas do Egito que se opunham ao regime colonial imposto pela Inglaterra.
Mas qual seria o motivo de roubar mercadorias históricas? Por que esses grupos fariam isso? Não havia, de fato, melhores maneiras para se atingir a metrópole? Era nesse ponto que sua teoria falhava.
E ainda havia aquele símbolo gravado em sangue: a mulher com cabeça de leão. A marca aparecia em todos os lugares. Significava vingança, mas dos deuses. Inacreditável!
— Deuses?! — Mordeu o cachimbo, furiosa.
Na mesa logo abaixo do mural improvisado e em cima de documentos diversos, estava a carta da Inglaterra que ordenava sua volta em vista do fracasso. A mulher avançou voraz contra aquela pilha e desferiu a melhor bofetada de toda sua vida. Os papéis voaram desorganizados, mas nem por isso se viram livres da ira dela.
— Deuses!
Não gritava, apenas sussurrava em cólera enquanto pisoteava cada folha ao seu alcance. O momento de histeria, entretanto, passou em segundos. E sua infantilidade a mostrou a resposta.
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32 dias de investigação
De volta ao Armazém Britânico
Noite
Ela havia imaginado viver muitas aventuras como detetive. Mas, decerto, ser perseguida por uma pessoa com máscara em formato de leão, quase ser morta e depois ser interrogada com o auxílio de duas adagas douradas não faziam parte do plano.
Respirou fundo e escolheu bem as palavras que usaria para responder às típicas perguntas que lhe eram feitas.
— Meu nome é Niccols, Margaret Niccols. Sou uma detetive britânica contratada para resolver o mistério das chacinas na colônia. Decidi me esconder aqui hoje para mostrar que eu poderia me antecipar aos assassinos, você, no caso. Mas parece que não me antecipei o suficiente. E é isto, não é? É isto que você quer? — disse sorrindo enquanto balançava o ornamento. — Percebi que havia um erro nos documentos roubados do gabinete do alto comissário. Um dos artefatos estava repetido em todas as listas. Seria uma forma de protegê-lo? Não sei o que é, mas parece muito importante. Importante o suficiente para valer todas aquelas mortes?
Pulou, contudo, sua epifania destrutiva, o pisoteamento de papéis, a fuga pela porta dos fundos do hotel e as experiências com veneno de cobra.
— E levar nossa história?
Os olhos castanho avermelhados se estreitaram a cada palavra. A figura falava mal o inglês, mas a voz denunciava ser uma mulher com a altivez da realeza.
— Não. Não! A história de um povo é sua vida! Estão os matando aos poucos. Estão os massacrando, negando-lhes a definitiva liberdade que merecem. Vocês são gafanhotos em uma plantação fértil. Niccols, entende o que é ser privado de algo?
— Como assim? — disse enquanto o sorriso se esvaía aos poucos.
— O Egito é o lugar em que habita o meu povo. Volte para suas terras além mar. Pois eu protegerei as memórias destas. E minha lâmina não tem piedade.
As orbes avermelhadas ficaram ainda mais próximas quando a assassina retirou o artefato da mão de Niccols.
— Agora vá!
Niccols correu como nunca antes, sem esquecer seu cachimbo no chão, o qual apanhou com uma velocidade fenomenal. O cagaço desta vez era maior, muito maior. Escancarou as portas do armazém e se lançou noite adentro. Caiu nas areias que começavam a se levantar, formando uma furiosa tempestade de areia.
Após alguns minutos de vendaval, tudo se aquietou. Niccols adentrou o local novamente, apenas para averiguar.
Não havia nada lá, nem assassina, nem artefatos históricos.
— Deuses? — sussurrou.
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Próximo à costa do Egito
James encontrou Niccols debruçada no parapeito do navio, o olhar perdido no horizonte e o cachimbo preso entre os lábios.
— Não quero mais — disse Niccols, percebendo a presença dele.
— O quê?
— Me esgueirar nas cenas de crime... Não ser ouvida.
James molhou os lábios. Esta não era a Niccols que conhecia.
— Deixou de ser divertido?
Este caso causou um marco em sua memória. Para seu país, era seu primeiro fracasso, mas para ela significou muito mais do que um mistério desvendado.
Não podia ser a detetive que almejava, pois era necessário se esconder na sombra de seu amigo. Não podia conviver em harmonia com seus pais, pois ser recatada e casar nunca foram de seu feitio. Não podia incontáveis coisas pelo único fato de ser mulher. Simplesmente, não podia.
E aquela figura mascarada, diferente dela, era livre.
— Cansei de ser subestimada. — Soltou o cachimbo na mão para admirá-lo com os olhos semicerrados e, surpreendendo James, atirou o objeto no mar. — Quero lutar pela minha voz. — Cruzou os braços e lançou um olhar feroz ao amigo. — Posso contar com você?
Ele não guardou ressentimentos por Niccols jogar no oceano escuro o presente que dera a ela quando se tornaram uma dupla. Não, apenas cerrou os olhos, esfregou a têmpora e esboçou um sorriso.
— Sempre, sua majestade.
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Algum Lugar no Egito
A assassina de vermelho andava com elegância entre os incontáveis tesouros egípcios recuperados. Desamarrou a máscara em formato de leão e observou com carinho o símbolo escarlate na parede. O hieróglifo de uma mulher com cabeça de leão era ela: Sekhmet, a deusa da vingança.
E ela vingaria seu povo e a memória dos deuses.
Jamais haveria trégua.
Afinal, sua lâmina não tem piedade.
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