DEVORADORA - Capítulo Único
"Diante do hábito, tudo se torna menos louco..."
JoeFather
Cresci numa pequena cidade do Wyoming, chamada Brigster. Sua localização, num dos extremos da Floresta Nacional de Shoshone, era um paraíso natural, ideal para se ter lembranças de uma infância maravilhosa.
Até os 10 anos posso dizer que tenho excelentes recordações da minha vida juvenil. Pelo menos até os 10 anos desfrutei de uma infância inesquecível, cercado por inúmeras amizades. Dentre elas, Horace era o meu melhor amigo da época do colégio.
Fazíamos tudo junto, desde manhã quando rumávamos para a escola e durante as brincadeiras na parte da tarde, nadando ou explorando trechos da floresta que cercava a cidade.
Horace morava num sítio afastado e fazia o percurso até minha residência numa bicicleta NSU novinha, que ganhou de aniversário. A guardava em nossa garagem, de onde seguíamos a pé a distância que nos separava do colégio.
Fizemos muito planos naquele longo verão de 1949. Horace pretendia seguir na carreira militar, assim como um tio que servira na Segunda Guerra.
Eu tinha ambições menores. Com apenas 10 anos já pretendia ser professor de inglês e quem sabe um dia escrever um romance policial.
*Professor George? - Caçoava sempre Horace quando eu lhe contava esse meu plano - Ou será professor G. G.?
Ele adorava essa piada, fazendo referência ao meu sobrenome Gordon e eu ria sempre, contagiado pelo seu sorriso.
Eu realmente o amava como a um irmão. Foi por isso que senti tanto quando ele misteriosamente desapareceu, apesar das injustas acusações que por muito tempo me perseguiram.
***
Numa manhã de outubro, quando os ventos do outono começavam a soprar, Horace me convidou para uma festa de Halloween que ocorreria num sítio. Eu aceitei na hora, mesmo não tendo pedido permissão em casa e quando o fiz, para minha surpresa, minha mãe concordou na hora.
Quando contei para Horace, ele ficou radiante. A festa seria numa segunda-feira e poderíamos ir após a escola, voltando no final da tarde, para que ele dormisse em minha casa.
Na segunda, mal me recordo das aulas que tive. Muito daquele 31 de outubro se manteve por um bom tempo numa parte nebulosa da minha mente, como palavras num quadro-negro que são apagadas levemente e que ficam todas confusas de se ler.
Lembro de irmos para a escola, eu sentado na garupa de sua bicicleta. Depois disso, não posso afirmar, com certeza, dos demais detalhes que ocorreram. Na verdade, na época eu não pude, mas hoje me recordo de tudo muito bem.
Desse vazio que povoou minha mente, a primeira lembrança concreta que tenho é de quando me vi saindo de uma trilha da floresta.
De lá segui para minha casa, feito um sonâmbulo. Meus cadernos escolares, presos numa fita azul, vinham se arrastando pelo chão, contrastando com o zelo que eu tinha por tudo que possuía.
A parte superior do meu uniforme, geralmente de um branco impecável, estava suja de sangue e os primeiros botões da camisa haviam sido arrancados, como se alguém houvesse me puxado pelo uniforme numa luta corporal.
Foram estes detalhes que levaram as autoridades a acreditar, a princípio, que eu poderia ter cometido um assassinato.
***
Voltar sozinho para casa não era o combinado naquele dia. Meus pais sabiam disso.
E ao me verem chegando naquele estado, imediatamente pensaram o pior e ligaram para a delegacia.
O xerife, um homem bigodudo de nome Wallace, me pressionou com perguntas que eu não sabia responder naquele momento, culminando com uma questão que ainda mexe comigo até os dias atuais.
*Escuta, garoto: você fez alguma coisa que pudesse machucar o seu amigo Horace?
Talvez tenha sido a minha resposta evasiva o que mais me incomoda até hoje. Eu deveria ter respondido de forma convicta que jamais teria feito algo que pudesse magoar o meu amigo, mas o que saiu foi desconcertante.
*Eu não sei, xerife!
O Sr. Wallace convocou os moradores para que se iniciassem as buscas e mandou que alguém fosse avisar a família de Horace.
A única ajuda concreta que forneci foi indicar a trilha por onde saí da floresta. Apesar do empenho de todos, mesmo durante a luz do dia, quando as buscas reiniciaram na manhã seguinte, nenhum vestígio dele foi encontrado.
Somente um mês depois um caçador se deparou com restos mortais de uma pessoa e comunicou o escritório do xerife.
Os ossos encontrados estavam dentro de um uniforme escolar, que foi reconhecido pela família de Horace e os exames médicos comprovaram que eram seus restos mortais.
O fato mais estranho é que o corpo não apresentava os sinais característicos de decomposição, além de não haver sinais de ter sido atacado por nenhum animal na floresta.
Ficou claro para as autoridades que a ossada havia sido colocada naquele local por alguém, para que fosse encontrada. Assim deixei de ser um suspeito por algum tempo.
A causa da morte não pôde ser determinada pela perícia da época e não foi possível ligar a vítima a mais ninguém e novamente os olhares se voltaram sobre mim, por muito tempo. Olhares sobre um menino que, caprichosamente, perdeu a memória que poderia trazer a todos uma solução para aquele assassinato.
O caso foi arquivado meses depois, mas não foi esquecido. Numa cidade pequena como a minha muitas coisas não são. E toda vez que, nos anos que se passaram, alguma criança desaparecia, a população de Brigster exigia das autoridades que o caso fosse reaberto, pois poderiam estar relacionados.
E assim que as investigações se mostravam infrutíferas, restava somente aos cidadãos seguir com a sua vida e continuar suspeitando, de forma declarada ou disfarçada, da única pessoa que trazia nas profundezas de sua mente a chave para solucionar aquele mistério.
Eu fui levado pelas autoridades para os melhores psicólogos e até passei por sessões de hipnose, naquele 1949 e em vários anos depois. Da minha mente eles não conseguiram retirar nada. Nem eu mesmo, por mais esforço que eu fizesse.
As nuvens que pairavam sobre as recordações daquele dia somente foram sopradas para longe quando a minha mente achou que era o momento adequado. Pelo menos é nisso que eu pretendo morrer acreditando....
***
Não me tornei professor nem escritor, como um dia sonhei.
Os anos passaram e por mais que me fosse atraente partir daquela cidade que me julgava constantemente pelo desaparecimento de Horace, eu continuei morando ali.
Me formei em medicina numa universidade federal, voltando para a cidade sempre que me era possível. Não cheguei a clinicar e me especializei no assunto que sempre chamou a minha atenção: a mente.
Como neurologista, acompanhando os avanços da medicina, pude aprender sobre a complexidade do cérebro humano. Após 20 anos de exaustivo estudo, eu era constantemente consultado por outros especialistas e a minha opinião sobre essa matéria era sempre levada em conta, inclusive aparecendo nas mais importantes matérias publicadas sobre o tema.
Eu me tornei Dr. G., um especialista renomado da neurologia, mas sem conseguir compreender plenamente o funcionamento da minha própria mente.
***
Tudo mudou em 1985, numa manhã cinzenta de outono.
Estava tomando o café da manhã, acompanhado de minha mãe, quando ouvi o toque da campainha.
Ao abrir a porta, só pude ver um velho jeep partindo. No chão, junto ao capacho de boas-vindas, havia um envelope comum sem remetente.
Após abri-lo, parecia estar vazio, mas pude perceber que estava enganado ao virá-lo sobre minha mão espalmada.
Dois objetos redondos ficaram me observando tal um par de olhos, como que esperando a minha reação.
Foram necessários somente estes pequenos objetos, os quais foram arrancados do meu uniforme escolar em 1949, para que a minha mente voltasse no tempo...
De repente eu estava lá novamente, berrando alegremente na garupa da bicicleta de Horace, enquanto ele pedalava velozmente na direção do sítio, onde a festa logo começaria.
Na entrada da casa principal a Sra. Marinder, com uma máscara de bruxa, distribuía outras máscaras menores para uma fila de crianças.
Consigo recordar até da suavidade da sua voz, enquanto ela dava instruções, sobre onde as crianças podiam brincar com segurança.
Ganhei uma máscara de lobisomem e Horace outra idêntica, depois corremos para dentro da enorme propriedade.
Não havia outros adultos ali, somente a anfitriã organizava todas as brincadeiras, se deslocando de um grupo para outro.
Quando mais tarde alguns pais começaram a chegar para buscar seus filhos, estes também colocavam máscaras que ficavam numa caixa de papelão na entrada. Todos os homens vestiam máscaras de lobisomens enquanto as mulheres usavam de bruxas.
Achei aquilo estranho e sem sentido, mas estava me divertindo e comendo tanto que não dei muita importância para isso.
Em dado momento a Sra. Marinder me parou e cochichou algumas palavras em meu ouvido. Soube na hora que era ela, pois a sua voz era muito marcante.
Saí correndo depois de ouvi-la e encontrei Horace brincando com alguns garotos.
*Está ficando tarde! - falei.
Algum tempo depois, agradecemos e nos despedimos.
Levaríamos um bom tempo para chegar na cidade e quando começou a escurecer, sugeri que caminhássemos, lhe dizendo que a minha bunda estava doendo, devido a garupa de ferro.
Ele concordou na hora e seguimos calados por um tempo, até que um uivo nos chamou a atenção.
Não havia lobos naquela floresta e ri da cara de medo que o meu amigo fez.
*Fique sossegado! Deve ser só um cachorro perdido.
Horace não pareceu convencido e achou que seria mais rápido se fôssemos na bicicleta.
Ele já subia sobre ela quando vi uma mão lhe segurando pela gola do uniforme.
Meu amigo levou um susto enorme e começou a se debater, tentando fugir.
Comecei a rir, mas logo o meu sorriso sumiu, quando uma faca surgiu e desapareceu na barriga de Horace.
Fiquei parado por um tempo, observando a mulher mascarada, até que sua mão também se agarrou no meu uniforme.
Meu senso de sobrevivência falou mais alto e num arranque, escapei daquele aperto forte e saí correndo pela floresta, sem saber se estava seguindo na direção correta.
Só parei de correr quando saí da trilha e avistei a cidade, com a minha mente mergulhando num torpor, da qual só sairia muitos anos depois.
Toda aquela recordação levou apenas alguns minutos para me invadir e eu ainda observava os dois botões na palma da minha mão quando minha mãe me chamou da cozinha.
Terminamos de tomar o café e em seguida eu lhe disse que precisa sair, pois necessitava visitar uma velha amiga, a qual da última vez que a vi usava uma máscara de bruxa.
***
Estacionei atrás do jeep e notei que o sítio parecia do mesmo jeito que eu me recordava dele. Passei pela porta entreaberta e a vi sentada, numa mesa da área de descanso.
Quando se virou, usava uma máscara que a partir daquele dia eu veria nos meus pesadelos.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a Sra. Marinder despejou suas palavras frias sobre mim.
*Demorou muito tempo para vir me visitar. Será que consegui refrescar sua memória?
Tive um leve descontrole e pensei em matá-la, mas eu era um estudioso das mentes agora e gostaria muito de conhecer uma que estivesse envolta numa insanidade incontestável.
Ela me contou em poucas palavras sobre o prazer que tinha em matar, mas isso não me chocou. Foi somente quando ela disse o que fazia com as vítimas que o meu café voltou e vomitei parte dele no chão do recinto.
*A carne humana é uma delícia, principalmente das crianças. Devia experimentar qualquer dia desses...
Depois de me recuperar da náusea, retirei a máscara que cobria sua face.
Era uma sexagenária bonita e imaginei quantos corações não bateram forte por ela e quantos ela não devorou...
Depois de vomitar o resto do café, me sentei na sua frente.
*Por que está me contando isso? Não tem medo que eu a entregue para as autoridades?
Ela riu. Um sorriso com dentes perfeitos.
*Se fizer isso, todos saberão da sua participação na morte de Horace. Imagine a raiva que sentirão. Posso até me fazer de vítima...
*Eu era apenas uma criança que foi enganada por uma psicopata...
A Sra. Marinder riu novamente e eu me perdi nos meus pensamentos.
No passado, naquele mesmo lugar, ela cochichou em meu ouvido para que eu a ajudasse a assustar meu amigo Horace. Era só irmos mais devagar quando estivéssemos próximos da cidade.
Não vi nenhuma maldade nisso, mas ela podia ter razão. As pessoas, movidas por um ódio antigo, podiam acreditar em qualquer coisa.
*E o que quer de mim? - perguntei friamente.
*Quero que me estude, Dr. G., pois quero saber porque sou deste jeito. Qual a razão da minha compulsão por matar e devorar. Se sofro realmente de uma doença mental ou se minhas ações são somente fruto da maldade que existe em mim.
Não precisei pensar muito. O assunto era muito interessante para ser descartado por um estudioso como eu.
Lhe pedi alguns dias e escrevi tudo que foi lido até agora, todos os detalhes. Depois enviei o texto para uma revista especializada em neurologia, numa correspondência simples e que levaria uma semana para chegar ao seu destino.
Retornei para o sítio da Sra. Marinder e disse que aceitaria o pedido, mas tínhamos que seguir para um local mais isolado. Ela já tinha preparado sua bagagem, como se já soubesse dos meus planos.
No lugar gelado para onde mudamos, fiz um minucioso estudo do seu caso. Descobri que ela matou muitas pessoas, na maioria crianças, sempre agindo com cuidado, o que lhe fez ficar sempre impune quanto aos seus crimes.
Na única vez que deixou uma vítima escapar foi quando fugi dela em 1949. Disse ter saboreado na mesma noite um cozido feito com carne do meu amigo e depois ficou aguardando a chegada do xerife. Quando este não veio, ela investigou e descobriu que eu alegava ter perdido a memória.
*Eu nunca acreditei nisso! Sempre achei que você estava com medo, se sujando de medo de ser preso também. E por isso ficou calado e assim devolvi os ossos do menino, para lhe provocar...
Antes da minha conclusão lhe disse que precisava experimentar algumas das sensações que ela sentira.
Neste momento em que encerro o meu trabalho no caso da devoradora, devo dizer que o meu veredito é de que ela agiu da forma monstruosa por todos aqueles anos achando que não estava fazendo nada de errado.
Ela entendia que suas ações iam contra os costumes da sociedade em que vivia, mas não via nenhum mal nisso.
Minha conclusão é de que ela continuou agindo desta forma, pois, na minha opinião, ela era a própria maldade em pessoa.
O que lhe receitei no final foi um merecido descanso, que ela não pode recusar. Afinal, para que eu pudesse ter uma compreensão plena, tive que a convidar para ser o meu jantar.
Não posso dizer que apreciei o cardápio, mas a Sra. Marinder devia ter razão nisso, pois a carne que preparei, de uma velha bruxa, ficou dura, mesmo após horas fervendo num caldeirão.
FIM
PS.: "A maldade contagia?"
2498 palavras
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