Capítulo Único
Satoru tamborilava as unhas longas e bem cuidadas na superfície de madeira da mesa do café, um ritmo impaciente que denunciava seu tédio. Ela amava Suguru, sua melhor amiga, sua alma gêmea platônica, mas a ideia de conhecer o tal "namorado misterioso" não a apetecia nem um pouco.
Em sua mente, ninguém seria bom o suficiente para Suguru, e ela já estava com o roteiro pronto para intimidar o pobre rapaz até que ele fugisse.
O sino da porta tocou, anunciando a chegada de novos clientes. Satoru ergueu o olhar por cima dos óculos escuros, pronta para julgar, mas o ar simplesmente fugiu de seus pulmões.
Lá estava Suguru, com aquele sorriso suave e apaixonado que Satoru raramente via. Mas não foi para a amiga que os olhos de Satoru foram atraídos como ímãs. Foi para ele.
Uzumaki Naruto.
Não havia outra palavra para descrevê-lo senão pecado. Ele caminhava com uma confiança despojada, uma irreverência natural que parecia iluminar o ambiente estéril da cafeteria. Quando ele sorriu para algo que Suguru disse, Satoru sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha. Ele era a imagem viva de Adônis, esculpido não em mármore frio, mas em pele bronzeada e calor humano vibrante.
— Satoru! — A voz de Suguru a trouxe de volta à realidade, embora sua mente ainda estivesse presa na imagem dele. — Desculpe o atraso. Este aqui... é Naruto.
O loiro coçou a nuca, um gesto meio envergonhado, meio charmoso, e estendeu a mão. Os olhos dele eram de um azul tão intenso que Satoru sentiu que poderia se afogar neles de bom grado.
— Então você é a famosa Satoru? A lenda de quem a Suguru não para de falar? — A voz dele era rouca, calorosa, com uma pitada de humor que fez o estômago de Satoru revirar de uma maneira que ela não sentia há anos. — É um prazer finalmente conhecer a "guarda-costas" da minha namorada.
Satoru pegou a mão dele. O toque era firme, quente, áspero na medida certa.
— O prazer é todo meu, Naruto. — ela respondeu, e sua voz saiu um pouco mais aveludada do que o normal. Ela desenhou um sorriso perfeito nos lábios, mas por dentro, estava em chamas. — E sim, eu sou a guarda-costas. Espero que esteja cuidando bem dela.
Naruto riu, e o som foi contagiante. Ele se virou para Suguru, e a expressão brincalhona derreteu, dando lugar a uma adoração nua e crua que fez o sangue de Satoru gelar de inveja.
— Eu tento o meu melhor, sabe? — disse ele, puxando a cadeira para Suguru se sentar com um cavalheirismo natural, sem esforço. — Ela é difícil de lidar às vezes, mas vale cada segundo.
Satoru observou a cena como se estivesse assistindo a um filme em câmera lenta. A maneira como ele olhava para Suguru... como se ela fosse a única mulher no mundo. A dedicação em cada gesto, a forma como ele ajeitou uma mecha de cabelo solta atrás da orelha da namorada, o brilho de orgulho nos olhos dele.
Era exatamente tudo o que Satoru sempre quis. Tudo o que ela achava que não existia.
Ele era perfeito. A personalidade vibrante que contrastava com o mundo cinza, a beleza estonteante, a devoção absoluta.
Ele é perfeito, Satoru pensou, tomando um gole de seu café para esconder a secura em sua garganta. E ele é dela.
A conversa fluiu. Naruto era engraçado, contava histórias com gestos exagerados e fazia Suguru rir até as lágrimas. Satoru ria junto, participava, lançava suas próprias piadas ácidas que Naruto rebatia com facilidade. Mas, sob a mesa, suas mãos estavam fechadas em punhos, as unhas cravando na palma.
Ela via a "bolha de amor" em que os dois viviam. Era impenetrável. Era linda.
E Satoru odiou aquilo com todas as suas forças.
Uma sombra rastejou pelos cantos de sua mente, fria e calculista, contrastando com o calor de seu desejo repentino. Por que Suguru tinha que ter tudo? Por que ela merecia aquele olhar, aquele toque, aquele homem?
Satoru olhou para Naruto mais uma vez. Ele estava limpando o canto da boca de Suguru com o polegar, rindo de algo trivial. Aquele homem era um prêmio. Um tesouro. E Gojo Satoru nunca foi de aceitar o segundo lugar, muito menos de ficar apenas olhando a vitrine.
Que desperdício, ela pensou, seus olhos azuis brilhando com uma intensidade perigosa por trás das lentes escuras. Eles formam um casal lindo, de verdade. Mas ele ficaria muito melhor ao meu lado.
A decisão não foi gradual; foi instantânea, como o estalar de dedos. Enquanto observava o casal feliz, a semente da obsessão enraizou-se fundo em seu coração. Não havia opção. Não havia escolha moral que pudesse competir com a fome avassaladora que a consumia agora.
Ela precisava acabar com aquilo. Precisava estourar aquela bolha perfeita.
Satoru sorriu para os dois, um sorriso predador disfarçado de gentileza angelical.
— Vocês são adoráveis juntos. — disse ela, a mentira deslizando doce como mel envenenado. — Vamos ter que sair nós três mais vezes, Naruto. Quero saber tudo sobre você.
Enquanto Naruto concordava animadamente, alheio ao perigo, Satoru já arquitetava o fim deles. Ele seria dela. Custe o que custasse.
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Os dias se arrastavam como melado, lentos e torturantes, transformando o apartamento que Satoru dividia com Suguru em uma jaula de luxo. A cada visita de Naruto, a frustração de Satoru crescia, transformando-se de uma irritação latente em uma necessidade física, uma fome que arranhava suas entranhas.
Ela não estava acostumada a perder. Na verdade, Satoru não sabia o que era a rejeição. Mas Naruto... Naruto era uma fortaleza impenetrável.
Certa tarde, sabendo que ele viria buscar Suguru para jantar, Satoru decidiu jogar sua cartada mais ousada. Ela esperou ouvir a chave dele na porta e se posicionou estrategicamente na cozinha. Quando ele entrou, ela "coincidentemente" saiu do quarto para pegar um copo d'água.
Ela não vestia nada além de um conjunto de lingerie de renda preta, minúsculo, translúcido, desenhado para provocar infartos. O tecido abraçava suas curvas perfeitas, deixando pouco para a imaginação. Satoru caminhou com a elegância de uma modelo, parando no meio da sala, garantindo que a luz da janela a iluminasse perfeitamente.
— Ah, oi Naruto. — ela disse, fingindo surpresa, a voz rouca e calculada. Ela se inclinou levemente sobre o balcão, destacando o decote. — Não sabia que já tinha chegado.
Naruto, que estava tirando os sapatos na entrada, ergueu os olhos. Satoru prendeu a respiração, esperando o brilho de luxúria, o gaguejar, o desvio de olhar culpado que todo homem fazia.
Mas não houve nada.
Os olhos azuis dele passaram por ela como se Satoru fosse parte da mobília. Não houve dilatação de pupila, nem um engasgo. Apenas um sorriso educado e tranquilo.
— E aí, Satoru. Suguru já está pronta? — ele perguntou, voltando a atenção para o celular em sua mão, digitando algo despreocupadamente.
Satoru sentiu como se tivesse levado um tapa na cara. A indiferença dele queimava mais do que qualquer insulto.
Antes que ela pudesse processar o choque, a porta do quarto de Suguru se abriu. A morena saiu, ajeitando os brincos, e sorriu ao ver a cena. Para qualquer outra pessoa, ver a melhor amiga seminua na frente do namorado seria motivo de escândalo. Mas Suguru conhecia Satoru; sabia de seu hábito de andar nua pela casa, de sua liberdade corporal excessiva. E, acima de tudo, Suguru confiava em Naruto com sua vida.
— Satoru, pelo amor de Deus, veste um roupão, vai pegar um resfriado com esse ar condicionado. — Suguru brincou, revirando os olhos com carinho, antes de caminhar até Naruto e lhe dar um selinho demorado.
Satoru observou, com os dentes trincados, enquanto Naruto envolvia a cintura de Suguru com uma ternura que ele jamais direcionou ao corpo exposto dela.
— Você está linda, amor. — Naruto sussurrou para Suguru, e aquele foi o golpe final.
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Sem conseguir vencer pela atração física, Satoru tentou envenenar a mente da amiga.
Em uma noite de vinhos, aproveitando que estavam sozinhas no sofá, Satoru suspirou pesadamente, girando a taça na mão.
— Você não acha estranho, SuSu? — ela começou, a voz destilando uma preocupação falsa.
— O quê?
— Naruto. Ele é... perfeito demais. Homens assim não existem. — Satoru se inclinou, tocando o joelho da amiga. — Geralmente, quando a esmola é demais, o santo desconfia. Você tem certeza que ele é tudo isso mesmo? Que não está escondendo nada? Essa devoção toda... às vezes é fachada para compensar algo.
Ela esperava plantar uma semente de dúvida, ver a insegurança brotar nos olhos de Suguru. Mas a amiga apenas sorriu, com um sorriso suave e cheio de certeza que fez o estômago de Satoru revirar de náusea.
— Ah, Satoru... Eu sei que você se preocupa comigo, e eu agradeço por isso. Mas o Naruto é um livro aberto. — Suguru tomou um gole de vinho, radiante. — Ele me ama de verdade, e eu o amo. Não precisa ficar procurando defeitos onde não tem. Fica tranquila, eu estou totalmente segura.
A tentativa saiu pela culatra. Ao invés de afastar Suguru dele, Satoru apenas reforçou a certeza que a amiga tinha naquele relacionamento.
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Mas o pior... o pior eram as noites.
As paredes do apartamento não eram finas, mas o silêncio da madrugada trazia sons que Satoru daria tudo para não ouvir. Ou talvez, ela quisesse ouvir, apenas para alimentar seu masoquismo obsessivo.
Gemidos abafados. O rangido rítmico da cama. A voz rouca de Naruto sussurrando coisas que Satoru não conseguia decifrar, seguidos pelos suspiros entregues de Suguru.
Deitada em sua própria cama, no escuro, Satoru fechava os olhos com força, as mãos deslizando pelo próprio corpo em busca de um alívio que nunca era completo. Em sua mente febril, ela apagava a existência de Suguru. Não era a amiga quem estava no quarto ao lado; era ela.
Ela imaginava as mãos calejadas de Naruto em sua pele, a boca dele em seu pescoço, a força dele prendendo ela contra o colchão. Satoru gemia contra o travesseiro, o nome dele escapando de seus lábios como uma prece profana, enquanto atingia o clímax sozinha, no frio de seu quarto.
Mas quando o prazer passava, restava apenas o vazio e o som da felicidade alheia na parede ao lado.
Satoru encarou o teto, a respiração ainda descompassada, e uma lágrima solitária de raiva escorreu por sua têmpora. Imaginar não era mais suficiente. Ouvir não era mais suportável.
A paciência de Satoru havia se esgotado. Se a sutileza não funcionava, e se a dúvida não criava raízes... ela teria que ser drástica. Ela não sabia quanto tempo mais aguentaria ser apenas a espectadora da vida que deveria ser sua.
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O destino, que parecia zombar de Satoru nas últimas semanas, finalmente decidiu lhe oferecer um presente embrulhado em acaso e má sorte alheia.
Suguru precisou viajar. Uma emergência no trabalho exigia sua presença em outro estado por três longas semanas. Para Naruto e Suguru, foi uma despedida chorosa e cheia de promessas de videochamadas diárias. Para Satoru, que assistiu a tudo encostada no batente da porta com uma expressão de falsa simpatia, aquilo soou como o sino de início de uma caçada. O campo estava finalmente livre.
Alguns dias após a partida da amiga, o acaso sorriu para Satoru de forma escancarada.
Ela o viu em um bar no centro da cidade, um local barulhento e cheio de luzes neon. Naruto estava lá, rodeado por alguns amigos de trabalho, rindo alto e virando copos com uma despreocupação que Satoru raramente via.
Satoru não entrou de imediato. Como uma predadora paciente, ela permaneceu nas sombras, observando de longe, invisível em meio à multidão. Seus olhos, afiados por trás das lentes escuras, rastreavam cada movimento dele. Ela observou o rubor subir pelas bochechas bronzeadas, o riso ficando mais solto, o equilíbrio tornando-se precário. Se Naruto estava bebendo para esquecer a saudade da namorada ou apenas para relaxar, não importava, para Satoru, cada gole que ele dava era um passo a mais em direção à armadilha dela.
Quando julgou que ele estava no ponto ideal — alegre demais para raciocinar, mas sóbrio o suficiente para andar — ela pegou o celular.
O telefone de Naruto vibrou no balcão. Ele atendeu, a voz pastosa e arrastada.
— Alô? Satoru?
— Naruto? — Satoru fingiu surpresa, a voz modulada em um tom de preocupação maternal. — Nossa, que barulho é esse? E essa voz... Você está bebendo?
— Ah... só um pouco com o pessoal... — ele riu, um som rouco e desconexo. — SuSu tá viajando, né... a casa tá quieta.
— Você parece que bebeu mais do que "só um pouco". — ela repreendeu suavemente, plantando a isca. — Olha, eu estou no centro resolvendo umas coisas. Não vou deixar você dirigir ou pegar um táxi nesse estado. Quer que eu te dê uma carona?
Do outro lado da linha, a ingenuidade de Naruto selou seu destino. Ele não viu uma mulher obcecada; viu apenas a melhor amiga de sua namorada, uma figura de segurança e confiança.
— Sério? Você faria isso? — Ele suspirou aliviado. — Você é um anjo, Satoru. Eu aceito sim.
Satoru desligou o telefone após ele dizer onde estava e contou os segundos mentalmente, ajustando sua expressão para "amiga prestativa" antes de se aproximar da mesa.
Naruto tentou se levantar quando a viu, mas oscilou perigosamente. Satoru estava lá num instante, amparando-o. O braço dele pesou sobre os ombros dela, e o cheiro de álcool misturado ao perfume amadeirado dele invadiu os sentidos de Satoru, inebriando-a mais do que qualquer bebida.
— Opa, calma lá, grandão. — disse ela, sorrindo para os amigos dele que estavam na mesa.
Os rapazes nem piscaram. Para eles, Satoru era território neutro, a "amiga da Suguru", uma extensão da namorada dele.
— Valeu por cuidar dele, Satoru! — um dos amigos gritou, erguendo um copo. — Ele tava precisando extravasar!
— Pode deixar, eu cuido dele direitinho. — Satoru respondeu, e o duplo sentido em suas palavras passou despercebido por todos, perdido no barulho do bar.
Ela guiou Naruto para fora, sentindo o calor do corpo dele pressionado contra o seu lado. Ele era pesado, quente e totalmente vulnerável. Enquanto caminhavam até o estacionamento, Naruto murmurava agradecimentos desconexos, confiando cegamente na mulher que o guiava.
Satoru abriu a porta do passageiro de seu carro e ajudou Naruto a se sentar. Ele desabou no banco de couro, a cabeça tombando para trás, os olhos azuis meio fechados, lutando contra a tontura.
— Cinto de segurança. — ela murmurou, inclinando-se sobre ele.
Seu rosto ficou a centímetros do dele. Ela podia sentir a respiração dele em sua pele. Por um segundo, teve o impulso de beijá-lo ali mesmo, roubar o que desejava, mas se conteve. A noite era uma criança, e agora, ele era dela.
Ela travou o cinto com um clique audível que soou definitivo no silêncio do carro.
Ao fechar a porta e dar a volta para assumir o volante, a máscara de boa amiga caiu. No escuro do carro, iluminada apenas pelas luzes do painel, Satoru olhou para Naruto, que já começava a cochilar, indefeso ao seu lado.
Um sorriso perverso, lento e cheio de malícia, curvou os lábios de Satoru.
— Isso não poderia ter acontecido em melhor hora. — sussurrou ela para si mesma, ligando o motor.
A sorte não apenas sorriu para ela; a sorte havia lhe entregado a chave do paraíso. E Satoru não tinha a menor intenção de devolvê-la.
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O clique da fechadura ecoou no silêncio do apartamento vazio. Satoru sustentava o peso de Naruto com uma facilidade surpreendente, a adrenalina de seu plano correndo por suas veias mais forte que qualquer droga.
Ela não o guiou para o quarto de hóspedes, e muito menos para o quarto que pertencia a Suguru. Aquele território estava interditado. Hoje, ele entraria no santuário dela.
Ao entrarem no quarto de Satoru, o cheiro de lavanda e o ar frio do ambiente envolveram os dois. Ela o guiou até a cama, depositando-o sobre os lençóis de seda com um cuidado quase religioso. Naruto suspirou, afundando no colchão, os olhos fechados e a consciência flutuando em álcool.
— Suguru... — ele murmurou, a voz arrastada e cheia de saudade, virando o rosto contra o travesseiro.
O sorriso de Satoru vacilou por um milésimo de segundo. O nome da amiga na boca dele era como vinagre em uma ferida aberta. Mas ela engoliu o ciúme, substituindo-o por uma determinação férrea.
— Shhh... — ela sussurrou, acariciando o rosto dele. — Logo, logo, não será o nome dela que você vai chamar.
Com mãos trêmulas de antecipação, Satoru começou a despi-lo. Foi um processo lento, uma adoração. Ela removeu o blazer, a camiseta, o cinto... A cada peça de roupa que caía no chão, mais daquele corpo esculpido se revelava. Ela deixou as pontas dos dedos vagarem pela pele quente dele, traçando os músculos do abdômen, sentindo a textura, a firmeza. Ele era uma obra de arte, e Satoru tinha a intenção de ser a única colecionadora.
Quando ele finalmente estava nu diante dela, vulnerável e magnífico, Satoru teve que morder o lábio inferior para conter o impulso de pular sobre ele ali mesmo. A fome em seu ventre era avassaladora, gritando para que ela o tomasse, mas a razão — fria e calculista — a segurou. Paciência, ela disse a si mesma. Primeiro o plano, depois o prazer.
Ela se afastou do corpo dele com relutância e caminhou até a sala. Lá, o teatro começou.
Satoru abriu o armário de bebidas e pegou várias garrafas — vodka, whisky, gin. Sem hesitar, ela abriu as tampas e despejou o líquido precioso na pia da cozinha, deixando o cheiro forte de álcool impregnar o ar. Com as garrafas vazias em mãos, ela voltou para o quarto e as espalhou estrategicamente pelo chão, criando o cenário caótico de uma noite de bebedeira desenfreada e irresponsável.
Para finalizar a "cenografia", ela levou uma das garrafas, que ainda continha um resto de whisky, aos lábios. O líquido queimou sua garganta, mas era necessário. Ela precisava do hálito, da prova olfativa de que também tinha perdido o controle.
Agora, vinha a parte mais difícil. E a mais prazerosa.
Satoru despiu-se, deixando suas roupas caírem ao lado das dele, misturando-as em uma bagunça intencional. Nua, ela subiu na cama, ajoelhando-se sobre Naruto.
Ela precisava fabricar as evidências de uma paixão que não aconteceu — ainda. Com as unhas, ela fez arranhões leves, mas visíveis, nas costas e nos ombros dele. Ela pressionou os lábios contra o pescoço e o peitoral dele, sugando a pele até deixar chupões escuros e inegáveis.
Mas o visual não bastava. Tinha que ser real para os sentidos.
Satoru garantiu que o cheiro de sexo estivesse presente. Ela usou óleos e seus próprios fluídos, esfregando-se contra ele, cobrindo a pele dele com o aroma dela, garantindo que até as partes mais íntimas dele estivessem marcadas por sua presença.
Enquanto manipulava o corpo dele, a resistência de Satoru foi testada ao limite. Ao tocar a intimidade dele, a curiosidade e o desejo venceram a prudência por um breve momento. Ela não resistiu. Inclinou-se e, por alguns segundos roubados, provou o gosto dele, sentindo-o em seus lábios, engolindo os gemidos que ameaçavam escapar de sua garganta. Era um sabor viciante, perigoso. Ela queria mais, queria tudo, mas forçou-se a parar, tremendo com o esforço de se afastar antes que arruinasse tudo cedendo ao prazer completo.
— Guarde isso... — ela ofegou para si mesma, os olhos brilhando na penumbra. — Isso é só uma amostra.
Para completar a obra, ela voltou a atenção para si mesma. Com as próprias mãos, Satoru beliscou a pele de seus quadris e coxas, criando hematomas que sugerissem uma pegada forte, uma noite selvagem onde o controle foi perdido.
O cenário estava pronto. O cheiro de álcool, as roupas espalhadas, as marcas na pele, o aroma de intimidade no ar. Qualquer um que acordasse ali acreditaria que a noite anterior foi uma loucura de luxúria e embriaguez.
Satoru se deitou ao lado dele, aninhando-se nas curvas do corpo de Naruto. Ela passou o braço sobre o peito dele, sentindo o bater constante do coração que ela planejava roubar. Um sorriso perverso curvou seus lábios enquanto ela descansava a cabeça no ombro dele.
— A primeira fase está completa, meu amor. — ela sussurrou na escuridão. — Amanhã, o nosso "arrependimento" começa... e logo você será meu para sempre.
Ela fechou os olhos, não para dormir, mas para saborear a vitória iminente, sentindo o calor da pele dele contra a sua, exatamente onde ela sempre deveria estar.
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O mundo de Satoru, ainda envolto na névoa agradável de sonhos vitoriosos, foi abruptamente interrompido por um estrondo surdo. Algo pesado havia caído no chão.
Ela abriu os olhos, piscando para se ajustar à claridade da manhã que filtrava pelas cortinas, e a primeira coisa que viu foi a imagem que ela desejava gravar em sua memória para sempre. Naruto.
Ele estava de pé ao lado da cama, totalmente nu, com os olhos azuis arregalados em puro terror. O rosto dele, geralmente tão confiante e alegre, estava pálido, exceto pelas manchas vermelhas de vergonha que subiam pelo pescoço. Ele olhava para o próprio corpo, depois para Satoru, e depois para as roupas espalhadas pelo chão como se estivesse vivendo um pesadelo.
Para Satoru, aquela visão era o paraíso. Mas o roteiro exigia outra reação.
— Naruto...? — A voz dela saiu trêmula, perfeita.
Satoru puxou o lençol até o pescoço com força, seus olhos varrendo o quarto com uma confusão fabricada que logo se transformou em horror. Ela olhou para ele, depois para si mesma sob o lençol, e deixou o queixo tremer.
— O que... O que a gente fez? — ela sussurrou, e as lágrimas, convocadas sob comando, começaram a brotar em seus olhos. — Meu Deus, Naruto... o que a gente fez?
Naruto recuou um passo, tropeçando nas próprias pernas, tentando desesperadamente cobrir sua intimidade com as mãos, o pânico evidente em cada músculo tenso.
— Satoru, e-eu... eu não... — Ele gaguejou, a voz falhando, carregada de uma dor física. Ele levou a mão à testa, como se tentasse arrancar as memórias de uma noite que nunca existiu. — Eu não lembro de nada. Eu juro. A gente... nós...
Ele não conseguia terminar a frase. A realidade do "ato" parecia esmagá-lo. Mas, mesmo no meio de seu próprio inferno pessoal, o instinto de "homem perfeito" dele falou mais alto. Ao ver Satoru se encolher na cama, soluçando e escondendo o rosto nas mãos, ele ignorou sua própria vergonha para tentar acalmá-la.
Ele se ajoelhou ao lado da cama, mantendo uma distância respeitosa, mas com o rosto contorcido de culpa.
— Ei, ei... Satoru, olha pra mim. — A voz dele era um sussurro rouco. — Calma. Por favor, não chore. A culpa é minha. Eu... eu bebi demais. Eu sou um lixo.
Satoru soluçou mais alto, interpretando o papel da amiga traída por si mesma.
— Suguru... — ela choramingou, o nome saindo como uma facada. — Como eu pude fazer isso com ela? Ela é minha melhor amiga!
A menção do nome de Suguru fez Naruto fechar os olhos com força, como se tivesse levado um soco.
— Eu sei... eu sei. — Ele respirou fundo, trêmulo. — A gente precisa contar pra ela. Eu não posso esconder isso. Eu tenho que ligar pra ela e...
— NÃO!
O grito de Satoru foi agudo, cortando o ar. Ela segurou o pulso de Naruto com força, seus olhos arregalados de "pânico".
— Você ficou maluco? — ela disparou, as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Você quer destruir ela? Suguru está viajando a trabalho, sozinha! Se você contar isso agora, vai acabar com ela. Ela confia na gente mais do que em qualquer pessoa no mundo!
— Mas Satoru, é o certo a se fazer! Eu traí a confiança dela! — Naruto argumentou, a honestidade dele brilhando mesmo na escuridão da situação.
— E você acha que contar vai ajudar? — Satoru retrucou, manipulando a bondade dele contra ele mesmo. — Isso foi um erro, Naruto. Um erro horrível de uma noite bêbada. Se contarmos, vamos machucá-la por algo que não significou nada para você... não é?
Naruto hesitou. A lógica distorcida de Satoru penetrou na mente dele. Ele não queria machucar Suguru. Ele a amava mais que tudo.
— Não significou nada. — ele concordou, a voz fraca. — Eu amo Suguru.
— Então, por favor... — Satoru suavizou a voz, soltando o pulso dele e voltando a se abraçar, parecendo pequena e frágil. — Pela Suguru. Vamos esquecer que isso aconteceu. Eu não quero perder minha melhor amiga. Por favor, Naruto... guarde esse segredo comigo.
Naruto olhou para Satoru, vendo nela apenas uma vítima de sua própria irresponsabilidade. Ele assentiu lentamente, o peso do mundo caindo sobre seus ombros.
— Tá bom — ele sussurrou, derrotado. — Tá bom. Ela nunca vai saber. Eu prometo.
Por dentro, Satoru sorria. Xeque-mate.
O clima no quarto ficou insuportavelmente pesado. Naruto se levantou, evitando olhar para ela novamente. Ele recolheu suas roupas do chão com movimentos rápidos e desajeitados, vestindo-se de costas para a cama.
— Eu... eu vou embora. — disse ele, já vestido, mas com a cabeça baixa, incapaz de encarar a "amiga" que ele achava ter desonrado. — Me desculpa, Satoru. Me desculpa mesmo.
— Só vai, Naruto. — ela respondeu, a voz embargada, escondendo o rosto no travesseiro.
Ela ouviu os passos dele se afastarem, pesados e lentos. Ouviu a porta do quarto abrir e fechar. Ouviu o som da porta da frente bater, selando o acordo silencioso entre eles.
Assim que o silêncio reinou novamente no apartamento, a transformação foi instantânea.
Os soluços cessaram como se alguém tivesse desligado um interruptor. Satoru ergueu a cabeça, os olhos secos e brilhantes de malícia. Um sorriso largo, quase maníaco, rasgou seu rosto.
Ela puxou o travesseiro onde a cabeça dele havia descansado minutos antes e o abraçou com força, enterrando o rosto no tecido. O cheiro dele — almíscar, álcool e aquele perfume natural que a deixava louca — ainda estava lá, fresco e inebriante.
— Hahahaha... — A risada começou baixa, vibrando em seu peito, e logo explodiu em uma gargalhada alta e triunfante que ecoou pelo quarto vazio.
— Ah, Naruto... você é tão doce. Tão fácil. — Ela rolou na cama, abraçada ao travesseiro, sentindo a euforia do sucesso.
Ela fechou os olhos, aspirando o perfume dele mais uma vez, o coração batendo forte não de culpa, mas de pura antecipação. Ele já era dela. Ele só ainda não sabia.
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Quando as rodas do avião tocaram a pista, Suguru sentiu o estômago revirar. Não era pelo pouso, mas pela sensação gélida e persistente que se alojou em seu peito durante toda a viagem de volta.
Algo estava errado. Terrivelmente errado.
Nos últimos dias, a conexão vibrante que ela tinha com Naruto parecia ter sido cortada por uma lâmina cega. As mensagens dele, antes frequentes e cheias de vida, tornaram-se monossilábicas. As ligações eram curtas, evasivas, sempre terminando com uma desculpa esfarrapada de "estou cansado" ou "preciso resolver umas coisas". Aquele não era o Naruto que ela conhecia.
Ao sair do desembarque, Suguru ignorou a fila de táxis que a levaria para seu próprio apartamento. A mala de rodinhas parecia pesar uma tonelada enquanto tomava a decisão impulsiva, mas necessária: ela precisava vê-lo. Agora.
O trajeto até o prédio de Naruto foi uma tortura de suposições ansiosas. Ao chegar diante da porta dele, ela puxou a chave reserva da bolsa. O metal frio em sua palma trouxe uma lembrança quente — o dia em que completaram seis meses, o sorriso tímido dele ao colocar a chave na mão dela, dizendo que aquele lugar também era dela.
Ela girou a chave na fechadura silenciosamente e empurrou a porta.
O choque foi imediato. O apartamento, que Naruto mantinha com um orgulho quase militar de organização, estava em um estado de caos irreconhecível. Caixas de delivery vazias empilhavam-se na mesa de centro, roupas estavam jogadas pelos cantos e as cortinas estavam fechadas, bloqueando a luz da tarde e deixando o ambiente em uma penumbra deprimente.
E lá estava ele.
Naruto estava jogado no sofá, encolhido como se tentasse desaparecer. Ele vestia um moletom cinza puído e manchado, calças de moletom que pareciam não ver água há dias. Mas foi o rosto dele que partiu o coração de Suguru. A barba por fazer escurecia seu maxilar, os cabelos loiros estavam oleosos e desgrenhados, e olheiras profundas e roxas denunciavam noites insones.
— Naruto? — a voz dela saiu suave, mas no silêncio do apartamento, soou como um trovão.
Naruto deu um salto violento, os olhos arregalados de susto procurando a fonte do som. Quando seus olhos encontraram os dela, não houve o brilho habitual de alegria. Houve medo. Culpa.
— Suguru? — A voz dele era um ruído rouco, como se ele não a usasse há muito tempo. — O que... você não ia chegar só à noite?
Ele tentou se ajeitar no sofá, puxando o moletom para cobrir o pescoço, evitando olhar diretamente para ela a todo custo.
Suguru largou a mala na entrada e caminhou até ele, ignorando a bagunça. O nó em sua garganta era tão grande que doía engolir.
— Eu estava preocupada com você. — ela disse, parando à frente dele. — Você sumiu. Não me atende direito, mal responde... Olha para você, meu amor. Olha para esta casa. O que está acontecendo?
Naruto desviou o olhar para o chão, os ombros curvados sob um peso invisível. O silêncio dele era ensurdecedor.
O medo mais primitivo de Suguru veio à tona, gelando seu sangue.
— Naruto... — ela começou, a voz tremendo levemente. — Você está assim porque... você quer terminar? É isso? Você quer romper o nosso compromisso?
A reação foi instantânea. A cabeça de Naruto se ergueu rapidamente, e por um segundo, o pânico superou a vergonha em seus olhos.
— Não! — Ele quase gritou, a negativa saindo desesperada. Ele estendeu as mãos trêmulas e segurou as dela, apertando com força, como se ela fosse sua única âncora na tempestade. — Nunca, Suguru. Nunca duvide disso. Eu te amo. Eu te amo mais do que tudo nessa vida.
— Então o quê? — ela perguntou, confusa, aliviada, mas ainda aterrorizada pelo estado dele. — Se você me ama, por que está se destruindo desse jeito?
Os olhos de Naruto se encheram de lágrimas que ele lutava para não derramar. Ele parecia um homem condenado à forca.
— Porque eu falhei com você... — ele sussurrou, a voz quebrada, destruída pela dor. — Eu sinto que... eu não mereço você. Eu fiz... eu não sei como olhar pra você sem sentir que estraguei tudo.
Havia algo terrível que ele queria dizer. As palavras pareciam dançar na ponta da língua dele, prontas para serem vomitadas, mas o medo de perdê-la as empurrava de volta garganta abaixo.
Suguru viu a dor dele, crua e sangrenta. Ela não sabia o motivo — talvez problemas financeiros, talvez algo no trabalho, talvez uma crise existencial — mas ela sabia que ele estava sofrendo. E vê-lo assim doía mais nela do que a própria ignorância sobre a causa.
Ela se sentou ao lado dele no sofá e, com as duas mãos, segurou o rosto dele, obrigando-o a encará-la. Ela se inclinou e depositou um beijo suave em sua boca, sentindo a textura áspera da barba roçando em seus lábios sensíveis.
— Ei, olha pra mim... — ela pediu, com firmeza amorosa. — Nada, você me ouviu? Nada que você tenha feito pode ser tão grave a ponto de você se torturar desse jeito. Nós somos parceiros, Naruto. Seja o que for, nós vamos enfrentar juntos.
Naruto soluçou uma vez, um som seco, e fechou os olhos ao toque dela, absorvendo o perdão que sentia não merecer.
— Shhh... — Suguru o puxou para si, aninhando a cabeça dele em seu peito. — Eu não quero ouvir explicações agora. Você está exausto, está nervoso. A gente conversa depois. Agora, eu só quero estar com você.
Naruto não resistiu. Ele desabou contra ela, abraçando a cintura de Suguru com uma força desesperada, enterrando o rosto no pescoço dela como uma criança buscando proteção dos monstros debaixo da cama.
Suguru acariciou os cabelos desgrenhados dele, sentindo o cheiro de suor e tristeza, mas, acima de tudo, sentindo o calor do homem que amava. Eles ficaram ali, aconchegados no sofá, o tempo suspenso.
Para Suguru, era o alívio de estar de volta aos braços dele. Para Naruto, era o conforto agonizante de ser abraçado pela mulher que ele acreditava ter traído, sem saber que a verdadeira arquiteta de sua desgraça era a melhor amiga dela.
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Satoru andava de um lado para o outro na sala de estar, seus passos abafados pelo tapete felpudo. Ela parou diante do espelho do corredor pela décima vez, ajustando sua expressão. Ombros caídos, olhos baixos, lábios levemente trêmulos. Era a máscara perfeita da culpa, a face da "amiga arrependida" que cometeu um erro terrível sob a influência do álcool.
Ela sabia que Suguru chegaria a qualquer momento. Conhecendo a amiga como conhecia, Satoru tinha certeza absoluta de que Suguru tinha ido direto do aeroporto para o apartamento de Naruto. E conhecendo a consciência pesada e o coração mole de Naruto, ele já devia ter confessado tudo aos prantos.
O roteiro estava pronto em sua mente: a porta se abriria, Suguru entraria com os olhos vermelhos de choro e a fúria de uma mulher traída. Satoru receberia os gritos, talvez até um tapa — que ela aceitaria de bom grado como o preço a pagar pela liberdade dele — e, no fim, Naruto ficaria livre para ser reivindicado.
O som da chave girando na fechadura fez o coração de Satoru disparar. É agora, pensou ela, assumindo sua pose de mártir.
A porta se abriu. Satoru prendeu a respiração, preparando-se para o impacto.
Mas o que entrou pela porta não foi uma fúria tempestuosa. Foi o sol.
Suguru entrou no apartamento praticamente flutuando, arrastando sua mala com uma energia vibrante. Seu rosto não estava manchado de lágrimas, mas sim iluminado por um sorriso tão largo e radiante que parecia que ela havia acabado de ganhar o prêmio máximo da loteria.
Satoru piscou, a máscara de culpa escorregando momentaneamente para dar lugar a uma confusão genuína.
— SuSu...? — Satoru chamou, o tom de voz vacilante. — Você... você parece bem.
Suguru largou a mala e correu até a amiga, envolvendo Satoru em um abraço esmagador e cheio de perfume floral.
— Bem? Satoru, eu estou maravilhosa! — Suguru exclamou, rindo contra o ombro dela. — Eu estou nas nuvens!
Satoru permaneceu rígida no abraço, seus braços demorando a responder. Uma sensação ruim, um pressentimento gelado, começou a rastejar por sua espinha. Aquilo estava errado. Muito errado.
— Que... bom. — Satoru forçou as palavras, afastando-se suavemente para encarar a amiga. — Mas qual o motivo de tanta alegria? Eu achei que... bem, você parecia preocupada antes.
Suguru segurou as mãos de Satoru, os olhos castanhos brilhando de excitação.
— Eu fui ver Naruto. Nós conversamos. — Ela suspirou, um som apaixonado que fez o estômago de Satoru revirar. — E nós tomamos uma decisão. Vamos morar juntos, Satoru! Ele me pediu para morar com ele!
O mundo de Satoru parou. O sorriso que ela mantinha no rosto congelou, transformando-se em uma careta de gesso que doía seus músculos faciais.
— Morar... juntos? — ela repetiu, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal. — Mas... SuSu, você me disse por telefone que ele estava estranho. Que estava te evitando. Vocês não estavam com problemas?
Satoru tentou injetar veneno naquelas palavras, tentando lembrar a amiga das dúvidas que ela mesma havia plantado.
Suguru apenas abanou a mão, dispensando a preocupação.
— Ah, aquilo! Foi bobagem minha. O pobrezinho estava apenas estressado com o trabalho, uma fase ruim, sabe? Ele estava se sentindo culpado por não estar me dando atenção e acabou se afastando. Mas já resolvemos tudo. — Suguru girou na sala, sonhadora. — Ele disse que me ama, que quer construir uma vida comigo. Foi tão intenso, Satoru... acho que nunca nos amamos tanto quanto hoje.
Enquanto Suguru tagarelava sobre cores de cortinas, mudanças e como seria incrível acordar todos os dias ao lado do homem de sua vida, Satoru sentia o gosto metálico de sangue na boca. Ela estava mordendo a parte interna da bochecha com tanta força que quase perfurou a pele.
Aquele covarde, ela pensou, a fúria borbulhando fria em suas veias. Ele não contou. Ele preferiu engolir a culpa e brincar de casinha a me enfrentar.
Naruto havia escapado de sua armadilha. Pior, o plano de Satoru havia saído pela culatra de forma espetacular: ao tentar separá-los, ela acabou empurrando Naruto para os braços de Suguru com ainda mais força, solidificando o relacionamento que ela queria destruir.
— Satoru? Você não está feliz por mim? — A voz de Suguru a trouxe de volta.
Satoru piscou e, com um esforço sobre-humano, alargou o sorriso falso.
— Claro que estou, SuSu. É... é uma notícia e tanto. — Ela conseguiu soar convincente, embora seus olhos por trás das lentes escuras estivessem gélidos.
Suguru voltou a falar sobre a mudança, alheia ao perigo que dividia o teto com ela. Satoru a observou, o choque inicial dando lugar a uma determinação renovada e perversa.
Naruto achava que tinha se salvado. Ele achava que, ao esconder o "segredo", poderia viver feliz para sempre com Suguru.
Pobre, ingênuo Naruto, Satoru pensou, seus dedos tamborilando discretamente na perna. Você acha que acabou? Isso foi apenas o prólogo.
Ela não iria se dar por vencida. Não quando estava tão perto. O plano A falhou, mas Gojo Satoru nunca entrava em um jogo sem um trunfo.
Enquanto ouvia os planos felizes da amiga, Satoru levou a mão instintivamente ao próprio ventre, um gesto sutil e imperceptível. Um sorriso minúsculo e aterrorizante curvou o canto de seus lábios.
Ela ainda tinha uma carta na manga. E dessa vez, não haveria escapatória. Naruto seria dela, nem que ela tivesse que queimar o mundo inteiro — e a felicidade de Suguru — para conseguir isso.
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Nos dois meses que se seguiram, Gojo Satoru desempenhou o papel de sua vida. Ela foi a melhor amiga solidária, ajudando Suguru com a mudança, sorrindo enquanto encaixotava os pertences da amiga e ouvindo histórias sobre a felicidade doméstica do casal. A cada sorriso trocado, Satoru engolia o veneno, nutrindo-se da certeza de que aquela felicidade tinha data de validade.
Ela evitou Naruto como quem evita uma praga, alegando uma agenda lotada e viagens de negócios. Para Suguru, parecia apenas que Satoru estava ocupada; para Naruto, era a confirmação de que ela, assim como ele, estava consumida pela culpa daquela noite. O silêncio entre eles era um muro que Satoru construiu tijolo por tijolo, apenas para derrubá-lo no momento exato.
E o momento chegou.
Cerca de oito semanas após a noite forjada, Satoru pegou o telefone. Ela ensaiou a respiração entrecortada, o tom de voz trêmulo, e discou o número dele.
— Naruto... — ela sussurrou assim que ele atendeu, a voz embargada de choro. — Eu... eu preciso ver você. Agora. Por favor, é urgente.
Do outro lado, o silêncio de Naruto durou apenas um segundo. O instinto de proteção dele, aquela bondade inata que Satoru tanto adorava e explorava, falou mais alto que o constrangimento.
— Onde você está? Eu estou indo.
Eles se encontraram em uma cafeteria discreta na zona sul, um lugar com iluminação baixa e cabines reservadas, longe dos olhares curiosos de conhecidos. Satoru chegou primeiro, escolhendo o canto mais escuro.
Quando Naruto entrou, Satoru sentiu uma pontada de desejo misturada com triunfo. Ele parecia cansado, mas ainda era lindo. Ele caminhou até ela com cautela, a postura tensa de quem caminha para o abate.
Ele se sentou à frente dela, a preocupação vincando sua testa.
— Satoru? O que houve? Você está chorando?
Satoru não disse nada. Ela manteve a cabeça baixa, os ombros tremendo levemente. Com uma mão trêmula — um detalhe que ela praticou no espelho — ela deslizou um envelope pardo sobre a mesa, empurrando-o na direção dele.
Naruto olhou para o envelope, depois para ela, confuso.
— O que é isso?
— Só... abre. — ela soluçou, cobrindo o rosto com as mãos.
Naruto abriu o envelope. O som do papel rasgando foi o único ruído na cabine. Ele puxou o conteúdo: um exame de sangue com o carimbo "POSITIVO" em letras vermelhas garrafais e uma imagem de ultrassom, mostrando um pequeno ponto granulado.
Os documentos eram falsos, é claro. Mas não eram falsificações baratas. Eram obras de arte compradas com a influência pesada do sobrenome Gojo e uma quantia obscena de dinheiro que garantiu o silêncio e a perfeição técnica de uma clínica de luxo. Para os olhos leigos e aterrorizados de Naruto, aquilo era a verdade absoluta.
O sangue drenou do rosto de Naruto. Ele ficou tão pálido que Satoru temeu que ele desmaiasse.
— Isso... — A voz dele falhou. Ele olhava para o papel como se fosse uma sentença de morte. — Satoru, isso significa...
— Eu estou grávida, Naruto. — ela sussurrou, a voz quebrada pela "dor". — É seu.
O mundo de Naruto desabou. Ele largou os papéis na mesa, com as mãos tremendo incontrolavelmente. A culpa daquela noite, que ele vinha tentando enterrar, agora havia gerado uma vida. Uma consequência irreversível.
Satoru aproveitou o choque dele para lançar a segunda parte da armadilha.
— Eu sinto muito... — ela começou a chorar copiosamente, encolhendo-se na cadeira. — A culpa é toda minha. Eu não devia ter te ligado. Eu não queria estragar a sua vida.
Ela limpou as lágrimas com as costas das mãos, olhando para ele com uma determinação frágil e sacrificial.
— Olha, Naruto... você não precisa se preocupar. Eu sei o quanto você ama Suguru. Eu sei que vocês estão felizes morando juntos. Eu não vou destruir isso. — Ela respirou fundo, soluçando. — Eu vou lidar com isso sozinha. Eu posso... eu posso ir embora. Ou talvez eu nem tenha esse bebê. Eu dou um jeito. Você finge que isso nunca aconteceu e volta para ela.
Era a jogada perfeita. Satoru sabia que, se tivesse exigido que ele assumisse, ele poderia recuar. Mas ao oferecer a saída fácil, ao se colocar como a vilã que sacrificaria o próprio "filho" para salvar a felicidade dele, ela acionou o código moral inquebrável de Naruto.
A expressão de choque de Naruto se transformou em horror e, em seguida, em uma determinação dolorosa.
— Não! — Naruto estendeu as mãos através da mesa e agarrou as mãos geladas de Satoru, segurando-as com firmeza. — Nunca diga isso. Você não vai lidar com isso sozinha.
— Mas Suguru... — Satoru choramingou, fingindo protestar. — Ela vai nos odiar. Isso vai acabar com tudo!
A dor cruzou o rosto de Naruto, uma agonia visível ao pensar na mulher que amava. Ele fechou os olhos por um momento, engolindo a bile, mas quando os abriu, a honestidade brilhava neles, límpida e devastadora.
— Eu sei. — ele disse, a voz rouca. — Mas eu não sou um covarde, Satoru. Eu cometi um erro, e a culpa é minha, não sua e muito menos dessa criança. Eu não vou deixar você passar por isso sozinha. Eu vou assumir.
— Naruto... tem certeza? — Satoru perguntou, os olhos arregalados, a "inocência" personificada.
— Tenho. Nós vamos contar para Suguru. — ele sentenciou, selando seu destino. — Ela merece saber a verdade. Ela vai ficar devastada, mas... eu não posso construir uma vida com ela baseada em uma mentira desse tamanho.
Ele se levantou e contornou a mesa, puxando Satoru para um abraço protetor. Ele a apertou contra o peito, oferecendo conforto, tentando ser o pilar de força no meio do caos que ele acreditava ter criado.
— Vai ficar tudo bem. — ele sussurrou contra o cabelo dela, mais para si mesmo do que para ela. — Nós vamos resolver isso.
Satoru afundou o rosto no peito dele, sentindo o calor do corpo que ela cobiçava há tanto tempo. Enquanto os braços fortes de Naruto a envolviam, a expressão de choro desapareceu instantaneamente de seu rosto.
Apoiada no ombro dele, onde ele não podia ver, os lábios de Satoru se curvaram em um sorriso lento, cruel e terrivelmente satisfeito.
Ela tinha vencido. A honra de Naruto foi a corrente que o prendeu a ela, e o bebê — real ou não — era a chave que trancava o cadeado. Suguru estava fora do jogo.
Agora você é meu, Naruto, ela pensou, fechando os olhos e aproveitando o abraço. Para sempre.
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A chave girou na fechadura, mas o som familiar de chegar em casa não trouxe conforto a Suguru naquela noite. Pelo contrário, soou como o gatilho de uma arma.
O telefonema de Satoru, vago e urgente, combinado com a voz quebrada de Naruto ao fundo, havia plantado uma pedra de gelo em seu estômago que só crescia a cada segundo.
Ao entrar na sala, o ar parecia pesado, denso e difícil de respirar.
A cena que a recebeu era perturbadora. Satoru estava sentada na poltrona, com a cabeça baixa, segurando um lenço. Mas foi a visão de Naruto que parou o coração de Suguru. Ele estava sentado no sofá oposto, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. Naruto era um homem grande, de presença marcante e ombros largos, mas naquele momento, ele parecia minúsculo. Encolhido, derrotado, como se a própria gravidade estivesse tentando esmagá-lo.
— O que está acontecendo? — A voz de Suguru saiu firme, embora suas mãos tremessem.
Ninguém respondeu de imediato. O silêncio se esticou até o ponto de ruptura, até que Satoru, fungando, se levantou devagar. Sem dizer uma palavra, ela estendeu um envelope pardo para Suguru.
Suguru pegou o envelope, sentindo a textura do papel áspero. Ela o abriu, e seus olhos varreram o conteúdo. Linhas vermelhas. Um ultrassom. Termos médicos.
— Gravidez? — Ela franziu a testa, a confusão nublando sua mente. Ela olhou para Satoru, depois para Naruto. — Satoru, você... você está grávida? Mas de quem? Por que vocês dois estão tão estranhos?
Naruto levantou a cabeça. Seus olhos azuis, normalmente tão vibrantes, estavam opacos e vermelhos.
— É meu, Suguru. — ele disse. A frase foi curta, brutal, e atingiu Suguru com a força de um trem.
O envelope escorregou dos dedos dela, caindo no chão com um sussurro suave que contrastava com o caos que explodia em sua mente.
— Seu? — Ela riu, um som nervoso e incrédulo. — Do que você está falando, Naruto? Isso é alguma piada doente?
— Não é piada. — Naruto continuou, a voz falhando, carregada de uma miséria profunda. — Aconteceu... aconteceu naquela semana em que você viajou a trabalho, há dois meses. Eu bebi, encontrei Satoru e... eu não sei como, mas acordamos juntos.
O mundo de Suguru girou. A viagem. Aquele período em que ele estava estranho. As peças se encaixaram com um estalo horrível.
— Vocês... — A voz dela sumiu, sufocada pela náusea. — A minha melhor amiga e o meu namorado?
— SuSu, por favor... — Satoru começou a chorar, um choro alto e desesperado. — Eu não queria que você soubesse! Fui eu quem implorou para Naruto não contar! A gente nem lembra direito, estávamos bêbados, foi um erro horrível! Eu ia resolver isso sozinha, eu juro!
A traição dupla queimava como ácido. Suguru olhou para Satoru — a mulher que ela considerava uma irmã, alguém por quem ela colocaria a mão no fogo. A desculpa da bebida, a alegação de "não lembrar", nada daquilo fazia sentido. Não com a Satoru que ela conhecia. Havia algo errado, algo podre naquela história.
Uma raiva, pura e instintiva, subiu pela garganta de Suguru. Ela não racionalizou. Ela apenas sentiu que a fonte daquela destruição, a origem daquela loucura, vinha da mulher à sua frente.
— Sua... — Suguru avançou, a mão levantada, impulsionada por uma fúria cega, visando o rosto choroso de Satoru.
O estalo do tapa ecoou pela sala como um tiro.
Mas a mão de Suguru não encontrou o rosto de Satoru. Encontrou a bochecha de Naruto.
Ele havia se movido num borrão, colocando-se entre as duas, recebendo o golpe destinado à amante. O rosto de Naruto virou com o impacto, a pele bronzeada ficando vermelha instantaneamente.
Suguru congelou, a mão formigando, o horror tomando conta dela ao ver o que tinha feito.
— Naruto...
Ele não olhou para ela. Ele se virou para Satoru, que agora soluçava convulsivamente, agarrando-se à camisa dele como se fosse desmaiar.
— Está tudo bem, Satoru. Calma. — Naruto murmurou, envolvendo-a em seus braços, acariciando as costas dela com uma gentileza mecânica, obrigatória. — Você e o bebê... vocês não podem passar nervoso.
A cena partiu o que restava do coração de Suguru. Ela sabia. Conhecia a índole de Naruto, sua moral inabalável. Ele não estava protegendo Satoru por amor; estava protegendo a mãe de seu filho. Ele estava assumindo a responsabilidade, sacrificando a própria felicidade e o próprio corpo para fazer o que achava "certo".
Mas ver Satoru aninhada no peito dele, no lugar que deveria ser de Suguru, foi insuportável.
— Eu não consigo... — Suguru sussurrou, recuando. — Eu não consigo ficar aqui.
Com a visão borrada pelas lágrimas, ela correu para o quarto. Não para discutir, não para lutar, mas para fugir. Ela pegou uma mala de mão e começou a jogar suas coisas dentro, de qualquer jeito. Roupas, carregadores, sapatos. Ela precisava sair daquele apartamento que agora cheirava a traição.
Ao passar pelo corredor com a mala na mão, pronta para deixar para trás a vida que construiu, ela parou.
Pela porta entreaberta da sala, ela viu o reflexo no grande espelho decorativo na parede oposta. Naruto ainda estava de costas para o corredor, abraçando Satoru, a cabeça baixa em derrota. Satoru estava com o rosto apoiado no ombro dele, virada para o espelho.
E então, os olhares se encontraram através do vidro.
O choro de Satoru havia cessado magicamente. No espelho, a expressão de "vítima desesperada" derreteu. Os lábios dela se curvaram lentamente, não em tristeza, mas em um sorriso malicioso, frio e triunfante. Os olhos azuis de Satoru brilharam com uma zombaria cruel, encarando Suguru diretamente pelo reflexo, como se dissesse: "Eu ganhei."
O sangue de Suguru gelou. O choque foi tão físico que ela quase derrubou a mala.
Não foi um erro. Não foi a bebida. Não foi o acaso.
Naquele segundo, vendo aquele sorriso demoníaco no rosto angelical da amiga, Suguru entendeu. Tudo aquilo... a "noite bêbada", a gravidez, a culpa de Naruto... tudo tinha sido orquestrado.
Satoru piscou para ela no espelho, e logo voltou a enterrar o rosto no pescoço de Naruto, fingindo um novo soluço.
Suguru recuou, tremendo, o ar preso nos pulmões. Ela não reconhecia mais a mulher que abraçava seu agora ex-namorado. Aquela não era sua amiga. Aquela era uma estranha perigosa que usava a pele de Satoru.
Sem dizer uma palavra, sem confrontar — pois quem acreditaria nela agora, diante daquelas "provas"? — Suguru girou os calcanhares e saiu pela porta da frente, deixando para trás o homem que amava nas garras do monstro que ela mesma havia colocado dentro de casa.
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Satoru acordava todos os dias sentindo-se como uma rainha que finalmente havia conquistado seu trono. O apartamento, que antes carregava a essência de Suguru, agora era o domínio dela. Cada canto daquela casa, cada pedaço de mobília, e o prêmio principal — o homem que dormia ao seu lado — tudo pertencia a ela.
A vida com Naruto era, em muitos aspectos, o paraíso que ela havia desenhado em seus delírios. Ele era a perfeição encarnada. Tratava-a como se ela fosse feita do vidro mais frágil e precioso do mundo.
— Satoru, não levante peso. — ele dizia, correndo para pegar uma sacola de compras da mão dela.
— Satoru, você precisa descansar, eu faço o jantar. — ele insistia, guiando-a até o sofá e cobrindo suas pernas com uma manta.
Ele atendia a cada capricho, cada desejo estranho que ela inventava sob o pretexto de "vontades da gravidez". Se ela queria sorvete de pistache às três da manhã, Naruto vestia o casaco e ia buscar. Se ela dizia que suas costas doíam, ele passava horas massageando seus ombros com mãos firmes e dedicadas.
Era intoxicante. Ter a devoção total daquele homem, ver aqueles olhos azuis focados inteiramente no bem-estar dela... era tudo o que ela sempre quis.
Exceto por um detalhe. Um detalhe crucial e frustrante que corroía a perfeição daquele quadro.
Naruto não a tocava.
Não daquele jeito. Seus toques eram clínicos, cuidadosos, desprovidos de qualquer calor sexual. Ele dormia na mesma cama, sim, mas sempre na ponta mais distante, virado de costas, construindo uma muralha invisível entre os corpos. Ele estava ali pelo bebê. Apenas pelo bebê. O coração dele — aquele coração estúpido e leal — ainda sangrava por Suguru.
Satoru percebia isso nos olhares vagos dele durante o jantar, na forma como ele evitava certos lugares que costumava ir com a ex, no suspiro pesado que ele soltava antes de dormir. Ele estava cumprindo seu dever, preso a Satoru por honra, não por desejo.
E isso trazia um problema logístico aterrorizante.
Satoru acariciou o ventre plano sob o tecido da blusa. Não havia bebê ali. O relógio estava correndo. Em breve, a falta de uma barriga crescendo se tornaria suspeita.
A mente dela, sempre afiada para a maldade, calculou as opções. Ela poderia forjar um aborto espontâneo. Um acidente dramático, muito sangue falso, muitas lágrimas. Seria a saída fácil. Mas ao olhar para Naruto, servindo o café da manhã com aquele olhar distante e triste, ela descartou a ideia imediatamente.
Se não houvesse bebê, não haveria motivo para Naruto ficar. A culpa o prendia agora, mas sem a criança, a saudade de Suguru falaria mais alto. Ele voltaria rastejando para a outra, implorando perdão. E Satoru perderia tudo.
Não. Ela precisava engravidar. De verdade. E rápido.
Mas como engravidar de um homem que a tratava como uma santa intocável e se recusava a fazer sexo com ela por "respeito" à situação delicada?
Satoru sorriu para a xícara de café, um plano formando-se em sua mente. Se a honra e o cuidado médico eram as correntes que prendiam Naruto, então ela usaria a própria medicina para quebrá-las.
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Dois dias depois, eles estavam no consultório de um obstetra renomado. Claro, "renomado" e "totalmente comprado" eram sinônimos no dicionário de Satoru. O dinheiro da família Gojo garantiu que o médico, um homem de meia-idade com óculos sérios, recitasse o roteiro que ela havia escrito.
Naruto estava sentado na cadeira ao lado dela, tenso, segurando a mão de Satoru como se ela fosse quebrar a qualquer momento.
— Então, doutor... — Naruto perguntou, a voz preocupada. — Ela tem sentido umas dores, um desconforto... O bebê está bem?
O médico ajustou os óculos e olhou para os exames (falsos) na prancheta.
— O feto está estável, Uzumaki-san. Mas... noto que Gojo-san apresenta um nível elevado de cortisol. Estresse. O corpo dela está muito tenso, o útero está rígido. Isso não é bom para o desenvolvimento da criança nas primeiras semanas.
Naruto empalideceu.
— O que eu posso fazer? Ela precisa de mais repouso? Remédios?
— Na verdade — o médico pigarreou, mantendo a expressão profissional impecável que custou alguns milhares de dólares a Satoru. — o melhor remédio para esse tipo de tensão uterina e hormonal é... biológico.
— Biológico? — Naruto franziu a testa, confuso.
— Intimidade, Uzumaki-san. — o médico disse, direto. — O contato íntimo, o ato sexual, libera ocitocina e endorfinas que são cruciais para relaxar a musculatura pélvica da mãe e diminuir o estresse. Além disso, a presença de prostaglandinas, encontradas nos fluídos masculinos, ajuda a preparar e aclimatar o ambiente uterino.
Naruto piscou, o rosto passando de pálido para um tom violento de vermelho em segundos. Ele abriu a boca, fechou, e olhou para Satoru, mortificado.
— O senhor está dizendo que... nós precisamos... — Naruto gaguejou.
— Estou prescrevendo sexo, Uzumaki-san. — o médico disse com gravidade, como se receitasse um antibiótico. — Regularmente. Para a saúde do bebê e da mãe. A abstinência, neste caso específico de tensão, pode ser prejudicial.
Satoru, ao lado dele, cobriu a boca com a mão, fingindo um choque pudico.
— Oh, doutor... tem certeza? — ela perguntou, com a voz inocente de uma virgem, embora por dentro estivesse gargalhando vitoriosamente. — Naruto tem sido tão cuidadoso comigo, ele não queria me machucar...
— Ele não vai machucar, pelo contrário. É necessário. — o médico enfatizou, fechando a pasta. — Pensem nisso como uma terapia vital para a gestação.
Eles saíram do consultório em silêncio. O trajeto até o carro foi preenchido apenas pelo som dos passos deles. Satoru observava Naruto de esguelha. Ele parecia estar processando uma equação complexa, dividido entre seu constrangimento, sua falta de desejo e sua obrigação absoluta de fazer o que era melhor para o filho.
Quando entraram no carro, Naruto ficou parado com as mãos no volante por um longo momento, sem ligar o motor. Ele respirou fundo, o rosto ainda corado, e olhou para Satoru. Não havia luxúria nos olhos dele, apenas uma determinação resignada, a mesma de um soldado recebendo uma missão difícil.
— O médico disse que é para o bem do bebê. — ele murmurou, a voz rouca. — Se é o que precisa ser feito... nós vamos fazer.
Satoru sentiu um arrepio elétrico percorrer sua espinha. Não era exatamente a paixão avassaladora que ela sonhava, mas servia. Ah, como servia.
Ela estendeu a mão e tocou a coxa dele, subindo os dedos lentamente, vendo os músculos dele tencionarem sob o toque.
— Tudo pelo nosso bebê, Naruto. — ela sussurrou, o sorriso vitorioso escondido no canto dos lábios. — Vamos para casa. Temos que começar o... tratamento.
Satoru recostou-se no banco, observando o perfil do homem que ela aprisionou. Hoje à noite, a barreira cairia. Hoje à noite, ela começaria a converter a mentira em verdade. E Naruto... ele nem imaginava que, ao tentar salvar seu filho imaginário, estaria selando seu destino para sempre.
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O trajeto de volta para o apartamento foi envolto em um silêncio espesso, quase sólido, que parecia pressionar os vidros do carro. Naruto dirigia com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante, o olhar fixo na estrada, como se estivesse marchando para uma execução e não para sua própria casa.
Assim que a porta se fechou atrás deles, isolando-os do mundo exterior, a tensão tornou-se insuportável. Satoru, mantendo seu papel de futura mãe preocupada e constrangida, tocou levemente o braço dele, sentindo o músculo enrijecer sob seus dedos.
— Naruto... — ela começou, a voz suave, tingida de uma hesitação ensaiada. — Olha, a gente não precisa fazer isso hoje. Eu vejo que você não está... confortável. Eu não quero te forçar a nada só porque o médico disse. Podemos esperar.
Naruto engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo lentamente. Ele fechou os olhos por um momento, respirando fundo, buscando aquela reserva inesgotável de sacrifício que ele possuía.
— Não. — ele disse, a voz rouca, mas decidida. — O médico foi claro, Satoru. É a saúde do nosso filho que está em jogo. Se... se isso vai ajudar a relaxar você, a preparar o seu corpo, então é o que vamos fazer. A saúde de vocês vem em primeiro lugar. Sempre.
Ele não esperou resposta. Com um aceno breve e sem olhá-la nos olhos, ele murmurou dizendo que precisava terminar um relatório e se refugiou no escritório, fechando a porta com um clique suave que soou como uma barreira final caindo.
Satoru encarou a madeira escura da porta por um longo momento. Um sorriso lento, quase imperceptível, curvou seus lábios. Ele é tão nobre, pensou ela, sentindo um arrepio prazeroso. Tão fácil de quebrar.
Ela se virou e caminhou para o quarto que agora compartilhavam, o palco onde a mágica — ou a maldição — aconteceria.
Satoru não se apressou. Aquele era um ritual, uma consagração. Ela entrou no banho, deixando a água quente correr por seu corpo, lavando qualquer vestígio do dia. Ela usou óleos essenciais, hidratantes caros e perfumes com notas adocicadas, preparando sua pele para ser tocada, cheirada e devorada. Ela queria ser macia, irresistível, uma armadilha de seda.
Diante do espelho, ela escolheu a peça final de sua armadura: uma lingerie de renda vermelha, vibrante como sangue fresco, que contrastava violentamente com a palidez de porcelana de sua pele. O tecido abraçava suas curvas com perfeição, desenhado para despertar os instintos mais primitivos de qualquer homem.
Ela se deitou na cama, com lençóis frescos sob as costas, e esperou.
Os minutos se arrastaram. Dez, vinte, trinta... A paciência de Satoru, geralmente infinita quando se tratava de seus planos, começou a desgastar nas bordas.
Ele está enrolando, ela percebeu, irritada. Está tentando criar coragem.
Justo quando ela considerava ir buscá-lo, ouviu-se uma batida hesitante na porta.
Satoru compôs a expressão instantaneamente, suavizando os traços, assumindo uma postura de espera passiva.
— Pode entrar. — ela chamou, a voz, um sussurro tímido.
A porta se abriu devagar. Naruto entrou, mas parecia que estava pisando em vidro quebrado. Ele parou no meio do quarto, as mãos nos bolsos, o olhar varrendo o chão, as paredes, o teto — qualquer lugar que não fosse a cama.
— Você... hã... — Ele limpou a garganta, desconfortável. — Você está linda, Satoru.
A mentira era óbvia, não porque ela não estivesse bonita, mas porque ele sequer tinha olhado para ela. Ele falava com a memória de Suguru, não com a mulher à sua frente.
Mas Satoru não se importou. A indiferença dele não era um obstáculo; era apenas o estado atual das coisas, algo que ela estava prestes a mudar.
Ela se levantou da cama. O movimento fez o colchão ranger suavemente, atraindo, finalmente, o olhar relutante dele. Quando os olhos azuis de Naruto pousaram nela, no vermelho escarlate da lingerie, houve uma pausa. Satoru viu a pupila dele dilatar — uma reação biológica, involuntária. Aí está, ela pensou vitoriosamente. Você é um homem, afinal.
Com passos lentos e medidos, encenando uma timidez que não sentia, ela caminhou até ele. Naruto permaneceu imóvel, rígido como uma estátua de pedra, com os punhos cerrados ao lado do corpo, lutando contra si mesmo.
Satoru parou a centímetros dele. Ela podia sentir o calor que irradiava do corpo dele, o cheiro de sabonete e tensão.
— Obrigada, Naruto. — ela sussurrou, erguendo as mãos para tocar o peito dele.
Ela sentiu o coração dele batendo forte e descompassado sob a palma da mão. Com dedos ágeis e possessivos, ela começou a desabotoar a camisa dele, revelando a pele bronzeada que ela tanto cobiçava. Ele não ajudou, mas também não a impediu. Ele apenas ficou ali, suportando, cumprindo sua "missão médica".
Satoru inclinou-se e pressionou os lábios no maxilar tenso dele, beijando a pele áspera da barba por fazer. Ele estremeceu — não de prazer, mas de conflito. Ele fechou os olhos com força, talvez imaginando que fosse Suguru ali, ou talvez apenas rezando para que acabasse logo.
Satoru sorriu contra a pele dele, inebriada pelo poder que tinha naquele momento.
Pode fechar os olhos, meu amor, ela pensou, descendo os beijos para o pescoço dele, suas mãos deslizando para o cinto da calça dele com propriedade. Pode fingir que não me quer. Pode tentar resistir com essa sua moralidade irritante.
Ela sabia que a biologia era uma traidora. Ela sabia que tinha a beleza, a técnica e a paciência de uma aranha tecendo sua teia.
O seu corpo vai aprender, prometeu ela mentalmente, sentindo a respiração dele falhar quando ela o tocou mais intimamente. Eu vou fazer você viciado no meu cheiro, no meu toque, no meu gosto. Eu vou me gravar em cada nervo do seu corpo até que não exista espaço para a memória dela. Até que só exista eu.
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Com um empurrão suave, mas firme, Satoru guiou Naruto até a borda da cama. Ele cedeu, sentando-se e depois recostando-se no colchão como um homem que aceita sua sentença final.
Satoru subiu sobre ele, os joelhos afundando no colchão macio, posicionando-se estrategicamente sobre os quadris dele. Sob suas coxas, ela sentia a tensão irradiando do corpo de Naruto. Ele era uma muralha de músculos rígidos, os punhos cerrados ao lado da cabeça, os olhos fechados com força, como se bloquear a visão pudesse transportá-lo para longe dali, para longe do "erro" que ele acreditava estar cometendo novamente.
Satoru parou por um momento, observando-o de cima. A imagem dele, rendido e vulnerável sob o comando dela, era inebriante.
— Naruto...? — ela chamou, a voz trêmula, interpretando com maestria a jovem insegura que só queria o bem do filho. — Você... você está bem? Se for difícil demais, nós podemos parar... O médico disse que...
Naruto abriu os olhos por um instante. Havia dor lá, uma culpa excruciante por estar prestes a trair a memória de Suguru mais uma vez, mas não havia ódio por Satoru. Ele via nela apenas outra vítima da irresponsabilidade dele.
— Não. — ele sussurrou, a voz rouca. Ele engoliu em seco, desviando o olhar para o lado, incapaz de encarar a beleza dela na lingerie vermelha. — Eu estou bem. Faça o que precisa ser feito, Satoru. Pelo bebê.
Satoru assentiu, baixando o olhar como se estivesse envergonhada.
— Tudo bem... — ela murmurou. — Eu vou... eu vou tentar fazer dar certo.
Mas, por dentro, o "tímido" desapareceu. Uma chama fria de possessividade acendeu em seu peito. Isso mesmo, meu amor. Feche os olhos. Pense nela se quiser, pensou Satoru com uma raiva gélida e pragmática. Sua mente pode estar vagando por aí, chorando por Suguru, mas o seu corpo... ah, o seu corpo sabe exatamente a quem pertence agora.
Ela se abaixou, roçando o peito dele com os seios, e beijou o pescoço de Naruto. Sentiu o estremecimento imediato dele. A biologia masculina era uma aliada fiel. Por mais que a mente dele resistisse, o sangue corria para onde Satoru ordenava.
Com movimentos lentos, quase torturantes, ela guiou a união deles.
Quando Satoru finalmente desceu sobre ele, tomando-o para si, um suspiro sibilante escapou dos lábios de Naruto. Ele trincou os dentes, a cabeça jogada para trás, lutando contra a onda de prazer físico que traía sua lealdade emocional.
Satoru sorriu contra a pele do ombro dele, invisível para ele. Era delicioso.
Ela começou a se mover, ditando o ritmo. Ela estava no controle absoluto. Aquele homem grande, forte, capaz de quebrar qualquer um com as mãos nuas, estava ali, tremendo sob o domínio dela. Era uma sensação de poder tão viciante quanto o próprio ato sexual. Satoru não hesitou em buscar o próprio prazer, usando o corpo dele como o instrumento perfeito que era. Ela arranhou levemente os ombros dele, gemendo baixo — parte atuação para parecer entregue ao momento, parte verdade absoluta, pois a sensação de tê-lo dentro dela, preenchendo o vazio que ela sentiu por anos, era extasiante.
Ela sentia o membro dele pulsando, grande e tenso, reagindo a cada contração dela. O corpo dele não mentia. Os quadris dele subiam instintivamente ao encontro dos dela, traindo a vontade da mente. Os gemidos roucos que ele tentava sufocar na garganta eram música para os ouvidos de Satoru.
Você gosta disso, não gosta? ela pensou, cravando as unhas nos bíceps dele enquanto aumentava o ritmo. Você pode odiar o que isso significa, pode se culpar até a morte, mas o seu corpo me quer. E isso é tudo que eu preciso hoje.
Ela não precisava da alma dele agora. Ela precisava da semente.
A cada investida, Satoru visualizava seu objetivo com clareza cristalina. Ela precisava transformar a mentira em carne e osso. Ela precisava que aquela vida imaginária se tornasse real. Enquanto ela tivesse o corpo dele, enquanto ela pudesse extrair dele a essência da vida, Naruto estaria acorrentado.
Não importava se ele pensava em Suguru agora. No futuro, quando a barriga de Satoru crescesse com um filho verdadeiro, quando ele segurasse a criança que ela lhe daria, Suguru se tornaria apenas um fantasma distante.
Naruto arqueou as costas, um gemido gutural escapando de seus lábios enquanto ele atingia o limite, incapaz de segurar mais. Satoru o segurou com força, prendendo-o a ela, garantindo que não desperdiçaria nem uma gota daquela oportunidade, recebendo tudo o que ele tinha a oferecer com uma ganância sagrada.
Quando terminaram, Naruto desabou na cama, a respiração pesada, o braço cobrindo os olhos imediatamente, afundando novamente na culpa.
Satoru, porém, deitou-se sobre o peito dele, aninhando-se como a "amiga frágil" que precisava de conforto.
— Desculpe... — ela sussurrou, a voz doce e mansa, acariciando o peitoral suado dele. — Espero não ter te deixado desconfortável...
Naruto, ainda ofegante, passou o braço ao redor dela de forma mecânica, protetora, consumido pelo remorso, mas fiel à sua responsabilidade.
— Está tudo bem, Satoru. — ele murmurou, a voz falhando. — Você não tem culpa.
Satoru fechou os olhos, sentindo o coração dele desacelerar sob seu ouvido. Um sorriso secreto e triunfante curvou seus lábios na escuridão.
Ele não fazia ideia. Ele achava que estava pagando por um erro, mas na verdade, estava apenas assinando, noite após noite, a escritura definitiva de sua queda. Ele nunca se livraria dela. Nunca.
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Os dias que se seguiram foram uma maratona calculada de luxúria disfarçada de medicina. Satoru não deixava brechas para o acaso. Ela era meticulosa, imprimindo e destacando trechos de artigos científicos — alguns reais, outros habilmente editados ou completamente forjados — que "comprovavam" a necessidade absoluta de atividade sexual frequente para a manutenção de uma gravidez de risco.
— Olha aqui, Naruto. — ela dizia, com uma expressão séria e preocupada, deslizando um papel sobre a mesa do café da manhã. — Esse estudo de Harvard diz que a liberação de endorfinas através do orgasmo aumenta a oxigenação do feto em 20%.
Naruto lia os papéis, franzindo a testa, absorvendo aquelas informações falsas com a seriedade de quem estuda um mapa de guerra. Ele suspirava, passava a mão pelos cabelos loiros e assentia, resignado.
— Se é o que o estudo diz... nós não podemos arriscar. — ele concordava, a culpa ainda presente, mas cada vez mais diluída pela necessidade fisiológica.
E assim, Satoru o levava para a cama. Manhã, tarde e noite. Sempre com a desculpa do "tratamento", sempre com a máscara de quem estava apenas seguindo ordens médicas.
Mas Satoru notou a mudança. Foi sutil no início, mas inegável com o passar da semana.
Naquelas primeiras vezes, o toque de Naruto era hesitante, carregado de um pedido de desculpas silencioso a cada carícia. Mas nenhum homem é de ferro, e Naruto, com toda sua vitalidade e energia reprimida, logo cedeu aos instintos que Satoru manipulava tão bem.
A culpa, antes um muro intransponível, começou a rachar sob o peso do prazer. A hesitação deu lugar a uma ferocidade que fez o sangue de Satoru cantar. Ele parou de pedir licença com os olhos. Ele parou de tratar o corpo dela como vidro.
Ele passou a devastá-la.
Havia momentos em que Satoru via a dor cruzar os olhos azuis dele — um flash de memória de Suguru, uma pontada de remorso — mas Naruto parecia usar o sexo não mais como dever, e sim como uma válvula de escape. Ele descontava nela suas frustrações, sua confusão, sua raiva de si mesmo. Ele a tomava com uma força possessiva, perdendo-se na sensação da pele dela, no calor que ela oferecia, afogando seus demônios no suor e nos gemidos compartilhados.
E Satoru... Satoru aceitava tudo de bom grado. Ela era o receptáculo perfeito para a paixão dele, absorvendo cada gota de atenção, transformando a dor dele em seu próprio prazer.
O apartamento, antes um santuário para a memória da ex-namorada, foi sistematicamente profanado. Não havia mais um canto "sagrado".
O sofá da sala, onde ele e Suguru costumavam assistir filmes, agora carregava as memórias de Satoru montada nele, as unhas cravadas no estofado. A mesa de jantar de madeira maciça serviu de apoio para noites impacientes onde o jantar foi esquecido. A varanda, sob a luz das estrelas e o risco de serem vistos, testemunhou sussurros roucos e corpos entrelaçados. Até o banheiro, com o vapor quente do chuveiro, tornou-se palco de suas "sessões terapêuticas".
Tudo estava contaminado. O cheiro deles — almíscar, perfume doce e sexo — impregnava as cortinas, os lençóis, o ar. Satoru havia marcado seu território da maneira mais primitiva possível.
Enquanto estava deitada no peito dele após mais uma dessas sessões, ouvindo a respiração pesada de Naruto se acalmar, Satoru sorriu contra a pele suada dele.
Naruto era um amante incrível, incansável, e a cada vez que ele se derramava dentro dela, a certeza de Satoru se fortalecia. Não havia dúvidas. A biologia faria o seu trabalho. Logo, muito logo, a mentira se tornaria carne. Um bebê de verdade, feito da união daquele desejo bruto, estaria crescendo em seu ventre, selando o destino deles irrevogavelmente.
Ela ergueu o olhar para observar o rosto dele. Naruto estava com os olhos fechados, a expressão exausta, talvez fugindo para um lugar em sua mente onde ele não fosse um traidor.
Você ainda não me ama, Satoru pensou, traçando a linha do maxilar dele com a ponta do dedo, sem perturbá-lo. Você pode até estar pensando nela agora. Pode estar usando meu corpo apenas para aliviar sua consciência ou seus instintos.
Mas ela não se importava. Não por enquanto.
O desejo era a porta de entrada. A luxúria era o primeiro elo da corrente.
Pode ficar com a sua culpa e o seu "amor" por Suguru por mais um tempo, ela decidiu, aconchegando-se mais a ele. Porque o seu corpo já é meu. E com o tempo... com a persistência certa... eu vou me enraizar na sua mente e no seu coração como uma hera.
Ela sabia que era uma questão de paciência. Ela se tornaria tão essencial, tão onipresente na vida e na cama dele, que ele não saberia mais como respirar sem ela. Naruto nunca conseguiria se livrar dela. Ela garantiria isso.
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Satoru encarava o pequeno bastão de plástico em suas mãos, seus dedos tremendo não de medo, mas de pura e absoluta euforia.
Ali estava. Duas linhas rosadas, vibrantes e inegáveis.
Depois de semanas de encenação, de cálculos de ovulação, de manipulação médica e de noites incontáveis de "tratamento" carnal, o destino finalmente se curvou à vontade dela. A mentira, regada com persistência e desejo, havia germinado. Um bebê real, feito do sangue dela e da semente de Naruto, começava a se formar em seu ventre.
Um sorriso largo e genuíno rasgou o rosto de Satoru. Ela tocou a barriga ainda plana com uma reverência religiosa.
— Você está aí... — ela sussurrou para o nada, os olhos brilhando com lágrimas. — Você é a minha corrente inquebrável.
Agora, não havia mais volta. Não havia mais risco. Naruto jamais a deixaria. A honra dele o prendia à mentira, mas o sangue o prenderia à realidade.
Sua mente afiada, no entanto, já trabalhava nos detalhes logísticos. Pelos cálculos, a gravidez "oficial" (a falsa) estava dois meses à frente da real. Quando o bebê nascesse, a discrepância de tamanho e tempo seria óbvia para qualquer médico honesto. Mas Satoru não se preocupou. Ela tinha dinheiro, tinha influência e, acima de tudo, tinha a confiança cega de Naruto.
Ele vai acreditar que o bebê apenas "atrasou", pensou ela, descartando o problema com um dar de ombros mental. Vou dizer que é um daqueles casos raros de gestação prolongada, ou simplesmente falsificarei as datas nos ultrassons futuros. O que importa é que você existe.
O barulho da chave na porta da frente cortou seus pensamentos. Naruto havia chegado.
Satoru não precisou atuar dessa vez. A alegria que borbulhava nela era real, avassaladora, uma energia cinética que precisava ser liberada. Ela saiu do banheiro e correu para a sala assim que ele fechou a porta.
Naruto mal teve tempo de soltar a maleta de trabalho. Ele ergueu os olhos, exausto do dia, apenas para ser atingido por um furacão de cabelos brancos e perfume doce.
Satoru se lançou sobre ele, não com a delicadeza da "grávida frágil" das semanas anteriores, mas com a fome de uma mulher vitoriosa. Ela selou os lábios nos dele com uma paixão feroz, mordendo, invadindo, reivindicando.
— Satoru...? — ele tentou murmurar contra a boca dela, surpreso pela recepção.
Mas ela não queria conversar. Suas mãos, ágeis e impacientes, agarraram o colarinho da camisa social dele. Com um puxão violento, o tecido cedeu. Botões voaram pela sala, tilintando no piso de madeira como moedas caindo, mas Satoru não parou. Ela queria sentir a pele dele contra a sua, queria celebrar sua vitória no único altar que importava: o corpo dele.
E Naruto... Naruto não hesitou.
Semanas atrás, ele teria recuado, chocado. Mas agora? Agora o corpo dele conhecia o dela tão bem quanto conhecia a si mesmo. A hesitação havia morrido, substituída por um instinto primitivo que Satoru havia cultivado cuidadosamente.
Diante daquela oferta de paixão desenfreada, os braços dele reagiram automaticamente. Ele a agarrou pela cintura, firmando a pegada, e a ergueu do chão sem esforço. Satoru entrelaçou as pernas ao redor do tronco dele, rindo contra a boca dele, um som rouco e feliz.
— Me leva... — ela ordenou, ofegante. — Agora.
Naruto não precisou ouvir duas vezes. Com passos largos e pesados, ele a carregou pelo corredor, chutando a porta do quarto deles.
Sim, deles. Aquele espaço não tinha mais fantasmas.
Ele a jogou na cama e, em segundos, o resto das roupas se tornou um obstáculo irrelevante, descartado no chão.
Naquela noite, não houve "terapia". Não houve desculpas médicas. Houve apenas uma celebração carnal, crua e intensa. Satoru era insaciável. Cada vez que Naruto parecia atingir o limite, ela o puxava de volta, sussurrando promessas e desejos no ouvido dele, exigindo mais, e ele, totalmente entregue àquele ciclo vicioso de prazer, obedecia.
Eles fizeram amor com a urgência de quem precisa confirmar a própria existência. E enquanto Satoru gritava o nome dele na escuridão do quarto, agarrada aos ombros largos daquele homem que agora era irrevogavelmente seu, ela sabia que tinha vencido a guerra.
Naruto estava ali, dentro dela, em seus braços, em sua cama. E o filho dele, o selo final daquela união, crescia seguro e real em seu ventre. Nada, absolutamente nada, poderia tirá-lo dela agora.
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O telefone tocou, vibrando sobre a mesa de cabeceira como um aviso de tempestade. Quando Satoru atendeu, a voz de Suguru do outro lado da linha era fria, cortante, desprovida de qualquer afeto que um dia existiu entre elas.
— Eu sei de tudo, Satoru. Eu sei que é mentira. Se você não quiser que eu exponha a sua farsa para o Naruto e para o mundo inteiro agora mesmo, me encontre no café do centro em trinta minutos.
Satoru desligou o aparelho devagar. Qualquer outra pessoa teria entrado em pânico. O suor frio, as mãos trêmulas, o medo de perder tudo. Mas Gojo Satoru apenas sorriu. Um sorriso lento, presunçoso e terrivelmente calmo.
— Ah, minha querida Suguru... — ela murmurou para o silêncio do quarto, acariciando o ventre onde uma vida real agora pulsava. — Seu timing é péssimo. Se você tivesse ligado um mês atrás, talvez eu tivesse me preocupado. Mas agora? Agora você não tem nada.
Ela se arrumou com calma, escolhendo um vestido que realçava sua feminilidade e, propositalmente, deixava uma mão pousada sobre a barriga de forma protetora. Ela não estava indo para uma execução; estava indo para uma volta olímpica.
Ao entrar no café, o cheiro de grãos torrados e o murmúrio das conversas pareciam distantes. O foco de Satoru estava inteiramente na mulher sentada em uma mesa de canto, com a postura rígida e os punhos cerrados sobre a toalha de mesa.
Suguru parecia exausta. A mágoa e a raiva haviam desenhado sombras sob seus olhos. Quando viu Satoru se aproximar, com aquele brilho vitorioso e a pele corada de quem é amada e satisfeita, Suguru sentiu um gosto amargo na boca. Ela queria gritar. Queria arrancar aquele sorriso presunçoso do rosto daquela traidora.
Satoru puxou a cadeira e sentou-se com a elegância de uma rainha, concedendo audiência a uma súdita rebelde.
— Você parece tensa, SuSu. — Satoru comentou, pedindo uma água ao garçom com um aceno de mão.
Suguru ignorou a falsa cortesia. Ela se inclinou para frente, os olhos queimando.
— Por quê? — A pergunta saiu num sussurro rouco, carregado de dor. — Por que você fez isso, Satoru? Nós éramos irmãs. Por que você sabotou a minha vida? Por que destruiu tudo o que eu tinha com ele?
Satoru soltou uma risada baixa, um som que, para quem ouvia de longe, parecia adorável, mas que de perto gotejava veneno puro.
— Por que? É simples, Suguru. — Satoru apoiou o queixo na mão, encarando-a com uma sinceridade brutal. — Porque eu mereço ele. Mais do que você jamais mereceu.
Suguru recuou como se tivesse levado um tapa.
— Você... o quê?
— Você brincava de casinha com ele, mas eu? Eu o amo, Suguru. — Satoru continuou, a voz doce e letal. — Eu vi o potencial dele, a perfeição dele. Eu estava disposta a fazer qualquer coisa, cruzar qualquer linha, queimar qualquer ponte para tê-lo ao meu lado. Você tinha limites. Eu não tenho. E é por isso que ele está comigo.
Suguru tremia de ódio.
— Qualquer coisa? — ela repetiu, estreitando os olhos. — Isso inclui fingir uma gravidez para prender um homem honesto em um relacionamento baseado em mentiras?
O ar na mesa ficou estático. Satoru percebeu imediatamente. O tom de voz de Suguru, a forma como ela repetiu a acusação específica, a bolsa posicionada estrategicamente sobre a mesa...
Ela está gravando, Satoru deduziu, divertindo-se internamente. Esperta. Ela quer uma confissão. Quer que eu diga com todas as letras: "Sim, eu inventei tudo".
Satoru recostou-se na cadeira, recusando-se a morder a isca.
— Fingir? — Satoru fez uma expressão de ofensa calculada. — Eu não sei do que você está falando, SuSu. Eu nunca menti sobre estar carregando um filho de Naruto.
— Pare com isso! — Suguru explodiu, atraindo olhares de outras mesas, mas ela não se importou. — Eu sei a verdade! Eu investiguei, Satoru! Eu sei que aqueles exames eram falsos! Você não precisa mais atuar comigo. Admita! Admita que não tem bebê nenhum e que você é uma psicopata manipuladora!
Satoru manteve a calma, o sorriso de escárnio voltando aos seus lábios.
— Você está histérica, SuSu. É triste ver você assim, criando teorias da conspiração porque não aceita que perdeu. — Satoru suspirou, abrindo sua bolsa de grife devagar. — Eu não estou mentindo. E, ao contrário de você, eu não preciso gritar. Eu tenho provas.
Com um movimento gracioso, Satoru retirou um envelope branco e o deslizou pela mesa até Suguru.
— O que é isso? Mais falsificações? — Suguru zombou, mas pegou o envelope.
— Abra. — Satoru desafiou. — É de hoje de manhã.
Suguru abriu o envelope com dedos trêmulos. Dentro, havia uma ultrassonografia. Mas não era como a primeira, que ela sabia ser falsa. Esta tinha o nome da clínica mais respeitada da cidade, a data e a hora impressas no canto superior — datadas de apenas duas horas atrás — e o carimbo de um médico que Suguru sabia ser incorruptível.
E no centro da imagem, nítido e inegável, estava o pequeno saco gestacional com um embrião visível.
— Isso... — A voz de Suguru falhou. O mundo ao seu redor começou a girar. — Isso não é possível...
— É muito possível. — Satoru disse, inclinando-se para frente, baixando a voz para um sussurro triunfante. — O coraçãozinho está batendo forte, SuSu. É um bebê saudável. O meu filho com o Naruto.
Satoru viu o momento exato em que a esperança morreu nos olhos de Suguru. A morena encarava o papel, pálida, a respiração presa na garganta. Toda a sua munição, toda a sua certeza de que desmascararia a amiga... tudo virou pó. Satoru não estava mentindo. Havia um bebê. Naruto estava preso não por uma mentira, mas por uma realidade.
Satoru observou o desespero da amiga com deleite. Internamente, ela celebrava. Não importava como começou; o que importava era o agora. E no agora, ela era a mãe do filho de Naruto.
— Acho que acabamos aqui. — Satoru disse, levantando-se e alisando o vestido. Ela olhou para Suguru, que parecia uma estátua de dor e derrota. — Não nos procure mais, Suguru. Naruto e eu precisamos de paz para criar nossa família. E sinceramente? Você não cabe nela.
Satoru virou as costas e saiu do café, o salto alto estalando no chão como o som de marteladas finais, deixando para trás uma Suguru destruída, segurando a prova de que sua derrota era absoluta e irreversível.
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Suguru permaneceu parada no café por alguns segundos, o som dos saltos de Satoru se afastando ecoando em sua mente como uma zombaria. A imagem daquele ultrassom, a prova concreta de que ela havia sido substituída, queimava em sua retina. Mas o que mais doía, o que fazia seu sangue ferver e sua visão ficar turva, era o sorriso. Aquele sorriso vitorioso, presunçoso, de quem sabia que havia roubado uma vida inteira e saído impune.
Não. Ela não podia aceitar aquilo. Aquela mulher não era sua amiga; era uma víbora peçonhenta que se alimentava da felicidade alheia.
A fúria cegou a razão. Num rompante, Suguru se levantou, derrubando a cadeira atrás de si, e correu para a saída.
Ela viu Satoru na calçada, prestes a atravessar a rua movimentada, caminhando com a leveza de quem não carrega peso na consciência.
— Satoru! — Suguru gritou, sua voz rasgando o barulho do trânsito.
Satoru parou e começou a se virar, talvez esperando mais uma súplica, mais uma cena de derrota da amiga. Mas Suguru não estava lá para conversar.
Assim que a albina virou o rosto, Suguru desferiu o golpe. Foi um tapa estalado, carregado de meses de traição e dor, que acertou Satoru com força total. O impacto foi inesperado. Satoru, desequilibrada pelo salto alto e pega de surpresa, cambaleou para trás.
Ela deu um passo em falso. O meio-fio acabou.
O som de pneus cantando no asfalto foi a única advertência antes do baque surdo e horrível de metal contra carne.
— SATORU! — O grito de Suguru morreu em sua garganta.
O corpo de Satoru foi arremessado, rolando pelo asfalto quente antes de parar, imóvel. O mundo ao redor de Suguru ficou mudo. Ela correu até a ex-amiga, caindo de joelhos ao lado dela.
Satoru estava pálida, com os olhos fechados. Um corte na testa sangrava profusamente, mas o que fez o estômago de Suguru revirar foi o sangue que começava a manchar a frente do vestido claro, bem na altura do ventre. Aquele ventre que, minutos antes, Satoru jurava abrigar uma vida.
— O que eu fiz...? — Suguru sussurrou, as mãos trêmulas pairando sobre o corpo, com medo de tocar. — Meu Deus, o que eu fiz?
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O hospital cheirava a antisséptico e medo. Suguru estava sentada na sala de espera, encolhida, com as roupas amassadas e manchas do sangue de Satoru nas mãos. Ela não conseguia chorar; estava em estado de choque catatônico.
De repente, as portas automáticas da emergência se abriram com violência.
Naruto entrou. Ele parecia um homem possuído, com os olhos azuis arregalados em pânico, o peito subindo e descendo em uma respiração descompassada. Ele varreu a sala com o olhar, mas seus olhos passaram por Suguru como se ela fosse invisível, como se ela fosse apenas mais uma cadeira vazia na sala.
— Onde ela está?! — ele rugiu para uma enfermeira na recepção. — Minha mulher! Gojo Satoru! Ela está grávida, pelo amor de Deus, onde ela está?!
Antes que a enfermeira pudesse responder, um médico de expressão grave saiu de uma das salas de atendimento, caminhando em direção a Naruto.
— Uzumaki-san?
— Sou eu! Como ela está? E o bebê? — Naruto agarrou os ombros do médico, desesperado.
O médico suspirou, baixando o olhar.
— Gojo-san está estável. Ela teve uma concussão e várias escoriações, mas vai sobreviver. — O médico fez uma pausa, e o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. — Mas, infelizmente... o impacto foi muito violento. Não conseguimos salvar a gravidez. Ela perdeu o bebê.
O mundo de Naruto parou. Ele soltou o médico, recuando um passo, como se tivesse levado um tiro no peito.
— Não... — ele sussurrou, a voz quebrada. — Meu filho...
Nesse momento, um grito agudo e dilacerante veio de dentro do quarto onde a porta havia ficado entreaberta. Era a voz de Satoru. Não a voz doce e manipuladora, mas o som cru de uma mãe que acabou de ser esvaziada.
— ELA O MATOU! — Satoru gritava, entre soluços histéricos. — FOI ELA! SUGURU ME EMPURROU! ELA MATOU O MEU FILHO! TIREM ELA DAQUI! ASSASSINA!
As palavras atingiram Naruto com a força de uma revelação física. Ele ficou imóvel por um segundo, absorvendo a acusação, absorvendo a perda daquele bebê que nunca chegaria a segurar, nunca veria crescer. Aquele bebê que era a única coisa pura que restava em meio ao caos de sua vida.
Lentamente, muito lentamente, ele se virou.
Suguru estava de pé agora, as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto, tremendo da cabeça aos pés. Ela deu um passo em direção a ele, a mão estendida em súplica.
— Naruto... eu não... foi um acidente, eu juro, eu só queria...
Naruto olhou para ela.
E Suguru sentiu o sangue gelar em suas veias. O olhar que ele lhe dirigiu não tinha nada do homem que a amou. Não havia carinho, não havia nem mesmo a culpa que ele carregava nos últimos meses.
Havia apenas ódio. Um ódio frio, profundo e absoluto.
Ele a olhava como se ela fosse um monstro.
— Você... — A voz de Naruto era baixa, cortante como vidro. — Você matou o meu filho.
— Não! Naruto, por favor, me escute! — Suguru soluçou, desesperada.
— Cale a boca. — ele sibilou, e a frieza em seu tom foi pior do que qualquer grito. — Eu não quero ouvir a sua voz. Eu não quero olhar para a sua cara.
Ele deu um passo em direção a ela, e Suguru recuou instintivamente, amedrontada pela aura assassina que emanava dele.
— Vá embora. — ele ordenou, apontando para a saída sem desviar os olhos gelados dos dela. — Saia daqui e nunca mais apareça na minha frente.
— Naruto...
— VÁ EMBORA! — ele rugiu, a dor explodindo em fúria, fazendo todos na sala de espera se encolherem. — VÁ EMBORA ANTES QUE EU FAÇA UMA LOUCURA! VOCÊ O TIROU DE MIM!
Suguru olhou para o homem que amava, viu a barreira intransponível que agora existia entre eles, construída sobre o túmulo de uma criança inocente. Ela olhou para a porta do quarto de Satoru, onde os choros continuavam, e percebeu com horror que, mesmo na tragédia, Satoru havia vencido.
Sem conseguir suportar o peso daquele ódio, Suguru virou as costas e correu para fora do hospital, deixando para trás um Naruto destruído, que caiu de joelhos no chão frio do hospital, chorando a morte do filho que Satoru usou como arma e que Suguru, em sua fúria, acabou destruindo.
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O quarto estava imerso em uma penumbra silenciosa, quebrada apenas pelo zumbido suave do ar-condicionado e pela respiração ritmada de Naruto, que cochilava sentado na poltrona ao lado da cama, a mão ainda segurando a dela.
Satoru abriu os olhos, sentindo o latejar surdo na testa enfaixada e o vazio doloroso em seu ventre. Havia luto ali, sim. Uma tristeza genuína e profunda pela perda daquele pequeno ser que ela já amava — não apenas como uma extensão de si mesma, mas como a prova viva da união dela com Naruto. Ela queria aquele filho. Ela queria ter visto os olhos azuis dele naquela criança.
Mas, enquanto observava o rosto exausto de Naruto, marcado pelas olheiras de quem não dormia há dias vigiando o sono dela, uma sensação diferente, mais potente que o luto, começou a se espalhar pelo peito de Satoru.
Triunfo.
Era um sentimento quente, embriagante, quase obsceno diante da tragédia, mas impossível de negar.
A fatalidade no asfalto havia cobrado um preço alto, é verdade. Mas o troco que ela recebeu em troca foi inestimável.
Naruto se mexeu na poltrona, acordando num sobressalto. Assim que seus olhos encontraram os de Satoru, a expressão de cansaço deu lugar a uma preocupação frenética.
— Satoru? Você está bem? — Ele se inclinou, acariciando o rosto dela com uma delicadeza trêmula, como se ela fosse feita de vidro rachado. — Precisa de alguma coisa? Água? Remédios para dor?
Satoru sorriu fraco, apertando a mão dele.
— Estou bem, querido. Só... feliz que você está aqui.
Os olhos de Naruto se encheram de lágrimas, e a culpa — aquela culpa deliciosa que o acorrentava a ela — transbordou.
— Eu sempre vou estar aqui. — ele prometeu, a voz rouca. — Eu sinto muito, Satoru. Eu sinto tanto... Eu devia ter visto. Eu devia ter percebido que Suguru estava... que ela tinha enlouquecido. Eu falhei em proteger você e o nosso filho.
— Shhh... — Satoru levou a mão ao rosto dele, limpando uma lágrima solitária. — A culpa não é sua, meu amor. Ninguém poderia imaginar que ela chegaria a esse ponto. Nós somos as vítimas aqui.
Ela viu a convicção nos olhos dele. Ele acreditava. Ele acreditava piamente que Suguru era o monstro e que ele era o guardião falho que agora precisava dedicar cada segundo de sua vida para compensar a mulher que "quase morreu" por causa de seu passado.
E não era só ele.
Nos últimos dias, o celular de Satoru não parava de receber mensagens. Amigos em comum, colegas de trabalho, conhecidos... todos estavam horrorizados. A narrativa havia mudado drasticamente. A "traição" inicial — aquela noite de bebedeira — tornou-se uma nota de rodapé irrelevante diante da magnitude do "crime" de Suguru.
Quem se importava com um par de chifres quando havia uma tentativa de homicídio e a morte de um bebê na balança?
Geto Suguru, a mulher que um dia foi o sol da vida de todos, agora era uma pária. Uma louca desequilibrada que atacou uma mulher grávida por ciúmes. Ninguém acreditaria nela agora. Mesmo que ela gritasse a verdade aos quatro ventos, quem daria ouvidos a uma "assassina de bebês"?
Satoru suspirou, sentindo-se estranhamente em paz.
Ela olhou para Naruto novamente. Ele beijou a palma da mão dela, os lábios pressionados ali em uma oração silenciosa de devoção.
Era amor? Da parte dele, talvez ainda não. Era dever, era culpa, era responsabilidade. Mas Satoru não se importava com os rótulos. O amor dela bastava pelos dois.
Era um amor denso, pesado, escuro. Um amor que devorava e consumia. Ela o amava com uma intensidade que beirava a insanidade. Ela mataria por ele — tinha matado a reputação e a vida da melhor amiga por ele. Ela morreria por ele. E, acima de tudo, ela viveria por ele, controlando cada aspecto de sua existência para garantir que ele nunca mais olhasse para outra direção.
— Nós vamos superar isso, Naruto. — ela sussurrou, puxando-o levemente para que ele deitasse a cabeça no peito dela. — Nós vamos ter outros filhos. Nossa casa vai ser cheia de crianças com os seus olhos. Eu prometo.
Naruto soluçou baixinho, escondendo o rosto na curva do pescoço dela, abraçando-a com força.
— Eu não mereço você, Satoru...
— Merece sim. — ela respondeu, os dedos brincando nos cabelos loiros dele, os olhos fixos no teto, brilhando com uma malícia possessiva. — Você é meu.
Ela pensou nos contos de fadas que lia quando criança. Sempre diziam que os vilões terminavam sozinhos, derrotados, jogados nas sombras enquanto os heróis cavalgavam para o pôr do sol.
Que tolice, Satoru pensou, sentindo o calor do corpo de Naruto sobre o seu, ouvindo as batidas do coração dele que agora batiam no ritmo que ela ditava.
Eles não conheciam Gojo Satoru.
Ela havia reescrito a própria história. Havia transformado a mentira em verdade, a traição em lealdade, e a tragédia em laço eterno. Suguru estava destruída, longe, esquecida. E Naruto... Naruto estava exatamente onde sempre deveria estar: em seus braços, preso pela culpa, guardado pelo ciúme, e amado pela obsessão.
Satoru fechou os olhos, permitindo-se finalmente descansar. O bebê se foi, mas o objetivo foi alcançado. E ela tinha uma vida inteira pela frente para preencher aquele berço vazio e garantir que o final feliz fosse, irrevogavelmente, dela.
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EPÍLOGO
Cinco anos depois.
O salão de baile do hotel mais luxuoso de Tóquio brilhava sob a luz de lustres de cristal, mas para Satoru, a única luz que importava emanava do homem ao seu lado.
Naruto ria.
Não era um riso contido ou quebrado. Era o riso alto, vibrante e contagiante que ela conheceu anos atrás. Ele segurava uma taça de champanhe em uma mão, enquanto a outra repousava com possessividade e carinho na cintura de Satoru.
— Amor, você está vendo? O Boruto está tentando roubar doces da mesa do buffet de novo. — Naruto sussurrou no ouvido dela, o hálito quente causando arrepios na pele de Satoru.
Satoru olhou na direção apontada. O filho mais velho deles, de quatro anos, um menino de cabelos brancos e olhos azuis travessos, tentava alcançar um macaron. Logo atrás, a pequena Himawari, de dois anos, loira como o pai, vigiava a "operação".
— Ele puxou a sua teimosia. — Satoru respondeu, sorrindo e encostando a cabeça no ombro largo do marido.
Naruto a olhou. E naquele olhar não havia sombra, não havia dúvida, não havia resquício de culpa pelo passado. Havia apenas adoração. Ao longo dos anos, Satoru não precisou quebrá-lo. Ela foi paciente. Ela foi a companheira perfeita, a mãe dedicada, a amante insaciável. Ela curou as feridas que ela mesma causou (sem que ele soubesse) e preencheu cada espaço vazio da alma dele.
Hoje, Naruto a amava. Loucamente. Profundamente.
Ele mataria e morreria por ela e pelas crianças. Satoru não tinha apenas o corpo dele; ela tinha a alma. E essa era a sua maior vitória.
— Eu sou o homem mais sortudo do mundo. — Naruto disse, beijando a têmpora dela, alheio à escuridão que residia no coração da esposa. — Obrigado por me dar essa família, Satoru.
Satoru sentiu o peito inflar de orgulho. Eu venci, ela pensou, bebericando seu vinho. A vida é perfeita.
Mas a perfeição é um vidro frágil.
O burburinho no salão diminuiu subitamente.
Cabeças começaram a se virar em direção à escadaria principal. A mudança na atmosfera foi palpável, como se a temperatura tivesse caído dez graus em segundos.
Satoru seguiu os olhares, curiosa, até que seus olhos pousaram na figura que descia os degraus.
O tempo havia sido generoso com ela, mas também cruel. Geto Suguru não era mais a jovem de sorriso fácil e roupas despojadas. A mulher que descia as escadas era uma visão de elegância letal. Ela vestia um longo vestido preto de seda que parecia absorver a luz ao redor. Seus cabelos negros estavam presos em um coque severo e sofisticado. Mas eram os olhos que mais haviam mudado. Eram frios, calculistas, endurecidos por anos de autoexílio e planejamento.
Naruto sentiu a mudança no corpo de Satoru e seguiu o olhar dela.
O corpo dele travou. O sorriso desapareceu, substituído por uma máscara de choque e, instantaneamente, de proteção. Ele deu um passo à frente, colocando-se sutilmente entre Satoru e a recém-chegada, um escudo humano instintivo.
Suguru terminou de descer as escadas e caminhou diretamente até eles. A multidão se partia para ela passar, sentindo a autoridade que ela emanava.
Ela parou diante do casal. O olhar dela varreu Naruto de cima a baixo — não com raiva, mas com uma fome contida e uma paixão silenciosa. Ela viu o homem que amava, viu que ele estava bem, forte e feliz. E isso só confirmou sua teoria: ele era a vítima perfeita. O prêmio que lhe foi roubado.
Então, os olhos escuros de Suguru se fixaram em Satoru.
— Olá, Satoru. — a voz de Suguru era suave, aveludada, mas Satoru, que conhecia monstros porque via um no espelho todos os dias, reconheceu o tom. Era o som de uma lâmina sendo afiada. — Olá, Naruto.
— Suguru... — Naruto murmurou, a voz tensa. Ele apertou a cintura de Satoru com força. — O que você faz aqui?
Suguru sorriu. Não o sorriso radiante de antigamente, mas um curvar de lábios misterioso.
— Eu voltei, Naruto. O exterior foi... educativo. Mas senti que estava na hora de recuperar o que deixei para trás.
Satoru endireitou a postura, o instinto de "animal acuado" dando lugar à "rainha territorial". Ela não tinha medo de Suguru. Ela tinha Naruto. Ela tinha seus filhos.
— Estamos surpresos. — Satoru disse, a voz pingando falsa cortesia. — Achavamos que você tinha... seguido em frente. Nós estamos muito felizes, Suguru. Temos uma linda família agora.
Satoru fez questão de gesticular para as crianças que corriam perto dali.
Suguru olhou para Boruto e Himawari. Por um segundo, a dor cruzou seu rosto — afinal, aqueles filhos deveriam ser dela. Mas a expressão logo endureceu novamente.
— Famílias são preciosas. — Suguru concordou, voltando o olhar para Naruto com uma intensidade que fez Satoru querer arrancar os olhos dela. — E devem ser protegidas... principalmente de mentiras.
Naruto franziu a testa, confuso. Para ele, Suguru era a mulher que ele amou, mas que surtou no passado. Ele agora só sentia pena, talvez, mas sua lealdade e amor era de Satoru.
— Não sei a que jogo você está jogando, Suguru. — Naruto disse, a voz firme, de um homem protegendo seu lar. — Mas se você veio causar problemas para a minha família, eu peço que vá embora.
Satoru sorriu internamente. Isso mesmo, meu amor. Defenda-me.
Mas Suguru não recuou. Ela não se abalou com a rejeição de Naruto. Ela sabia que ele estava reagindo com base na realidade fabricada por Satoru.
— Não vim causar problemas, Naruto. — Suguru disse, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal deles, exalando um perfume caro e perigoso. — Vim apenas observar. E... esperar. Castelos construídos na areia tendem a cair quando a maré sobe. E a maré acabou de subir.
Ela olhou para Satoru uma última vez, um olhar que dizia: "Eu sei o que você fez. Eu sei quem você é. E eu vou destruir você, pedaço por pedaço, até que ele veja a verdade."
— Foi um prazer rever vocês. — Suguru disse.
Ela se virou e se afastou, misturando-se à multidão, mas sua presença permaneceu como uma mancha escura no salão dourado.
Naruto soltou o ar que prendia, virando-se imediatamente para Satoru, segurando o rosto dela com as duas mãos.
— Você está bem? Ela te assustou? — ele perguntou, os olhos cheios de preocupação genuína.
Satoru olhou para o marido. Aquele homem honesto, gentil, o sol de sua vida. Satoru tocou a mão dele, sentindo o calor reconfortante.
— Estou bem, querido. — ela mentiu, mas pela primeira vez em anos, sentiu um frio real na espinha. — Ela não significa nada.
Naruto a abraçou forte, prometendo protegê-la de qualquer mal.
Satoru retribuiu o abraço, olhando por cima do ombro dele para o ponto onde Suguru havia desaparecido. O jardim do Éden tinha uma nova serpente. Satoru apertou os olhos, a possessividade e a loucura borbulhando sob a superfície de sua beleza perfeita.
Você quer guerra, Suguru? Satoru pensou, enquanto beijava o pescoço do homem que ela roubou e conquistou. Então venha. Mas lembre-se: eu não tenho limites. E agora... eu tenho muito mais a perder.
Naruto, o homem bom e inocente no centro do furacão, beijou a testa da esposa e sorriu para os filhos, sem fazer a menor ideia de que a batalha por sua alma tinha acabado de começar o segundo round.
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